Pela Voz de Calipso

de Leocádia Regalo

ColeçãoColeção Palavra Poema
GéneroPoesia
Ano1998
ISBN978-9-72-972927-0
IdiomaPortuguês
Formatobrochura | 56 páginas | 13 x 21 cm

Nascida nas Ilhas dos Açores, esta belíssima poesia voa todo o mar Atlântico, todos os oceanos. Para colher a beleza suprema das palavras em lugares de terra, espírito, amor, a paixão do universo... Como só palavras de profunda maturidade poética saberiam tornar sublime o sentir, e dizer...

Leocádia Regalo

Leocádia Regalo (Norte Pequeno, S. Jorge, 1950)

Licenciada em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Leocádia Regalo tem desenvolvido a sua actividade cultural como professora, crítica literária e tradutora. É na poesia que se afirma na criação literária, tendo publicado Pela Voz de Calipso, (Palimage, 1998), um retorno às suas raízes presas às ilhas açorianas, nomeadamente S. Jorge, berço natal, e Terceira, onde viveu a infância e juventude em Angra do Heroísmo. Seguem-se os livros Sob a Égide da Lua (Palimage, 1999), Passados os Rigores da Invernia (Caminho, 2003) e  Tons do Sul (Palimage, 2011).
Lia no país da poesia (Palimage, 2014) é o seu primeiro livro de literatura para a infância. 

 

Lia no país da poesia – 2.ª edição | LIVRO RECOMENDADO para LEITURA ORIENTADA no 6.º ano | PLANO NACIONAL DE LEITURA-20%

12,50€
10,00€

comprar

Lia no país da poesia – 2.ª edição | LIVRO...

de Leocádia Regalo, Maria Guia Pimpão

Tons do Sul-20%

10,60€
8,48€

comprar

Tons do Sul

de Leocádia Regalo

Sob a Égide da Luaindisponível

Sob a Égide da Lua

de Leocádia Regalo

Pela Voz de Calipsoindisponível

Pela Voz de Calipso

de Leocádia Regalo

PELA VOZ DE CALIPSO, a voz do mar...

de: MILOLA GOUVEIA

PELA VOZ DE CALIPSO,
a voz do mar...

MILOLA GOUVEIA


Uma voz revela um tempo e um lugar eternizados na memória. Na voz está a palavra de Calipso numa Ogígia transfigurada nas ilhas encantadas dos Açores. Uma Ogígia que é porto, "Serei teu porto seguro / para te abrigar do medo" (p. 30), com epígrafe que conduz à amizade e ao afecto (Qui vient en ami arrive trop tard et part trop tôt). Calipso na ilha, numa dialéctica do exterior e do íntimo, este em confidência, subtilmente emergente do verbo revelador de si e do mundo.
Leocádia Regalo inscreve Pela Voz de Calipso uma tessitura verbal de lugares, tempos e eu manifesto nas rubricas Ao apelo ao mar, Em confidência e Êxtases, subjugando ao Oceano, que vai além das ilhas açorianas, o propósito de um itinerário, que recupera fragmentos de viver por memórias fragmentadas, que nos trazem a China, os Açores, Coimbra, a Infância, os afectos e sobretudo uma Inquietação a desejar uma Serenidade sempre nomeada, mas não conseguida: "... a trégua merecida / na silente inquietação da vida" (p. 34).
0 livro abre com Arquipélago, insinuando, desde logo, o relevo de que se investe o Mar e a Origem: silêncio, mar, ilhas, em inteireza que um tempo define – um tempo de origem, viagem primordial (como indica o poema homónimo, p. 12). O Oceano encerra o real e o mistério: o azul, a bruma, a maresia, numa espécie de palavra pedagógica que quer transmitir a um destinatário: o filho (S. Jorge, p. 13). Enigma, dragão, tesouro cristalizam-se num encantamento da Natureza, oferecida por um lugar determinado. 0 Oceano (poema homónimo, p. 20) é amniótico líquido, ventre maternal, abrigo caloroso e imersão profunda, vertical (Frente ao Mar, p. 28), numa pulsão de vida e de morte, de que renasce vida ainda, apesar dum voltar à tona das tristezas (p. 28). É ao mar que está ligado o tempo de aprendiz (Poema para um amor ausente, p. 17), destacando-se a figura do pai no tempo da descoberta do mundo, no tempo da Infância já perdida, onde afecto se liga a outra aprendizagem: a da morte (Encontro com a Morte, p. 19).
É uma voz de Calipso, que associa música e verbo, seja nos nocturnos de Chopin, seja em ritmo de swing (p. 39) no enleamento dum tempo de eu-tu. Na ternura dos poemas de amor e de recuperação do passado incide a tónica eufórica, dada pela passagem do tempo-instante apenas com perenidade de memória: "De repente / a memória perde-se / nas teias / dum tempo remoto" (Cogitações, p. 26) e o encontro dá-se sempre com a evidência do irremediável (ib.). O olhar assume uma importância fundamental para a construção do jogo entre o mundo exterior e o interior de quem o absorve: "É no olhar / que se acendem / as fogueiras / do fim da tarde" (Quase Sol Posto, p. 37). Câmara fotográfica fiel não é a objectiva que regista as fotografias de viagem: "A câmara recôndita / regista o fulgor da suprema fusão" (Lake Tahoe, p. 38). No interior está o vulcão das emoções, apenas adivinhado pelo ardor duma lava que escorre da palavra poética.
O último poema – Homena-gem ao Rei trovador, a Cesário e a Caeiro ou a Poesia que vejo da minha Varanda – retoma a Natureza e a simplicidade que emociona, retoma ainda uma herança cultural, que e um anseio sem memória nas palavras dos poetas a aspirar o retorno a um tempo primordial que guarda a Poesia.
Campos lexicais de Mar e Natureza fecham-se num círculo dentro do qual o eu se protege e onde se pressente que decorrem as vivências mais intensas.
Pela Voz de Calipso se enreda um tempo de viver...

