Quatro Estações em ABRIL
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de Gertrudes da Silva

ColeçãoColeção Imagens de Hoje
Génerocrónica/romance
Ano2007
ISBN978-972-8999-30-8
IdiomaPortuguês
Formatobrochura | 312 páginas | 15 x 21 cm
Também disponível em E-Book

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A personagem que, na trilogia que aqui se completa, nos vai abrindo o caminho e guiando os nossos passos, por uma só vez revela a sua inteira identidade e, mesmo assim, não o faz de moto próprio, mas através do endereço de uma carta onde se pode ler: «Para/ Alf. Júlio dos Santos Parente». E é com o nome de Júlio que anda em Deus, Pátria e... A Vida, para depois seguir com o apelido Santos em A Pátria ou A Vida e continuar aqui a sua caminhada apresentando-se como Parente (dos santos, naturalmente).

Júlio dos Santos Parente - e a muitos acontece - para simplificar as coisas é mais conhecido por Silva, ou então por este apelido com um outro dependurado, e que não é para disfarçar, embora se lhe reconheçam algumas ambiguidades não propositadas, tanto no género como na ascendência, mas que nada tem a ver com uma velha primeira dama do antigamente.

Júlio, Santos, Parente, ou simplesmente Silva, é sempre o mesmo.
Um militar que se entregou por inteiro, de corpo e alma ao 25 de Abril; que o viveu em lutas, exaltações, temores e angústias; que comandou as tropas afectas ao MFA que da Região Centro partiram no encalço de Peniche e de Lisboa; e que aqui nos dá conta da sua visão dos acontecimentos e da sua pessoal reflexão sobre os factos e vicissitudes da "Revolução dos Cravos" que mudou para sempre a face de Portugal. Um homem que é, simplesmente... um dos Capitães de Abril.
 

Gertrudes da Silva

Gertrudes da Silva, de seu nome completo Diamantino Gertrudes da Silva, nasceu em Alvite, concelho de Moimenta da Beira, a 20 de Fevereiro de 1943. Em 1963 ingressou na Academia Militar, seguindo depois a carreira de Oficial do Exército, na Arma de Infantaria, até ao posto de coronel, encontrando-se agora na situação de reforma.
No tempo próprio cumpriu duas comissões por imposição na Guerra Colonial – a 1.ª em Angola e a 2.ª na Guiné. À margem das suas ocupações profissionais militares, em 1980 concluiu a Licenciatura em História na Universidade de Coimbra.
Para além de outras condecorações, foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade pela sua participação no Movimento do 25 de Abril de 1974.

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- Apresentação de QUATRO ESTAÇÕES EM ABRIL - Casa da Cultura de Coimbra, 14 de Junho de 2007

