Dez Horas de Memória
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de Jorge Fragoso

ColeçãoColeção Imagens de Hoje
GéneroRomance
Ano1999
ISBN978-9-72-978480-4
IdiomaPortuguês
Formatobrochura | 188 páginas | 15 x 21 cm

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Sobre este livro houve quem dissesse que era "arrojadamente erótico...".
Outros opinaram que era "talvez violento"... e alguns ainda pensaram que... não...
O que pode ler-se na apresentação que o livro veicula não deixa margens para grandes dúvidas: "Esta é uma história carregada de sentidos, de gestos e de palavras em que ganha império, às vezes, a violência mais crua..."
Estaremos na presença de um romance que trata o quotidiano de forma hiper-realista, em que o amor e o ódio estão entrelaçados como redes sanguíneas profundas, e em que os sentimentos aparecem exacerbados, ora à flor da pele e do desejo mais carnal, ora se exprimem na mais pura e solidária amizade, ou ainda na agressão mais primária.

Jorge Fragoso

Jorge Fragoso
(Beira, Moçambique, 1956). Licenciado em Filosofia. Editor. Membro da Oficina de Poesia – curso livre da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra – e sub-director da Revista Oficina de Poesia.
Livros publicados: Inima, (poesia), Coimbra, A Mar Arte, 1994;  O Tempo e o Tédio, (prosa-poética), Viseu, Palimage, 1998; A Fome da Pele, (poesia), Viseu, Palimage, 2004; Réplica do Fogo Dentro, (poesia) Coimbra, Palimage, 2012; Rua do Almada (contos), Coimbra, A Mar Arte, 1995 e Dez Horas de Memória (romance), Viseu, Palimage, 1999, traduzido e publicado em Itália, com o título Dieci Ore, Nápoles, NonSoloParole Edizioni, 2006.
Participação poética e ensaística dispersa em revistas e colectâneas em Portugal, Espanha e Brasil.
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de Montserrat Villar González

  • Inima, A Mar Arte, 1994 (Poesia)
  • Rua do Almada, A Mar Arte, 1995 (Contos)

Sonho e forma – o (des)enraizamento do ser: Uma leitura de Dez Horas de Memória

de: Helena Ferreira Marquessaber mais

Sonho e forma – o (des)enraizamento do ser:Uma leitura de Dez Horas de Memória de Jorge Fragoso


Maria Helena Ferreira Marques
Escola Superior de Educação de Viseu


A capa deste romance oferece-nos, como primeira estrutura semântica, uma imagem capturada num círculo que nos faz lembrar uma objectiva. Tem o dom de destacar do conjunto de imagens difusas e insignificantes da realidade, a nossa imagem, a significação maior, o sentido intimista das coisas. Deste modo, através do enfoque de um pormenor, que leva também a sugerir o ponto de vista adoptado pelo artista, a perspectiva que interessa escolher, a posição do narrador perante o material diegético, entramos no sentido do texto antes de lá chegarmos, uma vez que podemos adivinhar um olho mnemónico nesta lente telescópica. Enfoque ampliado, buraco circular de memórias, hipérbole da dor remoída dentro de um espaço fechado sobre si: o quarto. Diluída, sem contornos bem definidos, a imagem salva-se de um tempo negro. Imagem de imagens, talvez já confusa. Um vulto feminino caminha de costas e em sentido contrário. Um afastamento. "Venise, c’est triste pour les tristes". Um fragmento fotográfico de Veneza, palco de paixões e de carnaval. Uma paixão travestida, "um teatro montado", "um romance de cordel", pensará mais tarde, Álamo Liz.

É este o rosto de capa que nos chega do novo romance de Jorge Fragoso, editado pela Palimage Editores. Depois de Inima , uma recolha poética editada em 1994, publica em 1995, uma colectânea de contos: Rua do Almada. Em 1998, apresenta o seu livro de poesia em prosa, O tempo e o tédio. É com todo o prazer que lhes quero falar hoje, de Dez horas de memória.

