Bichos do Mato
-20%

12,72€
10,18€

de José Ferreira Marques

ColeçãoColeção Imagens de Hoje
GéneroCrónica de guerra (colonial)
Ano2003
ISBN978-9-72-857547-2
IdiomaPortuguês
Formatobrochura | 222 páginas | 15 x 21 cm

Efetuar compra

Em Bichos do Mato a ficção confunde-se com a realidade numa união perfeita, cerzida com um estilo sóbrio e elegante que nos cativa desde a primeira frase.
É uma história de homens comuns, jovens acabados de sair da adolescência, brutalmente lançados na fogueira da guerra colonial onde os seus destinos se cruzam e decidem em cenários extremos. Com eles embarcamos em paquetes de fachada, sufocamos na poeira das picadas e perdemo-nos sem esperança na escuridão das matas.
Heróis à força, arrancados aos nossos campos e cidades, lutampela sobrevivência, prolongando sem querer a agonia de um sistema que os esquece sem remorso mal despem o camuflado.
É quase um relato que nos dá a espaços uma visão humanizada do jogo armadilhado da guerrilha, onde todos fazem de gatos e de ratos conforme a violência da surpresa e o terror do imprevisto.
Sem maniqueísmos nem excessos de violência literária, Bichos do Matos transporta-nos com naturalidade para a época e cenários da guerra colonial, reconstruídos com realismo e invulgar beleza literária.

José Ferreira Marques

José Ferreira Marques nasceu em 1943, em Vilar Torpim, uma aldeia do Distrito da Guarda. Vive em Lisboa, onde se formou em Direito.
Depois do bom acolhimento da crítica ao seu primeiro romance, Bichos do Mato, o autor brinda-nos agora com Rua do Arsenal, uma obra mais densa, de cariz urbano, que transporta o leitor para uma época conturbada do nosso passado recente, cujos ecos se repercutem nos dias de hoje.
Apelando de novo à memória, mas sem o pudor da guerra para lhe tolher a ficção, José Ferreira Marques assina um romance esplêndido, cheio de vida, que mergulha na magia do tempo, seduzindo o leitor desde a primeira linha.

