Manta de Retalhos. Percurso de Uma Vida
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de Maria Elisa Pinheiro

ColeçãoColeção Prosas d'Artes Várias
GéneroCrónica
Ano2006
ISBN978-9-72-899910-0
IdiomaPortuguês
Formatobrochura | 218 páginas | 17 x 24 cm

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Uma jornada por África - Moçambique. A existência partilhada... Uma dádiva de vida na construção de outras vidas...


Este livro - Manta de Retalhos - Percurso de uma vida - narra o trajecto de um jovem casal de professores do ensino básico que se aventurou por Moçambique nos anos 50 a 70 do séc. XX onde, entre dificuldades e vitórias, conseguiu levar algum ensino e conhecimento e construir uma vida muito baseada na partilha e na solidariedade... Um sentido existencial que se verificava em muitos dos que, em variadas profissões, decidiam trocar a metrópole por terras de África.
No dizer de alguns, uma terra mágica que prende quem por lá passou, para nunca mais deixar de sentir uma profunda saudade.
Para além da narrativa viva e interessante, este livro reproduz muitos documentos que a burocracia da época impunha e fotografias que se revelam inestimáveis para a compreensão do trabalho e administração então vividos no Xai-Xai, Colonato do Limpopo, Gaza, Maputo e outras terras dessa terra imensa moçambicana.
Um livro que recorda a quem lá viveu uma vida quase maravilhosa e nunca esquecida, e dá a conhecer a quem nunca por lá passou uma vivência de intensidade única no entusiamo de transformação de uma terra que conheceu, à altura, um franco progresso...

 

Maria Elisa Pinheiro

Maria Elisa Pinheiro nasceu no Porto.
Fez o Ensino Secundário no Porto e em Lisboa.
Cursou o Magistério Primário em Viseu. Como professora do Ensino Básico leccionou no distrito de Leiria e em Moçambique – Gaza e Maputo.
A partir de 1974 exerceu na Escola de São Miguel – Viseu, tendo colaborado como Orientadora de Estágio com a extinta Escola do Magistério, onde se formou, e com a Escola Superior de Educação, Unidade Orgânica do Instituto Superior Politécnico de Viseu.
Nos anos mais recentes tem-se dedicado com prazer exclusivo à escrita.
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  • Escritos de Meninos de Viseu (Escola de S. Miguel, 1979/1992).
    Edição do Instituto Superior Politécnico de Viseu, 1999.

Apresentação de Manta de Retalhos – percurso de vida de Maria Elisa Pinheiro

de: Pompeu Martins

Manta de Retalhos.
– percurso de vida de Maria Elisa Pinheiro.