Começo por falar dos nomes das personagens deste romance. Todas são constantemente nomeadas pelo nome próprio, seguido do apelido, e nunca por um só, fazendo, a sua enunciação, lembrar aquilo a que o próprio narrador chama de "cacofonia". Ambos se ligam pela repetição sonora, em geral de uma sílaba. Espécie de aliteração, parecem formar um só nome entre si. Álamo Liz, Dália Dantas, Rui Lúcio, Marcos Coral, Gabriel Pallego, Violeta Valdo e por aí adiante. E nunca como disse, um vem sem o outro.
Nomes irreais para pessoas fictícias, que podem ser, um qualquer de todos nós. Mas nomes em projecto, utopia de quem queremos ser. E isso prende-se ao que de mais utópico tece este tecido narrativo, na forma como sonha uma relação amorosa, na forma como sonha a unicidade do sujeito, sempre sob suspeita, desintegrado e ameaçado pelo abismo, através de várias personagens, mas sobretudo Álamo Liz.
Como se aquilo que nos nomeasse no que de mais íntimo nos chama, o nome próprio, pudesse finalmente harmonizar-se com a nossa fachada social, representada pelo apelido. Embora possa não ter sido intencional da parte do autor, talvez o propósito tenha sido tão só estético, parece-me que esta tentativa da unificação do ser como um todo integrado, pela junção sonora, orgânica dos dois nomes, se deva contudo aproveitar, para explicar a frustração aqui contida, ainda que indirectamente, e sempre como pano de fundo de uma trama amorosa, de toda uma geração de jovens, representada por Álamo Liz e seus amigos. O caminho entre o dentro e o fora dos seres deste universo, é precisamente interrompido. A essência unificada contrapõe-se à existência imperfeita de uma identidade.

Todas as personagens representam um sonho e um falhanço. A geração que brandiu bandeiras garridas quando tinha 18 anos e jurava que o mundo podia mudar "por nossa vontade", como diz José Nilo, amigo de Álamo Liz e que mais tarde se volta " ainda mais para dentro do seu silêncio". (p. 44). Depois de lutador político, degenera em atitudes niilistas e refugia-se na paixão amorosa. Podemos falar do falhanço de Rui Lúcio, para quem agora, a guerra é outra "contra os pós brancos e líquidos que matam" (p. 96), uma guerra perdida para quem "mantinha o desinteresse para com as coisas da vida". O padre Gabriel Pallego, homem ainda jovem e carismático, depois de arredado do sistema religioso e social, por recusar um posto oficial, negando-se justificar de forma divina "a morte numa guerra suja na consciência", afasta-se desencantado, e vai "ver crescer as crianças para misturar com elas a sua pureza de cristal de rocha". Depois dos sonhos revolucionários, salta-se para uma década onde faltam modelos substitutivos. (p. 95) Álamo Liz refugia-se no mito da harmonia amorosa que vê malogrado. Violeta Valdo desaparece de cena e refugia-se longe dos Homens, dando sinal de vida, uma única vez, através de uma carta que soará como "um arrebentamento". Desastres, ainda que condensados na sua maioria, na primeira parte da narrativa, conferem ao texto a densidade dos sonhos jovens desfeitos: um suicídio, o desencantamento político, uma morte por overdose, o afastamento de uma jovem da sociedade par um lugar desconhecido, a perda oficial de um homem religioso e todos estes acontecimentos provocam feridas nem sempre confessadas, que se repercutem no equilíbrio das personagens.
Portanto, o esforço do autor em conceber seres com nomes harmoniosos, a partir do efeito sonoro, confere a estes donos de vidas desfeitas, uma sensação amarga de derrota, da geração dos anos 80 (estamos em 1986), ao querer unificar contrários, embalada que está, em sonhos de relações "sem posse nem autoridade", herdados dos mitos de 68. Marcos Coral, amigo de Álamo Liz e de sua amiga Violeta Valdo, diria melhor: "não limitar, não controlar, aliás o termo permitir já enferma, ele mesmo de algum erro. Não temos de permitir seja o que for a alguém, porque aceitar que permitimos é estarmos já a pôr-nos numa posição de autoridade, como se tivéssemos o direito de dizer a alguém o que deve ou não deve fazer". (p. 35).
A unicidade destes nomes pode ser contudo encontrada, no conceito do tempo descrito por Violeta Valdo na sua carta: um tempo eterno quando composto "do que vive exterior a mim e do seguir das horas condicionado pelo meu corpo, que o sente e o transforma". Um acerto entre o dentro e o fora, que não se concretiza. Curiosamente só em cenas associadas à morte: a cena do funeral de Rui Lúcio, onde o ritmo do trânsito citadino e dos sons desarticulados e ferozes da sociedade, se vê contrariado por um cortejo fúnebre excêntrico, mas manso e fraterno, marcado pelos cascos de cavalos negros. Na cena do suicídio, Narciso (Álamo Liz) prefere o delicioso escuro a renegar-se: "tudo tão escuro, tão deliciosamente escuro" (p. 183). Do lugar desconhecido, onde Violeta Valdo se encontra, alucinada pela dor de perder o homem que ama, sente que "todo o tempo é eternamente presente" onde "podemos ser nós".
O mito da harmonia amorosa defendido por Álamo Liz tenta oferecer-se em alternativa e parece impor-se como uma obsessão do autor, ao infiltrar-se por entre discursos distintos do romance: uma relação "onde não haja posse e ciúme".

