ARIADNE
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de Luz Videira

ColeçãoColeção Palavra Poema
GéneroPoesia
Ano2003
ISBN978-9-72-857550-2
IdiomaPortuguês
Formatobrochura | 86 páginas | 15 x 21 cm

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O mito é bem conhecido. (...) No Labirinto, uma construção de plano tão complicado que dele ninguém conseguia sair, uma vez lá entrado, vivia o Minotauro, a quem Atenas fora obrigada a enviar o tributo de sete rapazes e sete donzelas, até que Teseu se oferece para integrar o grupo e, com a ajuda de Ariadne, filha de Minos, que por ele se apaixona, consegue matar o Minotauro e depois sair do Labirinto, seguindo o fio que a jovem apaixonada lhe aconselhara a estender ou, segundo outra versão, guiado pela luz de uma coroa que ela lhe dera, depois de obter do herói a promessa de, morto o Minotauro, a levar no seu barco.

da apresentação
Professor Doutor José Ribeiro Ferreira
Univ. Coimbra

Luz Videira

Da biografia de Luz Videira nada consta, pois, como disse Miguel Torga, "um poeta não tem biografia, tem destino".Esse destino exige dela uma atenção constante à pulsação da vida, ao sopro diferente de cada instante, ao modo de estar dos seres vivos e da natureza em seu redor. A busca das palavras que digam essa atenção contínua, eis a razão de vida de Luz Videira, seu objectivo último e único. Não só por si, mas também para dar voz a todos aqueles a quem as palavras se negam.Destino nada fácil, como se vê, mas que Luz Videira aceita e a que procura ser fiel em todos os momentos da sua vida.
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O Fio de Ariadne ou o percurso de uma vida

de: Professor Doutor José Ribeiro Ferreira

O fio de Ariadne ou percurso de uma vida
Apresentação de Ariadne de Luz Videira


Maldita sou porque te conheci,
O fogo falso de teus olhos vi,
Teu corpo esplêndido contemplei.
Quis-te meu senhor, meu rei
E sou agora rainha de nada.
Cada hora me dói,
Cada minuto choro desesperada
O desperdício de tudo o que não foi.

O poema que acabo de ler, com o título “Desespero de Ariadne” (p. 67), retrata a vida sem sentido da protagonista, por tudo se lhe ter escapado, ao perder Teseu, e nele surgem alguns tópicos que são recorrentes: ideia de maldição, falsidade dos sinais de amor de Teseu, a noção de que a vida, a vida de Ariadne, é nada: «sou agora rainha de nada».

Ariadne de Luz Videira — com ilustrações e capa de António Mingocho, especialmente criadas para este livro e explicadas em posfácio do seu autor — apresenta-se como uma obra esteticamente atraente.
A figura de Ariadne acompanha Luz Videira — e também outros temas da cultura clássica, sobretudo da Grécia — pelo menos desde o livro As Quatro Estações, publicado em 1973, num poema que, já marcado pelo desencanto, sublinha a ausência de Teseu, com a espera pelo seu regresso e o desespero a encher os dias (p. 53):

Dei-te o novelo.
Para que o toiro do medo
Fosse morto,
E nosso o labirinto
Da alegria.

Mas até hoje espero
O teu regresso.
E espanto e desespero
Enchem o meu dia.