Este texto poderia muito bem ser a centésima nonagésima segunda carta que lhe escrevo. Na verdade, depois da apresentação de «Quase filhos» aqui em Viseu, nesta mesma Biblioteca, ganhei um livro, uma inestimável lição de vida e mais do que isso uma amiga, cuja presença é tão frequente quanto a necessidade que qualquer amizade exige. Porém, o desafio desta missiva não é o costumeiro reencontro de boas e más notícias tão próprias ao correr dos dias normais. O desafio é sair daí e entrar num livro que passa a partir de agora a pertencer ao tempo e ao mundo.
Ironicamente, entramos pela mão antiga de um papel selado, por preencher; é esta a verdadeira primeira página do livro que Maria Elisa Pinheiro decidiu escrever. É esta a sua primeira provocação, essencialíssima ao entendimento de todo o resto que faz desta Manta um percurso de vida e não uma qualquer espreitadela despropositada ou inconveniente intromissão na vida de uma família cujo trajecto, em termos concretos, é idêntico a tantas outras que ousaram desafiar distâncias e enfrentar medos, à procura da sempre merecida felicidade.
Um papel selado em branco é a propositada primeira página. Cheia de simbolismo e de decisão. Simbolismo pelo que é o relato de uma jovem portuguesa que decide, numa vida quase em branco, sair e procurar na distância o que faltava para preencher esse espaço. Decisão porque é nesse mostrar documental que entramos numa obra que sendo de uma vida é sobretudo de um tempo e de uma memória que toca o tempo e a memória que dão corpo à História de tantos de nós, nos seus lados malditos e apaixonantes, generosos e ingratos, nostálgicos e inesquecíveis.
Abrimos a porta deste livro sob o signo das coisas iniciais e magníficas, das coisas expostas ao fulgor que contêm todos os começos: o diploma conferindo a habilitação legal, os votos de um director da velha guarda e um poema amigo. Três tesouros que a somar ao bilhete no paquete Império abriam as portas a um magnífico tempo, que até hoje se estende, de entrega e de brilho, de convicção e profundo sentido de existência.
Esta obra é uma história. Uma história contada ao mais íntimo e ao mais genuíno recanto que cada um poderá ter guardado para aprender a crescer com emoções que desconhecia, com situações que surpreendem, com lições chegadas da margem mais emblemática da ternura e da força, da convicção e da tolerância, do combate e da generosidade.
O paquete Império atracou em Lourenço Marques no ano de 1957. A bordo estava Maria Elisa Dias Pereira Santos, a jovem professora que dias depois rumava até ao Xai-Xai, instalando-se no Hotel J.J. da Cruz, seguindo-se a primeira experiência docente em África, na escola Mouzinho de Albuquerque, maior que a dos Planos Centenários da metrópole, num Moçambique que ia à frente em quase tudo e que, digo eu, pode por isso permitir a quem chegava, decidindo ficar, criar a pouco e pouco a ideia de um Portugal cada vez mais distante, menos pesado, mais pitoresco e menos violento. É curioso notar como foram diferentes os dias da ditadura aqui e além-mar, como foi diferente esse Estado Novo na sua simbologia, na sua execução, na sua violência e no seu pendor ideológico.
Mas antes de entrar nas questões de natureza política, entremos pelo outro momento que deixou definitivo e infindável este percurso de vida. A 6 de Julho de 1958, atraca na Baía do Espírito Santo o paquete Angola, trazendo a bordo o professor Manuel Pinheiro. Veja-se a este propósito o texto da página 45 onde a autora nos esclarece em definitivo acerca do que foi, do que é e do que será a importância na sua vida do jovem professor com quem acabou por casar, quase em segredo, certamente em magia, numa madrugada junto às margens do Limpopo.
Existem histórias que valem pelo que poderiam ter sido, caso fossem reais. Neste caso, existe uma realidade que se transformou num admirável texto, capaz de nos contar de modo ímpar e na primeiríssima pessoa os dias grandes de dois seres a quem o amor e a entrega geraram a força necessária para que da vida o acessório fosse desviado, vencendo com isso o que a normalidade dos dias foi trazendo de amargo e inesperado.
Agora que já entramos no livro, poderá perguntar-se o que levaria a sua autora a ocupar tantas páginas com documentos aparentemente insignificantes e banais. Pois bem, agora que também já começamos a perceber o contexto desta obra, poderemos de igual modo entender, com a razão e com o coração, do inestimável valor e do profundo significado que têm as velhas facturas do Hotel J.J. da Cruz. Quantas esperanças e quantas angústias guardam aquelas facturas. Quantas lições de vida. Aquelas facturas não são facturas, são o que são, mais aquilo que a vida se encarregou de juntar e que as transformou em preciosos testemunhos de uma época que certamente encontrará um eco profundo noutras existências, em vidas que de modo próximo se apropriaram da realidade de modo idêntico.