Falando um pouco de estilo. Como damos por nós a escrever, mesmo que escondidos atrás de uma técnica aparentemente segura e ilesa? Quantas camadas separam o criador da sua criatura?
A narrativa obedece a uma descrição detalhada dos factos exteriores, impõe rigor no relato dos fenómenos, tal como aparecem na vida de todos nós, sem disfarce, um apuramento quase que naturalista. Transparece, a meu ver, uma vontade excessiva em capturar no estilo narrativo, uma ordem aparente do mundo, uma estabilidade ficcional, onde o narrador parece dominar por completo, os movimentos exteriores e interiores das personagens. Escolhendo a omnisciência heterodiegética, sabendo mais que as personagens, parece gozar de um poder que o poupa ao desassossego das suas criaturas. Dá-se uma descrição pormenorizada de movimentos diferentes e sobrepostos, das sensações, dos jogos de luz e de forma. Usam-se alguns verbos com peso de substantivos: "dentro do lembrar", "o seu falar", "o decidir", "um sentir", "o estar". Ao factualizar o verbo, imobiliza-o, paralisa por vezes a acção.
Este facto leva-me a supor que o narrador, ao dominar o estado das coisas, pela sua ordem aparente, recorre a este subterfúgio técnico, para escapar ao desassossego da perda e da solidão, que vive a sua personagem principal, Álamo Liz. Há que controlar o mundo, concentrar a atenção na calma exterior, mesmo que fictícia, apresentá-lo na sua fixidez, par nos distrairmos da dor e nos sentirmos a salvo do poço doloroso da memória, onde permanecem aprisionados os seres que amamos e já perdemos. Para sairmos de um adentro em desassossego. O narrador parece querer aprisionar uma dor desordenada e devastadora, domesticá-la, dominá-la, para que seja possível superar o tumulto da vida relembrada e relatada, do amigo Álamo Liz. Ou será a própria memória do narrador? A narração omnisciente é capaz de controlar as variantes todas da acção, temperá-la de detalhes minuciosamente descritos. Porém, no momento mais desarmado, o fio narrativo suspende-se e o leitor é assolado por um passado doloroso, lembrado no tempo de 10 horas, imposto pelo fio da memória ininterrupta e impiedosa, que fala ainda e sempre da perda, não tanto de um amor, mas de um ideal amoroso e de solidão.
Aqui poderíamos lembra-nos das palavras de Roland Barthes quando afirma que o estilo é de ordem biológica, que é uma estrutura carnal do autor. Quando "o mais profundo é a pele" como aparece na abertura deste romance, a afirmação de Valery em epígrafe, quando o outro-pele, império de sensações, ilha do náufrago, ponto fixo de novo ancoramento existencial, não está mais presente, será preciso de novo, enganar este corpo cuspido para o abismo?
Enganá-lo com outra pele orgânica, pois o mais profundo está na pele. É então que o desencantamento confuso da memória se agarra de novo ao corpo, à pele, ao respirar orgânico do poeta, à escrita, à materialização da memória na escrita. Então, a dilaceração, o desenraízamento interior, podem de novo ancorar na pele do outro, uma vez mais presente. Ponto fixo, ancoramento: corpo da escrita, em último recurso. Com memória epidérmica. E está-se a salvo, de novo. Palavra, organismo vivo, relação a dois, perpetuação de pele que se perde, ou substituição de peles, também.
Como diria Pierre Péju, o dom da narração, é aquele que considera uma história como algo que se dá ao outro, mas também que se oferece gratuitamente a todos e acaba por pertencer a cada um. Da voz dos sonhos de um autor, neste caso, Jorge Fragoso, sai-se da noite, e dá-se um toque de mágica, confundindo as vozes de todos quantos queiram aí encontrar-se. Por isso é que estranhamos que o narrador deste romance, ao impor-se a si próprio uma atitude de distanciamento em face do relato que faz das memórias dolorosas de seu amigo Álamo Liz, pareça em momentos inadvertidos da narração, cair na tentação de abusar do poder que lhe é conferido de narrador, e deixa escapar desabafos, talvez apelos desarmados, inocentes, ao pensar não serem reparados pelo leitor, ele sim, advertido, quando interpela na segunda pessoa: meu amor.