de: Prof. Doutor Sá Furtado

QUATRO ESTAÇÕES EM ABRIL


Quero agradecer muito sinceramente ao Senhor General Augusto Monteiro Valente o convite que me dirigiu para a apresentação do livro “Quatro Estações em Abril”, de Gertrudes da Silva. Sem ofensa, penso que foi temerário e imprudente, deixe-me dizer-lhe Senhor General, acreditar na capacidade de alguém cujo mester está bem longe das andanças literárias. Foi fruto da amizade e da sua natural simpatia e benevolência. O meu renovado bem-haja.
Sabendo eu, melhor que ninguém, das minhas próprias limitações, por que aceitei tão delicada e melindrosa incumbência? Por reconhecimento e gratidão, por cumplicidades, por comum naturalidade e, também, – porque não dizê-lo ? –por vaidade.
Reconhecimento e gratidão porque entendi, desde logo, que não podia em ocasião pública que me caía do Céu, negar-me a mostrar o meu reconhecimento ao 25 de Abril, na pessoa de um Capitão de Abril, agora Coronel Diamantino Gertrudes da Silva. Reconhecimento ainda por enxergarem em mim qualidades bastantes para esta exigente e delicada tarefa de apresentar um livro. E aqui – repito – a amizade do General Monteiro Valente não é alheia à distinção.
Por cumplicidades vindas de há muito, oriundas de visões similares do mundo, da partilha de ideais, da fraternidade que entre os homens deveria e terá de vingar.
Por naturalidade e, aqui quero dizer, por origens comuns de nascimento e criação. O autor, Gertrudes da Silva e eu, vimos da mesma parte do Mundo. Somos serranos, da Serra da Nave que, no dizer de Aquilino Ribeiro, é a sala de bailar dos ventos, com paisagens e gentes aparentemente agrestes, mas de serenidade e de genuinidade essenciais. De duas terras que pertencem ao repositório mítico daquelas bandas. Ele, de Alvite, terra celebrada por ser de gente do Mundo, andarilheira das quatro partidas; eu, de Barrelas, a terra do Malhadinhas.
Por vaidade, também e muito naturalmente. Por ser motivo de orgulho poder apresentar perante esta amiga, amável e distinta assistência um livro de grande qualidade.
Pôs-se-me, desde logo, a questão, própria de neófito, de caloiro, de menino que a tudo contrapõe: porquê, porquê? – Como deve ser uma apresentação? O que me parece mais apropriado é o de considerar como objectivo principal da apresentação de um livro entusiasmar a audiência a que o leiam. O livro é que é o importante, a figura central que importa reverenciar. O texto do livro tem a sua objectividade, contém palavras, frases e capítulos que são aqueles mesmos e não outros, mas que induz em cada leitor entendimentos, sentimentos, emoções bem diferenciados. Este livro “Quatro Estações em Abril” vai seguramente implicar em cada um de nós impactos bem diferenciados. Aqui me socorro de uma citação de George Orwell, num ensaio sobre Charles Dickens: “Toda a arte é propaganda. Nem o próprio Dickens nem a maioria dos romancistas vitorianos pensariam em negá-lo. Por outro lado, nem toda a propaganda é arte.” Propaganda aqui a tomo no mesmo sentido que vem no dicionário Houaiss: “divulgação, propagação de um ideia, uma crença, uma religião.”. “Quatro Estações em Abril” é precisamente isso: um exemplo de boa propaganda, ao falar-nos dos acontecimentos, dos sonhos, dos ideais e desilusões associados ao 25 de Abril. Os meus prezados amigos e amigas, estou certo, irão ler com agrado e vão ser intimados a reflectir sobre o desenrolar das três centenas de páginas do livro que a Editora Palimage em boa hora deu à impressão. Quem viveu, de modo apaixonado - pois haveria outro modo de o viver? -, o 25 de Abril, confrontá-lo-á com as suas memórias, as suas recordações, os seus entusiasmos e também os seus desenganos. Aqui concordará, mais adiante a dissidência de opinião surgirá. Tanto melhor, repensará - voltará àqueles tempos messiânicos. Para os mais novos, os que não passaram por esses tempos inesquecíveis e esplendorosos de mudança, de interrogação, de esperança e também de desilusão, esses seguirão, através da novela, as vicissitudes contadas por um narrador sincero, comprometido, honesto e verdadeiro consigo e com os outros, que, nas presentes circunstâncias, somos todos nós, os seus leitores.
É este “Quatro Estações em Abril” o coroar da trilogia cujo primeiro livro é “Deus, Pátria e …A Vida”, cuja acção oscila entre o mato de Angola e a infância, o segundo “A Pátria ou A Vida ” de acção situada nas bolanhas da Guiné.
