Para além das coisas
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de Maria Toscano

ColeçãoColeção Palavra Poema
GéneroPoesia
Ano1998
ISBN978-9-72-972928-7
IdiomaPortuguês
Formatobrochura | 34 páginas | 13 x 21 cm

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Em para além das coisas há uma força de sentir que chega profundamente ao âmago e faz imensa esta plenitude que penetra a alma... e a transforma...

Maria Toscano

Bem fornida de carnes e nervuras, Maria Toscano, alentejana de Campo Maior, aprecia enchidos e, aliás, toda a boa mesa - incluídas as conversas e controvérsias com os amigos após um bom repasto. Instigada à escrita há mais de vinte anos pela nervura da fala poética, a autora também se deleita em cantar: Piaf, Mahler, portugueses (fados e outros), brasileiros e Chavela Vargas constam da sua trajectória de animação de bares ou de intervenção cultural. Militante social infiliável mas fiável; curiosa, desconfiada mas firmada nas suas raízes sulistas, a autora optou, profissionalmente, pela Sociologia - sendo docente no Instituto Superior Miguel Torga, de Coimbra (desde 1990) e Doutora em Sociologia pelo ISCTE, em Lisboa (novembro / 2010).

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  • as palavras contidas (1998)
  • A 'madre' da casa da avó / os nomes infinitos do ser (2002)
  • A artesã do desengano  (2003)
  • Os lobos (2010)

DUAS OU TRÊS PALAVRAS QUE NÃO SÃO DE CIRCUNSTÂNCIA

de: Amadeu Carvalho Homem

DUAS OU TRÊS PALAVRAS QUE NÃO SÃO DE CIRCUNSTÂNCIA

Começo por informar quem me ouve do meu propósito deliberado de ser parcial, parcialíssimo nas palavras que irão ouvir. Eu posso ser imparcial perante pessoas ou coisas que me sejam estranhas ou indiferentes. Nunca perante uma cidadã – a Maria-Toscano-poeta, para mim a Maria-de-Fátima-Toscano-Amiga que me facultou um texto autobiográfico onde se lê: "pelos bares da vida foi cantando com músicos amigos".
E o seu canto, de esperança e insubmissão, de denúncia e confraternidade, de espera e encontro, foi-se renovando em muitos bares da vida, desde esse momento encantatório em que, menina ainda, encostados os seus quinze anos ao balcão de um Portugal revolucionado, poetou galhardamente para ganhar um primeiro prémio de poesia estudantil.
O título desse poema talvez seja programático, ao invocar uma certa maneira de viver e ao vaticinar "que a verdade há-de, um dia, / ser a porta da alegria".
Se existe para esta alentejana de Campo Maior "uma certa maneira de viver", significa isto que o modo de vida ronceiro, trivial, colado ao chão, previsível e habitualmente repetitivo, este modo de vida produz na Maria de Fátima um tédio irreprimível. Não se trata de um qualquer fenómeno de spleen finissecular; trata-se, isso sim, de um justíssimo sentimento de esbulho e de decepção relativamente a uma sociedade portuguesa que prometeu mundos e fundos e realizou quase nada.
Foi esta incomodidade que pude um dia surpreender; tendo-a interrogado sobre as coisas banais da vida – a saúde, as aulas, os projectos imediatos, a investigação, etc. – recebi dela esta lapidar confissão: "Vai tudo correndo menos mal. Mas, sabe Professor, o que eu quero mesmo é cantar".
E no entanto, a Maria de Fátima Toscano nunca deixou de ser uma distintíssima cultora das ciências sociais, com um mestrado defendido brilhantemente na Universidade Nova de Lisboa e com um doutoramento presentemente em curso no ISCTE.
Suspeito, porém, que esta minha Amiga discrimina entre o domínio das coisas necessárias ao ganho da vida e o domínio das essências necessárias ao ganho da alma. Suspeito que este último domínio se lhe desvelou e ofereceu nos momentos em que interpretou Piaf ou Mahler em peças de teatro universitário e em cafés-concerto. Atrevo-me a pensar que – mais do que o discurso objectivo dos cientistas sociais que domina e compulsa – é a emocionalidade das situações, e a gramática do intimismo que verdadeiramente a fascina e deslumbra.
A inclusão de um texto da sua autoria na antologia poética Memória da Palavra, nascida do primeiro encontro de jovens poetas de Coimbra, prenunciou o seu primeiro trabalho autónomo, intitulado Do Vagar e Da Memória, dado a lume pela Palimage Editores. Agora surge-nos este Para além das coisas, título que parece conferir razão ao esboço interpretativo a que me abalancei.
À puridade vos confesso que vislumbro muito poucas diferenças entre a Maria Toscano-poeta e a Maria de Fátima Toscano, minha Amiga. E que esta última, a Amiga, não actuou jamais como o biombo "conveniente" da primeira, a Poeta. Tamanho é o desencanto destes dias portugueses de vociferação pseudo-democrática, mas tão convincente e metódico se apresenta o trabalho de nivelar por baixo a que se votam instituições e figurões ditos responsáveis, que a "fala poética" se arrisca a ser o verbo de resistentes exóticos.
Muitos se deixam contagiar pela pletora das mediocridades impantes, procurando ocultar-lhes a diferença específica do seu modo de estar. É arriscado não se ser zoilo no Portugal hodierno. Tenho, por isso, como sumamente valiosa e corajosa a postura de quem apresenta com orgulho o seu "ser-outro" e de quem continua a reiterar que não esquece a "riquíssima experiência laboral e humana que pôde vivenciar anteriormente" e os movimentos de reivindicação estudantil a que pertenceu.
A Maria de Fátima é assim: um bloco de autenticidade, modelado pelo cinzel de uma sensibilidade sem concessões. Por isso, à margem de palacianos usos e costumes, muito para lá de senhorices dúbias e de molúrias de salão, iremos sempre encontrá-la nos bares da vida, cantando com músicos amigos um fado do sul ou uma canção da Piaf, articulando uma das suas "falas" de poesia vera e eternamente fiel.
Guarde-me então um lugarzito rente ao balcão discreto onde reúnem os seus admiradores. Quero ouvir-vos ao longo do tempo que me irá sobrar. Deste modo, alimentarei a convicção de que, apesar de tudo, ainda dardejam raios de sol por entre o plúmbeo céu que nos rodeia ...

Amadeu Carvalho HomemApresentação da Autora no lançamento de "Para além das coisas", no foyer do Teatro Académico de Gil Vicente em Coimbra, a 6 de Novembro de 1998.