em nome da Grei
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de Gustavo Pimenta

ColeçãoColeção Imagens de Hoje
GéneroRomance
Ano2003
ISBN978-9-72-857546-5
IdiomaPortuguês
Formatobrochura | 292 páginas | 15 x 21 cm



*LIVRO INDISPONÍVEL*

"Durante longo - demasiado longo - período do nosso tempo recente, muitos - demasiados muitos - jovens tiveram de não apenas ir à tropa, como de partir para a guerra.
É deles esta história.
Que, sendo diferente de todas as outras, é o seu somatório e igual a todas elas".
No seguimento do seu primeiro livro sobre a guerra colonial - "sairòmeM - Guerra Colonial" - e com o mesmo sentido de uma memória retrospectiva, Gustavo Pimenta narra agora, com a mestria que já lhe conhecemos, aquele período de recruta e preparação para a guerra de África decorrido nos quartéis da "Metrópole".
Uma dúvida profunda se colocava naqueles dias: ficar, e ir para a guerra, ou abandonar tudo, e fugir?...

Gustavo Pimenta

Gustavo Pimenta Nascido a 1944.Janeiro.29, em Crasto - Ponte de Lima. Advogado. Em diversas circunstâncias e por diversas vezes, membro de órgãos nacionais do Partido Socialista. Foi deputado à Assembleia da República na legislatura de 1991/1995. É membro da Assembleia Municipal do Porto.
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de Gustavo Pimenta

Apresentação de em nome da GREI

de: José Cândido Rodrigues

em nome da Grei

Estar aqui na apresentação de mais um livro do Gustavo é para mim uma alegria, um conforto, um entusiasmo, uma festa. E tudo, e sempre, duplamente.
Primeiro porque não sei, nunca soube, se o Gustavo é meu primo ou meu irmão. Depois porque o livro me leva ao fundo das minhas memórias, e me deixa aí perdido e contente, numa ressurreição sem Páscoa. Todavia, apesar deste encantamento, sinto-me obrigado a colocar-vos, meus amigos, perante um desassossego, um meu desassossego.
É sempre ingrato promover a leitura dum livro. É ingrato porque é incorrecto. É incorrecto porque é indevido, porque é talvez, mesmo, abusivo.
A dois níveis. Em dois distintos planos.
Primeiro, porque será um pretensiosismo da minha parte buscar sentidos, sejam eles explícitos ou ocultos, num texto que não me pertence. Penso que não devo, ou não deveria, remexer sujeitos, buscar complementos, presumir circunstanciais, extrapolar factos, ou colorir referentes no teu livro, meu caro Gustavo.
O texto é um quadro pintado com tintas ( Pessoa o disse…) e não cabe a um qualquer espectador-leitor o direito de o pincelar a seu modo, a seu jeito, ou a seu gosto. Muito menos é legítimo fazê-lo para compor a orientação de leituras. Se alguém tem o direito, melhor se alguém tivesse o direito de o fazer, esse seria o seu autor e não quem do texto queira fazer analogias, articulações ou análises.
Acresce, e é bom notar-se, que a obra de arte é, pela sua própria natureza, não um produto, mas um produtor. A obra de arte logo que é dada ao público ganha independência, e ganha autonomia. O texto, o livro, a pintura, toda a obra de arte funciona livre e independente, e é independente e livre que se vai colocar perante os diversos leitores e nas diversas circunstâncias.
É assim que cada um lê a seu modo e na conformidade das suas intimidades e das suas conveniências, sejam essas conveniências afectivas ou de utilidades tecnocráticas. É por isso que o acto de ler é antes de mais um exercício de liberdades, de incontroláveis liberdades.
Ler é também um exercício de inteligência. É um agilizar de mecanismos mentais à procura de representações. Ler é transformar o papel pintado em imagens virtuais, é produzir um filme que corre por dentro dos nossos sentidos. Ler é ainda uma pesquisa para a descoberta. É por isso que ler é uma aventura. E não há nada que possa pagar uma boa aventura.
Neste contexto poderá ser indecoroso da minha parte estar a induzir leituras, a abrir frestas de leituras, sendas de interpretação, carreiros de entendimento ao futuro leitor.
Não suporto, ou suporto mal, a ideia de propor sugestões de leitura de encaminhar juízos, de inviosar entendimentos,. A aventura, a aventura de ler, nunca pode ficar prisioneira. Nem sequer condicionada…