Estes documentos fazem parte da vida privada de Maria Elisa Pinheiro, mas são, ao mesmo tempo, documentos que ilustram a nossa História Contemporânea, que nos confrontam com estilos de vida, com modos de agir, que nos perguntam inúmeras coisas, mostrando-nos outras, evidenciando diferenças, fazendo-nos perceber que são documentos onde cabe muito mais que uma ou duas vidas, mas antes um tempo e uma circunstância tão indispensáveis às respostas que teremos para justificar e criticar este nosso tempo.
Nesta manta de retalhos encontra-se a figura de uma época na sua versão de quem descobre e se adapta a um mundo absolutamente novo, confrontando princípios, estéticas, respostas a novas perguntas que o correr dos primeiros meses acrescentava, como se fossem pequenas maravilhas guardadas para que, um dia, alguém quisesse saber, para outro alguém poder responder.
Quando se muda de vida, os dias têm esta compleição, este ritmo quase vertiginoso do que se pergunta e do que se responde, do que se teme e do que se espera. Este é também um livro de confrontos, de comparações entre modelos de vida social e territorialmente distantes. Contudo, percebe-se bem uma das suas lições: a consciência do desconhecimento é o maior e o mais fiel amigo do conhecimento. Na mágica imposição do novo e do desconhecido surge o rasgar do nosso espaço e da nossa marca nesse território, surge a interpretação e o resultado do que se vai conhecendo e, por força disso, agindo e transformando. Nunca se fica igual após o contacto. Importa, contudo, dizer que tal só é grandioso quando se chega em paz. Na verdade, a autora chegou em paz a África e continuou a cultivar esse sentimento do primeiro ao último instante num notável exercício de compreensão e de respeito, de gratidão e de inteligência. Poucos serão aqueles que na bagagem possam transportar tal fortuna e tão elevado sentimento.
Este é também um livro que página a página nos explica a importância do amor na realização das grandes coisas e na raiz dos grandes passos. Como tudo teria sido diferente caso não se registasse o encontro entre estes dois jovens professores decididos a erguer juntos tudo aquilo que se transformou no que hoje é o projecto de vida dos seus e daqueles que ainda virão. Momentos relatados com doçura e decisão sucedem-se, permitindo-me destacar o texto da página 78 referente ao FIAT 1100 entrelaçado com as primeiras situações de medo face ao galopante estado de guerra nos inícios da década de 60, coincidente com o nascimento dos primeiros dois filhos.
Ao leitor mais atento não escapará certamente a dimensão conseguida pelos valores e pelos sentimentos que foram, e continuam a ser, os grandes alicerces desta família traduzidos em livro, mostrando-nos em prova de vida o quão valioso se torna sermos capazes de separar o trigo do joio, o fundamental do acessório, o duradouro e o efémero. Neste percurso de vida assiste-se repetidamente ao triunfo do genuíno sobre o aparente num apaixonante e motivador modo de encarar o sempre novo e surpreendente correr dos dias.
Mas esta é também a obra que relata com propriedade a tão marcante experiência da construção das primeiras coisas, dos primeiros ganhos, das primeiras vitórias. Nisto, é uma obra de exemplar apelo à esperança e à confiança naquilo que os humanos de boa fé são capazes. A maioridade atinge-se não apenas pela soma dos anos que se vivem, mas sobretudo pela forma como vamos sabendo chamar a nós mesmos o tanto que a vida tem para oferecer, desde os bens mais inacessíveis às coisas simples, sendo que umas e outras, têm em si dois lados: o tangível e o intangível. O segredo da riqueza e da maioridade que referia está na capacidade que vamos desenvolvendo em perceber, sentir e tornar nossos esses dois lados que trazem todas as coisas. Maria Elisa Pinheiro sabe bem o quanto todas as coisas têm sempre dois lados (o material e o espiritual) sendo que é a soma de ambos que nos dá o resultado da sua verdade e do seu significado para cada um de nós. Este livro é disso a maior prova; todas as fotografias, os cartões, os diplomas, as facturas, os bilhetes de machibombo, tudo isso tem dois lados, o lado que os tornou úteis aos dias em termos de dar resposta a questões materiais, mas também, e muito, o tanto que significaram para o espírito, o tanto que os deixaram inesquecíveis, o tanto que fizeram deles, dos mais simples aos mais importantes, partes indispensáveis de um presente com estes contornos e de um futuro sustentado a partir daí. Quantas memórias guarda um bilhete de machimbombo e que preço terá isso? Certamente que mais, muitíssimo mais do que os 1000 meticais que hoje custa.
