Poeira Corpo
-20%

7,42€
5,94€

de Daniel Matos

ColeçãoColeção Palavra Poema
GéneroPoesia
Ano2007
ISBN978-972-8999-28-5
IdiomaPortuguês
Formatobrochura | 68 páginas | 15 x 21 cm

Efetuar compra



o que a carne pode: beber-se
contra a mão que a toca. o sangue maduro
pelo centro das faces.
a mão que trabalha na dimensão da carne
trabalha uma transpiração única:
lençóis que abrem pelas salas abertas.
únicas. a fonte
toda aberta à força do corpo.
o sangue rompe-o.
é o sangue que transborda
pelos canais abertos na casa viva.
o lugar do corpo que sustenta a divisão única.

Daniel Matos

Daniel Matos... poeta.
Poeira Corpo-20%

7,42€
5,94€

comprar

Poeira Corpo

de Daniel Matos

MORTE ABRE O QUE A MÃO PERMITE

de: Porfírio Al Brandão

A MORTE ABRE O QUE A MÃO PERMITE

*

Uma leitura de Poeira Corpo de daniel matos

E se Pandora, bailarina aquática de um ovo atacado por pêlos de pulmão, abrisse de novo a fábrica do mundo rachando insólita laranja, com toda a violência gratuita que o sumo no esplendor da sua acidez proporciona?

É uma nobre ameaça para a riqueza de um mundo motorizado pelo pecado, abrir a laranja e contemplar os seus gomos como divisões incandescentes, insondáveis nós celestes. De facto, ameaçada sobrevive sempre esta carne lírica, recapitulando a fecundação entre os elementos primordiais; uma flor de fogo atravessada numa arquitextura de água, esta água fêmea que iluminada pelo fogo nos propõe, de imediato, nova rotação de relâmpagos subentendendo reformulada estereoquímica que implica estranhos movimentos às estrelas e consequente alteração do mapa astrológico – entre uma vermelha organoléptica e uma negra terrífica se alimenta um astro carnívoro que nos seduz rompendo os diversos folhos da película toda faiscante. Será feliz este intestino iluminado ou simplesmente pirotécnica esta fogueira no mar?

Mas falemos de uma arquitectura da alma, agora que desabrocham cometas pela opulência da escrita, puro desígnio da Paixão. Neste deserto circunscrito, onde cada grânulo de areia brilha geografia repensada na carne, precipitando um trânsito de espectros oriundos da massa rotunda de estrela. Entretanto, ninguém fica incólume ao fenómeno retrospectivo que é a hibernação sugerida pela perplexidade ao crossing-over magicado por um deus em contínua aprendizagem; um deus plantado na raiz do olhar. Assim tremem tétricas visões na ilusão da caligrafia sonhada, uma escrita ao sabor do bloco Terra-Lua pelos sentidos fechados; uma noção de velocidade intocável a definir crua narrativa de um corpo a perder-se pela boca – nesta laranja aumentada, um pavão ourives e incendiário arquitecta pacientemente um arco-íris desde logo infundido à morte.

Uma criança acende as divisões de uma casa que cresce ininterruptamente pelas forças de convecção do planeta; e admiravelmente lhe aumenta a pleura enquanto brinca pelos múltiplos corredores sanguíneos – uma terra mutante assumida em cada espasmo da carne. A missão consiste em educar esse desabrochado cometa de magma em labaredas coagindo o fascinante origami que é esta criança a desdobrar-se minuto a minuto, uma criança marcada pela extensão paralítica da roupa clara. A casa ergue-se pela descodificação de cada aresta em brasa, transparecendo inevitável vulcão numa dança de anéis vitais: um gigantesco pulmão que se nutre de oxigénio sísmico.


Porfírio Al Brandão