O Chão Perfeito
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de Gustavo Pimenta

ColeçãoColeção Palavra Poema
GéneroPoesia
Ano2004
ISBN978-9-72-857576-2
IdiomaPortuguês
Formatobrochura | 92 páginas | 15 x 21 cm


LIVRO INDISPONÍVEL

"Poderá parecer que os temas são banais e os poemas construídos sobre a doce harmonia de uma linguagem comum não fora, por norma, um intruso adjectivo que, em certo momento, desconstrói a ordem estabelecida e nos leva a reflectir sobre a realidade das nossas emoções".

"... as emoções que atravessam o tempo, que teimam em actualizar-se em palavras de ternura, que rodopiam em busca da forma perfeita e que nos extasiam nos não ditos ou nos ditos que constantemente nos remetem para a infinda beleza da impossível concretização ideal dos afectos".

Altina Fernandes
(do prefácio)

Gustavo Pimenta

Gustavo Pimenta Nascido a 1944.Janeiro.29, em Crasto - Ponte de Lima. Advogado. Em diversas circunstâncias e por diversas vezes, membro de órgãos nacionais do Partido Socialista. Foi deputado à Assembleia da República na legislatura de 1991/1995. É membro da Assembleia Municipal do Porto.
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Apresentação de "O Chão Perfeito"

de: Prof. Doutora Altina Fernandes

O CHÃO PERFEITO

Ocasionalmente
Percorro a tua sedução
Pela tangente

Imagino
Da tua revelação o susto
E penso

Que amar-te seria o acto justo
E o teu corpo seria o chão perfeito
Da minha consumação.


(Gustavo Pimenta, O Chão Perfeito, poema nº 23)