Rua do Arsenal-20%

16,96€
13,57€

comprar

Rua do Arsenal

de José Ferreira Marques

Bichos do Mato-20%

12,72€
10,18€

comprar

Bichos do Mato

de José Ferreira Marques

Apresentação de BICHOS DO MATO

de: Gustavo Pimenta

BICHOS DO MATO

Muitas vezes me perguntam o que é para mim um bom livro e eu fico sempre atrapalhado para dar uma resposta.
É que, em boa verdade, não creio que haja bons ou maus livros: há é livros de que gostamos e livros de que não gostamos.
Mesmo quando nos referimos a escritores de méritos indiscutíveis e créditos indisputados (os ditos consagrados), acontece-me gostar muito de certas obras e de outras muito pouco, às vezes mesmo nada. Gostos que, claro, frequentemente não coincidem com o de outros e melhores leitores que eu.
Alguns exemplos ilustrarão melhor o que quero significar.
Nunca acabei de ler a “Montanha Mágica”, não me deixei seduzir pelas “Vinhas da Ira”, só com esforço concluí “A Maçã no Escuro”, não consegui, sequer, chegar ao fim da “Jangada de Pedra”.
E, no entanto, trata-se de obras universalmente consagradas e que, a justíssimo título, fazem e farão parte de muitas antologias.
Em contrapartida, há livros que revisito tanto foi o prazer que me deram, como, por exemplo, “A Aparição”, “Viver todos os Dias Cansa” ou “Se uma manhã de Verão uma criança...”.
Não sei, por isso, dizer o que é um bom livro.
Mas sei dizer-vos o que, para mim, são requisitos indispensáveis para uma boa leitura e condição para que eu goste de um livro.
Antes do mais, tem que ser bem escrito.
E bem escrito não apenas por se revelar escorreito na linguagem, seja funcionando segundo os seus cânones tradicionais, sejam reinventando-os na transgressão, como tão deliciosamente o faz, entre outros, Mia Couto.Mas bem escrito ainda no sentido da sua fluidez, do manancial das palavras que nos conduzem sem esforço para onde o autor nos quiser levar.Bem escrito, em suma, porque nos amarra, nos interpela, nos não deixa subtrairmo-nos nem às singelezas nem às dificuldades do texto: cativa-nos.
Depois, tem que nos falar da vida, tem que contar uma história. E tem que nos contar uma história convocando-nos à emoção.
Retirando os livros de tese, técnicos, temáticos ou de matérias específicas, evidentemente (e, idealmente, até nesses!), um bom livro deve ser uma aventura em que embarcamos mais ou menos expectantes e em que, à medida que nela entramos, nos vamos sentindo seduzidos, aliciados, deliciados!
Mas um bom livro, para o ser (embora já não seja pouco), não pode ficar por aqui: peço-lhe, ainda, que consinta naquilo a que chamo transfiguração.
Costuma dizer-se – e eu subscrevo – que uma obra literária tem tantas versões quantos os seus leitores.
E para que assim suceda, o texto não pode asfixiar-nos pelo detalhe nem coibir-nos pela ortodoxia e rigidez das suas proposições. Tem que consentir na leitura única que é a de cada leitor, partindo desprevenido para a viagem que enceta na busca do prazer de horizontes diferentes, alternativos, estimulantes.
É assim como desatar a rir irreprimivelmente, ou ter dificuldades em deter a lágrima que teima assomar-nos aos olhos, a páginas tantas de uma leitura, experiência por que passo frequentemente e, por certo, já sucedeu com qualquer de vós.
Isto dito, dizer o quê do “Bichos do Mato”?
Antes do mais, que não estamos perante um romance, sequer uma novela.
É, antes, uma espécie de diário, um mosaico de factos e acontecimentos perante que o autor nos vai, paulatinamente, colocando. Assemelha-se a um percurso de pedras que assomam à superfície de um rio e por sobre que, mais que convidados, somos levados a saltitar em busca de uma sempre apetecida outra margem, mesmo não sabendo – ou talvez porque não sabemos – o que lá vamos encontrar.
Funciona como que uma ponte interrompida cujos apoios percorremos no relato do autor, enquanto vamos imaginando o que possa acontecer nos interins.
O seu fio condutor, mais do que a sequência e integração, ou apesar da sequência e da integração cronológica dos episódios – furto-me a chamar-lhes capítulos – é o seu conteúdo, o assunto de que trata.
E é um fio condutor que se nos revela através de uma escrita a um mesmo tempo elegante, sugestiva e contida, falando-nos da aventura que foi a guerra colonial, no caso por terras de Angola.
Aventura que se nos vai desvendando pelo revelar de um quotidiano vivido sofrida e criticamente.
E assim vamos conhecendo terras e gentes, sempre pelos seus contornos e pela tangente das suas personalidades esboçadas, muitas vezes a traço grosso, a consentir que nelas inscrevamos a nossa imaginação e exorcizemos o nosso imaginário ou, pelo menos, o imaginário da geração do autor, que é também a minha.
