A Quarta Sedução
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8,48€

de Alcina Marques de Almeida

ColeçãoColeção Palavra Poema
GéneroPoesia
Ano2002
ISBN978-9-72-857551-9
IdiomaPortuguês
Formatobrochura | 74 páginas | 15 x 21 cm

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"Em A Quarta Sedução, parece-me que o conceito de poema-passagem tem todo o sentido para falar deste texto. Encontramos nele muitos dos traços que já caracterizavam [o seu primeiro livro] Palavras Inquietas: o tom intimista, o universo feminino, a casa, o quotidiano, o corpo, as cores, os jogos de luz e sombra, a sinestesia como principal estratégia retórica. Ganhou-se agora, em meu entender, uma outra textura, uma maior plasticidade linguística, um certo experimentalismo lexical e sintáctico. A cumplicidade com a poesia de António Ramos Rosa desenha-se, desde logo, na epígrafe escolhida para dar início à obra: a imagem do cavalo surgirá de forma recorrente, o excesso e a escassez encontrar-se-ão de forma só aparentemente paradoxal, a intensidade do branco acolherá o agonismo da criação".

Graça Capinha
(do prefácio)

Alcina Marques de Almeida

Alcina Marques de Almeida é natural de Coimbra. Licenciou-se em Farmácia na Universidade do Porto. É membro da Oficina de Poesia. Para além de várias publicações em revistas, é autora de "Palavras Inquietas", o seu primeiro livro de poesia, editado em 1998.
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A Quarta Sedução

de Alcina Marques de Almeida

  • Palavras Inquietas, Coimbra, 1998.

Apresentação pela escritora

de: Madalena Caixeiro

É a segunda vez que venho a este mesmo lugar oferecer a todos a excelente poesia da escritora de Coimbra, a Maria Alcina Marques de Almeida. Faço-o com redobrado orgulho e redobrada alegria.
Orgulho porque me sinto muito prestigiada por me ter calhado a mim esta grata tarefa. É realmente uma grande honra mostrar-vos um livro com esta invulgar qualidade literária.
Alegria, porque sou amiga pessoal da Maria Alcina e, estando ambas envolvidas no tratamento artístico da palavra escrita, a nossa amizade tomou há anos um novo rumo e estabeleceu-se entre nós a cumplicidade natural entre duas pessoas que vivem na mesma estrada, partilham das mesmas curvas e dos mesmos socalcos e conseguem evitar os mesmos precipícios.
A poesia da Maria Alcina não tem uma leitura fácil devido à sua subtileza e ao seu alto nível literário. É necessária atenção e abertura, mas o esforço vale bem a pena. Entende-se assim esta linguagem fluente mas cuidada, a excelente escolha dum vocabulário adequado à mensagem que a autora nos quer transmitir.
Longe vai o tempo em que se valorizava a poesia fácil e intimista, a descrição exacerbada de sentimentos, as palavras com uma forte conotação romântica, o incessante repisar de emoções vividas ou imaginadas, o deleite mórbido da saudade da ausência e do desencontro.
Se no seu primeiro livro “Palavras Inquietas” já havia excelentes poemas, este volume que tenho entre mãos representa um decisivo salto qualitativo. Devo confessar que para mim não foi um espanto porque a Maria Alcina me tinha criado grandes expectativas, mas será certamente para quem leu e já com muito agrado o seu primeiro livro. Há um enorme distanciamento temático e técnico entre esta obra e a anterior.
A Maria Alcina abandona quase completamente a poesia em redor de si mesma em que exprimia o que pensava sobre si, sobre a sua alma e sobre o seu corpo. Transcendendo-se e projectando-se para um plano mais universal, a Maria Alcina ultrapassa os seus limites estabelecendo um distanciamento perceptível entre o seu quotidiano e o mundo que se eleva acima dos espaços e das horas de todos os dias. Agora os seus únicos limites são o mundo todo e o homem como ser, perdido no seu corpo e achado no seu corpo, dividido entre luz e sombra e noite e madrugada, desorientado na sua inquietação e nas noites da sua sensualidade, atento à música, à palavra, às cores, numa palavra, a tudo aquilo em que o ser se cumpre como ser.
Os versos da Maria Alcina são para ser intuídos, amados e sentidos. Ler a sua poesia é um acto de paixão. A meu ver é também uma onda avassaladora que leva o leitor a identificar-se com a autora e a sentir-se poeta também.
Isto porque todos nós somos poetas. A poesia não é pertença de ninguém. Mas só alguns são capazes de a trazer até à palavra escrita e depois transmiti-la. É este o fado da Maria Alcina que se pôs desnudadamente ao serviço de todos nós. Daí a autora abrir-nos inéditos caminhos e ensinar-nos a renovar. Não é repisando antigos modelos ditos poéticos que se avança. O poema é um mensageiro. Lançar poesia no mundo é pois um dever para quem for capaz de recriar.
A obra da Maria Alcina está dividida em quatro partes – No Limiar das Algas, O Território das Raízes, A Loucura do Besouro e A Dança Vertical dos Espinhos.
Quanto a mim não há uma separação muito distinta entre estes espaços, se bem que, o Limiar das Algas esteja mais na continuação do seu primeiro livro, embora imbuído dum ritmo diferente.
Por toda a obra perpassam as ligações do ser à situação de desencanto, à sensualidade, ao corpo físico e ao corpo não físico, à dicotomia luz/sombra, ao amor, aos sons, às cores que saem da paleta desta poeta que também é pintora e se projectam nas telas que lhe povoam a casa. (p.35)