O mito é bem conhecido, pelo que me dispenso de o desenvolver. Apenas sublinharei algumas anotações que são úteis para enquadrar poemas. No Labirinto, uma construção de plano tão complicado que dele ninguém conseguia sair, uma vez lá entrado, vivia o Minotauro, a quem Atenas fora obrigada a enviar o tributo de sete rapazes e sete donzelas, até que Teseu se oferece para integrar o grupo e, com a ajuda de Ariadne, filha de Minos, que por ele se apaixona, consegue matar o Minotauro e depois sair do Labirinto, seguindo o fio que a jovem apaixonada lhe aconselhara a estender ou, segundo outra versão, guiado pela luz de uma coroa que ela lhe dera, depois de obter do herói a promessa de, morto o Minotauro, a levar no seu barco.
Cumprida a missão, Teseu parte de Creta com Ariadne e aportam a Naxos — que primitivamente tinha o nome de Dia. Aí a abandona Teseu, adormecida, ou por amar outra mulher; ou porque uma tempestade, desencadeada quando no barco procedia a trabalhos de manutenção, o afastou para o alto mar; ou por ordem dos deuses, de Atena ou de Diónisos que vira a princesa e, impressionado com a sua beleza, a deseja para si. De qualquer modo o deus do êxtase, da vitalidade e do vinho passa por Naxos, encontra-a, desposa-a e leva-a para o Olimpo, com a concessão da sua apoteose por Zeus — um tema popular na literatura (Catulo 64. 50 sqq.; Ovídio, Heroides 10) e também na pintura de vasos.
Segundo outra versão, Ariadne aporta a Chipre grávida de Teseu e aí morre no momento do parto — uma versão a que alude o poema “Morte de Ariadne da p. 73, uma das variantes relativas ao falecimento da heroína.
É possível que originalmente Ariadne fosse uma divindade minóica da natureza, cujo mito se centraria no seu casamento e morte, assim combinando os tristes e alegres aspectos do anual ciclo da vegetação, um e outro celebrados em dois festivais em Naxos, mas também com vestígios em Atenas.

O mito está presente no livro nas suas diversas fases, desde o momento em que Ariadne vê Teseu até que Diónisos a desposa e lhe oferece a apoteose no Olimpo, tornando-a deusa e imortal, às vezes mesmo com explicitação de diferentes versões. Os poemas dispõem-se de modo a tornar Ariadne um percurso de uma vida — um percurso narrativo que vamos tentar seguir.
O primeiro poema intitulado “O cortejo” (p. 9), refere a chegada dos sete rapazes e sete raparigas ao palácio do Labirinto, e entre eles Teseu. Ariadne admira a sua esplêndida estatura, a sua coragem, «calma e determinação» e, mal o vê, sente-se tocada pelo amor:

Ariadne ao vê-lo
Estremece de desejo,
Uma seta de amor
Vara seu coração.

O amor e fascínio de Ariadne por Teseu continuam nos poemas seguintes, de que cito um exemplo apenas, “Teseu, o herói” (p. 15) que considero bem elucidativo, pois chega mesmo a declarar-se enfeitiçada:

Entra no labirinto
E mata o Minotauro.
Em nenhum instante
Tem medo da morte.
Ariadne enfeitiçada
Vela por sua sorte.

O desejo e paixão de Ariadne por Teseu, a alegria e ilusão da fuga aparecem sublinhados no poema “Rapto de Ariadne” (p. 16):

Ardia de desejo,
Morria de paixão.
…………………
E a fuga foi-lhe sonho,
Presa da sedução.

Em “Partida de Ariadne” (p. 18), Ariadne «rejubila na ventura» da hora da partida e afirma que seguirá para sempre Teseu e que a sua vida começa a partir daí. A felicidade é tão grande que tudo apaga da sua vida anterior, como se sem valor e préstimo fora: sua «vida começa agora»...
No entanto, em boa parte dos poemas é introduzido o tópico do calculismo de Teseu, como acontece em “Teseu sedutor” (p. 10): este, ao notar «nos olhos de Ariadne / O brilho da paixão», descobre aí a salvação e procura insinuar-se:

Olha-a intensamente
Num jogo antigo
De pura sedução.

O mesmo jogo calculista utiliza o herói em “Teseu e o oráculo de Delfos” (p. 11), em “Teseu calculista” (p. 17) e em “Promessa de Teseu” (p. 12). Neste último, à proposta de Ariadne de lhe dar um novelo que lhe indique o caminho e o livre do labirinto, se com ela casar, Teseu «olhando Ariadne nos olhos, / Logo tudo prometeu».
Convencida da sinceridade das palavras de Teseu e do seu amor, Ariadne dá-lhe o novelo (“A entrega do novelo”, p. 13) que o salva e liberta do labirinto e toda se lhe entrega:

Eu te entrego o novelo.
Quero-te livre do labirinto,
Seguro de perdição.
Eu te entrego o novelo,
Te dou meu coração.

