Corpo de Rio
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de Graça Magalhães

ColeçãoColeção Palavra Poema
GéneroPoesia
Ano2005
ISBN978-9-72-857580-9
IdiomaPortuguês
Formatobrochura | 62 páginas | 15 x 21 cm

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Corpo de Rio é uma homenagem à sensibilidade e ao amor erótico, feita em palavras, sobre um corpo. Nele as palavras fundem-se numa linha de continuidade entre o real e o imaginário como elemento de ligação amorosa que identifica o poder dos afectos desejados e renegados em todos e em cada um de nós. A clareza dos sentidos funde-se com a paixão e com a força das palavras em que predominam as imagens da comunhão profunda entre amar e ser-se amado, dualismo que resulta numa fusão dialéctica, conquistada entre o real e o subjectivo e torna Corpo de Rio numa escrita única e corajosa sobre o amor.
Rejeitando o ecletismo habitual da poesia quase poderemos descrever este livro, como se ele fosse num dado momento, apenas água límpida, pedaço de vida, para depois se tornar em rio, em torrente de espiritualidade sentida.
Em Corpo de Rio, as palavras vão fluindo, às vezes tímidas mas sempre em continuidade, num misto de força e suavidade, raiva e amor, coragem, fantasia e verdade.

Graça Magalhães

Graça Magalhães nasceu em Moçambiqueonde passou a infância.
Estudou em Coimbra onde concluiu licenciatura e mestrado em Ciências da Educação na Faculdade de Psicologia daUniversidade de Coimbra.
Exerce em Viseu a profissão de educadora de infância e colabora como professora numa instituição de ensino superior na mesma cidade.
Integra o grupo poético Sarau dos Danados participando em leituras públicas de poesia divulgando a sua e a deoutros poetas.
Tem poemas publicados em Antologias e Revistas on line e impressas, de que destaca a Revista Oficina de Poesia.
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Corpo de Rio

de Graça Magalhães

  • Modelo de Colaboração, Jardim-de-Infância / Família, Viseu, Instituto Piaget, 2007.

Apresentação de "Corpo de Rio"

de: Pompeu Martins (sociólogo)

Apresentação de «Corpo de Rio», de Graça Magalhães.

Fernando Namora escreveu no seu livro 'Jornal sem Data' que«O amor é a invenção de tudo, uma originalidade inesgotável. Fundamentalmente, uma inocência». Abro com esta ideia a incursão sobre o livro «Corpo de Rio» de Graça Magalhães, uma vez que se sente em toda a obra um trabalho permanente de afirmação do amor enquanto elemento identificador dos seres e enquanto expressão inequívoca da criatividade emocional entre os seres.
Se estamos, mais do que nunca, voltados para a importância que tem aquilo que constitui a inteligência emocional, também nesse esforço e nessa crença poderemos inserir este livro. Graça Magalhães desenvolve ao longo dos poemasuma persistência, não tanto sobre oque é explicável nas emoções, mas sobretudo pela construção das mesmas na edificação do ser que as desenvolve, que as partilha e com isso cresce e sobre isso se afirma.
«Corpo de Rio» é, então, um livro sobre a construção de sentidos por via da partilha, seja ela efectiva ou sob as leis de um desejo solitário, e que como tal nos entrega um longo caminho onde nos confrontamos com a linguagem do corpo, com a sua infinita expressividade, descobrindo sobre ela a comunicação estreita entre o erotismo do gesto e da carne com o erotismo do espírito e do pensamento.
A construção do erotismo é indissociável da construção do amor. Parece excessiva esta afirmação mas não creio que o seja. Sem um mínimo de entrega, sem um mínimo de morosidade contemplativa, não se concebe o erótico, mas o explícito, o banal, o acessível à superficialidade dos dias.
É preciso um bocado de amor, por pouco que seja, para alcançar essa construção satisfatória do erotismo porque é preciso tempo e dedicação para alcançar o que está para lá da evidência, o que sendo corpo está para lá do corpo e pertence de modo tão único e tão mágico à marca única, ao território específico de cada ser que interpreta e, por essa via, sabe apropriar. O corpo erotizado nunca é insignificante, nunca é breve, nunca é votado ao esquecimento por ser fruto da procura, do desejo, da entrega e da construção.
A não evidência expressa-se nos primeiros versos deste livro, intitulados «O silêncio das mãos»

Se não fosse porque os teus olhos têm a luz da terra,
quando entardece em África, com fogo e calor…
Se não fosse porque as tuas mãos têm a agilidade,
o trabalho em silêncio que ameniza a dor dos corpos….
Se não fosse porque a tua inteligência sobe
como uma trepadeira
e o teu corpo acompanha o tempo que não sobra.
Se não fosse porque a tua boca sabe a cerejas maduras
e lembra a Primavera, quando aparece tímida…
Se não fosse pelo tempo que nos falta
para ouvir o som cheio de poemas que não canto,
se não fosse porque as tuas mãos estão caladas,
se não fosse porque tens medo de ilustrar o tempo,
de ouvir um rio no meu corpo
ou sentir o sabor do sal no meu olhar…

Nada do que acabei de ler pertence ao imediato, ao superficial, ao desconhecimento do outro. A sabedoria do erotismo revela-se pela sabedoria de conseguir descobrir no outro a linguagem de prazer e de afecto sobre a qual se deseja o desenrolar dos dias e que nos devolve o corpo sempre inventado com que nos relacionamos.
Refere a autora sobre os afectos que estes são «belos, não pecam, nada imploram. /Apenas renovam o ser.». O corpo erotizado é também o corpo da liberdade. A liberdade no seu sentido mais puro e mais amplo, uma “liberdade livre” para utilizar a expressão de Rimbaud.
É de um corpo livre, renovado constantemente, que nos fala este livro. No poema «Corpo de Luz» escreve Graça Magalhães:

«(...) O melhor cabe no búzio em que te invento(...)».

