POESIA DO MUNDO / 6 - Antologia Bilingue
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ColeçãoColeção Palavra Poema
GéneroPoesia
Ano2010
ISBN978-972-8999-88-9
IdiomaPortuguês
Formatobrochura | 230 páginas | 13 x 24 cm

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EDIÇÃO APOIADA PELO INSTITUTO CAMÕES

Prefácio

Maria Irene Ramalho de Sousa Santos

A violência da poesia

Poesia do mundo 6 reúne, como de costume em edição bilingue, poemas dos poetas que participaram no VI Encontro Internacional de Poetas, realizado em Maio de 2007 e subordinado ao tema geral, "Poesia e Violência".
Um grande poeta alemão perguntou um dia: "Para quê poetas em tempo de indigência?" Dezoito anos depois de terem iniciado este belo e perigoso projecto de trazer a Coimbra, de três em três anos, poetas de todo o mundo, os organizadores do VI Encontro entenderam parafrasear Friedrich Hölderlin e perguntar-se: "Para quê poetas em tempo de violência?"
Vivemos em tempo de violência. Talvez nunca como hoje tivéssemos obrigação de ter consciência plena disso mesmo. Não passa um dia sem que a televisão nos violente a tranquilidade da nossa sala de estar com as mais cruéis imagens de opressão, discriminação e repressão. O objectivo do VI Encontro não foi, porém, reunir poetas que nos viessem ler ou representar poesia sobre a violência. O objectivo foi antes reflectir sobre o que se entende por violência e que relação tem com ela a poesia. Blake disse, com aquela violência que melhor que ninguém ele soube retirar da língua, que as "Prisões são construídas com as pedras da Lei, os Bordéis, com os tijolos da Religião". O VI Encontro incluiu, nos 250 anos do nascimento do multifacetado poeta e artista, uma homenagem a William Blake, o poeta que em belíssimos cantares de inocência e experiência fez ecoar as brutais discrepâncias e a hipocrisia desenfreada da sociedade do seu tempo.
A pergunta que muitos dos poemas aqui coligidos suscitam é se a poesia poderá, ou deverá, representar a violência. Não será o acto de representar, só por si, uma violência? No que diz respeito à poesia lírica, o "silêncio dos poetas", de que fala Alberto Pimenta, diz mais do que o dizível, e com muito mais força: "dizes: / é preciso distinguir o bem do mal / admites portanto que eles podem ser confundidos". Em tempo de crescente menorização da poesia, das artes e da cultura humanística em geral, para quê ouvir os poetas e perguntar, como perguntou um dia o poeta de Coimbra, Vítor Matos e Sá: "o que pode dizer a poesia?" A poesia nada diz. A poesia diz-se - e, no seu dizer-se, interrompe e faz estremecer a razão e os sentidos. Por mais ineficaz que seja em última análise o seu impacto, a poesia faz tremer os poderes. No seu nada dizer, em seu "silêncio", a poesia é a violência que mais precisamos nos interrompa e surpreenda hoje - para a nossa continuada construção de nós próprios como seres humanos responsáveis e solidários. Foi neste sentido a admirável conferência proferida por C. D. Wright na abertura da VI Encontro: "A poesia (. . .) aspira ao silêncio. Não digo que o seu alvo seja a perfeição, mas uma abertura (. . .) uma clareira (. . .) onde a língua se dê ao luxo de associações inesperadas e resultados alternativos".
No VI Encontro, acolhemos poetas de quatro continentes: Europa, América, África e Ásia. Os poemas reunidos nesta antologia mostram bem por que razão disse Ruy Belo um dia que "a poesia é um acto de insubordinação a todos os níveis, desde o nível da linguagem como instrumento de comunicação, até ao nível do conformismo, da conivência com a ordem, qualquer ordem estabelecida". Dos quatro cantos do mundo chega até Poesia do mundo 6, em imagens poderosas, uma pergunta desestabilizadora pelas múltiplas relações de poder, violência e colonialidade que continuam a entrelaçar as nossas vidas, seja na esfera cultural, social e política, seja na esfera pessoal. Há vaqueiros mexicanos empalados num poema do americano Forrest Gander; corvos marinhos surreais, que ocupam o espaço alheio, num poema do irlandês Macdara Woods; cadáveres de crianças num poema da libanesa de Montreal Nadine Ltaif. A angolana Chó do Guri diz-se poeta de gente enjaulada e a palestiniana Faiha Abdulhadi evoca as subtilezas das políticas de paz na sua terra, perguntando: "O que é mais cruel / os dentes do lobo ou / o sorriso da raposa?" Poemas há, como os do brasileiro Márcio-André ou, mais ainda, da inglesa Maggie O'Sullivan ou da americana Joan Retallack, que denunciam a violência da própria língua, completamente a desmantelando. Ao mesmo tempo, qualquer dos poemas aqui recolhidos, mesmo os mais fluidamente líricos da galega Helena Villar Janeiro, ou as meditações ônticas do português Gastão Cruz, é uma pergunta rigorosa pela tradição poética, em que não deixa de se reconhecer. Num dos seus poemas, o russo Maxim Amelin faz do fotógrafo ambulante, obsoleto em tempo de polaróides, um dos filhos de Febo Apolo. Que o pessoal é poético e político resulta uma vez mais claro nos poemas do chinês Xiao Kaiyu.
Mas não só a ordem poética é interrogada e reinventada; também os valores dominantes da cultura no seu todo são postos em causa. Para matar a fome ao mundo, a portuguesa Regina Guimarães imagina uma mulher (são as mulheres que dão o sustento), mas uma mulher que é a lenha que dará o fogo para cozinhar a refeição.
Pois não busca também a poesia, como sugere um poema do americano John Taggart, a arte de virar a melodia do avesso e tornar a tocar tocando uma e outra vez?


