Quase Filhos
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de Maria Elisa Pinheiro

ColeçãoColeção Criança
GéneroPedagogia
Ano2004
ISBN978-9-72-857575-5
IdiomaPortuguês
Formatobrochura | 114 páginas | 15 x 23 cm

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Esta obra (...) é um registo de passos relevantes de uma longa caminhada . Nos textos que a compõem, ricos no conteúdo e na forma, a autora recorda lugares, ambientes, factos e situações que marcaram, de forma indelével, a sua vida docente. Recorda, sobretudo, criançasque, com afecto, ajudou a crescer. Daí as gratas e saudosas lembranças!...
Da leitura dos textos resulta a existência de um climafavorável à evolução positiva do processo educativo. Há abertura, confiança, interacção - Alunos/Professora. Não admira, pois, que as crianças nomeadas apareçam como protagonistasda sua própria formação.

José Sobral (do prefácio)

Maria Elisa Pinheiro

Maria Elisa Pinheiro nasceu no Porto.
Fez o Ensino Secundário no Porto e em Lisboa.
Cursou o Magistério Primário em Viseu. Como professora do Ensino Básico leccionou no distrito de Leiria e em Moçambique – Gaza e Maputo.
A partir de 1974 exerceu na Escola de São Miguel – Viseu, tendo colaborado como Orientadora de Estágio com a extinta Escola do Magistério, onde se formou, e com a Escola Superior de Educação, Unidade Orgânica do Instituto Superior Politécnico de Viseu.
Nos anos mais recentes tem-se dedicado com prazer exclusivo à escrita.
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Quase Filhos

de Maria Elisa Pinheiro

Rigorosamente Proibidosindisponível

Rigorosamente Proibidos

de Maria Elisa Pinheiro

  • Escritos de Meninos de Viseu (Escola de S. Miguel, 1979/1992).
    Edição do Instituto Superior Politécnico de Viseu, 1999.

Apresentação de "Quase Filhos"

de: Pompeu Martins (sociólogo)

