Intermezzo
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de Elvira Santiago

ColeçãoColeção Palavra Poema
GéneroProsa poética
Ano1999
ISBN978-9-72-978488-0
IdiomaPortuguês
Formatobrochura | 152 páginas | 13 x 21 cm

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"Vejo esta exposição de textos como fazendo parte de uma galeria em que a Palavra é exposta mais pelo material de escultura sonora e conceptual do que pelas suas potencialidades narrativas. Sinto-os apenas como quadros, retábulos ou partituras que poderiam ter sido trazidos por diferentes pintores ou músicos".

Elvira Santiago

Com Elvira Santiago entramos num sistema de comunicação pouco moderno: o seu texto não é transitável; nele, pelo contrário, descansamos de todos os tráfegos, travando mais que repousando, fruindo um espaço - vital - de habitação, não apenas um nó de passagem.

Isabel Calado
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Intermezzo

de Elvira Santiago

Uma Fala Humana

de: FERNANDO PINTO DO AMARAL

Uma Fala Humana
Por FERNANDO PINTO DO AMARAL
Sábado, 29 de Janeiro de 2000

É para a espessura da voz de Elvira Santiago que desejo chamar a atenção, uma voz difícil de classificar dentro do lirismo tradicional ou de qualquer esquema que a aprisionasse.
Um dos aspectos que tem marcado a evolução da poesia portuguesa dos últimos tempos consiste no aparecimento de algumas autoras que, sem delimitarem propriamente um território que seria o da "escrita feminina" (conceito relativamente pouco interessante do meu ponto de vista), vieram alargar e enriquecer as nossas "coordenadas líricas" (para usar um título de Fernanda Botelho), ocupando um espaço cada vez mais importante.
Perante este livro de Elvira Santiago (autora até agora desconhecida, pelo menos sob o nome aqui apresentado, tendo escolhido este pseudónimo ou "um dos heterónimos em que vai desdobrando a sua identidade", como se diz na introdução), a primeira sensação é a de uma surpresa, uma insistente mas refrescante perplexidade, que a experiência de uma segunda leitura vai aprofundando.
Surpresa porque se trata de uma primeira obra invulgarmente extensa e cuja organização em doze partes, ao dificultar uma imediata abordagem de conjunto, obriga a que por vezes ensaiemos diferentes protocolos de leitura consoante cada sequência; e também porque, embora o seu estilo pareça oscilar entre uma gama de tons ou registos claramente distintos uns dos outros (ora quase solenes, ora claramente coloquiais; ora elípticos, ora prolixos e explicativos), apercebemo-nos de que existe uma mesma voz a percorrer todos estes textos e a conferir-lhes uma certa unidade.
É para a espessura dessa voz que desejo aqui chamar a atenção - uma voz difícil de classificar dentro do lirismo tradicional ou de qualquer esquema que a aprisionasse no quadro de uma determinada visão do mundo; uma voz que tanto se deixa arrastar por mecanismos perceptivos quase alucinatórios ("A alucinação alastra e o visual invade o sonho", p. 80) como sabe descer às descrições de paisagens, objectos e cenários muito concretos: "Voltei à casa das heras. / A varanda, as paredes, estão carcomidas de bichinhos / persistentes e raízes tentaculares (...) // A antiga grafonola ainda se recorda das canções de há / vinte anos" (p. 89).
Destes últimos versos se depreende, no entanto, que, mesmo o que começa por ser uma descrição se transforma pouco a pouco numa evocação pessoal, permitindo rastrear o passado deste "eu" por entre os enredados fios do tempo, como se cada texto permitisse, em maior ou menor grau, identificar vestígios de um destino, "atalhos / e desvios do rasto longilíneo a que ninguém pode / escapar" (p. 85). Estamos, assim, diante de uma fala humana, de um discurso aparentemente heterogéneo e por isso impuro, contaminado pela vida e pelas suas contradições, procurando perseguir aquilo a que poderíamos chamar zonas de perturbação ou áreas de instabilidade afectiva onde seja possível ultrapassar a tirania das palavras e a limitação dos seus sentidos: "As palavras, doutor, servem apenas para anestesiar o lugar / da dor que existe no meio delas / (...) // decididamente, as palavras são matéria-prima para / se fazer renda de bilros" (pp. 105/106).
Uma leitura mais demorada talvez explorasse este modo de olhar a linguagem como um anestésico ou um exercício relativamente gratuito, quase um entretenimento (sem desprimor para as rendas de bilros... ), mas não é esse aqui o caminho mais interessante. Poderão, isso sim, enumerar-se rapidamente alguns pólos magnéticos nos quais tende a concentrar-se o imaginário desta escrita singular, como se algumas das suas obsessões gravitassem em torno de meia dúzia de núcleos temáticos muito marcados, por vezes imediatamente sensíveis nos títulos de cada uma das sequências: aí detectaríamos, por exemplo, a casa ou o universo doméstico (cf. poema "Aspirador", pp. 92/94), os animais ou as plantas (gatos, borboletas, insectos), o sexo e o corpo feminino (dentro de um erotismo difuso que atravessa uma grande parte do livro), diversas manifestações da loucura (desdobrando-se nos "textos da psicopatologia da vida quotidiana", em que surgem imagens muito fortes da solidão ou até da paranóia), tudo isto sob a presença tutelar de "textos bíblicos", que retomam a criação do mundo, e de "textos do mármore", que homenageiam ou interpelam figuras tão díspares como Xenakis, Marguerite Duras, Manoel de Oliveira, Maria Callas ou Eugénio de Andrade, chegando mesmo a misturá-las engenhosamente, como na "Carta de Marilyn Monroe a Pedro Burmester": "É mentira que eu fosse bonita: o que havia em mim era / um enorme esforço de sobrevivência" (p. 139).
Em resumo, dir-se-á estarmos na presença de uma escrita simultaneamente ingénua e perversa, na medida em que, na sua aparente oscilação, procura conciliar um certo desprendimento, um olhar "de fora" sobre as coisas, e ao mesmo tempo uma vibrante carga emotiva, uma ternura quase à flor da pele e dos sentidos. Por isso tanto nos pode dizer tranquilamente que "a vida é uma incómoda sala de espera" (p. 71) como oferecer-nos, por exemplo, uma oração (irónica?) dirigida a Don Giovanni:
"Para que lhe sejam confiscados todos os beijos e litanias / do amor. // (...) / Para que desperte, e me devolva o castelo onde me / roubou a fortuna / E que lhe sejam perdoadas todas as dívidas a mulheres / encantadas. // E que assim seja, por todos os momentos, / Entre todas as mulheres / E séculos e séculos de Todo o Sempre. / Bendito seja, Ámen" (p. 123).

Título: Intermezzo
Autor: Elvira Santiago
Ilustrações: Ângela Luzia
Editor: Palimage