BICHOS DO MATO
Muitas vezes me perguntam o que é para mim um bom livro e eu fico sempre atrapalhado para dar uma resposta.
É que, em boa verdade, não creio que haja bons ou maus livros: há é livros de que gostamos e livros de que não gostamos.
Mesmo quando nos referimos a escritores de méritos indiscutíveis e créditos indisputados (os ditos consagrados), acontece-me gostar muito de certas obras e de outras muito pouco, às vezes mesmo nada. Gostos que, claro, frequentemente não coincidem com o de outros e melhores leitores que eu.
Alguns exemplos ilustrarão melhor o que quero significar.
Nunca acabei de ler a “Montanha Mágica”, não me deixei seduzir pelas “Vinhas da Ira”, só com esforço concluí “A Maçã no Escuro”, não consegui, sequer, chegar ao fim da “Jangada de Pedra”.
E, no entanto, trata-se de obras universalmente consagradas e que, a justíssimo título, fazem e farão parte de muitas antologias.
Em contrapartida, há livros que revisito tanto foi o prazer que me deram, como, por exemplo, “A Aparição”, “Viver todos os Dias Cansa” ou “Se uma manhã de Verão uma criança...”.
Não sei, por isso, dizer o que é um bom livro.
Mas sei dizer-vos o que, para mim, são requisitos indispensáveis para uma boa leitura e condição para que eu goste de um livro.
Antes do mais, tem que ser bem escrito.
E bem escrito não apenas por se revelar escorreito na linguagem, seja funcionando segundo os seus cânones tradicionais, sejam reinventando-os na transgressão, como tão deliciosamente o faz, entre outros, Mia Couto.
Mas bem escrito ainda no sentido da sua fluidez, do manancial das palavras que nos conduzem sem esforço para onde o autor nos quiser levar.
Bem escrito, em suma, porque nos amarra, nos interpela, nos não deixa subtrairmo-nos nem às singelezas nem às dificuldades do texto: cativa-nos.
Depois, tem que nos falar da vida, tem que contar uma história. E tem que nos contar uma história convocando-nos à emoção.
Retirando os livros de tese, técnicos, temáticos ou de matérias específicas, evidentemente (e, idealmente, até nesses!), um bom livro deve ser uma aventura em que embarcamos mais ou menos expectantes e em que, à medida que nela entramos, nos vamos sentindo seduzidos, aliciados, deliciados!
Mas um bom livro, para o ser (embora já não seja pouco), não pode ficar por aqui: peço-lhe, ainda, que consinta naquilo a que chamo transfiguração.
Costuma dizer-se – e eu subscrevo – que uma obra literária tem tantas versões quantos os seus leitores.
E para que assim suceda, o texto não pode asfixiar-nos pelo detalhe nem coibir-nos pela ortodoxia e rigidez das suas proposições. Tem que consentir na leitura única que é a de cada leitor, partindo desprevenido para a viagem que enceta na busca do prazer de horizontes diferentes, alternativos, estimulantes.
É assim como desatar a rir irreprimivelmente, ou ter dificuldades em deter a lágrima que teima assomar-nos aos olhos, a páginas tantas de uma leitura, experiência por que passo frequentemente e, por certo, já sucedeu com qualquer de vós.
Isto dito, dizer o quê do “Bichos do Mato”?
Antes do mais, que não estamos perante um romance, sequer uma novela.
É, antes, uma espécie de diário, um mosaico de factos e acontecimentos perante que o autor nos vai, paulatinamente, colocando. Assemelha-se a um percurso de pedras que assomam à superfície de um rio e por sobre que, mais que convidados, somos levados a saltitar em busca de uma sempre apetecida outra margem, mesmo não sabendo – ou talvez porque não sabemos – o que lá vamos encontrar.
Funciona como que uma ponte interrompida cujos apoios percorremos no relato do autor, enquanto vamos imaginando o que possa acontecer nos interins.
O seu fio condutor, mais do que a sequência e integração, ou apesar da sequência e da integração cronológica dos episódios – furto-me a chamar-lhes capítulos – é o seu conteúdo, o assunto de que trata.
E é um fio condutor que se nos revela através de uma escrita a um mesmo tempo elegante, sugestiva e contida, falando-nos da aventura que foi a guerra colonial, no caso por terras de Angola.
Aventura que se nos vai desvendando pelo revelar de um quotidiano vivido sofrida e criticamente.
E assim vamos conhecendo terras e gentes, sempre pelos seus contornos e pela tangente das suas personalidades esboçadas, muitas vezes a traço grosso, a consentir que nelas inscrevamos a nossa imaginação e exorcizemos o nosso imaginário ou, pelo menos, o imaginário da geração do autor, que é também a minha.