Comecei a ler este livro e só parei na última página. Há surpresas que nos suspendem. Que nos suspendem da evidente vulgaridade dos dias, que nos suspendem da mediocridade e da mais absurda vaidade que se banha incessantemente de ignorância atrevida e/ou autoritária.
Há muitos anos, descobri que se podia chorar com um livro. Foi durante a leitura do «Em nome da terra» de Vergílio Ferreira. Por motivos diferentes, este livro manteve-me emocionado até à última página. Não me recordo de ter ficado assim com uma leitura. Não sei se foi apenas pelo inequívoco mérito, nos planos humano e profissional, da sua autora, se também pelo inevitável confronto com uma realidade que destas histórias se afasta. Talvez por ambas as circunstâncias.
Quando, passado algum tempo sobre o contacto diário, alguém ainda nos diz que somos o melhor professor do mundo, é porque de facto somos o melhor professor do mundo. Mas o que será isso? O mundo é tão infinito e tão grande quanto o espírito daqueles que nos acolhem, que nos questionam e que nos sentem. Por incrível que pareça, esse é que é o verdadeiro mundo, quer no seu tamanho, quer na sua realidade. Se uma pequena criatura a quem tentamos ensinar alguma coisa nos considera o melhor do mundo, quem somos nós para o negarmos se à nossa frente está quem nos prova tão claramente o que de melhor o mundo tem.
Mais, quem somos nós para saber do tamanho e das fronteiras de um mundo que não é o nosso, e que apenas foi tocado por nós?
Quando repetidamente os alunos da Professora Maria Elisa Pinheiro lhe expressam esse sentimento, é do fundo das suas crenças mais genuínas, do fundo da sua vivência mais significativa, do fundo da sua liberdade mais livre que o fazem. Então que fazer, senão concordar que para cada um deles e pelas melhores razões a Professora Maria Elisa foi a melhor professora do mundo?
Este livro é um testemunho brilhante. Não só por uma deliciosa ironia com que é escrito aqui e além, mas sobretudo pelo testemunho que deixa claro uma personalidade absolutamente apaixonante e desafiadora. O que se consegue nas escolas só se consegue por duas vias: pela razão e com o coração. Urge que todos pensemos a nossa participação nas escolas, estudando e equacionando bem a forma como nos entregamos à realização de objectivos e à formulação de metas a atingir. Temos que ser estratégicos no sentido de evitar que as relações entre a escola e a comunidade onde esta se insere não se esgote no tempo e não se limite à generosidade daqueles que fora da escola nela apostam e acreditam.
O desafio consiste em avaliar toda a massa crítica envolvente, todas as hipóteses de criar parcerias e perguntar à escola aquilo que ela tem para dar a quem nela acredita. Só num trabalho recíproco e estratégico de colaboração e de ganhos para ambas as partes é que se poderá garantir que teremos aliados duradouros e parceiros substantivos. Só assim se garantirá a integração da escola no seu meio, dando futuro às acções que solidificarão a autenticidade e cabimento do seu projecto educativo.
O interessante neste relato de vida destes «quase filhos» e desta professora é a mais valia que constitui a militância no seu sentido mais puro e mais firme. O não voltar costas, o nunca se ter demitido de encarar o docente como um verdadeiro agente de desenvolvimento local.
Nas experiências narradas é-nos facultado um amplo mapa de colaboração entre os docentes e o seu meio, uma cartografia de emoções e de crenças tão para lá da sala de aula, tão perto daquilo que Maria Elisarefere na carta aos seus alunos como sendo as janelas da alma, as sempre infinitas e cada vez maiores janelas da alma.
O mundo de que nos fala é de um mundo de integração. E que actualidade gritante tem este tema. A família e o seu contributo na vida das escolas é um tema recorrente de todas as correntes pedagógicas e de todas as opções em torno das políticas educativas. Mas a realidade tem demonstrado que não existem pais ideais, desenhados a régua e compasso pelos limites que o professor desejou para eles, pais que desejem da escola o mesmo que nós desejamos, que acreditem no mesmo em que acreditamos, que esperem da escola aquilo que nós julgamos que é possível que a escola dê. Quantas vezes o que temos pela frente e passo a citar a autora: É «Gente de trabalho, sem disponibilidade para amimar um de entre muitos filhos». E é também com estes que teremos de ter engenho e arte para saber trabalhar e saber incluir. O que falta é um pacto com a família. Reconquistar a família para a escola, saber o que pretendem da escola e o que estão dispostos a dar.
Infelizmente, repetem-se inoperâncias e participações desajustadas. O professor tem que entender que não pode, nem deve, exigir dos pais aquilo que eles não podem ou não estão motivados para dar. Se se continuar com a prática de projectos gizados apenas pela vontade solitária dos professores continuará o cenário de pais arredios ou de pais que só participam para que os seus filhos os não interpretem mal. Se queremos os pais como aliados, como parceiros para a vida teremos que saber dialogar com eles, saber ouvi-los, percebe-los ou como tão bem e realisticamente refere a autora deste livro, é preciso que o professor tenha educação e saibam usar de delicadeza no tratamento de um assunto que tem tanto de falhado como de crucial para o ensino das gerações e da sociedade futura. É preciso, numa expressão, criar pais que se sintam felizes na escola.
Outro dos temas em debate é a questão do sucesso. Este, defende a autora, não é mensurável exclusivamente pela simples apreensão dos conteúdos programáticos. É bem verdade que se formos capazes de, para lá dos conteúdos, induzirmos atitudes, atitudes de mudança, de crença, de auto-estima, então estará claramente feito o trajecto que nos levará a ultrapassar os fracassos na gramática e na aritmética. Lê-se em «Quase filhos» de modo tão digno:
«Não é possível que num período inteiro não haja um único ponto positivo; alguma coisa que dê esperança em melhores dias…