Pintar

A génese das cores
mutações de formas
palavras-corpo
escorrendo entre painéis de sangue
tintas vertidas na cabeça
por dentro.

Olhos de todas as cores
pedra de luz no ventre branco
o impudor do sangue sobre a neve
os pássaros sentados nos meus braços
máscaras
cavalos travestidos
anjos batendo asas de audácia
jogos interditos ou precários
imagens
espaços negros
já com voz e movimento
fugindo gravando gritando.
Cheiro a tintas
manchas manchas manchas.

Ascetas
prostitutas de coração aberto.
Bem aventurados.

Mulheres mulheres fugindo dos meus dedos
atónitas indiferentes puras eróticas.
Mulheres.
Mulheres.


E tanto as cores como as palavras reflectem a saudade pelos que já partiram e o papel decisivo que a música, como elemento quase natural, como companheira, desempenha na vida de todos os dias.
Ouçamos a saudade: (p. 26)

Os que partiram retornam sempre.
Atravessam os canais da noite
e batem no êxtase da loucura silenciosa
que criaram nas luzes do pensamento.
Caminhando no tempo da memória
e na geometria do espaço
inauguram um secreto labirinto
onde pequenos duendes dançam
num círculo de luz verde.
Incendeiam o imóvel sossego
que amelancolia não apaga
e na ausência de tudo
passeiam nas insónias diurnas
eternizando um inverno de alucinação.

(p.66)

Pensar a casa purificada
pelas ausências absolutas.
Os frutos não são eternos
as vozes não são perenes.
Mergulhar na pequena glória do vazio
cantando com insensatez
a redenção das horas sucessivas.

Mas névoas giram concêntricas
em dias penitentes
talvez de sedição.


Ouçamos a música: (p. 44)

Estar no tempo
no absoluto tempo.

O outono breve dissolvido em frutos sem polpa
os dias golpeados bebendo o sol e o sal
a cidade escorrendo no tempo.

Chorar por dentro a vertigemdas coisas ferozes
os cavalos soltos impetuosos.
Olhar breve controlado sobre as levianas roseiras.
O pequeno tempo do amor não cabe na carne e
cego
acende-se em longínquos aquários.
Os órgãos efémeros
envelhecem.