Mas é curial este protocolo. Curial e saboroso. E ainda bem. Os amigos, os companheiros, os interessados, devem partilhar os bons momentos e fazer a festa.
Os amigos são ou são para as ocasiões? E mais…. Um livro é sempre uma grande ocasião.
Todos conhecem a trilogia que na perspectiva de Eça de Queirós realiza uma pessoa. Fazer um filho, plantar uma árvore e escrever um livro. E se os filhos nos são definitivamente importantes e as árvores convenientes, escrever um livro é uma muito rara realização.
Escrever um livro que mereça ser livro. Que seja capaz de tranquilizar a existência.
Em nome da GREI. é um livro. Um livro de muitas memórias e para ficar na memória. É um livro para tranquilizar a existência de quem o escreve. É um livro atrevido. Um livro que são dois livros. Ou talvez um livro dentro de outro livro Ou, se quisermos, um livro em dois percursos de memórias.

Muitos de nós ouviram falar da GREI de forma insistente. E ficávamos, então, com a ideia que GREI era a pátria. Se calhar mais que a pátria. Assim uma espécie de… alma da pátria…
Eu fui buscar o sentido de GREI e encontrei “rebanho de gado miúdo”, paroquiano, partido, povo e sociedade.
E não haveria melhor título para traduzir o curso da síntese das memórias cruzadas, umas difusas outras concretas, que fazem um dos tecidos desta novela.
Na verdade, por ali corre o rebanho do gado miúdo, uma mentalidade paroquiana, um povo prisioneiro do partido único, uma sociedade a decompor-se. Por ali anda este país de cócoras na viragem da década de sessenta.
Muitos recordam e em muitos doeu este quadro social.

O outro curso ou percurso de memórias é difuso mas não é confuso. Corre num monólogo interior e centra-se na família. Naquela família que muito bem definiu a senhora Françoise Dolto e que é a família “de amar e ser amado.” E bem no centro, como íman, como epicentro das tempestades afectivas, está a Joana.
Este livro em nome da Grei é também, e de forma muito evidente, em nome da Joana...
Porém, que descanse a Joana… porque deste curso de memórias não falarei mais. São ternas demais essas memórias para se dizerem. Mesmo perante um público amigo.

É numa linguagem depurada, viril e elegante que o texto se escreve. Não correm por aqui lustrosos adjectivos, nem hipérboles, nem atrevimentos metafóricas. Não há na “litera” do Gustavo rodriguinhos ou enfeites, malabarismos sintácticos, combinatórias de presumida erudição. Mas ele sabe buscar a palavra original da avó e dar-lhe a dignidade merecida. Para ele, para o Gustavo, os castanheiros continuarão a baguar…
E como é bom sabermos que dispomos dum acervo lexical que os senhores do Dicionário da Academia ignoram. Que saboroso é dizer timão, pijeiro, munelha, chideiro, apeladouro… coisas muitas que a nossa infância rural soube aprender...

O discurso directo neste livro de memórias é o que sai da boca de cada personagem no vernáculo de cada circunstância. O jargão militar, quadrado e bruto, aparece com naturalidade, salta da espontaneidade da marcha ao som do tambor. (Sempre o som dos bombos e dos tambores dissipam os pensamentos. E é por isso que eles são instrumentos eminentemente militares). Logo, então, quando não há tempo para pensar sai a interjeição. E a interjeição é o que há de mais modesto no falajar do militar.

Mas voltemos ao romance, melhor à novela das memórias…
As memórias de diferente natureza não se combinam em sequências alternantes nem funcionam por encaixes mais ou menos paralelos. Em nome da Grei apresenta-nos uma arquitectura simples e, quanto eu posso saber, bem original.

