Na Memória dos Pássaros
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de Graça Magalhães

ColeçãoColeção Palavra Poema
GéneroPoesia
Ano2006
ISBN978-9-72-899909-4
IdiomaPortuguês
Formatobrochura | 64 páginas | 15 x 21 cm

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Na Memória dos Pássaros - assim se descobre, com toda a imagética que a caracteriza, a memória dos afectos, pautada pelo ritmo da palavra, pelo erotismo sugerido, por uma outra forma de dizer o amor. Iniciática e breve é uma escrita que se atreve a olhar o mundo de uma perspectiva profunda e poética para além do limiar da realidade. Na procura da existência para lá do imediato, os poemas sucedem-se como se o tempo não pudesse medir-se senão por essa memória de espaços no cruzamento dos seus diversos aspectos e rumos, memória que se ilumina e se fixa numa espécie de incêndio dos sentidos entre as circunstâncias do acontecer e a interioridade do corpo.
Luminosa e intimista, plena de subtilezas linguísticas, a palavra reinventa-se numa outra forma de estar, intensa, numa poesia capaz de surpreender o quoditiano da escrita, transfigurando-o em algo que cristaliza na realidade única e diversificada a intimidade calada em cada um de nós.

Graça Magalhães

Graça Magalhães nasceu em Moçambiqueonde passou a infância.
Estudou em Coimbra onde concluiu licenciatura e mestrado em Ciências da Educação na Faculdade de Psicologia daUniversidade de Coimbra.
Exerce em Viseu a profissão de educadora de infância e colabora como professora numa instituição de ensino superior na mesma cidade.
Integra o grupo poético Sarau dos Danados participando em leituras públicas de poesia divulgando a sua e a deoutros poetas.
Tem poemas publicados em Antologias e Revistas on line e impressas, de que destaca a Revista Oficina de Poesia.
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de Graça Magalhães

  • Modelo de Colaboração, Jardim-de-Infância / Família, Viseu, Instituto Piaget, 2007.

«Na Memória dos Pássaros» – faces de um adeus perfeito.

de: Pompeu Martins - Poeta e ficcionista. Sociólogo.


«Na Memória dos Pássaros» – faces de um adeus perfeito.

Pompeu Miguel Martins


depois acendo a boca e o adeus perfeito
onde nascem laranjas do peito aves inquietas


assim começa um livro de memórias de um ser que apenas existe naquilo que não tem fronteira, no corpo e na alma do outro, um outro roubador e aprorpiador de sentidos e significados: o leitor, assim livre e desperto, apto para fugas e chegadas, apto para ler um verso com a aptidão de quem procura por uma vida.
Este livro de Graça Magalhães é uma obra em torno da indizível e vasta paisagem da palavra, no êxtase da memória e num concreto despido de magia:

se as palavras acendem a dor
nos lugares do concreto
é preciso acontecer o riso sobre o vento
inundar planícies de amantes
no azul dos olhos que ficaram


Mas também de um tempo presente vertido na acção transformadora e enfeitiçada de quem constrói sobre os dias a beleza intemporal das coisas e dos afectos:

De todas as coisas
eu sei abrir tempo
onde recomeço os dias
quando a noite emerge do silêncio


Emergir do silêncio é o ofício de tudo que é arte. Do silêncio se pode construir a liberdade. No silêncio se constrói a liberdade. A arte é sua filha e sua inventora. Tudo cabe e nos é dado na maravilha que é o silêncio. Mas o silêncio é o que a autora persegue quando em múltiplas páginas se confronta e sofre com o ruído das evidências e das rotinas.
A poesia, tal como a arte em geral, começa por ser a fuga, a fuga do explícito e do gratuito. Daqui, deste gesto, e deste modo de viver o poema, Graça Magalhães constrói um erotismo fervoroso e subtil, gritante e silencioso, livre, portanto:
No poema 22 lemos:

Há fêmeas côncavas de silêncio
pontes que se atravessam pouco a pouco
lençol poema de orvalho quase gelado
na cadência das luas que ficaram
nascem na primeira carne
palavras abertas
gemem estreitos caminhos fechados
um rio atravessa órgãos poderosos
e enquanto estou ouço-me chão a abrir
de fervor completo e soterrado
esse olhar cercou-me com os olhos
ironia a doçura irreprimível
nada pode parar o corpo no meio de um instante
iludir qualquer promessa de rios sossegados
ousar o contrário dos dias
e o fantástico mundo profundo em círculos
onde se abrem deltas lábios de desejo
quero dizer
estaremos sempre lá no lugar das fêmeas
do silêncio.


