Poesia Reunida (1956-2011)
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de Liberto Cruz

ColeçãoColeção Palavra Poema
GéneroPoesia
Ano2012
ISBN978-989-703-029-1
IdiomaPortuguês
Formatobrochura | 560 páginas | 15 x 21 cm

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Esta abrangente colectânea que agora se publica, obra de uma vida, inclui, no fim, um livro inédito, dividido em três partes; uma “arte poética” (ou, antes, e de modo mais englobante, um “manual de construção”), intitulado, precisamente, “Construir”; uma “Evocação”, onde perpassam elegíacos fantasmas da infância, do amor, da guerra (sempre, e com que força!) e, por fim, uma terceira parte – “A Pedra e o Corpo” – convocadora desencantada de “uma pedra  / Agora fria / De um corpo / Adiado já.” Os poemas, mais ou menos longos; os versos, breves ou brevíssimos. O máximo efeito, com o mínimo de recursos. Sempre. Como se recomenda no Eclesiástico (32.8): “Sê conciso no teu discurso: muitas coisas em poucas palavras; sê como quem sabe, mas se cala a tempo.” Assim faz o poeta, quando diz, dando voz à pena que faz a guerra:

 

 

                                  Em quatorze versos num

                                  soneto  fugido à guerra

                                  lembro agora um a um

                                  os que deitados na terra

 

                                  angolana lá ficaram

                                  heróis ou parvos ou santos.

 

 

No primeiro dos três poemas do livro inédito – “Construir” – podemos ler: “A palavra cumpriu.” Também o poeta – com as palavras – a palavra cumpriu, executando, com empenho, com perícia, o exigente “caderno de encargos” que a si próprio impôs.

 

 

 

Eugénio Lisboa

(do prefácio)

Liberto Cruz

Liberto Cruz nasceu em Sintra em 1935. Poeta, crítico, ensaísta, biógrafo, tradutor e conferencista é licenciado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras de Lisboa (1959). Foi professor do ensino secundário (Castelo Branco e Lisboa) e Assistant Associé das Universidades de Rennes, Nantes e Vincennes (França), onde leccionou literatura portuguesa.
Fundou em 1961 a revista Sibila e dirigiu de 1964 a 1966 a colecção Poesia e Ensaio da Ulisseia.
Crítico literário do Jornal de Letras e Artes de 1965 a 1966.
Colaborador da Colóquio Letras desde 1971.
Introdutor em França (1969) da cadeira de estudos de literatura africana de expressão oficial portuguesa. (Secção de Português da Université de  Haute Bretagne – Rennes).
Conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal em Paris de
1975 a 1988.
De 1988 a 2000 foi Director da Fundação Oriente em Lisboa.
Além da obra poética tem-se interessado por vários autores portugueses e estrangeiros, sendo dignas de especial atenção as obras dedicadas a  José Cardoso Pires, Ruben A., António José da Silva, Júlio Dinis, Marquês de Sade e Blaise Cendrars.
Viveu em França de 1967 a 1988.
É Presidente da Associação Portuguesa dos Críticos Literários.
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Poesia Reunida (1956-2011)

de Liberto Cruz

Liberto Cruz – uma entrevistain"A Qualidade do Silêncio" - blogue de Pedro Teixeira Neves

de:

"Liberto Cruz é poeta, crítico, ensaísta, biógrafo, tradutor e professor. Fundou revistas, foi conselheiro cultural da Embaixada de Portugal em Paris de 1975 a 1988, director da Fundação Oriente em Lisboa, e é Presidente da Associação Portuguesa dos Críticos Literários. Conversou comigo na sua casa, um autêntico museu em ponto pequeno, lugar de histórias e afectos. Em cima da mesa, e como mote, a reunião recente, pela Editora Palimage, da sua «Poesia Reunida 1956 – 2011»".