São estas duas palavras que o denunciam. É um apelo que escapa da escrita e sobrevive à ficção. Como se o narrador, também ele, personagem fictícia, desejasse tocar alguém e não lhe fosse mais possível: "aquela nostalgia que faz querer estar contigo, meu amor, quando até o tempo ganha distâncias de lonjura" (p. 46) e ele mesmo se veja cercado de ideias mórbidas: "A morte, meu amor, encerrará sempre os mais ocultos mistérios, as dores mais feridas, as verdades mais duras e magoadas" (p. 105).
Álamo Liz também conhece os segredos da escrita como possibilidade de se salvar da dor que mata: "esse ver-se cheio sem ter plenitude, e era preciso descarregar-se porque doía" (p. 26). E é sobre um poema que ele deixa ao narrador não identificado pelo nome, que o romance se encerra.
Ao dividir-se em capítulos, a estrutura do romance acompanha o tempo que leva a personagem principal, Álamo Liz, a reconstruir na sua memória, uma história de amor falhada, até à chegada de um amigo, o "seu último amigo", o narrador. Assim, a narração é entrecruzada por dois tempos sobrepostos. O tempo do passado recordado e o tempo da memória vivida, bem mais curto cronologicamente, mas assombrado de um vivido denso, incomensurável, doloroso, envolto de imagens do passado que têm que ser gradualmente digeridas, percebidas, até o protagonista ser capaz, finalmente, de tomar uma resolução para a sua vida, que acontece só na 10ª hora.
A par e passo, enquanto se assiste à gestação de uma história de amor e à sua morte violenta, o leitor vai sendo interrompido por uma memória sem palavras, um discurso perturbado, ao refazer o trajecto em sentido inverso de uma relação. Impera a necessidade de ordenar a memória, para controlar a mágoa e desse modo os dois tempos cronológicos entrelaçam-se, confundem-se por vezes. Encontramos gavetas intratextuais, de onde transpira o vivido mais recente de Álamo Liz, envolto em fumo de cigarro, o seu vazio, a sua ilha-quarto isolada do universo: "o quarto feito templo de criação sórdida da inquietude" (p. 41).
Podemos considerar como espaço privilegiado, ao longo de toda a obra, impondo-se como espaço simbólico de transformação e desintegração da personalidade de Álamo Liz, este quarto de dormir, dentro de um apartamento de um sétimo andar, ao qual se tem acesso através de um elevador, também ele investido de alguma simbologia, pelo jogo de paciência que ele impõe na vida das personagens. A sonolência do elevador parece assemelhar-se ao movimento da vida daquele, um jogo paciente contra o tédio, sem que pareça conseguir superar o vazio e o silêncio como mágoa.
O quarto é desde a 1ª hora de memória, palco de construção e destruição de uma relação. Mas também acolhe a personagem no tempo que antecede e naquele que lhe sucede. É uma espécie de mar profundo onde se choca o nascimento de uma nova humanidade. O apartamento, mais especificamente, o quarto, aparece na 2ª hora como refúgio, jangada de salvação, depois do perigo dos quartos alugados. "Ter aquele andar como seu, ao menos enquanto pagasse a renda, era a conquista de uma parte do mundo que iria resguardar a sangue e armas, se a tanto o obrigassem" (p. 16). Como a querer lembrar-se de si próprio, e para se salvar do perigo de se desintegrar no nada do tédio e da solidão, Álamo Liz, estabelece um sentido fenomenológico com o seu quotidiano. Ele vive em função do contacto de seu corpo com o exterior, os sentidos imperam sobre a sua forma de viver o tempo: "o corpo a pedir aconchego