O contraponto entre a interpretação do amor, da poesia e dos dias comuns é uma recorrência, uma denúncia assumida da vulgaridade quotidiana.
No poema 30 destaca-se:

nunca se pode dizer a boca
molhar os dedos cruzar a língua
abrir a porta sem um trinco de correr
dizer a casa e o escondido das jóias pretas
as meias de carne a correr o gato verde
o branco é o centro
e o centro devora


E fora do centro o registo íntimo da memória, onde cabe um a um os pensamentos perdidos, os minutos irrepetíveis, porém contados indefinidamente. Apetece-me perguntar, à frente desta obra, quantos minutos faltam para chegarmos ao passado? Graça Magalhães responde-me neste poema:

Onde os pássaros partem para longe
tudo será guardado um dia
as roupas que o tempo fez ridículas
o pó nas prateleiras
os segredos indizíveis
a sufocarem o peito com palavras
aves feridas a subir o céu
como fósforos queimados
nos ossos a doer de tempo


Noutro plano, neste caminho de memórias, o lugar para o irrepetível da alma humana, para a marca única de cada um de nós e da nossa passagem pelo mundo. Na verdade, cada ser é magica e ilimitadamente uma visão especialíssima do universo, ainda que nela leve a visão dos outros, a fala dos outros, o corpo dos outros.
Aquilo que fomos, aquilo que somos e aquilo que seremos é um lugar de chegadas e de despedidas, é um lugar tão de preciosidade porque ancorado na profundidade do eu, desse eu que se vai encontrando e se vai perdendo na memória dos dias. É isto que também poderá evocar o poema 37.

Não fui casa
degrau morada
véspera de silêncio
solidão crescente
não fui água
não fui nada
mas fui tudo
onde não haverá outra margem


No âmbito da relação com o tempo e a sua reintepretação, Graça Magalhães propõe-nos um emergir poético, harmonioso e de síntese com o qual se tem uma visão libertadora daquilo que é em nós a finitude e o que dela solta a magia de ter havido uma existência.

De que búzios te lembrarás
quando o tempo espaçar a água
no claro dos meus olhos
canto de ausência os versos de nada
nas palavras de vidro cansadas
sobre um rosto diria apenas
é só um búzio trazido na maré
nem borboletas
nem búzios de letras
é só um grito junto à flor dos oceanos.


A segunda parte desta obra, é talvez a que sinto mais intensa e mais de memória. De uma memória definitiva e longínqua, com um trabalho de linguagem intenso e apuramento de estilo. Há como que um clímax que enfrenta e faz uma espécie de ajuste de contas com o tempo.
Nesta parte a rapidez dos conceitos, como este sobre aquilo que é o objecto do amor:

Eis o que se amaa ideia de tudo

De facto, e num livro de reinterpretação de passados, é a constatação que a idade nos vai trazendo acerca da pouca importância do que se tem e da valorização do que se viveu e do que se pensou. Amar a «ideia de tudo». Mesmo sendo um corpo, o que significará mais é a sua ideia, mesmo um objecto, dos mais rudes, dos mais primários, só a sua ideia não morrerá com o tempo. O mundo significante, que não é perecível é o mundo das ideias e do património intangível. Parece um contra-senso falar-se de intangível num livro que tem um notável teor erótico, que apela a corpos e a lugares e a pessoas. Mas não é. É só de intangível que vive o livro e a obra. Do tangível vivemos nós entre a sobrevivência e a finitude.

O poema dirá
a luz na terra
a bordar a flor dos cajueiros
ladeira abaixo
a fluir de estórias
nas margens do Zambeze
guardo tudo tudo
do tempo vertiginoso


Eis para que serve a literatura e a arte em geral, para guardar, para magicamente guardar aquilo que depois, muito depois, alguém receberá com outra face, com outra vida, com a face e a vida daqueles que lêem e sentem, e chegam como a última maravilha a que um escritor tem direito.