Areia
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de Gisela Simões, Maria Alice Sarabando

ColeçãoColeção Imagens de Hoje
GéneroRomance
Ano2016
ISBN978-989-703-153-3
IdiomaPortuguês
Formatobrochura | 120 páginas | 14 x 21 cm

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Há uma espécie de distanciamento propositado, como se a vida fosse apenas sugerida, o tipo de vida, algumas situações... E alguns momentos da escrita refletem a imagem daquele grande espelho chamado Filosofia. [J.F.]

 

 

Não se trata de uma apresentação linear de acontecimentos, segundo uma ordem cronológica progressiva que nos faça vir gradualmente do passado para o presente; é sim uma narrativa onde reina a alteração da ordem dos factos por associação de ideias, por retrospeção ou por antecipação.

À maneira de muitos romances modernos, Areia é estruturado como uma polifonia de vozes narradoras que percorrem várias gerações de uma mesma família, que avançam ou recuam no tempo conforme a capacidade evocadora e associativa da memória. A mesma personagem, a mesma situação, o mesmo acontecimento é abordado várias vezes, por diversos pontos de vista que se anunciam uns aos outros, se entrecruzam e se complementam na reconstituição  dos factos históricos e do passado rural e na constatação  da mudança das condições de vida. E não poderia ser doutro modo dada a personalidade  de cada um dos narradores e a sua formação cultural. [M.J.S.] 

 

(ver mais em "Críticas")

Maria Alice Sarabando

Maria Alice Sarabando — escritora

Nasci em 1952 em Lombomeão (concelho de Vagos); licenciei-me em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra; fui professora de Filosofia (durante muito pouco tempo), e de Estudos Sociais/História de Portugal e Português (2.º Ciclo do Ensino Básico); tenho publicados livros pequenos nos géneros: conto infantil, romance juvenil (em parceria), poesia e conto.

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de Maria Alice Sarabando, Sara Bandarra

Gisela Simões

Lília Gisela Simões Cipriano Nasceu a 9 de fevereiro de 1995, em Aveiro, e estuda, atualmente, Medicina na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.
Aos 12 anos inicia um projeto de coautoria com Maria Alice Sarabando, do qual viria a resultar a publicação de dois romances infanto-juvenis: “Eu só vejo cores” (2010) e  “Ângulo Giro” (2012). Em 2008 vence o concurso literário “Histórias do Mar e da Ria”.

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Areia

de Gisela Simões, Maria Alice Sarabando

Apresentação do romance “AREIA”

de: Maria José Sarabando

Título — “AREIA”

Autoras — Maria Alice Sarabando e Gisela simões

Editora Palimage

 

Associação Dunameão

Lombomeão, 25 de setembro de 2016

 

Apresentação do romance “AREIA”

 

 

Agradeço à Maria Alice e à Gisela o privilégio que me deram de fazer esta 1ª apresentação do livro “Areia”, aqui no Lombomeão e nesta Associação. É um prazer partilhar com este público a forma como li este romance, que não é senão uma forma de ler pessoal, muito longe de ser  a única e infalível.  A cada leitor a sua forma de olhar...

 

Poderia começar esta apresentação,  com um aviso, à maneira de certos filmes :      “ Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência”.

 Na verdade, estou convencida de que os leitores  de “Areia”, nascidos e/ou criados  no Lombomeão, como eu,  serão  levados  a ver o romance como um espelho da nossa vida.  Mas tal como a imagem do espelho não é a realidade, também as personagens e o enredo deste texto são  ficção.

É certo que as autoras colocam as suas personagens num espaço cuja geografia, toponímia e atividades  nos remetem para uma realidade muito familiar a começar pelo nome da aldeia — Areias do meio.  É aí que se centra  a ação de personagens fictícias que, pela suas vivências, os seus contextos económicos, religiosos, sociais  e políticos nos fazem deambular pelos grandes acontecimentos históricos do século XX , vistos a partir deste espaço.

A história começa com Tomé, 90 anos de idade, nascido e criado em Areias do Meio, que resolve escrever, para o seu bisneto recém nascido, as suas memórias, a história da sua longa vida.  Por isso, a memória e a narração oral assumem um papel fundamental na estruturação do romance.

Não se trata de uma apresentação linear de acontecimentos, segundo uma ordem cronológica progressiva que nos faça vir gradualmente do passado para o presente; é sim uma narrativa onde reina a alteração da ordem dos factos por associação de ideias, por retrospeção ou por antecipação.