Quantos problemas uma ficha totalmente negativa pode causar! E depois… todos sabemos que um elogio vale mais que três reprimendas…»
Ou ainda sobre a questão do sucesso, a história da professora pouco crente na evolução da pequena Aurora lhe promete a passagem para a segunda classe se ela fosse capaz de mudar de atitude eaprendesse a ler até ao final do ano.
Volto a citar:
«Seguiram-se dois meses de recuperação intensa. Para que fossem atingidos os mínimos.
É verdade que continuou muito fraquinha.
É verdade que só aprendeu a somar.
É verdade que os seus olhos ganharam outro brilho.
É verdade que ressuscitou para a Vida.
Foi para a segunda classe.
Que me perdoe a colega que a recebeu. Eu tive de partir. Mas não podia defraudar aquela criança.»
É este o grande segredo, ou o grande mandamento, nunca defraudar as expectativas dos alunos.
Tive a honra de trabalhar e de ser amigo de um grande professor catedrático deste país, infelizmente já falecido, morto em combate por não querer também ele faltar a um compromisso com os seus alunos. As suas últimas frases, antes de se deslocar por mar onde falecera foram: comprometi-me com os meus alunos e não se pode defraudar um aluno, que importa se vou sozinho na travessia e se o tempo está mau. Tenho que ir ter com eles. O Prof. Gustavo da Costa Pereira foi, à semelhança da nossa Professora Maria Elisa o homem que um dia me disse: os meus alunos são os melhores alunos do mundo. Porque são meus. Gustavo da Costa Pereira entendia que «A genialidade não é mais do que a aplicação selectiva da inteligência. (...) Só a nossa forma de pensar limita as capacidades do nosso cérebro».
Relembrei este grande professor e amigo por sentir uma proximidade de pensamento tão grande entre a autora e ele próprio.
Retomo as páginas do livro na deliciosa história de Bila e de novo para sublinhar a grandeza humana da professora que reconhece o erro histórico do colonialismo sem desmerecer ou amar menos a sua história de vida, de entrega e de construção por terras de além-mar. Passo a citar:
«Hoje compreendo: eras o politizado.
Eu… a obscurecida…
Terei sempre pena de ter estado enganada. Terei sempre Saudade da parte da minha vida que ficou aí…
Se ascenderes a uma posição útil regozijar-me-ei. Será um pouco de mim que subsistirá.»
Sempre achei que voarias alto…»
Reparem na expressão « Se ascenderes a uma posição útil». Ou seja, uma posição que lhe permita dar e não servir-se, e também para que não morra a experiência que ambos viveram completando-se, enquanto aluno e professora.
Mas quantos professores entenderão assim a sua missão? Quantos entenderão que isto de ensinar terá que ser mais do que transmitir técnicas eficazes de ler, escrever e contar, mas antes a enorme missão de investir num projecto humano tão amplo e tão infinito quantas as gerações de que os nossos alunos serão o primeiro elo.
Quantas histórias conhecemos dos nossos alunos? Quantas conversas tivemos com eles? Quais são os seus maiores sonhos? O que esperam de nós? O que querem eles e os pais deles de nós e da escola? Se soubermos responder a isto talvez já saibamos muito. Se conseguirmos saber isto estamos certamente a fazer muito por todos e por cada um de nós, do nosso tempo e da nossa identidade.
Este ponto entronca na questão dos saberes. Que saberes havemos de transmitir e de que forma? É sempre tão delicado responder a isto. Não se podem ignorar as técnicas e os métodos que habilitam profissionalmente. Mas não podemos esquecer que ser um bom profissional não é só ser um bom técnico. É preciso assumir que a escola não tem que estar de cócoras para a economia e para o mercado. A escola forma pessoas, cidadãos com expressão e sentido crítico e com os seus valores. Por seu turno,as empresas serão tão grandes quanto o papel de desenvolvimento global e de bem-estar que proporcionam às comunidades onde se inserem. Por isso, refere a autora:
«Enquanto não conseguirmos tornar as escolas alegres e atractivas, os conteúdos significativos para a Vida, os trabalhos produzidos de algum modo úteis, não debelaremos o insucesso nem despertaremos em ninguém o gosto pelo estudo.»
A tolerância é um tema recorrente em «Quase filhos». No plano da divulgação dos saberes é focada a relação entre o humano e o divino em meio escolar. Creio que é importante que se tenha presente a necessidade de, neste capítulo, nos mantermos no essencial e no que toca às grandes questões éticas e aos desafios cívicos que dão conta a maioria dos textos sagrados. Se o fizermos e deixarmos a religiosidade instrumental para as diferentes religiões estaremos a contribuir para um mundo muito mais justo e sobretudo onde se aviste e pratique o pensamento que Maria Elisa Pinheiro refere num texto dedicado a esta temática, passo a citar:
«A tolerância e a aceitação podem operar maravilhas!»

A segunda parte desta obra, dá-nos conta de uma série de cartas, da autoria de antigos alunos e colegas, que testemunham o quanto é verdadeiro aquilo que lemos nos textos escritos pela autora. Quando há dias li este livro pela primeira vez, não me quis deitar sem que também pudesse expressar nas páginas que quase diariamente publico na blogosfera, uma pequenina carta que aqui entrego:

Querida professora,

estranho será que o mundo não se pareça connosco. E que não encontre no nosso modo de sentir as coisas mais simples, a forma simples e inatingível de ser mundo.
Gostava tanto de lhe dizer que é esta a única forma que aprendi para me manter vivo e fazer parte de algo maior do que nós, que resulta da nossa vontade e da nossa acção sobre a existência daqueles que nos livram do vazio, tocando-nos com a sua existência sempre inquietante. Gostava de lhe dizer que já experimentei a felicidade e que decidi construí-la no território emocional dos outros para ter a certeza que não termina com a fugacidade da nossa passagem. Acho que não vale de muito construirmos só em nós, somos breves demais para isso, somos sempre demasiado pequenos para o que nos falta dar. Voltei a ter essa certeza consigo e com a lição que nos dá com esta obra.
Muito obrigado.


Pompeu Martins