de um café quente." (p. 16), "a água quente correndo o corpo, um quase mesmo sentir de quando fez amor". Depois, aparece a descrição dos cheiros da casa, o acto de esfregar o corpo para activar a circulação. Mas também o peso do silêncio como mágoa e com "a cor da solidão", embora não sendo absoluto, visto que à espera da palavra. Palavra do amor que salva. A eleita que se espera. Nos dias solitários e amargos, "uma solidão envelhecida tomava conta do peito e ele desenhava-se no querer diferente o desejo, o carinho, alguém" (p.62). Alguém! Objectos novos e essencialmente femininos vêm então povoar o quarto que parece ser palco indiferente da transformação da vida do seu locatário. Este passa a ser organizado por mãos femininas e cada objecto acolhe em si momentos vividos. Todos os objectos falam de uma relação. Agora carinhosamente acolhidos, depois violentamente destruídos, alguns trespassados pela lâmina de uma faca, outros ilesos e furtados ao lugar que foi ninho de amor. Vidas precárias, as destes objectos, à mercê de umas mãos femininas. Por fim, fica de novo o quarto impenetrável, mais vazio que sempre, acolhendo um ser desfeito, albergue de um corpo em ruínas, o corpo de Álamo Liz. Cão abandonado pelo dono, corpo vadio e insano: "levantou-se sobre os joelhos ganindo um som baixo, apertou as coxas, de encontro ao peito e cruzou os braços sobre as pernas, rodou e soltou um gritou dilacerado repetido e repetido que se repetiu na casa vazia" (p. 117). Um grito em perpétua repetição, um eco de perda sempre igual. Um grito no silêncio, desta vez, absoluto, quando já não espera.
A solidão redobrada e a obsessão do desejo da pessoa amada, aparece associada ao medo da loucura. As memórias adensam-se, turvam as referências do real e povoam uma mente labiríntica e assombrada pela perda e pelo medo, num espaço fechado sobre si mesmo: o quarto das memórias. Como se a ideia da loucura se erigisse sobre a ideia da repetição da dor, cada vez mais intensa e incontrolável e não houvesse outro lugar no mundo: "a loucura virá do pensamento repetido? Muitas vezes a ideia, sempre a mesma e igual a si mesma e ideia de si mesma, igualmente repetida, ligada como elos ao início de si mesma, ideia, rodando como espirais infinitos, encontrando no fim, não o fim mas o princípio de novo e de novo recomeçar num caminho sempre o mesmo" (p. 118). Este espaço oferece-se como terra gestante, mas também acolhedora da morte, mãe fiel ao filho que se concebe, se cria e acolhe no último sono.
Com o mesmo peso que o do quarto, aparece a descrição do tempo atmosférico, ainda que a sua carga semântica seja mais ténue, no texto. A vida solitária da personagem é envolvida por uma névoa, neblina ou pelo frio. A abertura do capítulo da 1ª hora, dá-se com uma imagem a descrever a cidade do Porto coberto de neblina. Até ao capítulo da 3ª hora, ainda subsiste o nevoeiro sobre o Porto. E no apartamento visualizamos o nevoeiro da água do banho. Só na p. 48 é que, pela 1ª vez, a névoa e o frio solitário, parecem querer esvair-se e o acontecimento corresponde à 1ª noite em que Álamo Liz leva Dália Dantas a jantar com os amigos. "Tempo em que as noites se libertam das névoas e geleiras do inverno lento". Desta forma a alteração do tempo atmosférico marca o início e o fim da relação. Mesmo estando na primavera, a ruptura dá-se por um dia de "uma morrinha batida pelo vento, que faz o mar levantar-se e leva pela cidade toda uma névoa muito escura que aborrece" (p. 146).