À maneira de muitos romances modernos, Areia é estruturado como uma polifonia de vozes narradoras que percorrem várias gerações de uma mesma família, que avançam ou recuam no tempo conforme a capacidade evocadora e associativa da memória. A mesma personagem, a mesma situação, o mesmo acontecimento é abordado várias vezes, por diversos pontos de vista que se anunciam uns aos outros, se entrecruzam e se complementam na reconstituição  dos factos históricos e do passado rural e na constatação  da mudança das condições de vida. E não poderia ser doutro modo dada a personalidade  de cada um dos narradores e a sua formação cultural. A saber:

TOMÉ. nasceu  e viveu sempre em  Areias do Meio. Não sabemos qual foi a sua escolaridade, mas sabe ler e escrever e revela-se um homem inteligente, curioso, informado na medida das suas possibilidades, com muito sentido de humor, sempre pronto para “mangar” e para fazer maroteiras.. A sua longevidade fê-lo contemporâneo de grandes acontecimentos internacionais e nacionais, o que lhe permite uma visão abrangente do século XX: A primeira guerra mundial, mais distante, contada pelos olhos  de um conterrâneo que nela participou;  a segunda guerra mundial já com posicionamento crítico quanto  à neutralidade portuguesa , as eleições portuguesas de 1958 , o assalto  ao Santa Maria em 1961, a emigração nos anos 50-60, a guerra colonial, a crise académica de 1969, o 25 de Abril  e o pós 25 de abril, a nova constituição... e a preparação para a adesão ao euro.

Porém,  no cerne do seu contar está a vida em  Areias do Meio. Tomé reconstitui o seu passado de carências, a luta para dominar as areias e criar terra de cultivo, as antigas atividades rurais, as alfaias, os costumes, a evolução nas formas de viver e conviver.

 

DEOLINDA – Sabemos  que também frequentou a escola, mas foi educada para a vida de casa e para ser esposa e mãe . Contrariamente a Tomé, não  revela qualquer  interesse pela vida política e económica do país e do mundo do seu tempo. Se se refere à 2º guerra mundial ou à tentativa de assassinato do papa não é por qualquer preocupação de  entender o mundo, mas apenas por uma questão de religiosidade emotiva.

Com Deolinda, reconstitui-se o dia a dia da aldeia nos anos 40-50: a infância e as suas brincadeiras, a educação aferrada à religião, a estrutura familiar, a condição da mulher, predestinada ao casamento, submissa, reprimida na sua sexualidade e nos seus sonhos, a emigração solitária dos homens nos anos 50 para o continente americano e consequente melhoria económica. Simultaneamente as feridas afetivas resultantes da ausência do marido e do pai. 

Deolinda age em função do PARECER e  não em função do SER.

Pertencente a uma geração de mulheres sem voz, a sua história é contada em 3ª pessoa.

 

MADALENA – Infância na aldeia, licenciatura em Coimbra onde vive a crise académica de 69. Professora durante vários anos, desacredita da escola, da relação pedagógica. Na meia idade, abandona a profissão e reorienta a sua vida: volta a Areias  do Meio, à casa onde nasceu, ao seu quintal e  torna-se tradutora.

A sua formação, o seu percurso, a sua mundividência fazem dela um narrador privilegiado da sua própria história.  É uma mulher informada, consciente de si, independente, livre, simples na sua forma de estar, interveniente no meio em que vive, solidária com os mais fracos, defensora de princípios nobres, capaz de viver contra a corrente no pequeno mundo formatado e preconceituoso da aldeia e da família. Sabe desconstruir os acontecimentos e as atitudes e  posicionar-se com o distanciamento necessário para analisar criticamente a sua solidão, as relações familiares, o seu mundo interior e o mundo que a rodeia. Pode desagradar aos mais velhos da família, mas é a figura amada e respeitada pelos mais novos.

Mais preocupada com o SER do que com o PARECER, assume os seus atos até às últimas consequências e conta os tempos da sua vida como grãos de areia  que vão escorrendo um a um, como numa ampulheta..

 

ELSA – prima de Madalena, jovem licenciada em Coimbra e  mãe do bisneto de Tomé. É uma jovem culta, capaz de conversar sobre tudo, preparada para viver o amor  e a vida.

A sua narrativa é feita em 3ª pessoa não porque não tenha voz, como a sua tia Deolinda, mas porque, assimilado o passado, não é nele que se quer fixar, mas sim no futuro que ela vê promissor.

 

DANIEL- namorado de Elsa e pai do bisneto Tomé, é sobrinho por afinidade de Madalena. Nascido num vale entre montes, deixa um interior do país em decadência para se fixar no litoral onde chega pelo amor. Reflete sobre a vida, sobre o Amor, sobre a existência humana e a importância do lugar onde se nasce e se cresce.

Narrador em primeira pessoa, compete-lhe o papel de esclarecer e sintetizar o destino das personagens.

 

As vidas de Tomé, Deolinda, Madalena, Elsa e Daniel cruzam-se umas com as outras, criando um universo ficcional de enredo complexo onde se vai anunciando e  desenvolvendo  gradualmente uma tensão dramática com desenlace trágico, na lisura aparente do quotidiano rural.

No entanto, eu diria que, para lá da tragédia, para lá do sofrimento, o que permanece é o sentido luminoso do texto, a consciência da responsabilidade individual e coletiva, a exaltação do amor e da vida, a crença num futuro melhor, como se percebe, por exemplo, nas palavras de Tomé acerca de Elsa e Daniel “ambos resplandecendo futuro”. 