Sangra-se na punição do tempo
a boca hermética arde
secreta
a música atravessa o espaço
os ossos estremecem na tentação do eterno.
Os dias cortados
possessivos
respiram na pele fugaz.

Já me referi à expressão da sensualidade. A sensualidade está necessariamente associada ao amor. Uma completa o outro e vice- versa. O amor e a sensualidade são temas amplamente tratados na Literatura Universal e também, e muito, na Literatura Portuguesa.Acontece porém que a Maria Alcina os manobra como se de uma novidade se tratasse. As metáforas são diferentes, as palavras também: (p. 23)

Nos sabores da noite confundidos
o lume inteiro lado a lado
como se a pedra do nada renascesse.
Só o rio a correr
e nós alheios a águas desmedidas.
O tempo depois do tempo
enquanto os muitos guisos
soavam inquietos.
Subimos no poema até à sua origem
alheados à rima e instrumentos.

São tuas
minhas mãos
é teu meu corpo em noite acesa
neste espaço luzindo em branco linho.
A onda em cada hora
como se a terra fosse o mar imenso.
Acordar sem projecto
cavalgando pontes para além da vida
enquanto amanhece a água transparente.

Se algures na minha vida ainda existes.

(p. 67)

Quantos dias quantos sóis
quantos altos silêncios.
Muralhas virgens aluviões do tempo
serpentes adormecidas como coxas de mulher
em noites solitárias
alaúdes avarentos guardando ecos
barcos de longas raízes
imóveis.

A espuma do corpo
recolhendo imagens entre pedras febris.
Transfusões em circuitos dolorosos
descaminhos de sal
onde seca temporariamente
a epiderme das palavras.


Neste conjunto amor/sensualidade o corpo é um elemento fundamental. O verdadeiro amor não existe sem expressão física seja ela qual for. O corpo é parte integrante do homem e guarda em si, para si e para os outros, toda a sua força e plenitude. (p.59)

Escasso corpo espáduas ainda nuas
boca de trevas
mãos ardentes agarrando os minutos breves.
O tempo a seguir ao tempo
casulo ávido da vastidão de imagens
de palavras
do filtro das palavras.
Desejo mortal de espaços a borbulhar loucura.
Insónias de desordem
fragmentação.
Soletrar amor ou morte
temperar as flechas do sangue.

O casulo encharcado de fogo
fissuras
lâminas do dia a brilhar em contraluz.
Ângulos rasos na geometria absoluta
onde miragens mutáveis
se transfiguram em escarlate e ocre
corda de sons
braçadas de vento
dedos rítmicos
seios tocando as algas.


Como escreve a Prof. Doutora Graça Capinha no excelente prefácio que encabeça este livro, a morte está presente em todos os poemas. É o telhado de todos os poemas. A morte está no universo feminino, nos corredores da casa, na cozinha, nas rotinas da manhã, no desencanto e na inquietação.Porque nós todos somos obsessionados pela morte. A morte acompanha-nos. A morte condiciona-nos, a morte é princípio e fim da vida, a morte é claridade trevas, é conjunto de cores e espaços totalmente brancos. A morte é o desencanto e a instabilidade, a ideia da morte é dominante e criativa. Em todos os passos da nossa vida a morte está sempre presente.Ouçamos dois belíssimos poemas sobre a morte. (p. 41)

Na quietude da luz
malhas e espirais estáticas
onde a pele se rasga em movimentos cegos.
O corpo borbulha em vagas
nas múltiplas arestas acesas
os braços vincados
os dedos quebrados.

A eternidade cercada
prisioneira no avesso da mente
sem o beneplácito de Deus.
Mente intacta a reinventar alvoradas
enquanto o corpo se detém
em extrema-unção sem retorno.


(p.70)

Secreta vigília penitência obrigatória
perante a morte pressentida.
Erosão da memória como se a chuva a lavasse.
A densidade da vida
ainda presa pelo último fio de sono.
Acreditando em todas as parábolas
jogo mítico entre o húmus e o cosmos.
A dança vertical dos espinhos
visível da rectaguarda do mundo.
Pequenos delírios moventes como asas
no cérebro despojado.
Sabores extintos no salitre
do revés da pele.