A concepção do amor nesta obra, está intimamente ligada ao corpo feminino, e constrói-se sobre os padrões estéticos de Álamo Liz. É sobre um corpo agradável, o de Dália Dantas, que ele projecta pela primeira vez, o seu desejo e o sonho do ideal feminino. Mais tarde, Álamo Liz, é levado por Violeta Valdo a casa de uns amigos e repara de imediato na beleza física de uma das convidadas. O narrador alonga-se sobre a sua descrição e compara-a às estátuas de Esparta. No dia do funeral, de novo um reparo idêntico. Há uma apologia à atracção instintiva pela carne, um desejo de posse primitiva. O corpo, perigo fatal de engodo, mentira que faz esquecer quem realmente Álamo Liz procura: "é mais fácil encontrarmos quem nos domine do que quem nos compreenda" (p. 56). Álamo Liz foge desesperadamente do desejo de posse e do ciúme, mas é geralmente sobre o corpo feminino, que ele projecta a sua primeira identificação, sem se certificar da pessoa que o habita. Apesar do seu discurso: "a par de uma parte de nós nos darmos com vontade haver uma necessidade de respeitar a outra parte, uma espécie de cidadela de pensamento, um espaço murado do ser de que nunca saímos totalmente e que não permitimos aos outros a sua invasão" (p. 59). O narrador lança alguns presságios: "Álamo Liz acendeu um cigarro e foi para casa, dormir, no caminho atentar descobrir a razão inquieta do medo".
A par disto, a relação do seu corpo com os objectos da casa, as formas visíveis que se apreciam, o acto de esfregar o corpo para activar a circulação, são pormenores que constróem uma experiência com o mundo e com o amor, muito física. Pele contra pele. Curiosamente, no início da sua relação, tanta felicidade parece-lhe uma quimera: a angústia e a solidão, quando vincadas na pele, impossibilitam que se acredite nas suas novas mensagens. A pele, uma vez mais, mapa orgânico do eu, caminho percorrido no tempo, linguagem, história de vida, mais um pedaço de si: "mas não, ela é real, viva, tem cheiro, um odor de carne que acende o corpo. Ele tocava-lhe, ela era quente, movia-se, estava ali". Damásio já nos explicou como formamos o sentimento de "Si". Consciência de si próprio, pela experiência percorrida entre o corpo e o mundo, recriados sobre estados emocionais e sentimentos, e sentidos de novo como Si.
Presença-corpo que vai ditar a história futura de um amor. Uma história de ciúme. Posse carnal e violenta. Nas palavras do narrador, a expressão da posse exagerada exercida sobre a personagem, "fazendo-o sentir-se objecto, coisa material que se possui e domina e dispõe a arbitrário prazer". (p. 112).
Vamos ouvir um relato que descreve o estado de espírito de Álamo Liz depois da ruptura do casal: "E com o tempo achava-se triste. Cada vez mais triste. Descobria como enorme fora o seu engano ao julgar Dália Dantas um ser superior, dotado de uma extraordinária sensibilidade, e de um sentido extremo de correcção das coisas que são viver" (p. 140). Será que continuamos na busca do ideal da identificação espiritual e identificamos em primeiro lugar o corpo? Que podemos encontrar nesta permanente contradição humana do drama amoroso? Como explicamos a sedução, o engodo físico, quando desejamos a fusão de identidades? Acreditamos sempre que um conduz ao outro e esse é o milagre do amor.
Vimos o mundo como somos e não como ele é, diz-nos Paul Éluard. Foi isso que Álamo Liz viu em Dália Dantas. Como podemos esperar da estátua que moldamos longamente, saída da nossa própria criação, que ela seja ao mesmo tempo, outra, divisível e distinta? Pigmalião não esperou a mulher. Ele criou a mulher do seu universo interior. Gerou uma estátua.
Depois de desfeitas as desilusões, só podem impor-se a apatia e o vazio absoluto: ( p. 141). Em "Sonhos de uma noite de verão" Shakespeare constrói uma personagem, que depois de acordar do efeito mágico do encantamento amoroso, provocado pelo feitiço de uma poção, se apercebe que tinha projectado o seu enamoramento no primeiro ser que visualizou, constatando finalmente, que ele possuía orelhas de burro. Da 1ª vez que Álamo Liz vê Dália Dantas, o narrador informa que ele construía a posse de um novo corpo. No final da evocação da sua história de amor, Álamo Liz sussurra: "descobri um íntimo feroz num corpo lindo" (p. 134). Porque se dissocia ainda o corpo da sua própria consistência? É por isso que Álamo Liz se pergunta: "como era lindo o corpo dela. Mas era lindo porque o amava, ou amava-o porque era lindo?" (p. 144). Voltamos ao início e relembramos como a harmonia do nome das personagens, não evita a sua dissociação interna. Álamo Liz sente que "há sempre qualquer coisa que fica por saber na vida das pessoas" (p. 140).
No "Último tango em Paris", o drama central da personagem desempenhada por Marlon Brando, passa despercebido pelo impacto forte das cenas eróticas. Um homem apercebe-se demasiado tarde, que não conhecia a mulher que amava e com quem vivia fazia muito tempo. Só quando ela se suicida, é que o marido constata angustiado, a solidão que a povoava, o quão grande era a distância que os separava. Afinal vivera longe da pessoa que mais amara e nem suspeitara. Até à interrupção abrupta de uma vida. Curiosamente, também ele, tenta apossar-se de um corpo feminino para estrangular a dor, mas também na tentativa desesperada de sulcar, comer-lhe avidamente a alma, que afinal, deixara escapar no outro corpo que partiu sem avisar. O da amada.