 

Não queria deixar de chamar a atenção para a luz que este livro projeta também sobre o passado e a vida da aldeia, a cultura, a casa,  as tarefas domésticas, os trabalhos do campo, os costumes, a linguagem usada para dizer esse modo de viver, o sentido de pertença (vejam-se as personagens que saem e que voltam como para um porto de abrigo).  Deste ponto de vista, o romance “Areia” aparenta-se também com o romance etnográfico e antropológico,  com o chamado romance regionalista, campesino na linha de Aquilino Ribeiro, Alves Redol, Agustina Bessa Luís e tantos outros autores.

Parece haver da parte das autoras a preocupação de despertar um mundo em extinção, um “vocabulário adormecido, julgado morto”,  não para fazer dele a expressão do quotidiano atual, mas porque, como diz Madalena,  essas palavras são “ferramentas de desenterrar gestos” que nos falam do que fomos e somos, revelando o sofrimento, a força, a coragem, a alegria, a fé no futuro, a solidariedade de todos quantos nos antecederam e conseguiram transformar a areia e o pântano no espaço  que hoje habitamos.  Conhecer esse passado permite-nos tomar consciência da luta e dos valores das gerações anteriores que foram construindo uma  identidade, forjando a comunidade que somos. É um legado  que nos torna responsáveis perante as gerações que nos seguirão.

São também para nós as palavras de Tomé ao seu bisneto:

“Saibas que melhorar a vida de cada um carece de coragem e melhorar a de todos carece de justiça. Fiques avisado, vejas e aprendas e tenhas fé no futuro. Se puderes, faças alguma coisa”.

 

 

Para terminar: “Areia” é um livro que se lê com muito prazer.

Se é verdade que pode criar alguns problemas ao leitor urbano e aos mais jovens não familiarizados com antigos termos do mundo rural, também pode espicaçar a curiosidade e o desejo de saber mais sobre o outro e o diferente.

Para o leitor rural e mais velho, a leitura  de “Areia” será um revisitar-se e um percorrer de caminhos familiares.

Boa leitura!

 

Maria José Sarabando


Apresentação de "Areia" – Vagos, 8 de outubro 2016

de: Carla Figueiredo

APRESENTAÇÃO DO LIVRO AREIA de Maria Alice Sarabando e Gisela Simões

Vagos, 8 de outubro 2016

 

por Carla Figueiredo

 

Vagos é uma terra pela qual nutro um carinho especial. Foi aqui que encetei a amizade com a Alice, colega professora na Escola E.B 2,3 local, onde permaneci durante três anos letivos, entre 2006 e 2009 e, pouco tempo depois, comecei a ouvir falar da Lília e do projeto de escrita de ambas que tem dado, como se sabe, bons frutos.

 Sinto-me especialmente honrada por ter sido, depois de “Ângulo Giro”, em 2012, novamente escolhida para esta apresentação pública de uma obra que já não é infanto-juvenil, mas um Romance, nas palavras do Ex.mo Sr. Editor Jorge Fragoso “de tão grande rigor e exigência”.

 

Experimento um estado de espírito semelhante ao que Lília manifestava há dias, em Lombomeão, quando disse que a Maria Alice a voltou a procurar para terminar algo inacabado, renovando-lhe o prazer de trabalharem juntas e de fazerem fundir os seus talentos.

Da mesma forma, e após a turbulenta e por vezes extenuante experiência de ter sido mãe de gémeos em 2013, também a mim surpreendeu com mais este desafio.

 

Há um provérbio indiano, adaptado de Platão, que diz: “…Não deixes crescer a erva no caminho que conduz à casa do teu amigo”. E é isto que a Alice tanto nos transmite ao convocar-nos para estas tão edificantes tarefas de leitura e escrita.

 

Pois bem, a Amizade é essa semente, esse ingrediente mágico que faz coisas como esta acontecerem … sem desprimor por todo o trabalho e talento das autoras.

 

 

 

 

Feitas estas considerações iniciais, passo agora a apresentar o Romance.

 

AREIA – conjunto de partículas granulosas de natureza mineral que se encontra no leito dos rios, dos mares, nas praias e nos desertos; cada uma dessas partículas granulosas formadas essencialmente por grãos; extensão coberta por estas partículas; areia movediça- superfície de areia que não oferece resistência ao peso, podendo engolir tudo o que sobre ela se desloque; em sentido figurado, situação delicada, problema de que é difícil sair airosamente; fazer castelos na areia – fazer planos sem uma base firme e que, por isso, podem não se concretizar; meter a cabeça na areia – fazer de conta que não se vê; ser muita areia para a camioneta de alguém – exceder a capacidade de alguém; ter areia na cabeça – não pensar, não ter ideias, ser fútil, oco.

(Dicionário de Língua Portuguesa da Porto Editora)

 

“O simbolismo da areia vem da quantidade dos seus grãos; os séculos passados, ensina Buda, são ainda mais numerosos do que os grãos de areia que há entre a nascente e a foz do Ganges. (…)

Os punhados de areia lançados em certas cerimónias do Xintoísmo representam a chuva, o que é também uma forma de simbolismo da abundância; (…) a areia pode também substituir a água, é purificadora, líquida como ela, abrasiva como o fogo. Fácil de ser penetrada e plástica, adquire as formas que nela se moldam, é um símbolo de matriz. O prazer que se sente quando caminhamos sobre ela, quando nos deitamos nela, quando nos afundamos na sua massa suave – como se vê nas praias, - relaciona-se inconscientemente com o regressus ad uterum dos psicanalistas. É efetivamente como uma procura de repouso, de segurança, de regeneração.”