A narrativa mãe vai-se cumprindo diacronicamente, com o passar dos meses. Inicia-se com uma intimação de corte da barba, em nome da GREI, na repartição pública e logo depois a consequente chamada para a vida militar.
As peripécias na tropa são muitas. E muito estranhas.
Grande parte delas vem dar razão a Aldous Huxley quando garante que há três tipos de inteligência. E cito: “a inteligência humana, a inteligência animal e a inteligência militar”
Pois mesmo neste perigoso acaso militar, o narrador é sempre participante. E participante de primeira pessoa. Ousadamente, corajosamente, da primeira pessoa.
Convenhamos que não é cómodo um indivíduo falar de si próprio nos ambientes caserneiros, nos golpes, nas manhas, nas astúcias, nas ramboias. E também nos actos de coragem, nos momentos de afirmação, nas decididas atitudes, em tudo aquilo que a tropa proporciona e a tudo que a tropa pode obrigar.
Ser militar é ser sempre uma pessoa humilhada. Muitas vezes é ser uma espécie de pessoa aniquilada pelos comandos, pelas ordens e pela ciência militar que é um misto de astrologia e religião.
Mas naqueles ambientes o que mais aniquila é o uniforme. Nada mata mais depressa a identidade e a personalidade das pessoas do que o uniforme. Qualquer uniforme.
A natureza é multiforme, diferenciada, irregular. Mas na tropa, perante o comando e sob o uniforme até as palavras que são a melhor manifestação da inteligência humana, se degradam e desaparecem sob um uniforme( Veja-se Sem- ap. Esqê- êr; Escan- ar…)
Na verdade basta juntar a palavra militar a qualquer conceito para que este perca todo o sentido.
O que será uma justiça militar?
O que será uma música militar?
O que será um cortejo militar?
A tropa faz do mancebo um pau mandado, um cidadão sem direitos, um paisano. O militar não é um civil. E se não é um civil não é civilizado. O militar da tropa, o retinto militar da tropa é um lateiro. E é lateiro porque sempre se coloca em cima da gamela onde procura demasias para proveito próprio.
Também eu conheci quartéis onde a sopa e o presigo eram a mesma repugnante lavadura. E também por aí os lateiros se engordavam à custa da ração dos soldados.
Na minha instrução da guerra deram-me, por ração de combate diária, um casqueiro e duas latas de sardinhas. Estragadas sardinhas, duma exportação falhada, dizia-se, porque devolvida pela Alemanha.
E por aí aprendi e aprendemos a comer nabos crus, tomates da horta e outras guloseimas da mãe natureza.
Meloal, tomatal, cenoural ou nabal onde caíssemos era um vendaval e um destroço.
E tal como no meu tempo continuaste a brincar às guerras clássicas, a manusear a Kropacheck de estocada lançada como na guerra das trincheiras.
E em Mafra fizemos o lamaçal da pista de obstáculos às sextas feiras. E rastejamos pelo túnel onde havia animais em decomposição, e fezes, e outras inomináveis porcarias.
Nós dizíamos de Mafra que antes África que Máfrica...
Porém, e apesar de todo o picaresco, tu já não tiveste a sorte de estudar em Mafra por aquele fabuloso manual ( Eles ainda não sabiam o que era a guerra de guerrilha…) aquele fabuloso manual da ciência militar que recomendava que no assalto o “militar deve lançar gritos selvagens tais como ‘VIVA a Pátria!!!!’”
O teu livro, Gustavo, é um manancial de evocações onde tropeçam as nossas memórias. E nas memórias tropeçam muitas personagens onde cada um poderá encontrar a sua própria novela… Reinventar a sua própria novela…
Ora, é quase sempre à medida que a narrativa tropeira vai decorrendo que surgem, encastoadas nos apropósitos, as evocações afectivas.
Não há para estas evocações afectivas um nexo cronológico. Elas ocorrem, no tempo, mas resultam da circunstância, e acorrem à mente para suavizar e compor o exercício pesado e porco, a ordem humilhante, a simples nostalgia do rio manso, da gente humana, das coisinhas de casa, dos afagos e dos mimos.
É óbvio que as memórias nos transportam realidades. Realidades que podem doer e dar prazer. Realidades prementes estejam elas próximas ou ausentes.
A memória é muito mais que um escaninho guardador de jóias ou que um alforge de péssimas recordações. A memória somos nós imaginados. E se estamos imaginados é essa a nossa imagem, a nossa verdade, a nossa realidade...
“Shakespeare dizia que a memória é a guardiã da mente”. Mas é uma guardiã de hoje e de cada momento. Uma guardiã que vai buscar o que nos afaga ou que nos fere, o que nos seduz ou nos sufoca, o que amamos ou o que odiamos.
A realidade concreta foi-se na vertigem das horas. Foi-se e perdeu-se. O que nos resta não é o que fizemos ou não fizemos. É o que imaginamos. E sempre e só imaginamos o que a memória nos traz num ofertório absolutamente subjectiva e pessoal para que tenhamos o incontornável direito de ser iguais a nós próprios.
O que imaginamos é o que tem que ser porque é sempre com o imaginado que sonhamos. É por isso que com memórias se tecem novelas e se tramam romances. É por isso que estas memórias são uma novela. Uma novela que fala, mas que também inventa. E quando inventa pica a nossa imaginação para além do tranquilo quotidiano.
Na novela, enquanto género narrativo, o protagonista, aqui narrador de primeira pessoa, nunca sai de cena enquanto cumpre o fadário novelesco.
Nesta novela, a partida é feita em Viana do Castelo. E daqui passa pelas Caldas, Lisboa, Mafra, Penafiel, Tancos, Tomar, Santa Margarida, até se fechar sobre o Tejo qaundo lança ao rio uma carta, para a Joana pois claro, e se firma na convicção dum regresso inteiro da guerra na Guiné.
Mas até este zarpar Tejo fora foi sempre o tormento de muitas tentações. Sempre a angústia instalada no dilema das tuas opções.É que há duas isotopias, recorrentes e redundantes, na novela das tuas memórias. Isotopias recorrentes, antagónicas e em permanente conflito: a Joana e a deserção.
O óbvio, para quem sabe que para falar da guerra não há senão lágrimas, era dizer não.
O óbvio para quem sente como sentiu David Mourão-Ferreira perante os eu aviso de mobilização:
“Passaram pelo meu nome, ele era um número
Menos que a folha seca dum herbário
Colheram-me com mão de zelo e gelo
E escreveram-no sem mágoas num postal
Convite a morrer? Mas porquê?
Convite para matar? Mas por quem?
O Óbvio era dizer não
O óbvio para quem sentiu no fundo do peito o Serge Reggiani cantarLe Déserteur de Boris Vian era dizer não e desertar.
O óbvio depois da Praça da Canção, do Canto e as Armas era uma canção sem armas.
Só que para ti, como para mim, Paris também não rimou com meu país. Por Paris iríamos fazer o quê e com que meios?
E quando poderíamos voltar a ver os pedaços de nós que cá ficavam?
E como se poderia mudar este país fugindo para o aconchego das Suíças?
Aprendemos com Pascal que o erro vem sempre da exclusão…
E por isso tu preferiste ser o herói problemático num campo de injustiças ao encosto provável num hipotético club estrangeirado.
Mas foi assim que tu, e outros como tu, (e agora todos o sabemos, com meridiana certeza.) foram escrevendo e projectando, no martírio da guerra,… o 25 de Abril a acontecer…


