Da Timidez dos Homens
-20%

12,50€
10,00€

de Graça Alves

ColeçãoColeção Palavra Poema
GéneroPoesia
Ano2017
ISBN978-989-703-171-7
IdiomaPortuguês
Formatobrochura | 72 páginas | 14 x 21 cm

Efetuar compra

era bom que o amor se vendesse


era bom que o amor se vendesse
nas farmácias
excipientes e princípios ativos combinados
em cápsulas redondas e brilhantes
cor-de-rosa ou vermelho
tanto dava
tomava cada um a sua dose necessária
e era o equilíbrio
sem raivas nem rancores
quem morresse por excesso de dosagem
morreria por sua conta e risco
(farmacêutico e médico ilibados)
de febre ou de cansaço
mas não de desamor

Graça Alves

 

Graça Alves nasceu em Coimbra, onde vive.

É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, variante de estudos portugueses e italianos, pela Universidade de Coimbra.

Exerce a docência há cerca de 20 anos, tendo, ao longo da sua carreira, passado por diversas escolas básicas e secundárias do país.

Tem publicado regularmente poemas e textos de intervenção social no Diário de Coimbra.

Cores do Silêncio é a sua primeira obra de poesia publicada em livro.

Da Timidez dos Homens-20%

12,50€
10,00€

edição recente

comprar

Da Timidez dos Homens

de Graça Alves

Cores do Silêncio

12,50€

comprar

Cores do Silêncio

de Graça Alves

"DA TIMIDEZ DOS HOMENS" de Graça Alves

de: Prof. Doutora Carmen Gouveia (Univ. Coimbra)

 

                                             DA TIMIDEZ DOS HOMENS*

                                                            Graça Alves           

                                                         (Palimage, 2017)

 

    Depois de, em 2015, a Drª Graça Alves ter publicado a sua primeira colectânea poética intitulada Cores do Silêncio, em que estavam já patentes a sensibilidade e acutilância com que observa e “pinta” o mundo e as vicissitudes da vida, eis que vê agora a luz do dia o seu segundo livro, igualmente de poesia, e sugestivamente intitulado Da Timidez dos Homens.

     Como no livro precedente, há uma mensagem final de alguma possível esperança, que ecoa de tudo o que é referido ao longo dos poemas que constituem esta colectânea, numa circularidade evidente da obra e característica essa que se encontrava já também na sua publicação anterior.

     Mas esta nova obra da Autora apresenta muitas novidades, nomeadamente na abordagem dos temas, nas metáforas, na mensagem transmitida, na maior elaboração, e até no próprio estilo de escrita.

 

     Comecemos pelo título. À boa maneira da tradição clássica, já patente nas grandes obras da cultura mundial escritas em Latim, na tradição renascentista e também na própria Bíblia – e tradições essas que não são alheias a esta obra em vários pontos que adiante se referirão -, Da Timidez dos Homens (em que DA significa “acerca de”, “sobre”) é ainda uma denominação que nos remete para o enorme poder de observação do mundo e das pessoas, que é característico da Autora, e aguça-nos, pela singularidade do título, a curiosidade em ler os poemas.

    A estrutura do livro é a seguinte: 45 composições poéticas, precedidas de uma citação bíblica de S. Mateus, 6 (em que está já clara a ideia da Natureza e da Terra, mais concretamente dos lírios do campo e da sua magnificência); depois o poema Testamento Improvável, a que se seguem três partes - Do Amor, Dos Homens (a mais longa) e Da Terra. Encerra com um Apócrifo, que sintetiza os três temas maiores: Amor, Homens (no sentido óbvio de seres humanos) e Terra.

    Alicerçada, assim, nesses três vectores essenciais (Amor/Homens/Terra) a obra segue um fio condutor que a transporta à conclusão (que é também um desejo e um desabafo) dada no já mencionado apócrifo e que mencionarei, de novo, mais adiante.

    É interessante o contraste entre a grafia dos títulos das três partes, que funcionam quase como um triângulo (também ele conhecido símbolo de vida), com a primeira letra maiúscula, mas, nos poemas, escrito somente em minúsculas, como se estes fossem o “recheio” dessas partes, que irão expondo a visão (muito realista) que a Autora tem do mundo.