(Dicionário de símbolos de Jean Chevalier e Alan Gheerbrant, da Editorial Teorema).

 

Houve dois desafios que, a priori, a leitura de “Areia” me colocou: por um lado, a sua grande riqueza vocabular e, por outro, a densidade/complexidade narrativa que me estimularam a “montar” a árvore genealógica das pelo menos 4 gerações de uma mesma família. Pensei para mim: “Bolas, isto é pior do que “Os Maias” do Eça de Queiróz… lá está, é areia demais para a minha camioneta…

Percebi, então, que uma leitura não seria suficiente e que, durante a minha dedicada tarefa de análise textual, teria sempre ao meu lado direito, como co-piloto linguístico, esse extraordinário e pesado compêndio de vocábulos da língua portuguesa: o dicionário. Os capítulos apresentam-se com o nome das personagens que, participantes ou não, contribuem para engrossar o considerável número de familiares que compõem, em grau mais ou menos afastado, a tal árvore genealógica. Existe uma intercomunicação entre todas estas personagens que se vai construindo à medida que a leitura avança, sendo um processo que termina unicamente no final da história. A família assume-se, pois, como um elemento congregador da diegese.

O tempo da narração, apesar de situado no século XX, focando imensos marcos histórico-político-culturais ocorridos, é mormente um tempo psicológico, que transcorre do interior dos principais narradores, determinado pelo desejo de contar as suas vivências, angústias ou ansiedades. É portanto, um tempo interior, que é alongado ou encurtado do acordo com o estado de espírito das personagens, sendo constantes os avanços e retrocessos temporais.

Os narradores em destaque, quanto a mim, Tomé e Madalena, percorrem os estádios da infância, juventude e idade adulta/velhice, ora seus ora de outrem, acumulando experiências reveladoras de uma evolução imbuída de aprendizagem. Os lugares de infância, em ambiente rural, transmitem tanto de apaziguador quanto de melancólico, por vezes, roçando mesmo o traumático, especialmente para as figuras femininas.

A alma deste enredo é o povo e a sua cultura, a massa humana de que é feito, símbolo de uma portugalidade em particular e de uma humanidade em geral. Em termos de classificação tipológica, diria que tende para o Romance de espaço, seguindo a terminologia utilizada por Vítor Manuel de Aguiar e Silva no seu estudo “Teoria da Literatura”.

 

Focando-me agora mais na trama individual de cada uma das personagens, Tomé, primeiro narrador que se apresenta aos leitores com 90 anos de idade, vem dar o mote com as suas histórias de vida. Na sua condição, o tempo assume-se como mestre que o dotou de experiências e aprendizado, legado que deixa propositadamente ao seu bisneto, acabado de nascer.

Tomé simboliza a força do trabalho ligado à terra em que se orgulha de dar mão à natureza, testemunha o avanço das técnicas que possibilitam a passagem de caminho a estrada cimentada, notando-se uma simbiose do Homem com a Natureza; o local do seu nascimento marca a própria identidade, como se lugar e indivíduo se fundissem num só.

Tomé confessa-se um brincalhão e vai desfiando histórias “cómicas” da sua meninice como a de uma missa em que incitou alguns companheiros a atar as pontas das franjas dos xailes das senhoras do banco da frente durante uma missa, como a de percorrer as ruas chocalhando cornos e gritando: “Quem quer cornos?” ou como daquela vez em que pregou aos sete ventos ter visto o sexo do João Pança, passagem que não resisto a citar:

“João Pança foi um homem que sempre conheci com desconforme barriga, o primeiro da família a perder a nomeação por apelido de lei, obra minha. Estava um dia a urinar por trás de um muro, resguardado mas visível de um caminhito. Nada de mais, é preciso respeitar as necessidades do corpo. Calhou passar eu, comecei a arremedar-lhe: Vi a pila ao Pança! Vi a pila ao Pança! Chamou-me, Anda cá, meu menino! Fiz tenção de fugir, mas ia repetindo sempre Vi a pila ao Pança.

- Anda cá, que não te faço mal nenhum.

Acerquei-me desconfiado, repetindo mais baixo em provocação cautelosa. O homem levou a mão ao bolso do colete, tirou de lá uma moeda e estendeu-ma com estes dizeres:

- Toma lá, meu menino! Cinco tostões para comprar rebuçados. Viste uma coisa que eu já não vejo há muito tempo.” (pg. 17)

 

Um outro episódio muito tocante é aquele em que conta uma troca de bebés por uma cigana, na feira, mostrando como o acaso pode alterar o destino.

O ancião considera-se essencialmente marcado por abalos políticos, na transição da ditadura para a democracia, altura em que confessa “começou a sentir-se velho”.