Numa escrita limpa e límpida, vamo-nos familiarizando com as personagens que gravitam na orla do alferes Martins – cuja história é o pretexto principal de um protagonismo colectivo – e inventando o território por onde os acasos e azares da guerra os vão conduzindo.
Com sugestiva fluência, Ferreira Marques transporta-nos até uma Luanda que se nos apresenta mestiça e cuja ilha vemos por “refúgio último de noites incompletas”.
E leva-nos depois a percorrer parte substantiva de Angola, que se apresenta como uma “mulher ardente” que se ama a contragosto e nos faz homens antes do tempo, por onde, aqui e além, “altíssimas palmeiras alinhadas sustentam o céu nas suas copas” e em que “como um alquimista, o sol quente da manhã animava o génesis eterno da África”.
Sei de poucos – se calhar até nem sei de nenhum! – que, com esta bela singeleza, nos reconduza a essa sedução sempre inacabada que vitima quantos alguma vez respiraram o ambiente único das profundezas do continente negro!
E nesse percurso de ansiedade e angústia – ansiedade e angústia que povoam todas as guerras – sofremos com os protagonistas o medo que, nas noites de todas as emboscadas, até do soprar do vento nos vem, com eles ficamos derreados de cansaço e como eles “mortos por uma cama”.
Com eles e como eles sentimos a perplexidade de explicar que “do Minho a Timor a unidade nacional é inquestionável” e que “a missão das forças armadas é combater a guerrilha apoiada pelos inimigos de Portugal”.
Como eles caímos no espanto de ver como, então, ainda se conduzia a guerra de guerrilha segundo critérios da guerra clássica.
Com eles e como eles, passamos da inocência à raiva, por vezes rondamos a ira, e como eles sofremos a tangente da demência que ameaça à medida em que os meses se alongam, se sucedem intermináveis e a comissão parece não ter fim.
Tudo e sempre numa linguagem contida, em que o autor, como se imbuído de um estranho pudor, não queira levar a nossa inquietação além do que conseguimos intuir.
Por isso conta o que nos conta sem nunca ultrapassar os limites do necessário, se calhar às vezes ficando um pouco aquém.
É assim que da denúncia severa dos “Vampiros”, do Zeca Afonso, se basta dizendo que são “estrofes demolidoras”; que o comerciante que surpreende na estonteante geografia africana de Angola descreve apenas como “vagamente europeu”; que define o drama das populações locais simplesmente dizendo-nos que se situam “entre a pressão da guerrilha e a forçada protecção da tropa”; que o desgaste que a guerra produz nas unidades operacionais traduz na sucinta descrição de que “as baixas sofridas levaram ao seu desmantelamento por inoperacionalidade. Más notícias”.
E pelo meio oferece-nos fortes – mas ainda aí contidas – pinceladas da nossa condição humana.
Vemos como o medo é a primeira e última génese dos verdadeiros heróis, porque só suplantando-o nos suplantamos e vamos além do que somos.
Como as lembranças, por ocasião de um qualquer natal no mato, revelam de súbito o crescimento interior que todo o sofrimento aconchega.
Como sofremos a pior das solidões que é a que se vive entre a multidão que nos anula em vez de nos acolher.
Como, aos poucos, se ganha a percepção de quão estranhos éramos nas guerras a que nos condenaram, como, apesar de toda a propaganda, éramos, afinal, “o papão”.
Como, simplesmente por lá estarmos, até incutíamos nos nativos temor de “represálias aos seus pensamentos”.
Mas também como nunca alienávamos o sentido do dever, como sabíamos que a farda que vestíamos nos não consentia outra alternativa: ou a despíamos, ou a honrávamos!
É assim o “Bichos do Mato”.
Roteiro imparcial – mas nunca neutro – dessa dura e crua realidade que foi o tempo, o nosso tempo, da guerra colonial.
Ferreira Marques, à imagem da sua própria personalidade de homem frontal, inteiro e sincero, oferece-nos um livro apegado à vida, conta-nos uma história pela via de muitas e sucessivas histórias, escreve no registo difícil da simplicidade, cativa-nos a cada página, permitindo-nos entrar por dentro daquele que foi, certamente, um dos seus tempos mais sofridos.
A dado passo do seu texto revela-nos o episódio de um certo presidente que, sobrevoando Angola, ao ver a imensidão verde do terreno, teria dito “tanto trigo!”. O seu reverente ajudante de campo tê-lo-ia corrigido informando não ser trigo mas capim, ao que o perspicaz presidente lapidarmente respondeu: “mesmo assim, é muito!”.
Agora, digo eu que o Ferreira Marques nos brinda com um belo romance. Ele me corrigirá: “não é um romance!”.
“Mesmo assim, é belo!”, replico eu.
Pelo que só posso concluir dizendo: ficamos, todos, à espera do próximo.
Gustavo Pimenta
Prt., 2003.04.23
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