     Também em Testamento Improvável, que antecede as já indicadas partes fundamentais na arquitectura desta obra, Terra surge igualmente com maiúscula, numa inteligente “adaptação” da parte extraída do Evangelho de S. Mateus, 5, comummente mencionada nas celebrações da Igreja Católica («Bem-aventurados os pobres de espírito porque deles é o reino dos céus», etc.). Contrasta-se «bem-aventurados e «desventurados», como se a Terra fosse, aqui, o equivalente “ao reino Céus”: portanto, o âmago do poema, mas também da vida. Muito inteligente e sugestivamente, é até aproveitada a expressão “Testamento”, nos seus vários significados (como componente da Bíblia e como documento jurídico de expressão das derradeiras vontades e/ou legado aos vindouros). E não deixa de ser interessante que um Testamento (um prenúncio de morte) venha no início e não no fim do livro, como ligando o princípio e o fim, reiterando os valores a preservar e enaltecendo quem o faz, pois «para eles foi feita esta terra» (p. 12).

     Analisemos, então, as três (curiosamente, como as pessoas da Santíssima Trindade…) partes maiores deste livro, seguindo a ordem pela qual são apresentadas na obra:

 

     Do Amor: «Amor» surge em maiúsculas (p. 15), ao contrário do que ocorre com o mesmo poema na contra-capa: esta diferença terá, por certo, a intenção de englobar várias facetas desse sentimento-chave nesta obra.

     Assim, os temas que aí são explorados são a visão pessimista do amor e a desilusão com esse sentimento (p. 15), a ilusão quebrada com o casamento (Por exemplo, na p. 16, apresenta imagens belas e sugestivas, tais como as das noivas que casaram e as pétalas das flores caíram uma a uma, à semelhança das suas ilusões, por oposição às mulheres solteiras, que dormem tranquilamente com as flores inteiras. Atente-se em que o malmequer funciona igualmente como um símbolo, pois é conhecida a pequena cantilena que acompanhava o desfolhar dessa flor: Mal-me-quer, bem-me-quer, etc.), ou ainda o tema do amar sem dever amar…

   Nas páginas 20 a 23, está presente uma visão um pouco mais optimista, com uma clara ligação à natureza, ligação essa comum na Poesia em geral, e que surgia já na epígrafe da citação de S. Mateus. Temos, assim, elementos da Natureza, tais como: sol, vento, flores, uma associação luz/sol, a manhã brilhante, etc. O amor também está nessa Natureza – é o que parece sugerir-se.

 

      Dos Homens (p. 25 e seguintes e a maior das três partes em que se divide o livro)

      Neste grupo de poemas estão presentes a labuta diária, o trabalho árduo, a rotina e a crueza da vida e da condição humana, que se traduzem de vários modos.

       Na p. 29, o desalento da vida, os sonhos e os desejos não cumpridos; enquanto que, na página seguinte, enaltece a pureza e grandeza das mulheres, a quem – aliás - o firmamento se verga (brilho/estrelas)… , mas que são, apesar de tudo, as «mulheres dos homens»: pertencem, portanto, ao mesmo grupo.

       Os comboios chegam e partem, na p. 32, dando a entender que a vida flui: «viver é uma vertigem/entre o tudo e coisa nenhuma», mas realça-se igualmente, como ocorre na p. 34, a perda da esperança que se tinha na infância (ideia que se retoma no poema da p. 38 – a inocência da criança e a realidade da vida). Mas a vida continua, os homens persistem apesar das adversidades (p. 36), da guerra e do sangue, que são fruto da irracionalidade dos homens (p. 35), recorda o tema da emigração (p. 37), e ainda a procissão e a crença (p. 40) - num «arrependimento temporário», verso que denota uma lúcida crítica social, como na hipocrisia humana já mencionada no Testamento Improvável.

        Desfilam ainda temas como o fluir do tempo alheio a tudo (p. 43), a indiferença e desconhecimento da vida do outro (p. 44), e, na p. 45, uma vez mais a afirmação de que continuamos, «submergimos na corrente». Como humanos que somos, temos segredos (p. 46), somos reféns do sonho e do que não vivemos.

       A Autora retoma igualmente a ideia de que a vida é um palco (p. 47), comparação essa que foi já imortalizada por William Shakespeare («All the world’ s a stage») no monólogo de uma personagem da peça As You Like It:

     «All the world's a stage / And all the men and women merely players».

     Diz também a Autora: «desfilamos num palco/onde se sucedem as tragédias e as comédias».

      Há também algum fatalismo presente no poema da p. 48: «quando nascemos morremos já sós» e aí está a irreversibilidade da condição humana, que choca com os “Ícaros” que querem, em vão, voar. Esse fatalismo, decorrente da consciência da realidade reaparece no poema seguinte (p. 49), em que se contrasta, uma vez mais, a pureza do nascimento por oposição ao que a vida nos mostra vir a ser depois (p. 50).