A meu ver há na poesia da Maria Alcina uma identificação da morte com a noite, na medida em que são ambas extremamente criativas. A noite, também uma presença constante na vida da autora, dá-lhe o espaço adequado e a paz necessária aos períodos de fertilidade poética. (p. 53)

Aqui se constrói a eternidade.
As falanges dobradas na caneta parada
muros brancos despidos em redor
chão lavado
vazio.

A tarde respira devagar.
Frágil arquitectura de um corpo.
Tarde de nenhum mês
imensa.
Hoje não vai anoitecer?

A noite lúcida ou louca
eleva-se até às estrelas
regressa iluminada
lança pepitas de ouro que incendeiam a epiderme
a carne toda.
Acordam os animais extasiados com os seus órgãos vivos
as suas vozes a encher a casa.
A noite fica esplendorosa
as coisas levitam na noite
imponderáveis.

Consumação de seivas e sangue
ressurgimento de corpos perfeitos
acesos.


A Maria Alcina rompe decididamente com o que é convencional. Não quer caminhar por trilhos que já foram abertos por outros pés. A necessidade de optar pelo não convencionalismo obriga a Maria Alcina a escrever poemas de leitura obviamente complicada em que estabelece a ligação entre a Ciência e a Poesia. À primeira vista estas duas forças de verdade parecem antagónicas, mas a autora explica-nos claramente que não é assim. Se não, ouçamos. (p. 60)

Singamia.

Organogénese silenciosa
exacta
em ofício complexo de luas contadas.
Tudo se consuma rigorosamente.
Os órgãos incipientes extraordinários
ardem estremecendo
no louco e obsessivo fluir do sangue
sem pontos inacessíveis.

Sinapse influxo nervoso
propagado
prolongado.
Formas sistemas
esplêndidos
já intactos mas ainda emparedados
no âmnio que é caos e matriz.

Sístoles ritmadas.
Prolapso lento expectante.
Ruptura do córion
grito doloroso aberto nos canais do espaço.

A tarde eleva-se viva
arrebatada
ensanguentada
gloriosa.


Deixando para o fim as referências a pássaros e a gatos, são animais misteriosos e felinos, os pássaros também são felinos, despeço-me deste livro com a dor da ruptura. E mágoa. Gostaria de dizer muito mais, mas não me parece oportuno. Esta obra fica nas mãos de todos vós que certamente a vão entender e amar. Para todos, o livro, para a Maria Alcina o abraço profundo duma grande amiga e duma cúmplice atenta e também os meus parabéns e a minha certeza que outras obras virão para nos encher de encanto.

Coimbra, 26 de Junho de 2003
Madalena Caixeiro

Opinião inscrita na contracapa do livro.

de: António Ramos Rosa

“Li alguns poemas de Alcina Marques de Almeida e fiquei deslumbrado porque verifiquei imediatamente que estava a ler um verdadeiro poeta.
Esse deslumbramento era o de um poeta-leitor que tem passado grande parte da sua vida a ler poesia apaixonadamente, mas nem a paixão pela poesia como pela arte e por tudo o que nos deslumbra e comove se apaga facilmente – e foi por isso que o seu livro foi um acontecimento para mim. Emocionei-me também porque estava perante um poeta que tinha afinidades essenciais com a minha poesia.
(...)
Palavras Inquietas de um magnífico poeta que merece uma projecção que certamente conquistará e que já conquistou com o seu primeiro livro.
É muito raro que um poeta, desde o seu primeiro livro atinja um tão alto nível, que decerto resultou de uma maturação anterior e que se evidencia nessa primeira obra. O seu caminho está traçado, tal como, decisivamente o primeiro verso de um poema imprime o movimento, a força e o ritmo constitutivo dos outros versos do mesmo poema”.

António Ramos Rosa