Milola Gouveia
in"DIARIO INSULAR", 8.10.1998,pag. 4.

Temas clássicos em livros recentes

de: José Ribeiro Ferreira

Pela Voz de Calipso de Leocádia Regalo (Viseu, Palimage Editores, 1998) é outro livro que tem subjacente a cultura clássica. Conjunto de poemas, na sua maioria, sobre os Açores, é constituído por três partes: as duas primeiras – com os nomes de "Ao apelo da ilha" e "Em confidência" – dedicadas às ilhas ou a pessoas dos Açores; a terceira, "Êxtases", sobre vários locais que a autora visitou ou em que viveu.
No livro – além da evidência do título – encontramos esparsas diversas referências a temas gregos e romanos: alusão à idade de ouro, a propósito da Ilha Terceira e de Angra (p. 12); a equiparação da lendária Atlântida a S. Jorge, a ilha "vulcânica,/viçosa e húmida" (p. 13), também comparada com a Arcádia e paisagens cantadas por Virgílio nas suas Bucólicas (p.14):

E se puderes
numa quimera
encontrar Virgílio
mostra-lhe
como é o oceano
o azul
a bruma
a maresia
nessa ilha de verde pradaria
de ovelhas mansas e frescos ribeiros
para ele a eternizar numa bucólica.

Ou descreve o pôr do sol em Lake Tahoe por "Apolo desmaia/ na limpidez das águas" (p.38); e, ao referir-se à cidade de Coimbra debruçada sobre o rio, compara-a a Narciso (p.51):

e a cidade extasiada
reflectindo-se nas águas
admira a sua imagem
qual Narciso incauto
atraído pela voragem
do espelho
que a devolve
em colina e torre de mensagem.

Mas, apesar destas referências, o próprio título nos remete para a Odisseia como arquitexto. Calipso era, como é sabido, a ninfa que habitava a paradisíaca ilha de Ogígia – tão belamente descrita no Canto 5 da Odisseia (vv.43-80) –, que aí reteve Ulisses vários anos e que lhe oferecia a imortalidade, caso o herói ali quisesse ficar com ela para sempre. Perante a recusa dele e a ordem dos deuses, deixou-o partir, ajudando-o na construção da jangada e avisando-o dos perigos que o esperavam.
Se a equiparação das ilhas dos Açores – cuja descrição se faz com grande sensibilidade na primeira parte do livro, sobretudo S. Jorge e Terceira – com a paradisíaca Ogígia é natural e compreensível, logo nos assalta uma interrogação: porquê o significativo título Pela Voz de Calipso dado ao livro? Talvez a resposta se encontre na segunda parte da colectânea onde o tema do amor é central. Com a reveladora designação de "Em confidência", essa segunda secção abre com o sugestivo poema "Mares"(p.23):

De mares se preenchem
as vidas
Mar de lágrimas.
Mar de rosas.
Mar de sargaços.
Mar de enganos.
Mar das descobertas.
Mar salgado.
Se o mar fosse feminino
dizia-se A MAR.