 

     Da Terra (p. 51 e seguintes):

     Estão presentes presságios e premonições do fim dos tempos (p. 53, 54 e 55), a doença e a desgraça («um surto epidémico assolou a terra e vitimou os homens») e o mal que os Homens fizeram ao mundo, tal como refere (num poema premiado num concurso de poesia e intitulado As árvores já não gostam dos homens) quando escreve que «o tempo está velho» e que a Natureza está zangada: há desilusão, cansaço da Natureza, face às acções humanas. E, no poema seguinte, diz, muito significativamente: «e a memória é um livro velho/que não convém ler», pois sofreríamos com isso e não podemos mudar todo o mal já feito.

     Presentes estão ainda o destino, a desilusão (que vimos, omnipresente, no Amor, nos Homens e, agora, na Terra e dessa mesma terra relativamente aos Homens), a já referida fatalidade, destruição, desabrigo (p. 58) e a irreversibilidade do tempo (tão bem ilustrada em Apetece morrer sob as árvores), quando a Autora escreve os belos versos «apetece pôr vírgulas no tempo/e descansar do rasto cansado dos dias» (p. 59).

     Na pág. 60, em Hoje é o dia de todos os regressos, encontramos a “chave” que dá título a este livro: «o mundo avança desconcertado/porque os homens são tímidos/e é essa timidez que mata a pureza da Terra». Em suma, o medo de amar mata a Terra e ameaça a nossa existência. Uma ideia que deverá levar-nos a reflectir!

    Com uma liberdade só aparente, os Homens são culpados dos males da terra (p. 62-63), ou apagaram os males do mundo somente por segundos, mas já foi demasiado tarde: «e ouviu-se o canto do cisne» (p. 64-5), o que simboliza, como se sabe, mais um prenúncio de morte.

    O último poema (p. 66) antes do Apócrifo apresenta a metáfora do comboio a carvão (também símbolo de lentidão), a que pedimos inocentemente transporte («há um pedinte inocente em cada um de nós»). Isto é: tentamos desesperadamente sair dessa fatalidade e há pouco tempo (ideia recorrente) para o fazer. Um pouco de esperança, no meio da desilusão, e que pode ou não sair gorada. Mas talvez ainda vamos a tempo, se nos esforçarmos, e se não for de forma temporária – de novo o alento e a esperança, como no primeiro livro, apesar da consciência da realidade. A Terra foi, portanto, feita para os bem-aventurados…

 

    No Apócrifo encontramos, claramente expressa, a solução: amar os outros e a terra: «Bem-aventurados os homens/que se amam uns aos outros/e que amam a terra». É o Amor a salvação, portanto, para os Homens e para a Terra, pois a Timidez somente a prejudica e leva ao seu fim.

 

    Relativamente ao estilo de escrita, e para além do elaborado leque de metáforas muito bem conseguidas e límpidas (pelo que acessíveis a todos, sem falsa e escusada linguagem hermética), imagens inteligentes, símbolos e recurso a alusões bíblicas e mitológicas, etc., este livro traz várias novidades relativamente ao primeiro (Cores do Silêncio, também ele com um sugestivo e sinestésico título): a ausência de rima, métrica irregular e verso livre (Recordo que o primeiro livro da Autora é constituído, quase exclusivamente, por sonetos, com excepção de três poemas de verso variável, um deles – como se diz no livro - «escrito há muitos anos», e com rima).

 

    Trata-se, portanto, de um livro bem escrito, com uma boa arquitectura temática e organizado de um modo que traduz inteligência e estimula à reflexão sobre o mundo em que vivemos e sobre os valores que queremos defender, ligando (em circularidade) os três vectores-chave. Serve, o que é importante, para além do seu óbvio propósito estético, de recado, de alerta, relativamente ao que os Homens estão a fazer a si próprios, aos sentimentos (Amor) e à própria Terra que os acolhe.

    Diria, terminando, bem-aventurada a Autora que soube conjugar a Arte com uma Mensagem tão importante como a que aqui nos transmite!

 

 

                                                                             M. Carmen de Frias e Gouveia

                                                                                      Setembro de 2017

 

 

 

* Por razões científicas e pessoais, a signatária não adere às alterações gráficas constantes do “novo” Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que considera incoerente e absolutamente lesivo para o idioma.