No poema “Viagem para Naxos”(p. 19) — outro dos elementos do mito —, enquanto a atenção e a luminosidade envolvem e caracterizam Ariadne, são marcas de Teseu a segurança e a frieza:

Ariadne vai atenta,
Mirando ondas e estrelas,
Recoberta de luar.
Teseu navega seguro
Até ao nascer do dia.
Naxos emerge da bruma
Entre gritos de alegria.

O estilo de Luz Videira não se distingue pela abundância e arrojo de metáforas. No poema, no entanto, encontramos a sugestiva imagem «Recoberta de luar» — e outros exemplos nos oferece o livro: o sonho da fuga (p. 16), «latidos do vento» (p. 34), Ariadne como «fio de luz» e «cordão umbilical», «estrela» (p. 38), «arrepios na alma» (p. 57), «fogo falso de teus olhos» (p. 67).
Ariadne envolta em luz, um tópico que aparece nos momentos de felicidade da protagonista, como se verifica em “A coroa de Ariadne” (p. 14), que nos dá outra versão do mito, segundo a qual o que Ariadne entrega a Teseu e o salvou não teria sido um novelo, mas uma coroa luminosa que recebera de Diónisos como presente de noivado; a sua luz iluminará o labirinto:

Estarás no centro da luz.
Seu brilho ofuscará
A escuridão mortal
Do labirinto.

Esta irradiação de luz será um tópico que acompanhará a figura de Ariadne nos momentos de felicidade.

Por vezes o mesmo elemento do mito motiva mais do que um poema. É o caso do abandono de Ariadne em Naxos. Começa por um poema, “Teseu, o traidor” (p. 21), em que, depois de um momento se quedar «a mirá-la / Assim adormecida» e de breve hesitação «entre ser fiel / E gozar a traição», decide-se pelo abandono. No seguinte, “Abandono de Ariadne” (p. 22), Teseu já sente dor por ter de a abandonar, por ordem de Atena:

Teseu olha longamente
O rosto de sua amada
Adormecida, inocente.
Dói-lhe demais a cilada,
Sente-se morrer de pena.
Mas foi bem claro o destino
Quando ordenou que fugisse
Por ordem expressa de Atena.

Num terceiro poema, “Teseu, amante fiel” (p. 23), Teseu é atirado para o alto mar pela tempestade, quando se dirigira ao barco, enquanto Ariadne dormia:

Vendo-a em sono profundo,
Teseu dirige-se ao barco
Tratar de seus afazeres.
Mas num instante a tormenta
Corta as amarras da nau
E arrasta-a para longe.
Teseu pena longo tempo
Até poder regressar.
Logo que põe pé em terra,
Amaldiçoa sua sorte:
Ariadne está dormindo
O sono eterno da morte.

Temos assim, em poemas seguidos, uma espécie de dialéctica do mito, ou das suas diversas versões, ordenadas da mais negativa à mais favorável para Teseu, como acabámos de ver — e outros casos nos oferece o livro.
Os três poemas seguintes — “Desespero de Teseu” (p. 24), “Chegada de Dióniso” (p. 25) e “Embarque de Teseu” (p. 26) — apresentam outra versão, não menos favorável para o herói ateniense — a de que o abandono de Ariadne, «desde sempre / A um deus …. prometida», se deve a uma ordem de Diónisos que exigia «A posse de Ariadne adormecida», e o herói, «que só quer amá-la», parte dorido e, «Trémulo de desespero, / Amaldiçoa a sua vida» (p. 24); «obedece amargurado» (p. 25) e com a angústia que leva no «coração despedaçado» (p. 26).

… esquece a vela branca prometida
A Egeu, seu pai angustiado.
Navega maldizendo sua desvida.
Na praia queda Ariadne adormecida
Com Dióniso expectante a seu lado.