Tema recorrente em Pela Voz de Calipso, o amor – cuja voz, trazida pelas chuvas de julho, segreda "desejos/que estão a marulhar" dentro do sujeito poético (p.24) – ficou marcado na sua pele como uma tatuagem (p.29):

Por um segundo pousei a alma na tua mão.
Quando acordei
eram de fogo os lábios
marcados na tua pele.
Estremecida
desvaneci a entrega.
Como se pudesse apagar
o vestígio da paixão...

O alvo desse amor de fogo, no poema "Ogígia" (p.30), chegou pela tarde e ancorou "na praia deserta", "cansado da tormenta"; envereda pela floresta em busca do refúgio e é acolhido pelo sujeito poético:

Chegaste pela tarde
num belo veleiro
que ancoraste na praia deserta.
Cansado da tormenta
enveredaste pela floresta
e procuraste refúgio
onde te acolho
com doce aroma
em penumbra amena.
Trazias infortúnio solidão e mágoa.
Ofereceste o calor das tuas mãos breves.
Levaste o bálsamo generoso da espera.

Os dois viveram em Coimbra um "sonho de deuses", entregues "à perfeição dos dias", refere o poema "Estação nova"(p.25):

À beira-rio
com um beijo sôfrego
sagraste a minha chegada
.A cidade iluminada
– a torre feita vigia–
assistia à nossa exaltação.
Livres
confundidos
divinos
entregámo-nos à perfeição dos dias.
Um sonho de deuses.

Mas "de repente / a memória perde-se" e surge o silêncio, o único que "preenche o vazio / da verdade absurda"(p.26). Por isso

Como pedra de túmulo
a verdade cai
sobre um ciclo de vida
a selar a evidência
do irremediável.

Daí que sejam apenas "Ígnea miragem"(p.27) "Teu corpo / meu incêndio // Tua voz / meu fulgor // Teu olhar / minha entrega" e que, pelo contrário, seja "Tua alma / meu deserto". É natural por isso que, no fim do poema "Ogígia" (p.30), como Calipso, o deixe partir, apenas com um recado:

Deixei-te partir
e escrevi o recado
que se fez segredo:
Serei eu teu porto seguro
para te abrigar do medo.

e termine essa segunda parte do livro com este "Desejo" (p.34):

De serenidade
quero as horas
que me restam
e que a felicidade
seja a trégua merecida
na silente inquietação da vida.

Como Calipso, o sujeito poético é natural de ilhas paradisíacas e nelas viveu, acolhe a pessoa amada (p.30) e os dois vivem um "sonho de deuses"; mas um dia "a verdade cai", como pedra de túmulo, "sobre um ciclo de vida". E então o sujeito poético como Calipso a Ulisses, deixa partir essa pessoa amada com um recado "que se fez segredo" (p.30). Mas a todo o momento se trai, mesmo na calma com que envolve as palavras (p.31):

O pulsar do coração
ao encontro de teus passos.
A voz embargada
na resposta evasiva.
Traio-me na calma
com que envolvo as palavras
de aceitação.
E vivo do avesso
sombra pareço
desta paixão.

Pela Voz de Calipso, um belo livro que, de modo algum, recusa o seu débito à cultura clássica, em especial ao poema homérico que canta o regresso de Ulisses. Curiosamente, em outro ponto se relaciona com os primórdios da poesia grega: na poesia de catálogo, frequente e tão significativa em Homero e Hesíodo, e que na actualidade, desde Fernando Pessoa, é hábito apelidar de enumeração caótica. Para dar um exemplo apenas dos vários que Leocádia Regalo nos oferece neste livro, remeto para o poema "Evocação" (p.15), de que cito o seguinte trecho:

Templos
Castelos
Monte Brasil
Angra
Basalto
Cal
Cantaria
Ferro forjado
Araucárias
Praças
Solares
Varandas

No livro, natureza e sentimento dão-se as mãos e escondem-se ou expressam-se na voz de Calipso, uma figura da Odisseia que aqui nos surge identificada com o sujeito poético.


José Ribeiro Ferreira
Temas clássicos em livros recentes, in Boletim de Estudos Clássicos - 30, Coimbra, 1999, pp. 162-167.