INFRACARNÁLIA
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de Porfírio Al Brandão

ColeçãoColeção Palavra Poema
GéneroPoesia
Ano2007
ISBN978-972-8999-35-3
IdiomaPortuguês
Formatobrochura | 80 páginas | 15 x 21 cm

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Lanço. Qual sopro catabático acerca de ressecções nos limites da carnalização, abaixo dos pés humanos e acima das cabeças, eis que um novo livro de Al Brandão vem alarmar a legibilidade fácil da literatura de consumo e inscrever na circunstância visiense e nacional um lugar de inclusão em linhagem profunda e estranhizante - não conheço, desde algum Luís Miguel Nava, uma poesia assim tão cativantemente difícil ("Toda a verdadeira linguagem é incompreensível", diria Artaud), visceral e vascular. E digo poesia, porque o Poeta, este Poeta, tem uma história que não começa aqui e que, sem limitação ou linha didáctica, procuro caracterizar desde há anos, por conveniência minha, com apodos como "voz lírica que "vive" do lado improvisador que colhe o corpo pelo lado avesso, dele (re)criando a força originária da ousadia tentacular" ou actor verbogénico fixado "na base da pele, no interstício poroso que absorve e no calor febril que explode" como uma "vindicta da carne" que sorve o espaço mais próximo.


Da apresentação (texto completo em "crítica")
Martim de Gouveia e Sousa


Porfírio Al Brandão

Porfírio Al Brandão é o pseudónimo literário de Evaristo Almeida Martins, nascido em França a 18 de Abril de 1979, tendo crescido e sido educado em Fráguas, freguesia do Concelho de Vila Nova de Paiva. Vive e trabalha em Viseu, cidade onde desenvolve a sua actividade literária. Tem organizado várias leitura públicas de poesia, juntamente com o grupo de poetas que integra e que se autodenominou como "Sarau dos Danados", divulgando a sua própria poesia e de outros poetas.
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O Príncipe Nu

de Porfírio Al Brandão

  • Ancoradouro, Universitária Editora, Lisboa, 2002.
  • Boca do Mundo, Universitária Editora, Lisboa, 2004

“da colossal gravidez / que é a língua”: Infracarnália de Porfírio Al Brandão

de: Martim de Gouveia e Sousa

“da colossal gravidez / que é a língua”: Infracarnália de Porfírio Al Brandão

por Martim de Gouveia e Sousa


“Porque a poesia não está naquilo que se dizMas naquilo que fica depois de se dizer”(António Pedro, Proto Poema da Serra d’ Arga)