O amor é consumado na sua plenitude, num país que adivinhamos vaporoso e não sabemos onde fica. Mas como já referi anteriormente, trata-se de um país onde o tempo é eterno e muito perto da vivência da morte. Violeta Valdo e Rui lúcio, duas personagens que podemos arrumar no universo psicológico de Álamo Liz, movidos por impulsos de amor, destituídos de sentido prático, dissociados do senso comum, personagens que parecem sair de um mundo etéreo, onde é possível unir o finito ao infinito, um pouco o mundo das fadas do imaginário celta da idade média, materializam na obra, a unicidade, a dádiva totalizada (pp. 168-172). A utopia do romance decifrada nos nomes. São as passagens de uma carta escrita por Violeta Valdo a Álamo Liz, que melhor o sonham. A carta representa o motivo literário mais forte dentro da trama narrativa, que contribui para a coesão semântica, ligando as partes intertextuais, ao mesmo tempo que desencadeia nas personagens uma aceleração da sua transfiguração psicológica, ao facilitar a revelação da sua identidade mais profunda.

Violeta Valdo e Rui Lúcio sugerem, sobretudo no episódio do funeral e através do conteúdo da carta, a ideia de harmonia cósmica, comunhão de pólos opostos, imortalidade, linguagem esotérica e nem por todos descortinada. Uma forma de decifrar os enigmas existenciais, sob um código oculto, já longe do mundano e dos sistemas rígidos, um paradigma mitológico e fantástico.
O desfecho da obra faz por isso, uma apologia a este paradigma por descobrir, um mundo possível, ainda a construir. Talvez por este motivo se encerre a obra sobre a alusão ao Estrangeiro de Camus. Sentir-se estranho entre aqueles que se dizem Homens. Precisamente. O outro paradigma está em devir. As personagens preferem escolher o "delicioso escuro", como é designado no poema final de Álamo Liz, o lugar desconhecido, ainda associado à morte, em vez de se aprisionarem no lugar que os desintegra, corrompe e dissolve em vazio e angústia. Narciso prefere o delicioso escuro, que ver alteradas as suas amadas formas reflectidas nas águas do lago. As personagens positivas da obra, convertem o escuro à delícia, preferem "tudo tão escuro, tão deliciosamente escuro" (p. 183), em vez de sacrificar-se ao molde que o mundo lhes quis impor. Recusam viver aquilo a que Álamo Liz designou por "romances de cordel".
Estes seres poéticos , já algo soltos do chão que pisamos, fazem-nos lembrar um pouco Marcel Proust, ele mesmo. À sua semelhança, o protagonista usou do poder da memória e da escrita para recuperar o tempo perdido das suas vivências, vendo-se também ele, limitado ao seu próprio quarto, tornado quarto de recordações. Em Proust, a ficção passou a ser mais forte que a própria vida; no seu caso particular, ficou imobilizado por doença, nos últimos anos, e viveu quase literalmente pela escrita. E é com as suas palavras que acabo, a lembrar a força regeneradora destas viagens fictícias na nossa vida, lembradas aqui pela criação do romancista, Jorge Fragoso.
Depois de desembarcarmos da viagem romanesca, já somos um pouco outros. De comboio, de preferência, pois Álamo Liz tinha um fascínio estranho por eles. Por isso a abertura e o desfecho da obra se dá a partir deles. E Proust também fala das viagens por realizar, ainda que realizadas de comboio. Romanesco, claro:

"Cada ser é como um ideal ainda desconhecido que se abre a nós. (...) ficamos com a ideia que existem bem mais vidas que aquelas que pensávamos viver, e isso dá mais valor à nossa pessoa. Um novo rosto que passou, é como um encanto de um novo país que a nós se revelou por um livro. Lemos o seu nome, o comboio vai partir. Que importância tem se não partimos, sabemos que ele existe, temos mais uma razão para viver".