Numa escrita limpa e límpida, vamo-nos familiarizando com as personagens que gravitam na orla do alferes Martins – cuja história é o pretexto principal de um protagonismo colectivo – e inventando o território por onde os acasos e azares da guerra os vão conduzindo.
Com sugestiva fluência, Ferreira Marques transporta-nos até uma Luanda que se nos apresenta mestiça e cuja ilha vemos por “refúgio último de noites incompletas”.E leva-nos depois a percorrer parte substantiva de Angola, que se apresenta como uma “mulher ardente” que se ama a contragosto e nos faz homens antes do tempo, por onde, aqui e além, “altíssimas palmeiras alinhadas sustentam o céu nas suas copas” e em que “como um alquimista, o sol quente da manhã animava o génesis eterno da África”.
Sei de poucos – se calhar até nem sei de nenhum! – que, com esta bela singeleza, nos reconduza a essa sedução sempre inacabada que vitima quantos alguma vez respiraram o ambiente único das profundezas do continente negro!
E nesse percurso de ansiedade e angústia – ansiedade e angústia que povoam todas as guerras – sofremos com os protagonistas o medo que, nas noites de todas as emboscadas, até do soprar do vento nos vem, com eles ficamos derreados de cansaço e como eles “mortos por uma cama”.
Com eles e como eles sentimos a perplexidade de explicar que “do Minho a Timor a unidade nacional é inquestionável” e que “a missão das forças armadas é combater a guerrilha apoiada pelos inimigos de Portugal”.
Como eles caímos no espanto de ver como, então, ainda se conduzia a guerra de guerrilha segundo critérios da guerra clássica.
Com eles e como eles, passamos da inocência à raiva, por vezes rondamos a ira, e como eles sofremos a tangente da demência que ameaça à medida em que os meses se alongam, se sucedem intermináveis e a comissão parece não ter fim.
Tudo e sempre numa linguagem contida, em que o autor, como se imbuído de um estranho pudor, não queira levar a nossa inquietação além do que conseguimos intuir.
Por isso conta o que nos conta sem nunca ultrapassar os limites do necessário, se calhar às vezes ficando um pouco aquém.
É assim que da denúncia severa dos “Vampiros”, do Zeca Afonso, se basta dizendo que são “estrofes demolidoras”; que o comerciante que surpreende na estonteante geografia africana de Angola descreve apenas como “vagamente europeu”; que define o drama das populações locais simplesmente dizendo-nos que se situam “entre a pressão da guerrilha e a forçada protecção da tropa”; que o desgaste que a guerra produz nas unidades operacionais traduz na sucinta descrição de que “as baixas sofridas levaram ao seu desmantelamento por inoperacionalidade. Más notícias”.
E pelo meio oferece-nos fortes – mas ainda aí contidas – pinceladas da nossa condição humana.
Vemos como o medo é a primeira e última génese dos verdadeiros heróis, porque só suplantando-o nos suplantamos e vamos além do que somos.
Como as lembranças, por ocasião de um qualquer natal no mato, revelam de súbito o crescimento interior que todo o sofrimento aconchega.
Como sofremos a pior das solidões que é a que se vive entre a multidão que nos anula em vez de nos acolher.
Como, aos poucos, se ganha a percepção de quão estranhos éramos nas guerras a que nos condenaram, como, apesar de toda a propaganda, éramos, afinal, “o papão”.
Como, simplesmente por lá estarmos, até incutíamos nos nativos temor de “represálias aos seus pensamentos”.
Mas também como nunca alienávamos o sentido do dever, como sabíamos que a farda que vestíamos nos não consentia outra alternativa: ou a despíamos, ou a honrávamos!
É assim o “Bichos do Mato”.
Roteiro imparcial – mas nunca neutro – dessa dura e crua realidade que foi o tempo, o nosso tempo, da guerra colonial.
Ferreira Marques, à imagem da sua própria personalidade de homem frontal, inteiro e sincero, oferece-nos um livro apegado à vida, conta-nos uma história pela via de muitas e sucessivas histórias, escreve no registo difícil da simplicidade, cativa-nos a cada página, permitindo-nos entrar por dentro daquele que foi, certamente, um dos seus tempos mais sofridos.
A dado passo do seu texto revela-nos o episódio de um certo presidente que, sobrevoando Angola, ao ver a imensidão verde do terreno, teria dito “tanto trigo!”. O seu reverente ajudante de campo tê-lo-ia corrigido informando não ser trigo mas capim, ao que o perspicaz presidente lapidarmente respondeu: “mesmo assim, é muito!”.
Agora, digo eu que o Ferreira Marques nos brinda com um belo romance. Ele me corrigirá: “não é um romance!”.
“Mesmo assim, é belo!”, replico eu.
Pelo que só posso concluir dizendo: ficamos, todos, à espera do próximo.

