Imitação das Horas
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8,48€

de Nuno Miguel Proença

ColeçãoColeção Imagens de Hoje
GéneroRomance
Ano2005
ISBN978-9-72-857585-4
IdiomaPortuguês
Formatobrochura | 148 páginas | 15 x 21 cm

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No limiar da Imitação das horas:
meditação sobre os inimitáveis segundos

Se queres entrar, entra. Há escadas, clarabóias, patamares, elevadores, passagens estreitas, corredores sombrios, uma certa humidade relativa no ar, uns certos espectros indefinidos... as coisas do costume, parece-nos. O subtítulo da Imitação das horas poderia ser o "diário póstumo de uma história de amor". Há sinais inequívocos disso. O sinal mais forte, que passa de sinal a símbolo, é a redução da experiência vivida e da escrita lavrada ao fragmento.


Paulo Renato Cardoso de Jesus
(do prefácio)

Nuno Miguel Proença

Nuno Miguel Proença nasceu em Lisboa em 1975. Ainda não tinha escrito nenhum livro antes da Imitação das Horas.
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Imitação das Horas

de Nuno Miguel Proença

Apresentação de Imitação da Horas pelo próprio autor

de: Nuno Miguel Proença

Apresentação da Imitação das Horas.
Biblioteca do Palácio Galveias, 03/09/2005.

Pensou: resumindo, para apresentação da Imitação das Horas o melhor é dizer
Voltem mais tarde.
Pensou outra vez: eu cá hei-de estar
um satisfeito, ou dois comovido ou três nervoso.
Vejamos. Três, quer dizer nervoso, de certeza, e já agora apreensivo também. Satisfeito já estou, portanto um também. Como o livro já está, pronto,um já não muda. Estou comovido por estar aqui convosco hoje, claro, por isso aqui é dois. E como já estava satisfeito com o livro que já está pronto é um e dois. E porque é dois, quer dizer, porque estou comovido e porque a voz quase que muda e o olhar fica embaciado, logo é três: estou nervoso. E a voz muda e não muda de quase muda. Muda e não muda. Quase que muda. Pronto, já não sei, mas o mais certo aqui é ser um, dois e três.
Quando me acontece ser um, dois e três que é a satisfação que comove e que muda a voz de quase muda do nervoso, enquanto muda e não muda, eu disfarço. Primeiro, o nariz incha por dentro. Segundo, entopem-se os canais (eu sempre a disfarçar). Terceiro, eu fico muito envergonhado e vermelhíssimo com a perspectiva do que pode vir a seguir.
Calma, calma, o que é preciso é ter calma
Mas para além de um dois e três também fico quatro que é: espantado porque a não ser eu ninguém dá por nada. Quer dizer, três: espero que ninguém dê por nada. Mas enfim, se calhar é mesmo só quatro. Eu bem queria três: nervoso e por isso olhares espantadíssimos,orbitas arregaladas, ares interrogativos, curiosidades acesas e excessivas. Mas não, é mesmo só quatro. Ninguém liga nenhuma. Também me espanta que apesar de ninguém ligar nenhuma, os olhares fiquem a interrogar-me em mim, espantadíssimos e arregaladíssimos, sem ninguém estar a ver, enquanto que eu faço os possíveis e me desfaço em sorrisos de quem não quer a coisa. Por exemplo, se por acaso estiver a conversar é logo três (nervosíssimo): despacho a conversa enquanto mergulho na profundidade insondada dos meus bolsos a dizer muito baixinho de mim para mim
eu tinha aqui um lenço, tenho a certeza que tinha aqui um lenço
Mas muito discreto, claro
ou então a implorar de coração aberto à mercê da compaixão alheia
não tem aí um lenço de papel que me empreste ?
auxilie-me, por favor, dê-me um lenço de papel, dê-me um paninho de atenção, dê-me uma letrinha das boas maneiras à maneira do bom tom, evite por favor que isto descambe, salve o que ainda se pode salvar, estenda-me a mão num gesto de simpatia, evite que eu dê o rosto ao manifesto, livre-me de dar a cara por tão pouco, evite esta triste figura