Lanço. Qual sopro catabático acerca de ressecções nos limites da carnalização, abaixo dos pés humanos e acima das cabeças, eis que um novo livro de Al Brandão vem alarmar a legibilidade fácil da literatura de consumo e inscrever na circunstância visiense e nacional um lugar de inclusão em linhagem profunda e estranhizante – não conheço, desde algum Luís Miguel Nava, uma poesia assim tão cativantemente difícil (“Toda a verdadeira linguagem é incompreensível”, diria Artaud), visceral e vascular. E digo poesia, porque o Poeta, este Poeta, tem uma história que não começa aqui e que, sem limitação ou linha didáctica, procuro caracterizar desde há anos, por conveniência minha, com apodos como “voz lírica que “vive” do lado improvisador que colhe o corpo pelo lado avesso, dele (re)criando a força originária da ousadia tentacular” ou actor verbogénico fixado “na base da pele, no interstício poroso que absorve e no calor febril que explode” como uma “vindicta da carne” que sorve o espaço mais próximo.
E à carne volto para dizer que os títulos publicados por Al Brandão (Ancoradouro, 2002; O Príncipe Nu, 2002; Boca do Mundo, 2004; O Bailado das Facas, 2004; Moral Canibal, 2005; Itinerário Trágico-Lírico, (2005); Infracarnália, (2007) e, já agora, Iconocaptor, muito próximo do prelo) encontram no paratexto epigráfico inicial de Cardoso Pires retirado da Balada da Praia dos Cães (“O mundo é um grandecíssimo cadáver com moscas de vaivém para abrilhantar.”) um geodésico signo unitivo, iluminante para trás e para a frente. É que, como definitivamente o diz Herberto Helder, “as palavras são mortalmente confusas”, levando, friso-o eu, a que o poeta regresse sempre ao lago das folhas mortas e à putrefacção operativa de “certos dias nocturnos”, para usar a fabulosa expressão de Cruzeiro Seixas. Tal rasto é visível no já esteiado caminho brandoniano, sem que o vezo incomode ou perturbe.
Aéreo ainda, este é o livro: Infracarnália. E inevitável é olhar o título e o seu peso metacognitivo, o seu carácter “frappant”, a marca semiótica do domínio físico e da operação objectal. E depois, ainda no campo da titulação, a divisão da infracarnália em “I – O Córtex”, “II - Os Vasos” e “III – A Medula” afirma ainda, na evidente interioridade física, a função aperitiva do título, bem como as portas estruturantes, articulatórias: três, assinaladas e acompanhadas de vertente plástica autoral, o que, de per si, complexifica e dialogiza. Infracarnália, como a tripartição o coonesta, é uma inesperada e dolorosa descida aos abismos criativos, pese o rasto persistente e assinalado. Neste parto, a laceração é constante. Da forja exalça-se um objecto literário animado por motivos descascantes e corticais, de acordo com o mote epigráfico (cito o incipit: “Cuspir a carne por ser nauseabundo / o seu odor bloco a bloco encaixado / já limbo sonoro onde se acama / OUTRÉM-GRITO a roer a casca”), a par de elementos vascularizantes (cito: “A pseudomão empesta-me / nódulos nutridos com o suco medular / do caroço freático sangrante / núcleo duro da viagem / mas efervescente aonde / transbordante se me assiste / a velocidade”) e medulosos (cito: “abre-me válvulas / reata-me pérolas forradas a carne // e pensar que o coração é uma noz / um pedaço de mar aberto / à boca da cama // flutuante se me soluça o corpo”), em viagem continuada até ao cerne, ao âmago de uma poesia desfibrada e vibrantemente desregrada, afirmadora de uma forma que é arte antes das palavras e com as palavras.
Quanto mais ignorância, mais mistério e vontade de entrar neste livro indesvelável assim, sem momento de transcendência e isolamento. Salvar-se-á o acto, se cada leitor se cumprir nesta leitura a que convido. Nada de ensinar literatura (que é isso?), antes a potenciação da leitura livre sem grades enformadoras. Digo apenas que noto no livro em apreço, como não notava antes, um encontro de linhagem com António Pedro, nomeadamente o do Proto Poema da Serra d’ Arga, com versos tão dentro da estilemática porfiriana como “As varejeiras põem as larvas nos buracos da pele dos mendigos / E da fermentação / Nascem odores azedos” ou “Nasce de propósito um enxame de moscas para cada um”, entre outras possibilidades, em perfeito encaixe, aliás, com o motivema epigráfico utilizado pelo poeta.
Dentro da antologia poética correm uma vida cheia e um desígnio evidente. São férteis os caminhos por que o Poeta avança, sabendo-se. E avultam também estruturas e lexias fortemente surrealizantes, provenientes dos mais simples e inesperados actos quotidianos. Lembro dessa transmigração, sem exaustão, “alcatrão volátil, espasmado”, “duas árvores secas”, “Ignição: um carro rumo às barbas do céu”, “mucos perfeitos”, “grafismos de sémen”, “espiral virulenta dos olhos”, “paralelepípedos contrariados”, “neblina óssea”, “revólver fálico”, “vulva lunar”, “coração / comedor de sal”, “queijo azul”, “carne mutante”, “variz purulenta”, “nave de âmbar”, “barriga televisiva” ou “sussurro digital”.
Das palavras atentas à poesia que explode inesperadamente levanta-se um convite e a certeza de que “renasceremos mudos no tráfico de sementes” pelo artista disseminadas. Haja a vontade do corte exicial com um modo e com a conveniência inibidora da norma pouco criativa. Diz Aquilino Ribeiro, em Abóboras no Telhado, que quando “não transparece o indivíduo, há falta de originalidade”, que é, afinal, o “primeiro condão do artista.” Meus amigos, aqui há indivíduo.
Agora digo fim, baralho e deixo uma clave: o livro brandoniano prolonga a já persistente escavação e funde-se com o esmagamento botânico, sendo cérebro e instante, pequena visão natural e macro-irisão transmigradora, biografia e fusão naturista.
Nem sempre transitável, o modo de Porfírio Al Brandão prende o leitor, com versos e poemas inteiros. Ouça-se este, que finalizando leio, “espelhado nos alicerces” de um qualquer casulo e aprecie-se o carácter poliédrico – depois, bem, depois, agarre-se o livro até ao fim:

Ela sorriu às avessas e despiu a cidade
dizimou formigueiros soprando auréolas de fumo
– veio ridiculenraizar o amor

viaja num vagão azul
com a cadência solta das vértebras encharcadas
de quotidiano
massaja barro traduzindo assobios de flores
e estrangula lírios depois de os amamentar

perco-a em tantas faces
e ela nas escadas das nuvens de tão meu
céu confidente
tão meu refúgio quão
ecrã mutilador

sigo-lhe o arabesco mágico do cheiro
a pique num amor fatiado
mordo-me por doar açúcar mercantil

ao mínimo malabarismo com ovários
aquele sorriso apodrece
e explodem-lhe vilosidades numa cartolina
enfeitiçada igreja dos gnomos de barro

(p. 63)