A Pátria ou A Vida

de Gertrudes da Silva

ColeçãoColeção Imagens de Hoje
GéneroRomance/crónica de guerra (colonial)
Ano2005
ISBN978-9-72-857577-9
IdiomaPortuguês
Formatobrochura | 268 páginas | 15 x 21 cm
Também disponível em E-Book

 

 

*LIVRO INDISPONÍVEL*

Quem leu o anterior livro do autor - "Deus, Pátria e... A Vida" - não estranhará neste, nem o título nem o conteúdo. Se naquele se reflectia ironizando com a legenda do Estado Novo, em "A Pátria ou a Vida" ressoa uma clara réplica a um outro lema, esse profundamente revolucionário, feito grito de guerra que ecoou pela América Latina nos meados do século XX. Mas também dali parece vir como que a voz de um ladrão que, de arma na mão, nos exige "a bolsa ou a vida", que de algum modo era essa a real condição em campanha, depois da escolha, sempre dramática, num outro dilema, em sua mais grave formulação - a Pátria ou a deserção. E por aí entramos numa reflexão sobre a guerra, em geral, e sobre a Guerra Colonial, em particular.

Em "A Pátria ou a Vida" vive-se, sofre-se e morre-se sem heroísmos nem honrarias; caminha-se sempre sobre o arame que marca a fronteira entre dois valores que temos como sagrados. Porque a Pátria - lugar comum - nesses tempos era madrasta, tratando como estranhos os seus próprios filhos. Não de sua própria natureza, que essa era boa, e por isso sempre lhe fomos afeiçoados; mas por força dos homens a que, ilegitimamente, se foi entregando, todos com jeitos de abastados morgados, a largar-nos por aí, feitos filhos bastardos.

 

 

 

Gertrudes da Silva

Gertrudes da Silva, de seu nome completo Diamantino Gertrudes da Silva, nasceu em Alvite, concelho de Moimenta da Beira, a 20 de Fevereiro de 1943. Em 1963 ingressou na Academia Militar, seguindo depois a carreira de Oficial do Exército, na Arma de Infantaria, até ao posto de coronel, encontrando-se agora na situação de reforma.
No tempo próprio cumpriu duas comissões por imposição na Guerra Colonial – a 1.ª em Angola e a 2.ª na Guiné. À margem das suas ocupações profissionais militares, em 1980 concluiu a Licenciatura em História na Universidade de Coimbra.
Para além de outras condecorações, foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade pela sua participação no Movimento do 25 de Abril de 1974.

Tempos sem Remição-20%

18,50€
14,80€

comprar

Tempos sem Remição

de Gertrudes da Silva

Quatro Estações em ABRIL-20%

19,08€
15,26€

comprar

Quatro Estações em ABRIL

de Gertrudes da Silva

A Pátria ou A Vida

9,54€

e-book

Comprar WOOK

A Pátria ou A Vida

de Gertrudes da Silva

Deus, Pátria e... a Vida

9,54€

e-book

Comprar WOOK

Deus, Pátria e... a Vida

de Gertrudes da Silva

Apresentação de "A Pátria ou A Vida" - Porto, Março de 2005

de: David Martelo (Coronel)

A PÁTRIA OU A VIDA

A editora Palimage, na colecção de obras a que deu o nome de Imagens de Hoje, tem vindo a oferecer ao público um conjunto de textos, de muito meritória qualidade, sobre a guerra travada em África, entre 1961 e 1974, entre as tropas portuguesas e os movimentos de libertação de Angola, Guiné e Moçambique. Convergindo, no essencial, com as obras de não-ficção que têm sido publicadas sobre o mesmo tema, aquelas que fazem parte da colecção em apreço – de que, confesso, só li as de Gustavo Pimenta e as do autor aqui presente – constituem um exemplo perfeito da literatura de guerra que, mais do que registar e analisar as grandes evoluções da situação política e militar e salientar as figuras de topo do cenário envolvente, se dedica a descrever, com fotográfica acuidade, a realidade vivida pelo cidadão comum, acidentalmente militarizado. É esta diferença da altitude de observação que proporciona a particular riqueza de pormenores de natureza humana que fazem deste tipo de textos um complemento essencial da História pura e dura.
Feita, assim, esta breve introdução, é altura de falar deste A Pátria ou a Vida. Sendo o autor um caro amigo e camarada de armas de há mais de 41 anos, correria o risco de ser levado à conta da amizade tudo o que, sobre a sua obra, aqui viesse dizer. Assim, antes de me alongar na apreciação deste seu segundo livro, quero revelar, aqui, a apreciação que fiz, em carta escrita no Verão de 2003, à obra com que iniciou a sua carreira literária.

Caro Diamantino:

«Acabei de ler, [...] o teu Deus, Pátria e...A Vida e quero que saibas quanto gostei deste rol de recordações. Conhecemo-nos há quase 40 anos, tempo mais do que suficiente para que grande parte das tuas memórias – mesmo aquelas que se referem à tua adolescência – tenham sido uma réplica de várias conversas que, sozinhos ou com outros camaradas, tivemos ao longo do nosso convívio. Mas o que me agrada sobremaneira sublinhar é a forma como conseguiste relatar as tuas memórias do ponto de vista literário. Não tenho qualquer dúvida em afirmar que possuis o dom da narrativa, isto é, a capacidade para escrever como se estivesses a utilizar cores, sons e odores que nos estimulam a imaginação, nos emocionam e tornam atraente a leitura (e, no meu caso especial, a recordação de tantas situações de que fui testemunha). Esse dom – verdadeira dádiva do Criador –, ou se tem, ou se não tem.»