{ver mais em:}

http://pedroteixeiraneves.wordpress.com/2012/04/18/liberto-cruz-uma-entrevista/


Em Sobressalto – texto de Pedro Mexia

de:

Em Sobressalto
 
Texto de Pedro Mexia
in “ATUAL” – Revista do Jornal Expresso, 19 de maio 2012, p. 30
 
Discreta, bissexta, a poesia de Liberto Cruz (n. 1935), agora reunida, conta cinco décadas e meia, iniciadas com “Momento” (1956), “A Tua Palavra” (1958), “Névoa ou Sintaxe” (1959) e “Itinerário” (1962). Colectâneas com um imaginário que acompanha as transformações da poesia portuguesa dessa época, indecisa entre o confessionalismo, o engajamento e a metafísica. Há nesses primeiros poemas uma inquietude que nasce do confronto entre a pureza e o desejo, entre pulsões e restrições. São “notícias do bloqueio” (para citar um título célebre), comunicadas a quem queira ouvir, enquanto a terra estável do passado, nomeadamente da tradição religiosa, parece ceder: “Já não há lugar para a tua palavra”. O impulso linguístico começa a anunciar-se, e o tom dos textos passa gradualmente de uma ingenuidade triste a uma lamentação hierática, em linguagem escolhida. Mas também surgem a felicidade conjugal e os prenúncios de morte, essa “exacta viagem”.
Professor do ensino secundário, Liberto é em 1962 destacado para Angola, onde fica dois anos. Porém, os poemas de guerra que então escreve só aparecerão muito mais tarde, em “Jornal de Campanha” (1986). Trata-se de uma espécie de diário, mais anotações e citações do que poemas. Como notou Eugénio Lisboa, retórica bélica é contrariada pelo recuo verbal, pela distância pudica. Liberto faz uma guerra na qual não acredita: “Cumpro ordens como quem rouba um pão”. Combatente na “terra dos outros”, sente que aquela guerra é uma “questão de terras”, à imagem das guerras de águas aldeãs. Os poemas representam uma oposição política, mas são antes de mais um dever de testemunho: o medo do mato, as longas noites agarrado a uma arma, os camaradas amputados e mortos, o instinto de sobrevivência, a atrocidade súbita de “um cinto de orelhas” que um soldado traz à cintura, os pais que recebem uma medalha em troca dos filhos.
Depois da guerra, Liberto Cruz foi professor de literatura portuguesa e angolana em várias universidades francesas. Colaborou como crítico em jornais e revistas e traduziu Sade, Cendrars, Beckett, Pinget, Le Clézio, Duras. Em 1971, publica no Funchal, sob pseudónimo, “Gramática Histórica”, volume aqui recuperado com vários acrescentos. É uma obra importante no contexto da poesia experimental e visual. O poeta usa a figura “pedagógica” da Gramática para fazer uma crítica da linguagem oficial, dissecando-a nos aspectos fonéticos, morfológicos, sintácticos e semânticos. Prefaciada pelo guru concretista Haroldo de Campos, a “Gramática” contém jogos de linguagem e exercícios gráficos engenhosos e divertidos, instaurando a liberdade imaginativa contra a normatividade repressora. Os textos estudam as interjeições, as comparações, as figuras de estilo, apresentam minutas de actas e ofícios, acumulam notas eruditas, e esse trabalho quase académico, conjugado com uma escolha lexical deliberada (onde aparecem termos como “povo” e “tirania”), tornam este pretenso manual um processo de denúncia verbal. Apropriadamente, a ideia de língua enquanto história sujeita a modificações tem o seu auge num poema onomástico que vai elidindo apelidos e ilustrando a luta de classes e a mudança social.
Após a Revolução, Liberto Cruz foi nomeado conselheiro cultural da Embaixada de Portugal em Paris, cargo que exerceu até 1988. A partir de “Distância” (1976), o poeta começara a usar versos curtíssimos, às vezes de apenas uma palavra, nesse caso explorando a “fronteira imediata” de Eros. Em “Ciclo” (1982), o registo é o de regresso a casa, depois de muitos anos. “Sequências” (2000) esboça naturezas vivas ao estilo oriental. E os até agora inéditos “Três Poemas” acentuam o fôlego lírico. Mas o apogeu dessa escrita de imagens e metáforas contidas é “Caderno de Encargos” (1994), revisitação melancólica de memórias que incluem as malhas do Império, o exílio, a passagem do tempo, os pais, a pátria. São sonetos não-rimados mas medidos, em redondilha maior, poesia elíptica, embora declarativa, feita de tranquilidade intranquila, meditação identitária, revisitações impossíveis, aceitação magoada: “Os anos começo já/ A desfazer. Todavia/ Vou da lâmina o fio/ Experimentando. Sinto// A mim próprio alheio/ O corpo envelhecendo./ Da vida o lasso nó/ Atando e desatando// Dia a dia prossigo (…)// Intranquilo me aceito/ E em sobressalto vivo” (pág.316). Assim em paz como na guerra.
 