Gustavo Pimenta
Prt., 2003.04.23

Bichos do Mato

de: José do Carmo Francisco, in "Notícias da Amadora" - Jornal semanáriosaber mais

«Bichos do Mato» de José Ferreira Marques

Como num filme, de trás para a frente, o narrador começa pelo fim esta história da guerra colonial. O primeiro plano é o regresso a casa: «Mirei-me no espelho e não me reconheci, sem boina nem quico, apertado num casaco azul fora de moda.»
Depois do rosto é o lugar («Estava a chegar à Régua») que faz o cruzamento do presente com o passado: «Viajara de noite com guia de marcha desde Torres Novas onde dera instrução a um pelotão de atiradores. Pensava que os levaria comigo. Afinal ia para Angola mas com outro pelotão a formar em Vila Real.» O Natal a anteceder a partida para Angola foi triste («Como é que a gente se despede da mãe para ir para a guerra?») mas depressa a história os faz saltar para Luanda («Aquela baía na nossa frente não é uma imagem de guerra, é um postal ilustrado.») onde são recebidos como maçaricos: «Ser maçarico é ter o camuflado novinho, sem aquele aspecto descolorido, curtido do sol e do pó. O maçarico é uma criança com uma granada na mão. O maçarico ri-se da guerra porque ainda não lhe sentiu o bafo da morte.»
Não era nada fácil estar no meio da guerra («Do Minho a Timor a unidade nacional é inquestionável. Como é que isto se explica? Não era o meu terreno.») como não era fácil lidar com a morte: «Ainda se pediu um helicóptero mas os helicópteros eram só para os feridos. Os mortos não tinham pressa.» Nem era fácil lidar com o medo: Depois do alerta («Meu alferes! Estamos a ver umas luzes!»), o alivio: «No dia seguinte regressámos e do inimigo nem sinal...» Mas de vez em quando até acontecem coisas caricatas numa emboscada («Não disparem! Rezem! - ordenou o coronel») com leituras diferentes nas esplanadas de Luanda: «Havia cartoons com o sujeito de Bíblia na mão, envolto num halo luminoso desafiando as balas...» Como num filme, o texto faz o retrato realista de Luanda numa segunda visita: «Agora Luanda era um quartel enorme, vestia camuflado. Aqueles homens e mulheres que se fingiam felizes pelas avenidas e as raparigas de sorrisos quentes bafejadas do calor sensual dos trópicos, eram irreais, personagens de um mundo de faz-de-conta.» Acentua-se a clivagem entre colonos e militares a propósito de uma frase do protagonista («Eu se fosse angolano se calhar até ouvia a rádio Brazaville») com uma resposta fulminante: «Ainda tem muito que aprender...» No meio da história é o cinema de verdade que se insinua: «Na véspera tinham solicitado quatro elementos do pelotão para figurantes. O furriel Armando ofereceu-se com mais três soldados. As cenas repetiram-se fastidiosamente. A montagem faria alguns truques para as tornar emocionantes.» O cinema está presente até na descrição da conversa com um colono: «As mais velhas estudam em Malange - disse, apontando as fotografias de duas raparigas em poses cinéfilas emolduradas sobre a cómoda.» E está inevitável no momento do regresso à Rocha do Conde de Óbidos: «Desço o escaler a sair dum sonho, a terminar uma aventura imaginada. Tudo parece irreal. Piso o cais e quebra-se o encanto. Regresso à vida. Como se acendessem as luzes numa sala escura, depois de um filme vivido.»
Escrito numa linguagem viva, sincopada, perto do ritmo do roteiro de cinema, «Bichos do Mato» tem o mérito de não se fixar nunca no simples registo minucioso das campanhas «militares» mas alarga o seu olhar sobre o outro mundo, o universo dos «civis», dando-nos conta das grandes contradições entre esses dois modos de ler a realidade de Portugal e de Angola no ano de 1966.

«Bichos do Mato», de José Ferreira Marques. Editora – Palimage, com capa José Ferreira Marques.

JOSÉ DO CARMO FRANCISCO
In “Notícias da Amadora”, Jornal semanário, Edição 1540 - 2003-07-03

Livros de Guerra

de: Jorge Freitas

Guerra Colonial
Livros de guerra

A memória da guerra colonial reaparece nas livrarias. Romances, ensaios e outros estudos aprofundam uma bibliografia já considerável

Depois de um longo período de silêncio sobre o drama da guerra colonial, apenas quebrado de vez em quando com a publicação de umas tantas obras de ficção, quase todas de excelente qualidade literária, as editoras nacionais parecem, enfim, dispostas a apostar num tema que até há pouco se manteve sob uma estranha reserva. Só em 2003 foram lançados mais de dez títulos: de estudos a romances, de memórias a ensaios.
(...)
Menos memorialista e mais ficcional é a obra de José Ferreira Marques Bichos do Mato (Palimage). Sobre este livro poder-se-á dizer que não se descobrem nele referências ou elementos excepcionais sobre o que foi a guerra na sua dimensão mais brutal, mas fica para sempre a beleza literária que o autor transmite. Na literatura de guerra já conhecida não há muitos livros tão bem escritos quanto Bichos do Mato. Só lhe falta a técnica romanesca para ser uma excelente obra.
(...)

Texto de Jorge Freitasin “Actual” – Suplemento do Semanário Expresso, 10 Janeiro 2004, p.12.