Esta curta nota encerra, no essencial, o que gostaria de transmitir aos que me ouvem sobre os méritos literários de Gertrudes da Silva. Mas, naturalmente, há algo mais a dizer sobre esta nova obra.
Concebida e articulada numa bem urdida sucessão de imagens, como se de um argumento de cinema se tratasse, A Pátria ou a Vida é, fundamentalmente, a visão romanceada da experiência pessoal do autor como comandante de uma Companhia de Caçadores, no contexto da guerra na Guiné. É, também, a continuação da obra anterior, e, assim o espero, a que anuncia a inevitável chegada de outro título que materialize uma Trilogia sobre a eterna questão da articulação dos valores da Pátria com o usufruto da Vida.
A insistência da expressão Pátria nos títulos das duas obras até agora publicadas tem, naturalmente, uma importância – direi mesmo uma pertinência – que julgo dever sublinhar, especialmente para aqueles que, pela sua juventude, não viveram em idade adulta a época da nossa história aqui abordada. Educados rigidamente no pressuposto de que, como rezava o artigo 2.º do Acto Colonial, pertencia à «essência orgânica da Nação portuguesa a missão histórica de possuir e colonizar territórios ultramarinos, e de civilizar as populações indígenas que neles se compreendam», era na defesa deste dogma que se justificava por inteiro o conceito de Pátria oficializado pelo regime do Estado Novo. Perante vozes discordantes, chamando a atenção para o anacronismo da dominação colonial, quando, entretanto, outras potências – bem mais poderosas do que Portugal – procediam à emancipação dos povos que tutelavam, logo se inventou o definitivo mandamento que estipulava, de forma irredutível: A Pátria não se discute, defende-se! E, claro, quem insistisse em continuar a discussão, era traidor.
Tenho, para mim, que este slogan patriótico foi de uma eficácia extraordinária. Se é certo que alguns poucos jovens abandonaram o país, furtando-se ao cumprimento dos deveres militares, porque não conseguiam viver com a ideia de ir para a guerra, muitos mais terão aceite a mobilização porque não conseguiam viver com a ideia da deserção, isto é, com a falta ao chamamento da Pátria.
O grau de heroicidade que esta atitude encerra é sublinhado pelo autor, com amargo humor, quando, a p. 154, nos descreve o capitão, a dizer aos seus subordinados que «Uma vez que aceitaram vir para aqui, então eram todos voluntários». Claro que se tratava de uma heroicidade sem epopeia. Habituados ao aforismo de que «quem vai à guerra dá e leva», os heróis desta história rapidamente constatavam a inevitabilidade táctica de se “levar” muito mais do que o que se conseguia “dar”. Podia o leitor desprevenido, alimentar algumas dúvidas sobre a genuinidade dos cenários e das emoções descritos neste livro. A História que atrás designei por “pura e dura” não consente uma tal dúvida. Uma personalidade insuspeita como o general António de Spínola – que era, na época da narrativa, Governador e Comandante-Chefe na Guiné –, haveria de traçar, da tal guerra sem epopeia, no seu livro Portugal e o Futuro, este retrato de uma missão sem glória:
«Sobre os alicerces herdados da História, temos perante nós um futuro de prosperidade que é preciso construir. Na defesa desses alicerces se consome a Nação e, se não podemos aceitar a ideia de que seja em vão tanto sacrifício, tão pouco podemos admitir que hoje se morra apenas para que amanhã continue a morrer-se.»
Feito este retrato da atmosfera em que decorre a acção, importa prevenir o leitor de outra curiosidade muito relevante. Pode parecer que, neste cenário sombrio em que decorre a acção, se deveria esperar uma narrativa angustiada, melancólica e plena de dramatismo. Optou o autor – e muito bem, na minha opinião – por verter para o texto os contornos daquele tipo de sublimação, tão próprio do povo português, que permite enfrentar as piores situações sem perder um certo tipo de sentido crítico, recheado de humor, ironia e sabor a fado (mesmo quando está em jogo mais a Vida do que a Pátria). Utilizando uma notável riqueza de expressões e a musicalidade própria de um irreverente linguajar popular, Gertrudes da Silva estruturou a história de uma forma quase cinematográfica, utilizando como narradores, alternadamente, algumas das principais personagens do seu livro. Como curiosidade muito conseguida, anoto que uma parte importante da narração é confiada a uma espécie de “voz colectiva”, a qual representa a “unidade” – termo aqui empregue em estrito sentido militar, isto é, a Companhia de Caçadores em que a acção decorre.
Antes de concluir este meu comentário, permitam-me que sublinhe, aqui, um inesperado dom literário com que o autor nos brinda na p. 231 e sgs.. Refiro-me à cena do furriel Antunes e do sistema de armadilhas. Na descrição dessa passagem, deparam-se-nos todos os condimentos que costumamos encontrar nas mais famosas obras de cinema de acção – ritmo de narrativa, pormenor de movimentos, incerteza e ansiedade prestes a explodir e frenético galope de emoções. Atrevo-me a alvitrar que quem escreveu esta cena pode, querendo, enveredar por outros tipos de literatura.
Termino fazendo votos para que esta obra tenha, junto do público, o êxito que amplamente merece, e que não tarde o complemento que nos traga, agora, a evocação do reencontro festivo da Pátria com a alegria de Viver.

David Martelo

Porto, 9 de Março de 2005