A Lavadeira de Caneças
-20%

11,66€
9,33€

de Maria Adelaide Calado

ColeçãoColeção Imagens de Hoje
GéneroRomance / Autobiografia
Ano2011
ISBN978-989-703-003-1
IdiomaPortuguês
Formatobrochura | 176 páginas | 15 x 21 cm

Efetuar compra


A roupa que lavo neste rio que é a vida não está isenta de nódoas. Assim a obra que apresento.
Diz o povo que a água tudo lava. E há um filme antigo cujo título é Aldeia da Roupa Branca de cujas lavadeiras se destaca a grande actriz que foi Beatriz Costa.
Nós, as lavadeiras do nosso tempo, temos de usar sabão azul, que é o melhor para tornar brancas as roupagens que esta nossa aldeia global teima em vestir.
Para branquear a minha roupa só um divino sol.

Maria Adelaide Calado

Flor de giesta, tojo ou rosmaninho, importa é dizer que desabrochou na Planície a 19 de Outubro de 1931. Menina do campo pintou-lhe as cores, escutou-lhe as melodias, bebeu-lhe os ares. Pressentindo de muito nova o apelo à maternidade, acolheu-se às saias da avó materna que lhe ensinou a fazer a roupa das bonecas, ao mesmo tempo que a divertia com as suas próprias histórias: de lobos que lhe saíam ao caminho; de ladrões que roubavam parelhas de mulas... Mulher forte a quem foi buscar a tenacidade que a vida requer em tantas ocasiões! Do avô paterno tem saudades sem o ter conhecido porque, do que lhe "rezam" as crónicas familiares, é o seu retrato vivo. Foi esta herança que lhe permitiu fazer estudos primários em Alter do Chão, secundários em Portalegre e superiores em Coimbra. Tem queda para o linguajar e por isso se licenciou em Filologia Germânica. Amou os alunos dando-lhes e recebendo deles o que pôde durante os vinte e sete anos de profissão no Ensino Básico. De resto, o seu campo de luta e de trabalho tem sido na família. Além de acreditar e tentar que outros acreditem que é Deus que rege a vida...

Infinitos Céus, Pássaros Soltos-20%

15,00€
12,00€

comprar

Infinitos Céus, Pássaros Soltos

de Maria Adelaide Calado

EUGÉNIO-20%

12,72€
10,18€

comprar

EUGÉNIO

de Maria Adelaide Calado

A Lavadeira de Caneças-20%

11,66€
9,33€

comprar

A Lavadeira de Caneças

de Maria Adelaide Calado

Contra Marés-20%

18,02€
14,42€

comprar

Contra Marés

de Maria Adelaide Calado

Herança-20%

12,72€
10,18€

comprar

Herança

de Maria Adelaide Calado

O Menino-20%

12,72€
10,18€

comprar

O Menino

de Maria Adelaide Calado

Apresentação de "A Lavadeira de Caneças"

de: José Manuel Pureza

Apresentação de “A Lavadeira de Caneças”
De Maria Adelaide Calado
por José Manuel Pureza
Coimbra, 12 de Março de 2011
 