De novo presente a versão do mito mais favorável para Teseu, já que a outra, não contemplada no livro, explica o esquecimento do herói como um castigo dos deuses, por ele ter abandonado voluntaria e premeditadamente Ariadne em Naxos.

Ariadne vive sentimentos contraditórios, dividida entre o profundo amor por Teseu e a revolta pelo abandono. O primeiro leva-a a temer, em «dias de tempestade» (p. 34), pela vida do herói, pelo seu naufrágio, ou a ver, no poema “Prenúncio” (p. 36), um «sinal mais que evidente» do seu regresso numa «águia gigante» que «atravessa o céu» — e aqui talvez se encontre subjacente uma reminiscência do passo do Canto II da Odisseia (Canto 2. 146 sqq.) em que duas águias prenunciam a chegada de Ulisses. Outras vezes sonha (“Sonho de Ariadne”, p. 35) que o amado desembarca e que ela se encaminha para os seus braços. Mas nesse «momento supremo» em que parece «que vai desmaiar» e que sente «febre e frio», afinal «acorda para o vazio» — um acordar para a triste realidade, concentrado num único verso final que termina pela sílaba tónica final aguda e assobiada de sibilante e vogal i, a sublinhar a ausência e o vazio.
Esse amor, em “O novelo de Teseu” (p. 37), chega ao ponto de o libertar da opressão do novelo que o prendia, mesmo que ela «viva em maldição»:

Eu sei que o meu novelo te prendia,
Que oprimia sem querer teu coração.
Para que possas viver em liberdade
É forçoso que eu viva em maldição.

A revolta motiva-lhe, pelo contrário, acusações de traição, de falsidade, e chega mesmo a considerar maldição o momento em que o conheceu. E então magoada com o acto de Teseu «pede aos deuses a morte» (p. 30). Em poema significativamente intitulado “Maldição” (p. 31), lamenta que os laços sagrados da união os tenha o herói transformado, com a sua fuga, em dor ruína. Estes tópicos da traição e da maldição são linhas de força de Ariadne, com presença em vários poemas. Só mais um exemplo. Em “Desencontro” (p. 38) novamente surge a ideia de traição e maldição. Ariadne tudo lhe dera, fora a mãe que lhe dera o ser, já que ele era «o feto perdido / No útero-labirinto, / Condenado à escuridão», enquanto ela aparecia como «o fio de luz, / O cordão umbilical / Que trazia a salvação». Em paga só encontra maldição. O poema, numa série de metáforas, realça de novo o carácter luminoso de Ariadne, chamando a atenção para a luz que a envolve e dela (fio de luz, estrela), em contraste com a escuridão em que Teseu vivia:

Eras o feto perdido
No útero-labirinto,
Condenado à escuridão.
Eu era o fio de luz,
O cordão umbilical
Que trazia a salvação.
Quis ser estrela,
Teu destino,
Só encontrei maldição.

O tópico ‘maldição’ — que o poema acabado de citar põe em evidência —é recorrente também em outras obras de Luz Videira, como é o caso de e de Rosto dos Dias, onde o termo serve de título a três composições (pp. 46, 62 e 65).
Obnubilada pelo amor e pela revolta, Ariadne, toda sofrimento e mágoa, nem consegue descortinar os olhos súplices de Diónisos, o seu enlevamento, os seus desvelos. Em “Lágrimas de Ariadne” (p. 33), a sua cegueira ao apelo do olhar de Diónisos é total:

Salgadas como as do mar,
Recobrem seu rosto belo,
São de abandono, traição.
Não deixam ver o apelo
Que há nos olhos de Dióniso,
São lentes de perdição.

