Nos Caminhos de um Reino Matriz - Viagem de um Português por Terras do Antigo Reino de Leão
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15,00€
12,00€

de Joaquim M. Palma

ColeçãoColeção Raiz do Tempo
GéneroCrónicas
Ano2013
ISBN978-989-703-072-7
IdiomaPortuguês
Formatobrochura | 252 páginas | 15 x 21 cm

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Saint-Exupéry escreveu um dia que viajar é aprender uma nova linguagem, e assim se passou, pensa o viajante, na sua demorada e peninsular jornada. Mas essa nova linguagem, que só se colhe nas viagens, é, a seu ver, muito pouco verbal. No caso presente, tentou-se que as palavras sobreviventes se aconchegassem com alguma harmonia no corpo de cada página; a outra dimensão, a que não se serve do alfabeto, talvez esteja oculta no espaço visualmente vazio e silencioso das entrelinhas – e é de difícil acesso para quem não passou pela experimentação directa daquilo que é sumariamente relatado. Contudo, para dar continuidade à beleza que há no mistério inesgotável da vida, e em nome da íntima alegria provocada pelo seu potencial vislumbre, decerto que haverá sempre por aí alguns excelentes leitores de entrelinhas.

 

 

 

As primeiras páginas:

 

Prévias palavras

 