Isto aconteceu-me, por exemplo, um dia em que estava constipado e andava a comprar roupa numa daquelas vendas de roupa da época anterior. É mais barato. Muitíssimo mais barato. Nem se compara. E para além de ser mais barato, muitíssimo mais barato
nem se compara
ainda me levantam de vez em quando umas questões decisivas. Por exemplo, se me vêem a hesitar muito entre uma camisola verde e uma encarnada perguntam-me logo
Ainda aqui está ?
E eu logo três de olhos arregalados já em bruços crawl e mariposa pelos abismos insondáveis dos bolsos do casaco
muito envergonhado e de boca aberta a fazer imensas bolhas ou levo as duas camisolas ou vou aprofundar a questão para a frente dos cintos com o ar incerto de quem não sabe bem se há-de levar preto se castanho. Horas a olhar para as camisas aos montes de braços abertos num acolhimento sem fim apesar de chegar ao fim e já não haver o meu número
horasa cumprimentar o espelho com a bonomia desejada(olá como está?)
horas sem saber, em frenteaos sapatos de ponta bicuda que à falta de barbatanas ficam sempre beme não passam de moda mas deixam o dedo grande do pé a fazer figas o dia todo em apertõesque parece mentira e que no fundo me fazem sentir como o Pateta mas sem o auxílio dos amendoins de maneira que
Ainda aqui está ?
Ainda aqui estou. Mas desta vez é um (satisfeito). O nariz inchado é dos espirros. Não tem importância. Para a próxima ponho um chapéu e pronto. Uma roupa que me aconchegue mais e pronto. Fujo da chuva e pronto. Ou de outra coisa qualquer e pronto. Já está. É mesmo um.
Espero não estar muito nervoso. Se calhar vou estar nervoso, espero não estar nervoso. Se calhar vou estar. Suponhamos que estou nervoso (três), atremer às escondidas, como de costume. Suponhamos que é três:
Eles para mim: então tudo bem ?
Eu para eles: tudo bem, tudo bem,
com o sorriso no máximo, discreto, claro, às gargalhadas soltas de mim para mim mais amarelo do que é preciso, cheio de frio nas costas mas de resto,
tudo bem, tudo bem, o que é preciso é ter calma
como quando chegava às aulas com os trabalhos por fazer a arrepender-me do tempo (e do dinheiro) que tinha gastocom os flippers ao lado do balcão do café, eu: só mais uma vez, só mais outra, só mais um bocadinho, só mais um cigarro, só mais uma moedinha, só mais um dinheirinho pela ranhura onde metia as horas as tardes os dias, onde metia os nervos que me apertavam a barriga, onde metia a carteira que se enchia de suores às tantas, onde metia o que faltava para ser campeão do mundo, às tantas
acho que já fomos todos campeões do mundo de flippers pelo menos uma vez na vida, ou então de matraquilhos, às tantas
eu sem nada para dizer acerca do trabalho, de sorriso no máximo, não fossem desconfiar
tudo bem, tudo bem,o que é preciso é ter calma
três: não pode ser para a próxima?
Desta vez não sei o que hei-de dizer. Eu prometo que para a próxima não venho de mãos a abanar. Para a apresentação da Imitação das Horas o melhor é dizer
Voltem mais tarde
Espero não estar três, nervoso, mas também queria evitaro ar sério cinzento sisudo de quando me sentava numa mesa do café a preparar os trabalhos que já devia ter feito, na atrapalhação da última hora, a coçara coçar a coçar a cabeça, na febre de já estar atrasado
(é sempre a mesma coisa, tudo para o fim, sempre tudo para o fim, é sempre a mesma coisa).
Espero não ter o ar suado cinzento e sisudo do nervoso miudinho que faz tremer as pernas, que puxa os ombros em direcções misteriosas e aperta demais o colarinho invisível da garganta. Quando se escolhe mal o número da camisa o colarinho fica sempre muito apertado.Eu a querer desapertar os botões da garganta dos apertos dos trabalhos atrasados no campeonato do mundo de flippers, ou no snooker, ou nos matraquilhos. Sempre as moedinhas pelas ranhuras, a carteira toda, às tantas. Sempre para o fim, tudo para o fim, já sem tempo nenhum, às tantas. Só mais um cigarro, outro cigarro, um maço inteiro, às tantas. Tudo bem, tudo bem, mas fica para a próxima, às tantas. Aperta o botão, desaperta o botão, às tantas. Espero não estar assim na apresentação da Imitação das Horas, sério cinzento sisudo, senão o melhor é mesmo dizer
