O Tempo e O Tédio
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de Jorge Fragoso

ColeçãoColeção Palavra Poema
GéneroProsa poética
Ano1998
ISBN978-9-72-978482-8
IdiomaPortuguês
Formatobrochura | 44 páginas | 13 x 21 cm

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Não se pode resistir à sedução desta voz de lúcida penetração poética, que recupera ocorrências íntimas, associações tácitas, insinuados segredos a escorrerem inteiros por entre sortilégios de uma escrita vital.

Jorge Fragoso

Jorge Fragoso
(Beira, Moçambique, 1956). Licenciado em Filosofia. Editor. Membro da Oficina de Poesia – curso livre da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra – e sub-director da Revista Oficina de Poesia.
Livros publicados: Inima, (poesia), Coimbra, A Mar Arte, 1994;  O Tempo e o Tédio, (prosa-poética), Viseu, Palimage, 1998; A Fome da Pele, (poesia), Viseu, Palimage, 2004; Réplica do Fogo Dentro, (poesia) Coimbra, Palimage, 2012; Rua do Almada (contos), Coimbra, A Mar Arte, 1995 e Dez Horas de Memória (romance), Viseu, Palimage, 1999, traduzido e publicado em Itália, com o título Dieci Ore, Nápoles, NonSoloParole Edizioni, 2006.
Participação poética e ensaística dispersa em revistas e colectâneas em Portugal, Espanha e Brasil.
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Terra Habitada

de Montserrat Villar González

  • Inima, A Mar Arte, 1994 (Poesia)
  • Rua do Almada, A Mar Arte, 1995 (Contos)

Apreciações críticas de Leocádia Regalo (13.03.99) e de Mário Nunes in Diário de Coimbra de 11.07.99, p. 17

de: Leocádia Regalo e Mário Nunes

Apreciação Crítica por Leocádia Regalo

Na introdução a "Tempo e Poesia", Eduardo Lourenço escreve: "Em sentido radical, não há nada a dizer de um poema, pois é ele mesmo o dizer supremo". Esta asserção aplica-se, na sua inteireza, aos poemas em prosa de "O Tempo e o Tédio", que Jorge Fragoso agora publica. Ao apresentar este livro, faço-o com o gosto e a cumplicidade que me ligam à escrita poética e com a amizade sincera que o autor sempre me mereceu. Sem querer entrar em exegeses elaboradas passo, de imediato, ao campo da fruição do texto, convidada pelo sujeito poético que me diz, em Sensível:
"Falo do sentir, essa maneira simples de beber as coisas pelos olhos e pela pele."
Um título contundente – "O Tempo e o Tédio" – a lembrar o "spleen" dos Românticos, a passagem penosa da existência, o tédio de Mário de Sá-Carneiro ou de Bernardo Soares, as crises essenciais de Al Berto. Do tempo, poder-se-ia dizer que o sujeito poético o concebe como "um decorrer fora do tempo", sem Cronos a estipular a marcação exacta do seu curso, num passado que cede à presentificação, tornando-se futuro, numa atemporalidade que apenas nos liga à espontaneidade dos instantes, ao fulgor dos lapsos, à pausa circunstancial.

"Preciso do Tempo, aquele de quem não sei a definição do nome, porque o Tempo se mistura com o som dos astros e constrói o segredo de embotar os sentidos" (p. 21).
"Desapercebermo-nos do tempo é tanto descanso..." (p. 42).
No poema "Ira", permite-se dizer:
"Se pudesse iria até à destruição do tempo. Mas não, algo me diz que não será necessário. Ele, o tempo, será eternamente o senhor dos punhais" (p. 10).
Ou em "Monólogo":

"Ao menos o Tempo continuará a ser o desejo de uma plenitude inalcançada." (p. 28).

E no poema "O Deus e o Tempo" (p. 37), questiona:
"Qual deus fará o tempo?"
E referindo-se à criação, estabelece que
"A força é um caminho do tempo."
"O poder é uma força do tempo.
O desejo de existência talvez se chame eternidade."

Mas uma outra interrogação fica em suspenso:
"Que tempo fará os deuses?..."
Sobre o tédio, ocorre-me citar o "Livro do Desassossego " e dizer como Bernardo Soares "O tédio é a sensação física do caos, e de que o caos é tudo".
Senão, vejamos:
No poema que tem como título "Oculto" lê-se:
"Um tédio impaciente que não tolera vozes, gestos, ruídos, nem a alegria dos outros, pobres loucos, que me cercam e vegetam sorrindo. O sol abrasa lá fora. Esta prisão de horas sufoca-me. Sobem-me garras na garganta. Desespero. Arrebento. Estou esquecidamente, a pensar na morte... Aspiro liberdade..."
O grito irrompe do silêncio, do refúgio onde o poeta se protege do mundo, desse caos que circunda física e moralmente o desejo de quem aspira construir liberdade.
Mas, a poesia de Jorge Fragoso faz-se de paisagens interiores ao serviço de uma poética do desejo que plasma a criação fragmentada.
A liquidez matricial da água das palavras serve de espelho a este Narciso inquieto, que só crê na eternidade dos cristais.