José Cândido Rodrigues
Porto, 15 de Abril de 2003

Livros de Guerra

de: Jorge Freitas

Guerra Colonial
Livros de guerra

A memória da guerra colonial reaparece nas livrarias. Romances, ensaios e outros estudos aprofundam uma bibliografia já considerável

Depois de um longo período de silêncio sobre o drama da guerra colonial, apenas quebrado de vez em quando com a publicação de umas tantas obras de ficção, quase todas de excelente qualidade literária, as editoras nacionais parecem, enfim, dispostas a apostar num tema que até há pouco se manteve sob uma estranha reserva. Só em 2003 foram lançados mais de dez títulos: de estudos a romances, de memórias a ensaios.
(...)
Dos livros lançados no ano passado destaque-se, especialmente, o novo romance de Gustavo Pimenta, Em Nome da Grei (Palimage). G. Pimenta já havia escrito sairòmeM - Guerra Colonial e Retratos de um País Encantador (ambos sobre a guerra colonial e na mesma editora). Mas é em Em Nome da Grei que este antigo alferes miliciano dá a conhecer, de forma inédita na literatura portuguesa, uma outra frente do conflito, igualmente difícil e dolorosa, a frente situada entre a fase de incorporação e a mobilização dos jovens para o Ultramar. Gustavo Pimenta, jurista, ex-director bancário e antigo deputado do PS, pratica uma escrita irrepreensível, elegante, poética, e pena é que os seus livros (certamente por falta de uma adequada campanha de «marketing») não tenham tido a divulgação que outros de menor qualidade tiveram e continuam a ter. Talvez o tempo se encarregue, ainda, de fazer justiça a um escritor que assinou algumas das mais belas e comoventes páginas da literatura sobre a guerra colonial.
(...)

Texto de Jorge Freitasin “Actual” – Suplemento do Semanário Expresso, 10 Janeiro 2004, p.12.