Nos conselhos ao bisneto, dá conta da inconstância da vida e critica a desigualdade trazida pela 2ª guerra mundial:

 

“Não pense também este bisneto que a linearidade cai na vida com a mesma fidelidade do tic-tac de um relógio. Nem tudo é mau, nem tudo é bom, nem tudo é claro ou definível. Nem tudo é um país rico vendendo alimentos durante a segunda guerra, para exorcizar a morte de tanto soldado.”  (p. 9)

Todos os exemplos de histórias de gente conhecida que transmite têm uma intenção pedagógica a ser apreendida pelo menor; o seu papel é, pois, claramente moral, contudo, veiculando um olhar positivo para o futuro, incitando o bisneto a agir e construir, não repetindo os erros do passado. Os seus ensinamentos têm um carácter realmente intemporal:

“Pois então, meu bisneto, não te atormentes muito com as mudanças, sempre as vai haver. O melhor dinheiro é a força dos nossos braços e da nossa inteligência.

Saibas que melhorar a vida de cada um carece de coragem e melhorar a de todos carece de justiça. Fiques avisado, vejas e aprendas e tenhas fé no futuro. Se puderes, faças alguma coisa.”

 

No capítulo dedicado a Deolinda sobressai um olhar pejorativo sobre a religião e os repetitivos e maçadores rituais católicos. A personagem representa um protótipo de educação feminina comum no séc. XX, em que o homem garante o sustento do lar; uma criança, adolescente e mulher encarcerada (e por vezes mesmo amedrontada) pelos valores religiosos e aqueles que a devotam ao papel subserviente de esposa, mãe, dona de casa, costureira, cozinheira, aliás, uma representação feminina que perpassa toda a obra.

 

Madalena surge em idade adulta, fazendo uma retrospetiva bastante pormenorizada do seu percurso de vida. Pode considerar-se a protagonista do romance, mas não heroína, uma vez dissidente face à sociedade.

Quando toma as rédeas da narração, sente-se uma mudança no tom discursivo, mais sério, juntamente com uma certa banalização do ato da escrita. Dirige-se aos leitores, começando por falar do Amor e explica que vai contar os episódios da sua vida em grãos.

O seu drama é o mais significativo e marcante da obra; é símbolo de uma vida sofrida, de um agudizar de sensações que o tempo não trava e sente-se que caminha por um gelo cada vez mais fino.

Por outro lado, representa a mulher independente, estudada e emancipada em relação a tantas outras figuras femininas que desfilam pela narrativa, dando-se ao luxo de recusar uma profissão para enveredar por outra; contudo, esta errância profissional, que se alastra também aos espaços físicos que frequenta, nomeadamente à casa de infância, denuncia desadaptação e desorientação, acompanhada de uma profunda vertente filosófica:

 

“Num mudar de vida rodopiam o Norte e o Sul, a família dos caminhos, os rostos das casas nos percursos do hábito. Turbulência de rio caudaloso em meio de fragas, águas que ora se contradizem e chocam ao rodear escolhos, ora se despenham concertadas em abismo, força desalinhada e violenta, difícil de controlar. A gente perde-se como quando faltam certos sais. (…) Somos os nossos lugares. Mesmo nos meus lugares, já me aconteceu andar à deriva sem referências: correio, quiosque, igreja flutuando sem relação com as direções pretendidas. Desorientada, como bêbada, aos tropeções nas coisas e no tempo, onde estava? Quem era? Onde estou? Quem sou?”

 

Ao contrário de Tomé, que escreve para o bisneto, os grãos da vida de Madalena acumulam-se em duna catártica que a redime da solidão em jeito de diálogo monologado.        

As memórias e sensações por ela transmitidas imprimem à narrativa um ritmo muito próprio que supera o enredo, recusa a cronologia linear e deixa fluir o tempo interior que fragmenta tudo.

De resto, faz revelações surpreendentes, preponderantes para o desfecho…

 

Daniel, último narrador, ainda que com uma passagem curta pelo romance, reveste-se da maior importância. Não obstante a sua idade, de forma análoga à de Tomé, tece considerações bem profundas sobre a vida, uma espécie de moral da história, questionando a ciência, filosofando sobre a falácia dos sentidos:

“Morrem convicções à medida que crescemos. Matam-nas alguns livros, e os adultos tontos à nossa volta. Não me faz mais feliz perceber a dinâmica da nuvem de gases e poeiras à volta do Sol, que faz da terra redonda dando-lhe um quê de movimento; ou ainda saber que existem “coisas” chamadas riftes ou fossas que vão reciclando rochedo. Era perfeito, por si só, saber que estou vivo, quieto e não às voltas, em chão plano e seguro, numa placa que não mexe. Se isto não o é, sendo das situações mais verdadeiras que os meus sentidos me apresentam, não há certeza de nada. Conclusões rápidas: sentidos falhados, o mundo não é nada do que pensas, pensar jamais será fidedigno, as certezas são chão de madeira podre.”

Daniel é personagem-síntese, dá o salto para o final da história que o leitor percebe que engatará no seu início, tornando-a circular, como o é, afinal, o trajeto cíclico da existência.