Preface

Maria Irene Ramalho de Sousa Santos

The Violence of Poetry

Poesia do mundo 6 gathers together, in one more bilingual edition, poems by the poets that participated in the Sixth International Meeting of Poets. The meeting, under the general topic of "Poetry and Violence", took place in May 2007.
A great German poet once asked: "What are poets for in a destitute time?" Eighteen years after having embarked on this beautiful and dangerous project of bringing poets from all over the world to Coimbra every three years, the organizers of the Sixth Meeting chose to paraphrase Friedrich Hölderlin and wonder: "What are poets for in a time of violence?"
We live in a time of violence. Perhaps more than ever must we now be fully aware of this. No day goes by without the violent intrusion of TV, bringing the cruelest images of oppression, discrimination and repression into the tranquillity of our sitting room. However, the purpose of the Sixth Meeting was not to have poets reading and performing poems about violence. The purpose was, rather, to reflect on what is meant by violence and how poetry relates to it. Resorting to the violence he excelled in taking from language, Blake said: "Prisons are built with stones of Law, Brothels with bricks of Religion". Celebrating the 250 anniversary of the birth of the multifaceted poet and artist, the Sixth Meeting included a tribute to William Blake, the poet whose lovely songs of innocence and experience trumpeted the brutal inequalities and rampant hypocrisy of his society.
The question that many of the poems herein collected inspire is whether poetry can, or should, represent violence. Doesn't the act of representation in itself amount to violence? As concerns lyric poetry, the "silence of poets" Alberto Pimenta writes about says more than the sayable, and far more forcefully: "you say: / one must distinguish good and evil / you grant therefore that they can be confused". At a time that increasingly belittles poetry, the arts, and the humanities in general, why listen to the poets and ask, as the Coimbra poet, Vítor Matos e Sá, once did: "What can poetry say?" Poetry says nothing. Poetry is a saying and, in saying itself, it interrupts and shakes reason and the senses. No matter how ineffective ultimately its impact may be, poetry makes the powers tremble. In its nothing saying, in its "silence", poetry is the violence we most need to interrupt us today - toward our ongoing construction of ourselves as responsible and solidary human beings. Such was the thrust of the remarkable keynote address delivered by C. D. Wright at the beginning of the Sixth Meeting: "Poetry (. . .) aspires to silence. By this I don't mean it aims for perfection, but it aims for an opening (. . .) a clearing (. . .) a zone wherein the language affords unexpected associations and alternate outcomes".
At the Sixth Meeting we hosted poets from four continents: Europe, America, Africa and Asia. The poems of Poesia do mundo 6 clearly show why Ruy Belo once said that "poetry is an act of insubordination at every level, from the level of language as a tool of communication, to the level of conformity and connivance with order, any established order". From the four corners of the world, a destabilizing question flows into Poesia do mundo 6 in powerful images. It asks about the relations of power, violence and coloniality which continue to entangle our lives, whether in the cultural, social and political spheres, or in the personal sphere itself. There are staked-up Mexican vaqueros in a poem by the American Forrester Gander; cormorants, taking over alien space, in a poem by the Irish Macdara Woods; children's corpses in a poem by the Lebanese from Montreal, Nadine Ltaif. The Angolan Chó do Guri sees herself as a poet of caged men, and Palestinian Faiha Abdulhadi evoques the subtleties of peace politics in her land to wonder: "What is more cruel / the woolf's teeth or / the fox's smile?" There are poems, such as those by Brazilian Márcio-André or, better still, the English Maggie O'Sullivan or the American Joan Retallack, which denounce the violence of language itself by totally deconstructing it. At the same time, every poem in this collection, even the most fluidly lyrical poems of the Galician poet Helena Villar Janeiro, or the ontic meditations of the Portuguese Gastão Cruz, rigorously questions the poetical tradition of which it is knowingly a part. In one of his poems, the Russian Maxim Amelin turns the itinerant photographer made obsolete by polaroids into one of the children of Phoebus Apollo. That the personal is the poetical and the political resonates forcefully one more time in the poems authored by the Chinese Xiao Kaiyu.
But not only the poetic order is questioned and reinvented; the dominant values of culture as a whole are put in question as well. To kill the world's hunger, the Portuguese Regina Guimarães imagines a woman (women are the nurturers), but a woman who turns out to be the firewood needed to cook the meal.
Isn't poetry, after all, in search of the art of turning "the melody inside out and played / playing over and over", as suggested in a poem by the American poet John Taggart?

 

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