Voltem mais tarde
para explicar fora de horas as horas que passei não sei como (confesso que não sei como, se quiserem crer creiam se não quiserem crer, não creiam) a corrigir o número imenso de gralhas, a pazada cheia dos desleixos da sintaxe, os erros em demasia, as sílabas a mais, as letras a menos, as vírgulas com destinos trocados, as grafias truncadas pelo cansaço da atenção epelo sono que deixa os olhos baços sem ser de estar comovido. Por isso se calhar não é só um nem só dois, como também não é só três. Se quiserem crer creiam, se não quiserem crer não creiam. Eu explico:
Um dia em Leiria não entreguei ao doutor Jorge Fragoso da Palimage uma versão da Imitação das Horas. Não foi nem um nem dois nem três, foi porque fiquei a dizer de mim para mim que parecia mal estar a aproveitar o lançamento do livro de um amigopara meter a mão ao bolso da gabardine e dizer
Tenho aqui uma Imitação das Horas.
Mas afinal, pelo que me disseram não parecia mal nenhum. No fundo, para apresentação da Imitação das Horas o melhor continua a ser
Voltem mais tarde
O que aconteceu, finalmente, por correio electrónico.
Um dia mais tarde, já depois do parecer favorável,fiquei muito emocionado quando recebi a primeira correcção das provas. Portanto um. Não, aqui deve ser dois. Eu explico: se quiserem crer creiam, se não quiserem crer não creiam. Fiquei emocionado (dois) porque as provas, tal como vinham, eram indício de dedicação alheia. Ao certo é dois e um. Se calhar três, quando comecei a ver a quantidade de correcções por fazer. Se eu ainda andasse na escola, estava tramado. Portanto dois e um, três. Quem quer que fosse perdia a paciência e punha-me logo má nota antes de frisar a minha incompetência a vermelho. três. Mas como já não andava na escola três menos um, dois: aqueles riscos todos esquisitos, as letrinhas tortas, os ganchos, as barras, antes eram, como o são (cá está) um dialecto discreto para dizer a atenção e significar o cuidado que têm pelo nosso trabalho, prova provada de que os livros implicam os olhos e as mãos de tanta gente. E as provas chegaram-me como o fruto do labor das noites antigas. Tudo em novelos, agulhas e ponto cruz. E o certo é que (dois): eu fiquei emocionado. Algures alguém tinha estado a tricotar para mim com o novelo da paciência uma rede de salvação para os apressados do costume que confundem na ponta dos dedos as letras do abecedário e enchem de grafias incertas as páginas tantas dos manuscritos feitos livros que aparecem aparte isso com óptimo aspecto. E apesar de dois (comovido) e de um (satisfeito) passei um tempo em que foi sobretudo três (nervoso) que foi o tempo das correcções das correcções das correcções, de tal maneira que agora, por exemplo, quando os meus amigos de infância aparecem com os filhos a apontar para mim e a perguntar quem é ? eu apesar de dois, comovido e de um, satisfeito, imagino logo que se estão a referir às provas e fico a pensar todo envergonhado enquanto escondo o bibe atrás das costas
de certeza que dão menos erros do que eu e que no fim não deixam as frases desapontadas à espera que tome uma decisão qualquer (uma vírgula ali ao meio, por exemplo, e vai cada um para seu lado ou três pontinhos para matutar o assunto e reatar mais tarde) ou então que ponha os pontos nos is e cumpra de vez a palavra, por isso
se quiserem crer creiam se não quiserem crer não creiam
nas conversas inconfessáveis ao telefone com as lojas onde vendem correctores ortográficos, na paciência dos outros senhores dos serviços gráficos a aturar aminha queda para as correcções das correcções das correcções, porque está uma sílaba a mais e uma maiúscula a menos, uma linha que afinal já não quero, um acento que muda tudo, uma esquisitice que não muda nada mas que tem de ser
e eles do outro lado (de certeza absoluta)
olha este é dos tais
a insistir com o indicador nas fontes