Mesmo assim, em “Desvelos de Dióniso” (p. 32), «Enlevado, embevecido», o deus busca-lhe os olhos em que vê apenas «mágoa, dor». Então «Afaga-lhe os cabelos, comovido, / E jura conquistar o seu amor».
Apesar de, em “Dor de Ariadne” (p. 42), ela pedir que a deixem viver a sua dor, já que «nada mais» tem e não lhe interessar «outro amor / Nem a imortalidade, o deus, no poema “Dióniso paciente” (p. 43), mantém a esperança de fruir o seu «corpo formoso, / Habitar-lhe o coração» e mostra-se paciente, aguardando «humilde, calado / Sem nada querer forçar». A partir deste poema, verifica-se uma aproximação gradual de Ariadne a Diónisos e um entendimento cada vez mais estreito.
Se, em “Primeiro diálogo” (p. 44), Ariadne ainda refere que o seu maior desejo na vida é «correr mundo», intimamente esperançada em «procurar Teseu», já em “Ariadne em viagem” (p. 47) e em “Viagem em Naxos” (p. 45), as maravilhas que contempla, «o verde-azul do mar, / A brancura das gaivotas / E o grito ardente da cal» fazem-na estremecer e predispõem-lhe o espírito; e Ariadne abre-se num sorriso para alegria e satisfação de Diónisos, como se vê no poema “O primeiro sorriso” (p. 46):

Da natureza
É tal o esplendor,
Que Ariadne se rende
E seu rosto se abre
Num sorriso.
A terra treme,
A vida pára,
Dióniso descobre o paraíso.

Talvez por mero acaso — curioso é contudo que tal se verifique —, “Dióniso paciente”, um poema de viragem, encontra-se precisamente a meio do livro.
Vem depois o casamento, com os presentes de núpcias (p. 49), um diadema de ouro, como no mito, que mais tarde o deus transformará em constelação — a “Constelação de Ariadne” (p. 74) —, para «lembrar quem ele amou». E Ariadne tem a sensação de irrealidade — «Estremece meu coração, / Tudo me parece irreal.» (p. 50) — e os poemas seguintes, “Enlevo” (p. 51), “Ariadne em lua de mel” (p. 52) e “Paixão” (p. 53), descrevem o amor e a paixão, o enlaçamento e a união do casal. Os dois irradiam felicidade e o êxtase mora no seu olhar, como se pode ver em “Ariadne em lua de mel” (p. 52):

Quando os olhos se cruzam,
A terra logo estremece,
Sátiros e Mênades extasiam-se
Ante a paixão que apetece.

Parecem, no entanto, instantes fugazes. Em breve surge o desencanto (“Desencanto”, p. 54) que «vem tolher os gestos, / Esfriar a paixão». E volta a memória de Teseu e da perda que a sua fuga trouxe.
Apenas a gravidez e nascimento do primeiro filho (“Ariadne grávida” p. 59, “Nascimento do primeiro filho” p. 60 e “Ariadne e o filho” p. 61) quebraram a monotonia e desencanto, trazendo-lhe de novo momentos de felicidade: saber que «espera um filho», embora nada tenha mudado em seu coração, deu-lhe «estranho brilho» aos olhos, tornou-a «mais mulher, / Dona do mundo». Esse filho, cujo nascimento lhe possibilitou «Conhecer o amor absoluto»(p. 60), é para ela «prenda suprema do destino» (p. 61) e passa a ser todo o seu encanto: mirá-lo é «puro gozo» e até já «não recorda Teseu / Nem busca sinais no céu», pois «agora o sol é outro».
De qualquer modo, a vida de Ariadne (“Dia-a-dia de Ariadne”, p. 55) decorre «entre a presença de Dióniso / E a contemplação do mar / Onde Teseu desapareceu / Mas donde pode voltar…».
Ariadne vive perplexa (“Ariadne perplexa” p. 57), magoada, sofrida, «perdida na insónia / de uma noite enorme» (“Ariadne insone”, p. 58); e vê-se dividida por sentimentos e atitudes contraditórios (“Contradições de Ariadne”, p. 62): «sabe-lhe bem ser amada», mas o ardor de Diónisos «deixa-a fria, entediada», alheada. Embora lhe faça «dádiva do corpo, / Não lhe entrega os pensamentos» que constantemente desfiam na memória a figura de Teseu, o seu «amor verdadeiro». Por isso torna-se dissimulada (“Ariadne dissimulada”, p. 63).
Diónisos, paciente de início (cf. “Dióniso paciente, p. 43), agora não suporta a «ausência de amor» de Ariadne e «prefere sabê-la morta», como refere o poema “Vingança de Dióniso” (p. 68 e 69). Por isso ordena a Ártemis que castigue Ariadne e com suas setas vare o seu «corpo divino». Aparece assim a noção muito grega de hybris e seu castigo pela divindade: Ariadne é castigada ao «ousar não amar / O deus que tanto lhe queria». No entanto, em “Ressurreição de Ariadne” (p. 72), uma variante do poema anterior, Ariadne, como deusa da vegetação, está para sempre ligada ao deus da vitalidade da natureza. Como a vegetação, Ariadne todos os anos renasce ou, como diz o poema, Diónisos «teve de ordenar a ressurreição».
E os quatro poemas finais referem-se precisamente à divinização e imortalidade de Ariadne — “Ariadne deusa” (p. 75), “Ariadne imortal” (p. 76), “Ariadne deusa da paixão” (p. 77) e “Ariadne deusa da vegetação” (p. 78) — , com a afirmação reiterada do seu desejo em ser mortal. Em “Ariadne deusa” (p. 75), que alude de novo ao tópico do brilho e luminosidade, e (“Ariadne imortal”, p. 76), considera que nem na morte teve sorte, já que se vê divindade e imortal quando apenas desejava ter a mesma condição de Teseu, «só quis ser mortal» como ele. E afinal é «em Naxos deusa da paixão», alvo de «sacrifícios, festivais», junto da qual «busca alento / Quem pena do coração».
No poema final, Ariadne aparece como deusa da vegetação e, assim invocada e cultuada em Chipre, personifica a natureza, já que seu tronco é o de uma árvore, os membros são os ramos e os olhos as flores:

