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Bichos do Mato (José do Carmo Francisco, in "Notícias da Amadora" - Jornal semanário)
Livro: Bichos do Mato de José Ferreira Marques
 
«Bichos do Mato» de José Ferreira Marques

Como num filme, de trás para a frente, o narrador começa pelo fim esta história da guerra colonial. O primeiro plano é o regresso a casa: «Mirei-me no espelho e não me reconheci, sem boina nem quico, apertado num casaco azul fora de moda.»
Depois do rosto é o lugar («Estava a chegar à Régua») que faz o cruzamento do presente com o passado: «Viajara de noite com guia de marcha desde Torres Novas onde dera instrução a um pelotão de atiradores. Pensava que os levaria comigo. Afinal ia para Angola mas com outro pelotão a formar em Vila Real.» O Natal a anteceder a partida para Angola foi triste («Como é que a gente se despede da mãe para ir para a guerra?») mas depressa a história os faz saltar para Luanda («Aquela baía na nossa frente não é uma imagem de guerra, é um postal ilustrado.») onde são recebidos como maçaricos: «Ser maçarico é ter o camuflado novinho, sem aquele aspecto descolorido, curtido do sol e do pó. O maçarico é uma criança com uma granada na mão. O maçarico ri-se da guerra porque ainda não lhe sentiu o bafo da morte.»
Não era nada fácil estar no meio da guerra («Do Minho a Timor a unidade nacional é inquestionável. Como é que isto se explica? Não era o meu terreno.») como não era fácil lidar com a morte: «Ainda se pediu um helicóptero mas os helicópteros eram só para os feridos. Os mortos não tinham pressa.» Nem era fácil lidar com o medo: Depois do alerta («Meu alferes! Estamos a ver umas luzes!»), o alivio: «No dia seguinte regressámos e do inimigo nem sinal...» Mas de vez em quando até acontecem coisas caricatas numa emboscada («Não disparem! Rezem! - ordenou o coronel») com leituras diferentes nas esplanadas de Luanda: «Havia cartoons com o sujeito de Bíblia na mão, envolto num halo luminoso desafiando as balas...» Como num filme, o texto faz o retrato realista de Luanda numa segunda visita: «Agora Luanda era um quartel enorme, vestia camuflado. Aqueles homens e mulheres que se fingiam felizes pelas avenidas e as raparigas de sorrisos quentes bafejadas do calor sensual dos trópicos, eram irreais, personagens de um mundo de faz-de-conta.» Acentua-se a clivagem entre colonos e militares a propósito de uma frase do protagonista («Eu se fosse angolano se calhar até ouvia a rádio Brazaville») com uma resposta fulminante: «Ainda tem muito que aprender...» No meio da história é o cinema de verdade que se insinua: «Na véspera tinham solicitado quatro elementos do pelotão para figurantes. O furriel Armando ofereceu-se com mais três soldados. As cenas repetiram-se fastidiosamente. A montagem faria alguns truques para as tornar emocionantes.» O cinema está presente até na descrição da conversa com um colono: «As mais velhas estudam em Malange - disse, apontando as fotografias de duas raparigas em poses cinéfilas emolduradas sobre a cómoda.» E está inevitável no momento do regresso à Rocha do Conde de Óbidos: «Desço o escaler a sair dum sonho, a terminar uma aventura imaginada. Tudo parece irreal. Piso o cais e quebra-se o encanto. Regresso à vida. Como se acendessem as luzes numa sala escura, depois de um filme vivido.»
Escrito numa linguagem viva, sincopada, perto do ritmo do roteiro de cinema, «Bichos do Mato» tem o mérito de não se fixar nunca no simples registo minucioso das campanhas «militares» mas alarga o seu olhar sobre o outro mundo, o universo dos «civis», dando-nos conta das grandes contradições entre esses dois modos de ler a realidade de Portugal e de Angola no ano de 1966.

«Bichos do Mato», de José Ferreira Marques. Editora – Palimage, com capa José Ferreira Marques.

JOSÉ DO CARMO FRANCISCO
In “Notícias da Amadora”, Jornal semanário, Edição 1540 - 2003-07-03
 
Crítica Original: http://www.noticiasdaamadora.com.pt/nad/artigo.php?aid=2945
 
Outras críticas ao mesmo livro:
Livros de Guerra (Jorge Freitas)
Apresentação de BICHOS DO MATO (Gustavo Pimenta)
 
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