No plano político, sobressai desta obra muito do que ainda não fomos capazes de dizer. Uns por defesa ideológica à esquerda, outros pelas mesmas razões à direita. Contudo, lemos aqui aquela História de quem conta os dias sem preocupações de natureza ideológica ou de filiação partidária. Maria Elisa conta a sua história do alto da sua consciência livre que se situa no respeito e na gratidão pelo que África e os africanos lhe deram, passando também pelo desgosto e pela amargura do que a História no seu curso acabou por significar em termos de perda e privação.
É uma história superior por não evidenciar rancores, porque sabe criticar sem julgar, porque não é maniqueísta nem cede à tentação simplista de criar dois lados, os bons e os maus, os salvadores e os bandidos, o inferno e o paraíso. Também aqui volto às suas lições, querida professora: a vida é sempre muito complexa e muita relativa. Quantas vezes mo disse em carta e o tanto que isso está patente nesta sua obra. Da tristeza pela injusta partida de África a uma oração pelo camarada Vasco, esse mesmo, o da muralha de aço, encontramos um espírito maior capaz de perceber e de nos contar o quanto a vida é perversamentecurta para que seja gasta com incompreensões sistemáticas ou rancores.
A política de que fala a Manta é a mesma que tento seguir, mesmo naquilo em que não concordo. É aquela que nos aponta o caminho do que é positivo e justificável, do que acrescenta e não do que lamenta, a que constrói quanto tudo parece destruído e terminado, a que conhece a alma humana e sabe bem o quanto nada é sempre da mesma forma, ou definitivamente com um mesmo rosto.
A política desta obra é a de olhar a História com os olhos que viram, que sentiram, pensaram e agiram sobre o melhor que a vida foi dando, reconhecendo o que une, mesmo entre diferenças e adversidades, colhendo o melhor de todos, unindo em nome da vida e da humanidade, sem perder o espírito crítico, sem perder a face ou a consciência.
Esta é a tal parte da História que poucos contaram: a dos portugueses que estiveram em África e a amaram genuinamente, sendo por isso tão dolorosa e tão incompreendida a involuntária partida. A História dos que foram e se irmanaram, dos que foram e sentiram-se parte, dos que foram e deram. Sobre isto, chamo a atenção para o intensíssimo texto de João Pinheiro, em forma de carta, presente no livro sobre o título de Heimat. Está lá tudo, da melhor forma, da mais sincera e da mais escorreita. Não sei dizer melhor sobre esse assunto, acrescentaria apenas o quanto se tem tornado para mim um prazer e uma honra o ter cruzado caminho com pessoas como estas que tão bem ilustram o lado mais nobre da existência.
A Manta de Retalhos, de Maria Elisa Pinheiro, é um sinal mais daquela capacidade que já lhe conhecíamos no âmbito da escrita de memórias. O seu estilo faz-me lembrar o equivalente na pintura que é a aguarela. Aparentemente simples, porém ao mínimo desleixo ou distracção tudo fica comprometido. Os textos, os pequenos textos deste livro, estas aguarelas escritas, revelam uma cativante ironia no plano narrativo, mas também uma serenidade, uma ternura, um sentido de humor e um pensamento que acrescentam. Que mais se poderá exigir de uma obra?
Termino, atrevendo-me a discordar do título, apenas para que ele se possa transformar neste: «Manta de Retalhos – percurso de uma vida», volume I. Acrescentaria isto ao título, remetendo-o para um primeiro volume, pois seria triste, para não dizer injusto, que a autora encerrasse aqui o testemunho e nada nos dissesse sobre as tantas datas e as tantas histórias que este volume não conta, sobre as quais o leitor tão bem e tão justamente saberá transformar como suas, saberá crescer com elas, saberá viver melhor a partir delas, como é prova tão bonita e tão evidenciada aquela que está patente no texto que abre o livro, da autoria de Ana, sua amiga e sua aluna, porque como sabe os amigos, tal como os alunos, quando verdadeiros, são-nos para toda a vida.

Viseu, 4 de Outubro de 2006.
Pompeu Miguel Martins