Alugam-se fatos-de-anjo
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de Susana Silvério

ColeçãoColeção Palavra Poema
GéneroPoesia
Ano1999
ISBN978-9-72-978484-2
IdiomaPortuguês
Formatobrochura | 52 páginas | 13 x 21 cm

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"Esta poesia exige um ritual de leitura. Pego no livro com suavidade, olho os primeiros versos... Logo me recosto para trás num conforto deixando o corpo à languidez dos momentos mais sublimes... Um livro assim guarda-se como um objecto sagrado para preencher solenemente a necessidade pura de transcendência..."

Susana Silvério

Hoje é o dia dos meus anoslembro-me de todosmas nem o último ressuscito na memóriade todos os meus anos lembro-me simsem enganos o primeiroo segundologo a seguir em fileira ordenadasempre um ano depoisdepois de outro anodepoisentre as seis e as setepontualcomo se fosse lei que não deixasse para trás nem um dia da minha carne.07/11/98
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Alugam-se fatos-de-anjo

de Susana Silvério

Apresentação. Casa da Cultura, Coimbra, 11 de Março de 1999

de: Elfriede Engelmayer

Apresentação de Alugam-se fatos-de-anjo de Susana Silvério, Casa da Cultura, Coimbra, 11 de Março de 1999

É com especial prazer que estou hoje aqui na Casa da Cultura, ao lado de Susana Silvério, para acompanhar esta estreia literária com umas palavras de bom agoiro, como se se tratasse do baptismo de um navio: confiante em que este, o navio, o livro, encontrará o seu rumo e chegará ao seu destino. 0 meu prazer é duplo, porque mesmo antes de saber a Susana poeta, já o adivinhava pelo cunho poético da sua linguagem e pela abordagem fora de comum com que escrevia os seus trabalhos académicos.
A sua presença sempre atenta e a sua grande sensibilidade reencontro-as ao longo dos textos que compõem o livro Alugam-se fatos-de-anjos, e reencontro também uma característica pessoal, transformada em atitude poética: modéstia. É uma poesia de silêncios em que o "eu" se posiciona perante o mundo com um punhado de interrogações, percebendo-se como caminheiro, sempre prestes a colocar em segundo plano as mágoas pessoais perante o maravilhoso que também o mundo é.
Quem pegar no livro e procurar dados biográficos da autora, vai dar-se conta disso, porque vai descobrir mais um poema, "Hoje é o dia dos meus anos". Tomando como ponto de partida o dia dos seus anos, Susana Silvério consegue o aparentemente contraditório: apagar do texto todos os traços de uma biografia individual, marcada por acontecimentos pessoais, para assumir a totalidade dos dias corridos, dos anos passados. Todo o tempo passado está inscrito no "eu" para lhe moldar os contornos, e o futuro é benvindo. Como que exilado do corpo textual, na badana, o poema pode servir de chave, ou de fecho.
Susana Silvério nasceu em Luanda, em 1973, de onde regressou a Portugal com os pais, ainda bebé. Passou uns poucos anos no país, antes de partir com eles para a Alemanha, frequentando lá a escola primária. Desde os seus 10 anos vive em Portugal e entrou na Faculdade de Letras no ano de 1992. Depois de terminar os seus estudos de Germanística e Anglística trabalha actualmente como professora estagiária no Liceu José Falcão. Ela própria diz que os anos na Alemanha não a marcaram, ao contrário do que acontece com tantos filhos e filhas de emigrantes que, obrigados pelos pais, têm de "voltar" a uma pátria desconhecida cuja língua muitas vezes mal dominam.
Mas permito-me uma leitura atenta dos dados e reconheço um padrão de destino português, chegadas e partidas várias, motivadas por acontecimentos políticos e pressões económicas que indubitavelmente influenciaram a vida dos pais. E sei de experiência própria, pertencendo embora a uma geração e cultura diferentes, como herdamos as feridas dos nossos pais.
Quem procura o seu caminho, precisa dum norte. Às vezes também precisa da protecção de um anjo da guarda, seja ele etéreo ou esteja ele vestido de cetim vagamente desbotado. Este está presente não só na dedicatória ao livro de poemas, mas adivinha-se igualmente como interlocutor dos textos. Eu ia mais longe ainda – ao escolher como título do livro as palavras de um cartaz que todos conhecemos, alarga o seu sentido: quem veste o fato-de-anjo representa o anjo. Por isso, o título encerra também um convite. Em determinados momentos, todos nós podemos alugar um fato, podemos tornar-nos no anjo de que um outro precisa.

"a solidão não provoca dor mas medo desafia-nos/ com o infinito/ branco/ a esboroar-se nos dedos." (14)

A solidão que provoca dor é a solidão depois da perda, a saudade pelo que não volta, enquanto a solidão que provoca medo é a solidão existencial que pode explodir quando se procura a voz divina e essa se cala. Entre a fé confiante da infância e um eventual reencontro da voz divina muitas vezes se abre um abismo. Essa perda da dimensão metafísica da vida cada vez menos é sentida na nossa civilização. Nos poemas de Susana Silvério esse vazio é nomeado, para depois ser povoado, com o anjo cujo rosto não vemos, mas adivinhamos, com imagens da natureza que se calhar é uma outra face da voz divina. E, por vezes, o "eu" muda de lugar para fazer parte da natureza, "debicando estrelas", feito ave, ou anjo, porque nenhuma ave consegue chegar tão longe.
Aparentemente o mundo destes textos de Alugam-ae fatos-de-anjo está quase desabitado. Mesmo no poema "A minha cidade tem luzes à noite" a presença humana se resume ao constatar a estranheza dos rostos e dos passos que percorrem as ruas. Parece um paradoxo, mas quem "humaniza" a cidade é o gato malhado ao sol.
Quem entrar neste livro de poesia fica surpreendido pelo facto de a quase-ausência humana não resultar em textos meramente cerebrais, ou virados sobre si próprios. Os poemas mantêm uma abertura total ao mundo e a tudo em que o mundo consiste, e, se calhar acima de tudo esse gesto contido no título: Alugam-se fatos-de-anjo.

Elfriede Engelmayer