ou a pedirem-me um esclarecimento e eu logo: para a apresentação da Imitação das Horas o melhor é dizer
Voltem mais tarde
E eu de mim para mim
estou tramado, estamos tramados, está isto tudo tramado, já perceberam que não topo nada do assunto,que não pesco nada da coisa, já devem ter percebido que isto é tudo fingido, maneiras do faz de conta, invenções para desencarreirar as horas
eles andam a jogar à apanhada comigo (de certeza absoluta)
Calma, calma, o que é preciso é ter calma
Eles para mim: tudo bem?
Eu para eles: tudo bem, tudo bem,
Mas no íntimo a tremelicar por todos os lados como nas vezes em que não eram eles comigo à apanhada mas elas comigo ao bate pé:
Eu a meter as mãos nos bolsos
Acreditem que é a primeira vez que estou a fazer isto, a disfarçar a emoção muito encarnado por fora e muito a ferver por dentro sem ser da constipação
Não têm aí um lenço de papel que me emprestem ? Auxiliem-me, por favor, dêem-me um lenço de papel, dêem-me um paninho de atenção, dêem-me uma letrinha das boas maneiras à maneira de bom tom, evitem por favor que isto descambe, salvem o que ainda se pode salvar, estendam-me a mão num gesto de simpatia, evitem que eu dê o rosto ao manifesto, livrem-me de dar a cara por tão pouco, evitem esta triste figura, voltem mais tarde.
Calma, calma, o que é preciso é ter calma
E por estar nervoso, suponhamos que estou nervoso, quer dizer, três, fico a pensar de mim para mim Voltem mais tarde, que eu estou frito e:
Estou frito porque faço sempre tudo à última da hora apesar das resoluções que meto para a boca à pressa com as passas e as badaladas da noite de ano novo, tramei-me porque fica sempre tudo para o fim apesar das decisões que levo prontas na algibeira para oserão do réveillon, ando nestes calores porque passo o tempo a fazer fintas às ideias que vêm ter comigo cheias de meiguices como as minhas amigas do bate pé e eu
Voltem mais tarde, agora não, voltem mais tarde que não tenho tempo
Ou então ao pé dos flippers no café e eu
Voltem mais tarde, agora não, voltem mais tarde
e em vez de desatar a falar com elas, vai de meter uma moedinha, outra moedinha, a carteira toda às tantas, só mais um jogo, só mais outro, a tarde inteira nisto às tantas e
Elas não voltaram, claro.
Tramei-me porque apesar do tempo que tinha e já não tenho em razão do
Voltem mais tarde, agora não, voltem mais tarde
Passou-se-me o tempo que levou as horas, e fiquei eusentado no chão com o sem tempo de quem tem pressa, a fazer contas à vida de mãos mergulhadas nos bolsos para esconder a emoção,
agora não, voltem mais tarde,
apesar do nariz vermelho, do lume cá dentro, do olhar embaciado sem ser da constipação,
agora não, mais tarde
elas de olhos esbugalhados, furiosíssimas, a olhar para mim com ares agastados de ponto de interrogação, eu de sorriso no máximo, atrapalhadíssimo a dizer mais tarde, mais tarde, agora não,os terceiros a comentar (de certeza) olha este é dos tais de indicador a insistir nas fontes, eu: mais tarde, mais tarde, elas a olhar para mim furiosíssimas e eu Estou tramado, estamos tramados, está isto tudo tramado porque já perceberam que não pesco nada do assunto e não topo nada da coisa, já devem ter percebido que isto é tudo fingido, maneiras do faz de conta, invenções para desencarreirar as horas, mais tarde, mais tarde, agora não, voltem mais tarde. Aliás, auxiliem-me por favor, dêem-me um lenço de papel, dêem-me um paninho de atenção, dêem-me uma letrinha das boas maneiras à maneira do bom tom, voltem mais tarde, evitem por favor que isto descambe, salvem por favor o que ainda se pode salvar, estendam-me a mão num gesto de simpatia, evitem que eu dê o rosto ao manifesto, livrem-me de dar a cara por tão pouco, evitem esta triste figura. Voltem mais tarde, agora não, voltem mais tarde. Mas elas não voltaram. Passou-se-me o tempo que levou as horas, e fiquei eu sentado no chão com o sem tempo de quem tem pressa, a fazer contas à vida. Elas não voltaram, claro.
Portanto, para a apresentação da Imitação das Horas se calhar o melhor é mesmo dizer:
Voltem mais tarde.