De um ponto de vista mais estético, gostaria de referir-me a alguns recursos ou processos expressivos que tanto contribuem para intensificar a beleza e a profundidade da escrita:

  • As enumerações com teor descritivo de espaços;
  • As comparações;
  • As metáforas, destaco aqui o paralelismo feito entre a passagem da vida(s) e o(s) lápis que se vai(ão) afiando, na página 67;
  • Os provérbios e linguagem popular;
  • As repetições expressivas;
  • A fantochisação do ser humano (p.77, 94) ou, pelo contrário, a humanização dos objetos  ou personificação (p. 101);
  • A ironia aplicada à religião e aos rituais católicos;
  • O uso de sensações dos órgãos dos sentidos para agudizar emoções;
  • Os jogos de palavras;
  • A escrita da pontuação por extenso em vez da sua representação gráfica;
  • Os estrangeirismos; …

Enfim, para todos eles encontrarão muitos e magníficos exemplos, patenteando um estilo singular.

 

Em conclusão,

Não espere o leitor que este romance siga a ligeireza de estilo e interpretação hoje tão banal em romances que abundam nas estantes das livrarias. Reiterando a opinião de António Manuel Ferreira no estudo “Contornos da Narrativa Breve na Obra de Branquinho da Fonseca”, embora aplicado à narrativa breve mas que julgo enquadrar-se plenamente, esta obra “pressupõe a existência de um leitor disponível para o trabalho de concertação e expansão de sentidos indiciados pelo texto”. No trabalho de Noélia Duarte, “A sobrevivência das origens no conto literário moderno”, a estudiosa afirma que “A necessidade humana de partilhar experiências e saber através da narração de histórias é uma característica das sociedades orais magistralmente representada pelo conto.” Ora, Tomé encarna vivamente essa figura do contador de histórias com a função de entreter e/ou educar os seus destinatários, principal propósito do conto de tradição oral.

Pelo vasto leque de vocábulos e ditos populares característicos de uma zona da gândara do centro litoral, pela evocação de usos e costumes da mesma região, pela integração na narrativa de tantos e tão marcantes factos histórico-sociais que caracterizaram a sociedade portuguesa, “Areia” pode e deve considerar-se uma obra de referência na difusão da cultura portuguesa do século XX.

“Areia” é um livro que dá luta, que tem subjacente um enorme trabalho de investigação e, por tudo o que já foi dito, de uma qualidade inquestionável.

Em vez de “Areia”, este romance poderia muito bem chamar-se “Grãos de Areia e Solidão”, mas não, apenas “Areia”, para que a história fique completa.

 É um drama, ou um conjunto de dramas, que serpenteia, como as estradas de Vale de Pinos e de outros vales, entre a vida e a morte. O seu ponto forte é o Realismo e a complexidade humana que dele transbordam.

Os grãos da vida de Madalena estarão para si como a areia para a humanidade: um infindável número de vidas, de capítulos, de passagens.

No passado dia 25, em Lombomeão, a autora Maria Alice Sarabando revelou que se assume em todas as personagens e que o escritor é um ladrão da realidade; Esta “Areia” está enraizada num lugar, agora em mim e certamente ficará enraizada em cada um de nós.

 

Obrigada.

 


Ventos e Marés da Gândara

de: António Canteiro

Areia

Apresentação Editorial

Biblioteca Municipal de Cantanhede

03-12-2016

 

“Areia forma linhas até agora desconhecidas”

D. H. Laurence

 

1.            Sobre as AUTORAS:

Na tentativa de acertar quem escrevia, o quê?, neste livro, perguntei a uma das autoras; aquela parte que fala disto é da sua autoria. Resposta: não, engana-se. Fiz nova tentativa, e outra, mas falhei sempre nas minhas suposições, sempre! Desisti, até porque é de somenos importância quem escreve, o quê?, neste livro.

Remeti-me então às origens da Gândara, às origens do país onde vivemos, a tempos imemoriais, aos povos que povoaram esta terra: Lusitanos, Celtas, Visigodos, Mouros ou Serracenos, hoje imersos em tantos nomes de utensílios começados por Al, e juntei Ali de Alice Sarabando a Lília Gisela Simões, formando uma só palavra, a que nomearei as autoras juntas de ora avante: ALÍLIA. E começarei por dizer melhor forma de apresentar é não as apresentar, remetendo para uma leitura, em poucos segundos, na badana do livro, de resto um livro, que pelo grafismo, e estrutura me fez lembrar o meu primeiro romance: o “Parede de Adobo”, que aproveito para endereçar aqui os meus parabéns à Editora “Palimage” e ultimar a minha primeira grande identificação com este romance.

 

2.            Sobre o livro, AREIA,:

 

Há um tempo, perguntou-me Alília: quer apresentar AREIA, em Cantanhede. Disse logo que sim, e não tinha lido meia-dúzia de páginas, reiterei esta vontade. Alília disse-me, ainda: leia até ao fim e diga depois. Escorria sobre a poesia e Herberto Helder e deparei com a AREIA em cima de água com se fosse luz abraçando mais ferverosamente esta tarefa.