Esta é também a expressão que nos menciona a existência de um corpo que, como atrás referi, será sempre um corpo inventado, fruto de uma demora, de um tempo de definição difícil pois pode ser muito bem a nossa impagável reserva de passado ou a imparável força que nos remete, por via do afecto e do desejo, ao momento futuro. Mas o corpo é sobretudo uma invenção e aí reside o seu tesouro. Ainda no mesmo poema:

«(...)O melhor cabe em tudo o que fica suspenso,
entre portas que se abrem, solicitações diferentes,
em que o roçar do desejo acontece.
E apenas os olhos se encontram, cúmplices,
descansam gestos atrevidos que sempre lembrarás.

O melhor cabe no silêncio das palavras por dizer
que eu invento devagar
como se o meu corpo pudesse acontecer contigo
e tu não soubesses(...)»

É também neste segundo poema que descobrimos uma felicíssima expressão que nos poderá nomear aquilo que o amor tem do seu lado mais profundo, o seu lado de construção do «eu» e do «outro» numa analogia mágica com o que nos resta entre a esperae a travessia, envolvidas ambas entre o que se é e o que se constrói com as emoções.

«(...)O melhor cabe no tempo que espero por ti
e no tempo que atravessas para me encontrar.»

Bela e extremamente subtil esta definição do que pode ser o amor. Versos adentro encontramos construções sucessivas acerca dos significados do corpo amado e entregue. Construções sobre o corpo de um modo semelhante àquelas que fazemos quando estamos incumbidos de criar um objecto que seja artístico e por isso interpretado e interpretável.
Estamos também perante um livro onde são expressas vontades, desejos, mas vontades e desejos que são fruto permanente de um diálogo, nem que seja somente esse tão prodigioso diálogo com a solidão. Mais uma vez, se encontra uma clara intenção de agir, de criar, de construir, negando por isso toda uma contemplação passiva e imediatista que nos dá conta de uma infeliz e frequente letargia das emoções. O amor e o erotismo são aqui retratados de um modo sempre regenerador e luminoso. Lê-se no poema «Quero»

«(...)Ao teu lado, quero vestir-me de Primavera...sempre.»

Saliento ainda a noção tão feliz de tratar o corpo amado como uma espécie de lugar de vida, mas também de lugar de exílio. O corpo no sentido de morada ou de refúgio, o corpo habitado pelas sensações e pelas histórias do amor a confundirem-se tanto com aquilo que a vida deverá ser. Esta ideia de corpo lugar é recorrente ao longo da obra.

«(...) como repouso dentro dos teus olhos
que me sabem a mar(...)»

O tempo, embora o não pareça, é um elemento basilar no modo como se constrói o erotismo pois sobre ele corre a intensidade do que é descrito e apropriado pelos sentidos. Um abordagem tão voltada quanto esta para a o amor construído induz-nos uma noção de finitude que de algum modo condiciona e força a urgência do amor e da entrega diárias.

«Que importa
se nada é para sempre,
se tudo se conquista
dia a dia...».

No poema «Flor do olhar» lê-se ainda sobre esta temática da vida e do tempo:

«(...)a vida é também este momento
que não volta mais.».

A vida é de facto o grande privilégio que temos e onde inscrevemos a nossa marca tão única, tão inimitável, tão verdadeira. Em tudo, mas especialmente no que amamos, é assim. É assim em toda a subtileza que lhe atribui o único de nós nessa implicação, nessa cumplicidade, nesse descobrir o amor «na flor do olhar», como escreve Graça Magalhães.
Termino esta breve apresentação aludindo à entrega de onde nascem todas as marcas que deixámos ao longo do tempo e onde fica o «eu» tão partilhado e tão construído, tão desse lume que ilumina e queima os dias, que aquece e, por vezes, destroi os pequenos, porém, infinitos labirintos das emoções.

Na língua do amor, a autora escreve:

«(...)Só posso dar-te aquilo que sou.
Não tenho mais nada».

Se os livros são companheiros de vida, este que aqui se apresenta traz consigo a intencionalidade de criar um permanente hino à transformação dos dias por via da identidade e da entrega segundo as tão pessoais e íntimas regras do amor. Ao amor tudo é possível.

Trago para Graça Magalhães esta outra forma de dizer os mesmos desafios numa inesquecível canção de Chico Buarque e Vinicius de Moraes de que cito uma das estrofes

Valsinha

Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar.


É desta transformação que fala o «Corpo de Rio», é do corpo mas do corpo que significa e que muda o mundo, tão nosso, tão íntimo, tão para ser dado.

Viseu, 2 de Abril de 2005.

Pompeu Martins