Existe no passado infantil do escrevinhador destas linhas um momento que o cérebro nunca apagou e que, com o passar do tempo, se foi envolvendo em suave nostalgia cada vez mais à beira de se tornar nebulosa recordação. Foi quando, sentado nos bancos da escola primária, ouviu pela primeira vez falar de um território medieval ibérico que respondia pelo nome de Reino de León – claro que o professor dizia Reino de «Leão», à portuguesa –, e da sua ligação umbilical com o condado de Portucale, governado pelo conde Henrique e pela infanta leonesa Teresa, e cujo filho, de ideias independentistas, viria a ser o primeiro rei de Portugal. Apontando para dentro do espaço geográfico desse reino, o compêndio de História falava ainda de um tratado de paz que fez nascer Portugal, assinado na lendária cidade de Zamora, de uma fronteira elástica
entre os dois reinos peninsulares em construção (com as terras de Riba-Côa a servirem de pomo de discórdia), do místico e milenar Caminho de Santiago com os seus peregrinos de bordão-e-vieira, de uma dramática mudança de fronteiras acordada em Alcañices, da bravura supra-humana de um guerreiro português na batalha de Toro, de um acordo assinado em Tordesillas que dividia o mundo em dois.
Foi para se encontrar com alguns ecos, rumores e sinais gerados nesse longínquo ano mil, a que se juntou mais um punhado de outros acontecidos nos séculos seguintes, que este luso do século XXI se fez à estrada, rumando ao noroeste ibérico. Não partiu animado por qualquer impulso revivalista ou patriótico-saudosista de um passado dourado, pois, dentro da realidade do tempo presente há muito o viajante fez ancorar o seu reino pessoal. Acima de tudo, e por razões que não sabe explicar com todas as letras e sons, era seu desejo, ao mesmo tempo sensorial e emocional, pisar o chão onde tudo isso aconteceu e olhar todos os horizontes, os próximos e os distantes, que, antes dos dele, outros olhos beberam. E o que daí resultasse, fosse lá o que fosse, seria sempre dádiva irrecusável.
De caminho, fez paragem em Las Hurdes, na Alta Extremadura espanhola, pela magia e pelo indizível do lugar, e também para poder familiarizar os olhos e as cordas interiores com o que era esperado de surpreendente e novo nos territórios um pouco a norte.
A última parte das crónicas diz respeito ao território da margem direita do rio Côa que, sendo hoje parte integrante de Portugal por via do Tratado de Alcañices, foi leonês até 1297. Para lá partimos à procura de marcas, materiais e imateriais, deixadas por esses períodos. E elas estavam lá – surpreendentes. A maior parte das vezes, sentíamo-las ocultas nas camadas depositadas pelos séculos posteriores – mas facilmente vinham ao nosso encontro se olhássemos com muita atenção e alargado tempo.
O itinerante livro dos registos de andar-a-ver receberá o seu derradeiro registo em Miranda do Douro, terra situada na margem leonesa ocidental e que ainda hoje mantém, como fóssil vivo, uma variante regional do falar asturiano-leonês. As últimas palavras desta viagem, geradas frente ao alcantilado Douro e inscritas no tempo de agora, irradiarão, nesse estranho linguajar, e à mistura com uma certa intemporalidade, sons de distância, de origem, de raiz.
Por ter sido uma viagem de encontro, com uso intensivo de silêncio e desprendida entrega, os escritos daí resultantes não são mares de abundantes palavras; as que ficaram para contar a história são, na maioria, as que foram atiradas espontaneamente pelos sentidos para um caderno de viagem; apenas sofreram, em tempo posterior, alguns indispensáveis acertos gramaticais e de forma. E quis o deambulante cronista que no conteúdo final estivesse muito presente a poesia, que é onde se alimentam as bocas e os corações da alma.
A partir do momento em que foi passada a linha de fronteira, e por uma questão de respeito incondicional pela autenticidade encontrada – estava-se em casa alheia –, decidiu o viajante não cair da indelicadeza de aportuguesar os nomes próprios de lugares, pessoas e acontecimentos que se iam atravessando no caminho, optando por manter a grafia castelhana actual ou então a medieval ou a asturiano-leonesa, quando isso lhe parecia ser o mais indicado.
Note-se ainda que o viajante não quis fazer «sozinho» esta viagem. Daí a existência de citações que encimam muitas crónicas. Com essas vozes, que vão desde o primeiro século depois de Cristo até à actualidade e que foram sempre inscritas antes das do cronista, pretendeu este dificultar a egocêntrica omnipresença da sua leitura sugerida por aquilo que lhe ia acontecendo na viagem; elas são, de certo modo, outras perspectivas, outras vivências, umas vezes dando força ao que se anotava, outras aceitando ser ponto de partida e/ou de chegada para reflexões, outras ainda provocando questionamentos e desvios da lógica – mas todas elas assumindo um vínculo muito directo com a matéria escrita que a seguir o cronista expunha. E foram trazidas para junto do viajante para que ajudassem e enriquecessem o seu caminhar.
Em consonância com o princípio de obediência enunciado a propósito da não transcrição para o português dos nomes próprios do universo espanhol percorrido, foram também deixados na língua original, o castelhano, todos os textos citados, por se achar que o quadro descrito em cada página fica, assim, mais autêntico. Aqueles leitores para quem o idioma de Cervantes apresenta obstáculos poderão encontrar a tradução das citações no final do livro.
Saint-Exupéry escreveu um dia que viajar é aprender uma nova linguagem, e assim se passou, pensa o viajante, na sua demorada e peninsular jornada. Mas essa nova linguagem, que só se colhe nas viagens, é, a seu ver, muito pouco verbal. No caso presente, tentou-se que as palavras sobreviventes se aconchegassem com alguma harmonia no corpo de cada página; a outra dimensão, a que não se serve do alfabeto, talvez esteja oculta no espaço visualmente vazio e silencioso das entrelinhas – e é de difícil acesso para quem não passou pela experimentação directa daquilo que é sumariamente relatado. Contudo, para dar continuidade à beleza que há no mistério inesgotável da vida, e em nome da íntima alegria provocada pelo seu potencial vislumbre, decerto que haverá sempre por aí alguns excelentes leitores de entrelinhas.

Joaquim M. Palma

Joaquim M. Palma

Joaquim M. Palma nasceu há 60 anos num monte alentejano do concelho de Vila Viçosa. Vive, desde 1982, nos arredores da cidade de Évora.
Foi professor do ensino primário durante 32 anos.
Tem poesia editada por editoras de pequena dimensão e publicou em 2003 dois livros de educação ambiental. É tradutor de obras do filósofo-educador J. Krishnamurti.
Em 2001, recebeu o Prémio Literário Florbela Espanca, com o livro Oferenda Poética.
O seu Manual de Práticas Ambientais para Professores do 1.º Ciclo foi distinguido, em 2001, com o Prémio Forum Ambiente.
Está envolvido presentemente na tradução para a língua portuguesa das obras fundacionais da filosofia taoista.).
 
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