"Quando penso a água de cristal, é por de dentro dela que me vejo, como se o espelho fosse o meu céu de um momento e penetrasse de novo o ventre dos regatos de pedras redondas e suaves" (p. 7).
"Os cristais são sempre eternos no fundo do correr das águas" (p. 23).
Em "Construção da escrita" (p.15), o poeta lança as traves mestras da criação poética. Fala-nos da escrita como sinfonia, "uma música física de pinhais, álamos, deserto" e as metáforas eufóricas e disfóricas povoam os ritmos, as cadências, os gestos, dotando-os do valor meteórico que os elementos conferem à natureza. E em "Ódios", o poeta confessa, num assomo de raiva, face a vulnerabilidade da génese poética:
"Odeio a música, a melodia das palavras, odeio os ritmos estúpidos da poesia derramada diante dos olhos dos amantes das musas. Eu não sei escrever" (p. 18).
Para fazer renascer das cinzas o verbo primordial:
"Um dia arranco uma a uma as cordas da garganta, calo para sempre a voz que sai indomável e destruo o que restar da Poesia. Então sim: Pura, nascerá!" (p. 18).
Uma escrita que assim se apodera, com tal força, do sujeito poético, não pode deixar de nos surpreender. E verte no poema toda a emoção em encontros perfeitos de palavras. Mesmo quando joga com elas:
"Não ha palavra com sol que chegue a luar. Como seria? Solar? Dir-se-ia: sofrer ao solar como amar ao luar? Solar de Junho como luar de Janeiro?" (p. 19).
E no crescendo das descobertas e das inter-relações constrói-se o poema e conclui-se:
"Da palavra sol nasce solidão."

Raivas, fúrias, revoltas, cóleras, ódios, lágrimas, sangue, asco perpassam em alguns poemas, para conotar a incomodidade da existência comandada pelo destino de um sujeito poético que se debate na tragédia da criação.


"Sombrio é o tempo que se penetra de dramas estranhados. Não e necessário ser-se trágico, basta viver (p. 11).
"Se pudessem, as mãos iriam destruir a dor, apertar as têmporas até ao vómito do sangue, soltar este fogo preso nos cabelos, e depois então talvez o céu enfim azul, uma nuvem de lã de carinhos por explicar, o sol a aquecer a pele, a perder-se de vez a ardência dos olhos..."(p. 21).
"De música e de lágrimas se estendeu aquele dizer mágico que num espírito total floresce e regressa do Tempo fruto essência e sentimento"(p. 42).
Por vezes, só o esquecimento atenua a dor e traz a clarividência:
"Compreendo o prazer do álcool. E do esquecimento. O fumo dilui-se e a lucidez é outra, diversa da dor e do cansaço" (p. 13).

"Queria tanto perder de vez o equilíbrio e mergulhar o Tempo onde os anos se esquecem"(p. 21).
Mas, do lado do tédio, também surgem os fantasmas da angústia, da ansiedade, do medo, como se a invenção poética estivesse predestinada a digladiar-se com os monstros da existência, que a sensibilidade agudiza:
"De dentro do sonho se projecta uma vida levada a ferros" (p. 14).

"Não temos outro destino que o de suportar gumes sobre a garganta. Como se fossem arcos de desejo do grito, essa forma estranha e solene de ceder" (p. 22).

Como moeda de duas faces, a poesia de Jorge Fragoso faz-se também de memórias, de prazer, de música, de luar, de volúpia, de luz, de cristais, de astros, de espanto e de surpresa.
"Sobre o sopro dos teus lábios descanso, meu amor, do ódio de correr fantoche de mim"(p. 26).

Quando a memória se transcende, o sonho ocupa o seu lugar – "À noite o meu sonhar foi teu" – e o plano onírico instala-se no momento da insónia, fazendo ressurgir um tu "presente em cativas imagens".
"...como a carne das coxas que a tua pele resguarda, quente e veludo que me faz os delírios...
meu amor, eu quero partir agora e levar nos dentes para sempre a memória acesa, nua memória do teu corpo..." (p. 25).
Não admira, portanto, que o poeta se queira isolar do mundo, num "Devaneio"(p. 8) de refúgio transparente:
"Lá mais para cima, onde estaca de espanto a terra pelo mar tão perto, no caminho que leva a remotas Espanhas, queria uma casa toda em vidro, paredes e tectos e outros refúgios "(p. 8).
E, assim, fugir à cidade que o sufoca, mas também fascina, envolta em bruma, em tons crepusculares, consagrada aos rituais rotineiros do fim do dia, povoada de seres anónimos, condenados ao vazio:
"A cidade invadiu-se de gestos e de gritos, passaram repetidos os rostos sem cor de sorrir, arrastaram-se pelos becos e calçadas, de um abandono quieto nos olhos. As grandes cidades são cheias de gente sem ninguém."(p. 20).
"A minha cidade enche-se de músicas e de prantos, de gigantes e de mortos, tornando áspero o receio das sombras"(p. 24).
É na "cidade emudecida" que se dá o encontro, depois da constante procura das ausências sentidas, das esperas adiadas:
"Fomos pelo tempo, ainda mal a dor se via. Esquecemos a dor e o tempo, como se esquecem pelas salas de cinema"(p. 31).
O rio, com toda a sua força imagética e simbólica, é também tema recorrente. Em "Alegoria Triste", poema de rara beleza, este identifica-se com um "tu rio-mulher invenção", que passa aos pés da montanha estática, o eu poético. Simboliza, assim, a marcante passagem da vida, no seu inevitável fluir sem retorno.
Mas, em "Monólogo"(p. 27), o rio surge como lugar de criação e de inspiração, agora estagnada.