Lido este poema em guisa de epígrafe e, porque, na realidade nele se encontra o título do texto de que constitui como que o eco, quero, em primeiro lugar, agradecer a honra que me é dada para, hoje e aqui, nesta Biblioteca que tem nome de um dos maiores escritores de língua portuguesa, me encontrar a apresentar o livro de poemas que tem por título “O Chão Perfeito”, da autoria de Gustavo Pimenta.
Esta apresentação constitui para mim um singular desafio e um não menor risco: é pela primeira vez que falo de uma obra sem previamente ter tido qualquer contacto físico com o seu autor. As minhas palavras serão, pois, assim o espero, insuspeitas; o meu discurso, o resultado, acima de tudo, de uma tomada de contacto atenta e objectiva, quanto baste, para vos devolver o prazer sentido no singular acto de leitura que foi o meu.
Ao longo da vida, afloram-nos à mente uma série de figuras que seleccionamos de acordo com as necessidades, os imperativos ou os prazeres do nosso imaginário e que utilizamos articulada e mais ou menos desafrontadamente de acordo com a gestão da nossa muito íntima e peculiar economia afectiva. Estas breves e simples frases resultam, pois, de leituras longínquas que fazem parte de um qualquer percurso académico regular, de leituras ocasionais que muitas vezes ilustram facetas da existência que a opacidade do texto canónico não conseguiu deslindar mas sobretudo do que a vida desafectada e generosamente nos vai emprestando neste incerto e apaixonado percurso que cada um de nós e de forma diferente experiência.
O árido mundo actual é talvez o espelho do homem privado da sua faculdade de vivenciar a poesia. Proibindo-se a si próprio de qualquer contacto com esses vastos territórios da realidade que escapam à medida e à quantidade, com tudo o que representa a qualidade pura e, por consequência, é irredutível a classificações de género e de espécie, o ser humano afasta-se da própria substância da vida. Também por essa razão, manifestamos o prazer que constitui para nós o facto de aqui nos encontrarmos neste espaço de partilha onde, através da poesia procuraremos restabelecer o diálogo com o nosso eu profundo e consequentemente com todos aqueles que, presentes, aceitaram o desafio da comunhão com o autor que a todos reuniu neste tempo e nesta hora.
Diz Octávio Paz na sua incontornável obra “O Arco e a Lira”e se a memória me não falha que “talvez o encontro do poeta com os que ama se faça em toda a sua plenitude no interior do poema”. Sem pretender confirmar a justeza da tradução, creio no entanto estar convicta da fidelidade da ideia sustentada pelo autor e que imediatamente me surgiu aquando da primeira leitura de “O Chão perfeito”. Senão, vejamos:
Numa estruturada rede de amor, materializada por uma longa carta de que a maior parte dos poemas que aqui nos trazem hoje, constituem fundamentais fragmentos, sujeito lírico e sujeito poético, em perfeita simbiose, murmuram um discurso marcado pela permanente intromissão do presente na gramática da sedução: é a magia intocada do (...) corpo (6), essa enorme festa (14), são vagos sinais dispersos pelos braços, uma boca pequena e um sorriso imenso (42), o (teu) peito feito (meu) leito sem ontem nem amanhã (51) ou o (teu) andar curvo e subtil (67), todos em harmoniosa sinfonia desaguando na perenidade de um gostar que não esmorece. O fascínio do passado infiltra-se na permanente ressurreição do despertar do tempo e actua na consciência afectiva do sujeito que actualiza as emoções no espaço de ressonância que é o corpo através da clareza metafórica da palavra:
“Era Outubro e era dia dez/E era o tempo de sermos/Outra vez/Era um tempo novo de ousadias/De que arredámos toda a timidez/E mergulhámos no furacão dos dias/Que sempre são Outubro e sempre dez” (47).
Embora elucidados, desde o início, acerca do terreno em que vamos pisar (o livro é dedicado “aos que amo”), é indiscutível, no entanto, a existência de um destinatário especial dos afectos do ser amante em que se constitui o autor do texto. Da felicidade que transparece da coincidência surpreendente do encontro com a pessoa cuja imagem corresponde ao seu desejo, dão-nos conta os poemas em que, de verso em verso, se descreve o fascínio do corpo amado através de expressões alusivas a uma “orelha breve e subtil”, à “sedução d (e um) teu perfil”, ou, como já tivemos ocasião de referir noutro momento, a referência apenas a um jeito específico e único como o pode ser uma “ madeixa rebelde sobre a testa, que desatina!” (14). Uno ou fragmentado, esse outro que desperta uma “descontrolada ternura” (16), reconstitui-se no todo do afecto, um todo onde o desejo se vem instalar e que nunca será possível descrever. A linguagem tentará exprimi-lo mas o que é próprio do desejo é impróprio do enunciado e o poeta sente-se inconformado entre a “urgência da palavra pura” e a “impotência da palavra urgente” como é dito no poema que introduz a obra e que se intitula (Prefácio). Desta indigência linguística que encerra a linguagem do amor, surge o inexprimível e fascinante universo daquilo a que, aproveitando a feliz expressão que deu como resultado o título de um livro da autoria de Maria Judite de Carvalho e salvaguardada a justeza da especificidade da respectiva interpretação, chamaríamos as palavras poupadas. Ou, recorrendo ao texto que aqui hoje nos reuniu, as palavras por dizer do poema nº 59, intitulado: “para a Joana, especialmente”. Na verdade, o poema apoia-se em palavras, mas as palavras são signos circunstanciais e relativos e a poesia nasce da luta que o poeta com elas trava e com a sua natureza para as obrigar a significar o indizível. O que verdadeiramente caracteriza o poema é a sua necessária dependência verbal e a luta inevitável para transcendê-la. Senão, vejamos de novo “Prefácio”: “meu texto sempre inacabado/em transição entre o que posso e quero/entre a indigência do meu (não) saber/e o desespero”.
“Meu texto sempre inacabado” – é essa a verdadeira essência do poema, a de insatisfazer o autor e, por outro lado, a de estar constantemente a ser retomado e reconstruído por um novo leitor. Deste modo, as palavras do poeta transformam-se no que, implícito em todo o dizer poético, constitui o âmago da poesia: a revelação da nossa condição humana. E cada um de nós procurará o sentido da sua condição humana e o seu bem-estar no interior do poema, destes poemas.
Num livro chamado Os Segredos da Maturidade, Hans Carossa escreve que “o homem é a única criatura da terra que tem vontade de olhar para o interior de outra”. Eu diria que deseja olhar para o interior de outra e acrescentaria - e para o interior das coisas. É o conhecimento da intimidade quer humana, quer material, que liberta o poema, ainda que a criação seja acompanhada de um relativo e pungente desassossego “Hoje/o teu telefonema/e veio a inquietação/onde reside o poema”. Um livro, sobretudo um livro de poesia, aparentemente imbuído de uma certa espontaneidade, constitui sempre um acto de escrita reflectido e especular. Paradoxalmente, é um universo onde as contradições se anulam e sem cessar renascem, onde o indizível é dito, onde as imagens reproduzem a pluralidade real e ao mesmo tempo a unificam, onde a alma se suspende e o tempo para. Senão, e sem querer adiantar o prazer da vossa leitura, exemplifiquemos com um poema pequenino, o poema nº 28, deste livro: “Não sei/de que memória, de que origem, /de que absurdo apelo celebramos/o tempo que já foi. /Nem mesmo sei porque nos dói/o susto da viagem prometida! /mas canto a vertigem/que celebra a vida”. Ou com este outro, o nº 51 onde explicitamente é dito que o amor anula o tempo: “eu queria saber/de cor/ do teu corpo/a geografia/mas tu nem sequer deixaste/dizer-te que apenas queria/depositar meu cansaço/em teu regaço/adormecer/teu peito feito meu leito/sem ontem nem amanhã/e aí morrer”.
Morrer para regressar à origem, nela anular as buscas e tensões e finalmente alcançar o supremo desejo de ser-se. Entretanto e habitado pela sua solitária condição, o poeta escreve. A inquietação solta o poema e solta o homem que, livre, voa nas asas do desejo que lhe coloca o céu ao alcance da mão. O céu chama-se: mãe, mulher, pai, filhos, amigos, corpo, frémito, vento, mar, sol, mundo, vida, palavra, inquietação, malmequer branco, meditação, liberdade, vertigem, memória, mundo novo, Outubro, Egito Gonçalves, Sofia de Mello Breyner, Carlos Paredes e todos os que aqui reunidos, nos congratulamos com o aparecimento de mais um livro que nos permite disfrutar do imenso prazer que constitui o acto de leitura:
“deixa que os livros/Sobretudo se forem de poesia/Te invadam a casa de alegria/E verás como a casa tem outra claridade
E tudo
Se emprenha
De humanidade.


Porto, 7 de Dezembro de 2004
Altina Fernandes