 

Há títulos que não deviam ter livro: outros em que o título é o cartaz, o convite, o gongo, o sussurro, o levantar de mão, a vénia, a declaração de penumbra de mistério, a sugestão, a fresta para uma leitura, e este AREIA pede-nos que Alília nos deixe espreitar a obra, adentrando-nos nela.

Podemos nem lançar (como ela fez, no início) um elemento de mistério na intriga, podemos não lançar elementos motivadores que chamem a atenção para uma aventura – pode nem ter a salsicha presa à cana em cima do cão, em que este caminha na ânsia mas sem lhe poder tocar e nunca consegue – pode nem ter a bomba a gerar um conflito, tensão inicial do leitor; pode, como fizeram Alília, começar brandamente, sem espetar a farpa no leitor.

Mas, atenção!, que a decisão de o leitor abandonar o livro está às vezes na leitura do primeiro parágrafo, na leitura da primeira página, altura em que se deve formar o pacto de leitura com aquele que está no outro lado, e que nos lê.

 

3.            O contexto da escrita:

A Gândara precisava disto: do aparecimento de um livro com os seus ventos, as suas marés, a semeadura do pinheiro bravo, os seus utensílios (as apeaças, a sartela), a sua vida social (amode), económica (mil réis), a sua linguagem (amochar, apoisar, ugadinhos, fanicada, surribar, surraipa);

A Gândara precisava de um livro novo, construído como casa, por uma jovem (ai!, o quanto faz falta sangue novo à literatura) e por uma pessoa mais adulta (a vivência de muitos anos, a maturidade, o calculismo, a sabedoria) ambas, juntas, a condimentar esta literatura. A Gândara precisava disto, depois de Carlos de Oliveira, Idalécio Cação, Silvério Manata, Fátima Bica, eis que surgem de uma assentada, duas mulheres neste universo de escrita. Sim!, a Gândara é um Universo, tal como o Sertão de Guimarães Rosa, ou o Alentejo de Manuel da Fonseca. Nesta linha, Joyce Carol Oates diz que, na escrita, a voz individual é a voz comum, a voz regional é a voz universal. Diferente modo têm Alília na captação do contexto onde vivem, uma, a mais adulta, vinda das humanidades (da filosofia, das citações de Kant, Marx, Locke, Descartes, pág. 95), a outra, a mais jovem das científico-naturais (a mutação do gene X, loci quantos, cromossoma fulano, por falha de reparação do ADN, pág. 71) estão ali, ambas, misturadas, numa literatura do feminino, do modernismo e da criatividade, e têm-nos hoje aqui, em órbita à sua volta (como dizem muito bem na pág. 83); elas provam que hoje pode escrever-se diferente do que se escrevia no tempo de Eça ou de Camilo, com um toque de modernismo (e-barra-ou; pontos de exclamação; suo, suo muito), para entrar na pele como farpa e agarrar-se a nós como cola. Para além disso, num tempo que tudo corre tão rápido, os livros devem ter poucas páginas, serem curtos e acessíveis como estas 117 páginas de romance.

 

4.            O simbólico:

De anotar a simbologia inserta no nome das personagens (Tomé Areias (espaço dunar=Gândara, crença no belo divinizado=Deo+linda, e Madalena=mártir), personagens únicas, que estudadas filosoficamente daria um tratado.

Ainda a simbologia associada aos subcapítulos – Grãos de areia= grãos de memórias. A este propósito, diz D. H. Laurence: “Tal como acontece quando se passa um arco de violino por cima de um tabuleiro delicadamente coberto de areia, e a areia forma linhas até então desconhecidas”. Sim!, AREIA, no seu processo de escrita, forma linhas até agora desconhecidas, na brutalidade, a repetida violência da morte por suicídio, sendo que o objetivo da literatura é a transformação da palavra que reverte o ato verbal em obra. Literatura, arte, é fazer de coisas banais do quotidiano, coisas únicas, especiais, singulares, olhadas com assombro, com admiração, às vezes, inexplicavelmente. Captar o quotidiano, em todo o lado, na rua, no emprego, nas viagens, nas falas, nos comportamentos é o papel do escritor, que tem que reverter em palavras esta capacidade de observação, como todo o artista tem de ter a mente sempre disponível e apta a captar, sendo um caçador, por vezes, como um predador em permanência, a procurar o outro lado das coisas, mesmo quando parece distraído, alheado, o escritor observa, cheira, tateia, degusta e ouve a realidade à sua volta. É este misterioso laboratório interno, de observar, de anotar, de guardar, que faz o trabalho de escrita, este cozinhar de ingredientes no fogo do subconsciente. O escritor trabalha para alguém, investigou, e o leitor aprecia este trabalho, o leitor gosta de alguém trabalhe para ele, que tenha trazido até si o melhor da informação, o melhor das curiosidades, o melhor do saber…

 

5.            O humor e o drama:

Também com ironia, a leituras que diverte e que provoca o riso (a cena do final da missa e de xailes de velhas pegados nos cadilhos, cada uma a puxar para seu lado e verem-se atadas… pág. 15).

