Dar a Morte
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de Jacques Derrida

ColeçãoColeção Skiagraphia's
GéneroFilosofia
Ano2013
ISBN978-989-703-070-3
IdiomaPortuguês
Formatobrochura | 196 páginas | 16 x 23 cm

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Apesar das aparências, apesar do sinal do dom, apesar de uma passagem esperada entre o tempo e a morte, apesar da aparição, furtiva, é verdade, do narrador de La Fausse Monnaie (Baudelaire), Dar a Morte não é ainda o segundo tomo anunciado de Donner le Temps. I. La Fausse Monnaie (Galilée, Paris, 1991).
A figura para sempre dominante é aqui Abraão: aquele que, antes de mais, é certo, recebe três homens junto aos Castanheiros de Mambré, os enviados de Deus, e lhes dá hospitalidade para inaugurar a sua tradição. Mas Abraão é também aquele que, no fim de contas, sabe dever calar-se no Monte de Moriá antes de o anjo, um outro enviado, interromper a morte que, para a dar a Deus, ele se aprontava a dar ao seu filho preferido, Isaac – a menos que seja, em terra do Islão, Ismael de Ibraim.
Como interpretar o segredo de Abraão e a lei do seu silêncio? Porque parece ele incomensurável com o interdito, que parece reduzir ao mutismo todos os seus, todos aqueles e todas aquelas a quem, aliás, ele não confia jamais nada: e Sara e Isaac, e Agar e Ismael – tão cedo mandados embora? A estes quatro próximos, que se queria fazer passar por figurantes, nós lembrá-los-emos discretamente para o centro da cena.
Não se sabe mais como entender o indecifrável deste momento inaudito. Não se sabe mais reinterpretá-lo. Não se sabe mais, porque não é mais uma questão de saber, quem pode autorizar­‑se a reinterpretar o número infinito das interpretações que desde sempre dão aqui à costa em vista das costas ou soçobram no fundo dos abismos que se abrem à nossa memória, aí se descobrindo e encobrindo ao mesmo tempo.
Ora nós somos esta memória, por ela prevenidos e intimados. Inspeccionados no alto mar antes do naufrágio. Ela consigna-nos uma herança irrevocável. Nós podemos, é certo, denegá-la, ela permanece justamente inegável – e continua a ditar uma certa leitura do mundo. Do que um «mundo» quer dizer. Ou mesmo da mundialização hoje em dia da confissão, do arrependimento e do perdão. Abraão, sugere a literatura de Kierkegaard, teria pedido perdão a Deus: não por tê-lo traído, mas por lhe ter obedecido!
História da Europa, da responsabilidade, da subjectividade ou do segredo, possibilidade da literatura, tais seriam talvez alguns nomes, entre outros – ou apelidos –, destes desafios.
E o mais do que Um. E a questão de saber porque é que, na sua filiação abraâmica, a literatura teria de pedir perdão – por não querer dizer. E porque é que Deus teria ainda de jurar.
Reunidos em torno do corpus bíblico, alguns grandes veladores são escutados. Todos homens. Disputam-se a noite: Kierkegaard, em primeiro lugar, Kierkegaard indefinidamente, e Kafka sobre­tudo, e Melville, mas também Patočka, a seguir a Platão, Nietzsche, Heidegger, Lévinas.

 

     Jacques Derrida

 

Jacques Derrida

Nascido em El-Biar (Argélia) em 1930, Jacques Derrida é um dos maiores filósofos da história da filosofia e, num dizer de Ricoeur datado de 2004, «o pensador mais criativo do nosso tempo» – o seu nome está ligado à Desconstrução, um pensamento de recorte aporético que, no reiterado dizer do próprio filósofo, está sempre do lado do sim, da afirmação da vida – e, portanto, incondicionalmente do lado da justiça, da invenção e do porvir. Professor convidado de diversas universidades norte-americanas a partir do Outono de 1968 (Johns Hopkins, Yale, Irvine, New School for Social Research, Cardozo Law School, New York University), sucessor da cátedra de Gadamer na Universidade de Heidelberg por designação do próprio filósofo alemão, J. Derrida foi Director de Estudos na École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris, onde ensinou até ao seu falecimento, em Outubro de 2004, e é autor de uma obra imensa a que entretanto se junta a edição em curso dos seus Seminários (um corpus vastíssimo constituído por umas 14 000 páginas impressas que se estima virem a corresponder a uns quarenta e três volumes) que, para além de desvelarem o incomparável rigor da «palavra professoral» do filósofo – que escrevia sempre os seus seminários –, e a intensidade da sua paixão pelo ensino, trarão seguramente, no dizer da «Introdução Geral» do seu primeiro volume editado, «incomparáveis complementos à obra publicada» [J. Derrida, Séminaire La bête et le souverain. Volume I (2001-2002), M. Lisse, M-L Mallet e G. Michaud (ed), Galilée, Paris, 2008, p. 11]. Uma obra imensa que, a partir da singularidade e da hiper-radicalidade do seu pensamento (que o filósofo distingue singularmente de filosofia dando-lhe um recorte irredutivelmente aporético que, aliás, se dá a ouvir na sua própria designação: des/construção), repensa todas as áreas do saber e das artes repensando também as diversas áreas que tradicionalmente compõem a filosofia (ontologia, ética, estética, filosofia política, …), incluindo a própria filosofia, e da qual, entre nós, se contam traduzidos os seguintes títulos – um quase nada que põe a nu o tanto que, para nós, há a fazer no horizonte temporal de uma União Europeia em formação e de um mundo dito em mundialização onde a única língua admitida só pode mesmo ser a da «tradução»: «A estrutura, o signo e o jogo no discurso das ciências humanas»; Posições; Margens da Filosofia; O outro cabo; A voz e o fenómeno; «Fé e saber»; De um tom apocalíptico adoptado há pouco em filosofia; Cosmopolitas de todos os países, mais um esforço! ; O monolinguismo do outro; Véus… à vela; «A língua do estrangeiro – Discurso de recepção do Prémio Adorno em Frankfurt; Che cos’è la poesia? ; Da hospitalidade; A Universidade sem condição; Força de lei; Políticas da Amizade; O soberano bem; Sob palavra. Instantâneos Filosóficos; Morada. Maurice Blanchot; «Auto-imunidades: Suicídios reais e simbólicos»; Aprender finalmente a viver; Carneiros. O diálogo ininterrupto: entre dois infinitos, o poema.F.B. 
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