"Não sei porque permaneces mergulhado nesse rio que não corre".
"Não é reconhecido o querer, não servirá de caminho o sul enlaçado da hora do calor indicando a luz, deverá a margem ser seguida, vasculhado o olhar em cada curva do rio. E não soprarás o leito de hálito de espírito, porque nenhuma Natureza se comanda. Nem a loucura."
Assim, se debate o poeta no âmago da criação, transpondo para a metáfora toda a força evocativa presente nas coisas que nomeia – rio, água, ponte, margem, sulco, foz – e que recria numa simbiose perfeita entre o que passa e o que fica, entre o imutável e o efémero, entre o ser e o destino.
Estamos perante uma poesia de uma desenvoltura inegável, de um trabalho oficinal de exímia delicadeza, onde as sinestesias operam mágicos encontros expressivos, onde o poeta se apropria da língua, recriando-a na sua coesão – lembro expressões como:
"Bem montanha envolvendo a minha casa"(p. 8)
"no silêncio de tanto agreste"(p. 8)
"o sangue novo deste ser bom estar aqui."(p. 13).
Com uma força imagética e metafórica verdadeiramente marcante, "O Tempo e o Tédio" é uma colectânea de poemas em prosa que nos prende numa primeira leitura, mas que convida a mais e mais leituras, porque, de cada vez que se relê um poema, novos sentidos se abrem, novas pontes de cumplicidade se estabelecem, outras faces da escrita se realçam, qual composição poliédrica que só se concretiza na sua superfície multifacetada.
Não se pode resistir à sedução desta voz de lúcida penetração poética, que recupera ocorrências íntimas, rumores de ambientes, associações tácitas, insinuados segredos a escorrerem inteiros por entre o sortilégio de uma escrita vital.

13 de Março de 1999
Leocádia Regalo



Apreciação Crítica por Mário Nunes

Poeta sobejamente conhecido e credenciado, autor de outros livros sobre poesia, Jorge Fragoso lançou, recentemente, por intermédio da editora "Palimage Editores", uma nova obra intitulada "O Tempo e O Tédio", conjunto de 31 poemas que confirma a sensibilidade deste artista das letras. A capa que abraça uma fotografia de A. Manáguia, ambienta o conteúdo que enobrece a obra. A apresentação coube à Dr.ª Leocádia Regalo que, na contracapa, exterioriza o fulgor da poesia de Jorge Fragoso, expressando o seu pensamento: "Em O Tempo e O Tédio reafirma-se uma poética do desejo, dita num discurso de fascinante encontro de palavras, a individualizar um lirismo de rosto próprio".
Por sua vez, o autor, em nota colocada na banda da capa, alude ao seu percurso literário, temperando os "gritos demais para tanto silêncio", com a força imanente que o impeliu para vogar em águas mais profundas "o tempo fez-se arco de fuga, entre o cárcere das horas contadas e a magia do olhar para além do universo...". Jorge Fragoso caldeou o tempo sem tempo e num arremesso sonhador juntou os anos de tédio e "verteu para este livro" o produto de muitas vontades e o amor para todos os que ama.
Jorge Fragoso delicia o leitor com um caminho de paixão e de aventura, de solidão e de raiva, de encontro e de memória, de carinho e amor, buscando na construção da escrita a "sinfonia de letras crescendo em tons de violinos suaves, teclas, oboés, uma música física de pinhais, álamos, deserto..."
Desfolhando ritmos e cantando hossanas, sustenta-se de passagens íntimas aprimora-se em sulcos de crepúsculo matizante e atraente, e reflecte-se no pulsar de saudades e na fragrância dos odores que reclamam amor.
A poesia de Jorge Fragoso desenha sorrisos, desperta ternura, afronta ódios, sussurra turbilhões de pensamentos e invade a alma, penetrando no ego que vem do ego poético, aquele que transmite sensações e reparte tranquilidade no desnudar de gritos que saem do silêncio... O Tempo e O Tédio escoa-se pela "garganta" e torna-se voz nas palavras que tocam os lábios e inventam o poema.

Mário Nunesin Diário de Coimbra, 11 de Julho de 1999, p. 17.