A seta e o essencial
 
Antes do mais, uma declaração de interesses que se impõe: a minha vida está ligada há muito à autora deste livro. Foi a minha primeira professora de Português e, nessa circunstância, dela recebi a insinuação de que as letras, tanto em verso como em prosa, nos podem pôr de pé em cima da carteira da escola para vermos o mundo de outra maneira, e clamarmos firmes o “Oh captain, my captain” de Walt Whitman; foi ela que então me ensinou, a mim, menino da cidade, a armar maravilhado um costelo, como descreve nas páginas finais deste livro (devo declarar que me mantive menino da cidade e nunca o usei para caçar o que quer que fosse); e, acima de tudo, foi ela que me ensinou a ler, não como técnica fria de juntar letras, sílabas e palavras, mas como enamoramento por aquilo que as gerou e por aquilo para que elas nos abrem.
Por falar em enamoramento, hoje sou seu genro. Aliás sou-o há 30 anos. E trato-a por Mãe, não por uma praxe antiquada mas por uma teia densa de afectos que nos liga e que faz com que essa palavra tenha para mim o sentido único que ela tem.
Não vos falarei, pois, deste livro, senão nesta condição de cúmplice filial da autora. A “Lavadeira de Caneças” é a história do caminho de vida desta minha Mãe. O que ficou lá atrás é o que a faz ser hoje assim. O que aconteceu e o que não aconteceu, o espaço que lhe foi dado e o que ela conquistou, as aprendizagens que fez, a tecedura de uma realidade sempre feita de pedaços que se guardam e de outros que se rejeitam – tudo isso é o que deu forma singular a esta vida desta mulher de quem tanto gosto/gostamos. A memória não é um arquivo morto, é o património que se constrói e reconstrói nos vai-vens da vida, e que lhe dá esse sentido de seta sem destino marcado. É isso mesmo que a autora escreve: “A arte de mudar, de aceitar um novo estado físico e psíquico, está em não varrer o passado da nossa vida para um montão de desperdícios, mas sim acrescentar a toda a vivência já experimentada essa que está para vir. (…) a infância toma então, como na rocha o sedimento ou na mina de metal precioso a zona mais cintilante, um espaço confortável, luminoso.”
E lá atrás, onde ficou o caminho que esta seta já percorreu, estavam vidas que decorriam em quadros de previsibilidade muito estáveis. Digo-o assim porque não creio que se possa ler este livro – e sobretudo comentá-lo neste dia concreto – sem pensar nas gerações dos netos (e do bisneto já a caminho) desta minha Mãe, para as quais o futuro é uma total incógnita feito de navegação à vista e o presente é, para a esmagadora maioria, vivido realmente à rasca.
Nesse tempo em que a estabilidade – boa e má – das vidas imperava, havia uma Horta do Zé Calado que era uma espécie de Jardim do Eden feito realidade. Os passeios de bicicleta alugada na oficina do Mestre Lino, o gosto dos abrunhos Raínha Cláudia ou dos figos pingo-de-mel, a rega dos talhões, a cresta das colmeias, a apanha da azeitona ou as encenações de Veneza no grande tanque debaixo da palmeira foram cenários em que floresceu o encantamento da menina pelo fluir da vida. A escola e o piano não tinham o mesmo encanto: “Ficou-me na memória para toda a vida um desses compassos ternários ou quaternários – dó-ó-ó… ré, mi, fá… sol, dó… - gesticulados, que repeti vezes sem conta, até se me entranhar no ouvido a duração precisa de cada fusa ou semifusa. (…) Era isso e a tabuada dos nove, que não havia outra maneira de decorar senão ir respondendo durante largos minutos à concisa mas persistente pergunta: seis vezes nove, Maria Adelaide?”
Não, definitivamente, da mecânica dos fluidos a menina só se encantou pelos fluidos, nunca pela mecânica. Aliás, os tombos nas valas ou nas charcas deitando a perder os encantadores vestidos novos, as chinelinhas brancas ou o casaquinho de lã mohair – tombos que, setenta anos mais tarde, se haveriam de prolongar nas amolgadelas de um pobre Fiat Punto – são prova de que a menina aprendeu a distinguir o essencial do instrumental, mesmo quando o instrumental passou a ser socialmente tido como o essencial. E esse essencial foi sempre – e continua a ser – a repetição, diante dos detalhes da vida, das palavras fantásticas do Génesis: “E Deus viu que isso era bom”.
  A menina continuou a construir esse essencial de si na adolescência. No “martírio de três anos em Portalegre”, como lhe chama, nas visitas à Tapada da Ajuda ou à Mitra em Évora, nas grandes temporadas de veraneio na Figueira da Foz e sempre, sempre na Horta do Zé Calado – este livro encontra-a a separar não tanto o trigo do joio mas o densamente humano do frívolo, o encantador do trivial. E por ali paira sempre o amor e a admiração por quem deu o nome à Horta e, mais do que delimitar espartanamente caminhos, confiou na seta, deu-lhe velocidade e seguiu-a embevecido da sua trajectória.
O devaneio por um príncipe efabulado talvez surpreenda quem segue a vida que as páginas deste livro narram. E, no entanto, a contemporânea do poeta que nos disse que “pelo sonho é que vamos” não se quis coibir de nos confidenciar os seus próprios sonhos. Há, na verdade, duas histórias de amor que a menina e jovem, entretanto mulher, nos conta: uma, tão própria dos enamorados, que é a da imaginação do outro como inatingivelmente perfeito, um ser lendário sem defeito nem vida normal, que febrilmente queremos que se materialize; e a outra, a história de um amor concreto, com um homem de bondade e fragilidade concretas. Ciente, ele próprio, dessa distância entre o devaneio da perfeição sonhada e o atrito, tantas vezes desencantador, do mundo da vida, escreve-lhe: “A vida é dura, meu amor, e, quanto mais nela nos embrenhamos, melhor damos conta disso – muitos dos nossos ideais temos de moldá-los pela realidade, deformando-os deste modo. Somente as almas eleitas – e creio que tu serás uma dessas – conseguem, pelo menos em potência, manter intactas as suas ideias.”
A seta roçou na mais dura esquina com a partida do seu amor: “O silêncio cerrado, a lua fria / Das estrelas já não me chega a luz / Só a virada ao Norte me conduz / à certeza d’inda te ver um dia”. Feriu muito mas não quebrou. Uma seta assim, disparada nessa filtragem de um essencial que é a vida – e de que os olhinhos doces e marotos da menina a quem disfarçaram de lavadeira e montaram em cima do manso burro dão expressão – uma seta assim não quebra mesmo.
O Manel, a Rita, a Matilde, o Ricardo, o António, o Henrique, a Inês e o Tiago – e o Francisquinho que aí vem – conhecem melhor que ninguém o tesouro de sabedoria e de amor à vida em abundância que esta seta, ao atravessar as suas vidas, lhes tem deixado.
Eu agradeço o privilégio de me terem deixado dizer isto em público. E de dizer agora a esta minha Mãe o que Eugénio de Andrade escreveu à sua: “Não me esqueci de nada, mãe. / Guardo a tua voz dentro de mim. / E deixo-te as rosas...”