Também o drama, como diz Mário de Carvalho, na adjetivação ora violenta e brutal, ora suave e harmoniosa. O incidente (adultério escondido) é um impulsor da narrativa (uma violação, a doença de alzheimer, dois suicídios) trazem-lhe o drama, que prende o leitor. Compromisso do escritor com o leitor passa por trazer o adverso à obra, a personagem de papel e tinta que não deve desapontar, deve manter um cenário interessante, deve chocar ou surpreender o leitor, deve falar do bom e do mau, do amor e do ódio (também de adultérios), suscitando curiosidade através do conflito, de momentos de crise – por que não, um crime ou um assassínio são o sal dos romances.

Enfim, o paradoxo, a inquietação, a intranquilidade, o arrebatamento, o mistério, a surpresa são ingredientes necessários à obra literária, assim como, através da linguagem e dos gestos simulados criar ambiguidade, pois ela é o cerne da escrita literária/poética, e confesso, terminei a primeira leitura deste livro a sentir a ambiguidade de dúvidas, porque necessitava de explicações, que me pediam segundo e terceiro olhar sobre a obra que tinha em mãos.

A literatura que joga com a transformação, o livro vai-se metamorfoseando em nós, mexe à medida que o lemos, é um ser com vida própria, com imagética, a ocultação o subtexto, antes de descoberto incesto, veio depois a morte do ser traído, na linguagem direta que transforma o presente agreste em imagens felicidade e de sonho.

 

6.            A  deslocação semântica e a poesia:

Também a deslocação semântica, o mágico em literatura é ir ao encontro do improvável, e aqui Alília bebeu em Carlos de Oliveira, da criação do mítico lobisomem=ao homem da areia, que atacava as mulheres que andavam a trabalhar sozinhas, deixando-as despidas e a sangrar com golpes navalha no baixo-ventre, sem as matar (pág. 13).

Alguém escreveu um poema à volta de AREIA, e toda a arte que não transmita poesia, que não faça nascer sensações, que não cause emoção, não é arte. A definição de poética, de Aristóteles é a ação dotada de extensão, linguagem embelezada, elevada por formas diferentes nas suas partes, que se serve da narração, por meio da compaixão e do temor, provoca a purificação de tais paixões. 

O lápis ponta de borracha apaga versos e deixa imersos detritos, que recuperados, em montinhos, formam palavras, frases de novos poemas: eliminando o ramo, recupero o fruto; afastando a chuva nascerá o sol; enfim, deixa-me ir lá acima fechar a janela para apagar o lume que vem do sol. A ocultação, sendo mais o que ocultas do que aquilo de desvendas, isto é literatura.

O pescador sempre regressa com o saco cheio de palavras, vem a medir os sentidos para encontrar novos rumos. A literatura do romance é uma arte da duração da primeira à última palavra deste livro.

O livro que temos em mãos não é para ser explicado, o livro é um enigma que cada um tem de descobrir à sua medida, é como na brincadeira de Alília no jardim de flores. A leitura e a escrita provêm sempre de uma organização de palavras que produzem ideias. Ideias através de vozes, na primeira pessoa do singular, um traço de singularidade desta AREIA na criação de novos mundos na literatura, mundos e contra-mundos, epifanias.

 

7.            Atualidade e tempo da escrita:

Falar com imagens desse lugar de Areia, grão um, grão dois, grão três, num tempo de memórias que regressa sempre ao lugar onde se partiu. Falar do drama da emigração e imigração, antes e na atualidade, confundindo-se os refugiados (Gunter e a Maria, da pág. 37), que vieram de Áustria com os de agora, de terras devastadas da guerra, O que é devastada?, pergunta a infância; a fatalidade de doenças (alzheimer), a viagem de trilhar novos rumos, viver a pulso para cá das dunas e ir pelos dedos à feira com a mãe, acender luzes de petróleo para aquecer o inverno até nos próprios beijos. É o tempo das várias gerações, começando pelos mais velhos (Tomé), até aos netos e sobrinhos (Elsa e Daniela). É o tempo da fome, da memoração do passado. O registo de um mundo a desaparecer rapidamente, é a forma de exorcizar os estragos causados pela nostalgia, de assegurar a permanência e o louvor daqueles que amámos e nos ensinaram, numa evocação do que nos é familiar. Enfim, precisamos de nos apaixonar efetivamente por uma obra, pois se não o fizermos, dificilmente conseguimos escrevê-la, falar dela, ou sequer transmiti-la às pessoas, porque uma das maiores razões para ler e escrever é esta LIBERTAÇÃO. Ao longo desta leitura, fui encontrando afinidades, gostos e prazeres comuns, a qualidade sintática, o tom retórico, discursivo, oratório, cerimonioso sem ser um sermão, porque cativa o leitor. A arte, quando é mesmo arte, prende-nos e mistura-se na nossa vida. A escrita de Alília tem todos os condimentos de uma boa escrita: é arte com alma, cheia de humildade, simplicidade e emoção… Mas, como dizia Hemingway, é necessária sempre muita humildade, porque a escrita é uma área onde todos somos aprendizes, e ninguém pode afirmar-se Mestre. E, começar por ser humilde, é já saber um pouco mais…

Obrigado!                                                            

ANTÓNIO CANTEIRO

BARRACÃO – 2016-12-03