   

Entre a palavra e a circunstância - Crónica de Poesia de Fernando Guimarães

de:

Entre a palavra e a circunstância
 
Crónica de poesia
de Fernando Guimarães
in JL – Jornal de Letras, 27 de junho a 10 de julho de 2012, p. 16
 
Saiu recentemente de Liberto Cruz um livro em que se junta toda a sua poesia e que, por isso, se intitula Poesia Reunida – 1956-2011. A estreia literária de Liberto Cruz ocorre com a publicação, precisamente em 1956, do livro Momento. Em 1958 aparece A Tua Palavra, em 1959 Névoa ou Sintaxe, em 1968 Itinerário. Isto quer dizer que esta poesia tem uma referência cronológica que fica a oscilar entre a segunda metade dos anos 50 e os anos 60. Esta primeira fase da sua produção poética – repare-se no que há de indicial nos títulos citados – caracteriza-se por uma linguagem que procura e encontra uma expressão elementar, próxima da literalidade que marcou a poesia dos anos 60. Nela perseguia-se a autonomia da palavra que se centrava na imagem, no que seria uma “consciência linguística vigilante”, a qual se fazia contra o que, nessa altura, Eduardo Prado Coelho considerou ser o “vício simbólico”. E isto compreende-se: o símbolo tende a deslocar-se da palavra, tal como surge no texto, para outros sentidos que se apoiam no cruzamento de outros textos possíveis.
Liberto Cruz, perseguindo uma linguagem que procura o que há de elementar numa expressão que se afasta decididamente da discursividade, não adere totalmente àquele sentido de elementaridade ou literalidade que programaticamente se afirmou nos anos 60. A disponibilidade metafórica, por exemplo, faz-se sentir em Liberto Cruz; a imagem quando surge nos seus poemas, não se isola numa construção que insista na suspensão ou elipse. É o que se pode ver geralmente nos seus poemas, como num que aqui se retira parcialmente de Itinerário (cuja 1ª ed. É de 1962): “É preciso que as lágrimas sulquem as faces/ E que, muitas vezes, deslumbrados/ Os olhos conheçam/ As flores e o gelo/ […]/ Ah! Esse materno gesto, / esse sorriso santo/ De unir os corpos jovens/ no intervalo de duas ondas.”
Se passarmos para as décadas de 70 a 90, as características que acabamos de referir mantém-se, alcançando-se por vezes, uma maior tensão verbal. É o que acontece em Distância (1976), Ciclo (1982) ou Caderno de Encargos (1994), recolhendo este último livro um conjunto de sonetos cujos versos são heptassílabos, o que tende a desconstruir o próprio soneto. Paralelamente, faz-se sentir, em alguns livros saídos nesta época, um envolvimento de sentido político, como ocorre na “experiência angolana” de Jornal de Campanha (1986) ou em Gramática Histórica (1971; 2ª ed. 2007). Os poemas de Jornal de Campanha revelam uma experiência de quem passou pela chamada guerra colonial e viveu o seu drama tão inglório como doloroso: “Iguais a árvores vivem os homens./ Por isso os deixam na terra/ Quando morrem.”
Gramática Histórica é um livro tem uma particularidade. Sendo assinado por Álvaro Neto, um alter ego do autor, segue de perto a chamada poesia experimental. Esse interesse de Liberto Cruz por tal movimento já vinha de trás, tendo, por exemplo, colaborado na revista Poesia Experimental a que o poeta que mais se evidenciou nesse movimento de vanguarda, E. M. de Melo e Castro, esteve ligado. Daí a atenção que presta ao jogo (por vezes irónico) entre o texto e a visualidade, pela composição aleatória ou não das palavras, o que permite múltiplas refrações de sentido (incluindo igualmente um sentido político referido à época de contestação em que foi escrito), a possibilidade de leituras vertical ou horizontal, de desvios semânticos e paradigmáticos, etc.
Isto não invalida que, em consonância com este espírito de vanguarda, se mantenha uma fidelidade àquela poesia que vinha da passagem dos anos 50 para os 60, culminando em Sequências (2000) e num inédito intitulado Três Poemas que é agora publicado. Note-se ainda a inclusão nestas Poesias Completas de alguns prefácios, provenientes das edições originais, assinados por Eugénio Lisboa, Fernando J. B. Martinho ou Haroldo de Campos, sendo este último nome o de uma das figuras cimeiras da poesia experimental no Brasil.