Seu tronco ou o de uma árvore
Suas pernas e seus braços
Ramos baloiçando ao vento,
Seus olhos flores da paixão.
Por isso em Chipre é chamada
“Deusa da vegetação”.

Os poemas da parte final de Ariadne insistem na recordação de Teseu, mas sublinham sobretudo o tópico de uma existência de maldição, o tédio da vida junto de Diónisos, a dor e a mágoa de uma vida que não teve: uma vida «sofrida queda ausente» (p. 75); ou, como refere o poema com que iniciámos esta apresentação, Ariadne é «agora rainha de nada» e em cada minuto chora «desesperada / O desperdício de tudo o que não foi» (p. 67). Os seus «dias são longos» e as «horas mortas», horas que não passam ou não têm vida, nos quais se imiscui apenas a recordação de Teseu. É bem explícito o conjunto dos dois poemas “Morte de Ariadne” (p. 70 e 71), ao sublinharem o forte amor da protagonista por Teseu e que a sua existência não foi vida mas «longa desvida»:
1
Foram longos anos
De dores, desenganos,
Escassas alegrias.
Agora é chegado
O dia da morte.
Ariadne está calma,
Mágoa só tem uma:
Dói-lhe o que não viveu
Por culpa de Teseu.

2
Na hora da partida,
Só en Teseu pensou,
No muito que o amou
Em sua longa desvida.
Chorou o desencontro
E, contemplando o céu,
Expirou murmurando:
“Teseu, Teseu”.

Parece-me, portanto, ajustado terminar com a epigrafe de abertura (p. 7) — retirada de Dual de Sophia de Mello Breyner Andresen — que expressa plenamente a sensação que, no livro Ariadne, aos poucos mas indelevelmente, se colhe: nostalgia, mágoa, sofrimento pelo que se não viveu, nos escapou ou deixámos fugir por culpa nossa ou alheia. Eis os versos de Sophia:

Mais tarde será tarde e já é tarde.
O tempo apaga tudo menos
Longo indelével rasto
Que o não-vivido deixa.

É este o sentimento que ressuma do livro Ariadne, um livro sofrido, magoado, desencantado — percurso de uma vida, a de Ariadne.

JOSÉ RIBEIRO FERREIRA