Os seus grandes capítulos são quatro:
Deixem passar a PRIMAVERA
Que vem aí um VERÃO como não há memória – p.132
E vai avançar pelo OUTONO adentro
Até ao INVERNO em jeito de epílogo. Ou onde tudo acaba e tudo recomeça.
A começar, deixem-me partilhar com todos vós um certo prazer intimista, que espero se possa pegar, que os vá contagiar, se não a todos ao menos alguns. O do deleite com que li algumas palavras, expressões ou imagens que poderão ser, para os mais pernósticos, apodadas de regionalismos. Poderão sê-lo - ainda hão-de vir dois doutores para o atestar -, mas que pertencem às sonoridades e ressonâncias encantadas da minha infância e juventude, isso é que ninguém me tira. E desse regresso à primavera da minha vida resultou um grande enlevo que encontrei ao lê-las, pois de há muito o linguajar estereotipado, minimalista e redutor que agora se vai usando, desse seu sabor me tinha privado.
- E ficaram ali parados como dois pedregulhos encostados, no meioda corrente...
- …a meio daquela manhã da época de regas, segadas e malhadas
- …O Reza - enganchar, enganchar, para quando te vir te mandar rezar
- …calhaus, rochedos, tojos, giestas, carquejas e sargaços…
- …vinha uma moça com um molho de verdura na cabeça, que só poderia ser de couves, pois erva logo se via que não era, os nabos ainda não estavam em tempo de se apanharem
- …lá voltavaa lembrança do patim da sua casinha da aldeia
- …um nagalho
- …e com a ponta da bota fez um risco ali no chão. Apaga-me o risco!
A trama novelística desenrola-se tendo o ambiente da Revolução do 25 de Abril como pano de fundo. A primeira personagem a entrar em cena, logo na segunda página, é a Rosário, professora na Escola Preparatória da sua vila, que estava em Lisboa para um estágio pedagógico. Tinha um filho; o marido, o Adelino, era advogado e muito embrenhado nas tarefas impostas pelo partido, entenda-se o Comunista. “A vida deles, pelos caminhos por onde andava, não havia volta a dar-lhe, e há muito que nem o nome de vida mereceria, num arrastar de silêncios, ausências, diálogos forçados sobre coisas demasiado triviais ou meramente convencionais...” Estava, pois, a Rosário em Lisboa e, militantemente entusiasmada, participava na manifestação que crescia: “E o rio engrossava. E se mar ainda não era, a algum mar haveria de ir dar.” E a Rosário envolvia-se e flutuava no grito esperançoso, primevo e límpido de “ O povo...unido... jamais será vencido” e, de seguida, “ O povo está com o MFA”. Na mole imensa de gente encontra o Alex, amor dos tempos da Faculdade, em Coimbra. “E ficaram ali parados, um em frente do outro, como dois pedregulhos encostados no meio da corrente que ali se separava e abria para os lados com turbilhões.” De repente esse amor amornado pela separação e pelo passar do tempo foi desperto e aquecido pelo calor da Revolução.
Integrados no grupo de Dinamização Cultural foram os dois para a aldeia do Francisco, pastor a chegar aos dezassete anos, a que a revolução assiste na descoberta única e irrepetível do seu corpo. O grupo ficou alojado no armazém do Senhor Toninho Morgado, “um homem assim para o forte a que se lhe poderiam aplicar os carimbos de simpático, falador e desenrascado.”
Nas páginas do livro, a Revolução encontrará, porventura, a sua expressão mais simbólica na Rosário que vai experimentando os modos de ânimo, os sentimentos, esperanças, hesitações e conformações que cruzam aqueles meses de 1974 e 1975. De início é a festa, o desembaraçar-se da rotina quotidiana, do desencanto sem sonho; é, ainda, o reencontro com a paixão da juventude. O Alex vive com ela dias de partilha, de esperança, de entusiasmo. Os meses de euforia e de crença entusiasta num mundo mais fraterno foram-se esfumando, o que se vai reflectindo nas vidas de Rosário e de Alex. As suas obrigações e laços familiares vêm ter com eles, impõe –se -lhes inescapavelmente, com a força da responsabilidade a que não conseguem escapar, porque são, os dois, pessoas decentes e de consciência. Eles são e espelham bem os descaminhos por onde, a certo trecho, enveredara a revolução; “agora prenhe de tantos engulhos e já com tantos sinais de indiferença, quando não mesmo de hostilidade”.E quando “tudo estava a regressar à normalidade e para bem de todos ficava restabelecida a autoridade”, a Rosário e o Alex retomaram os caminhos de vida que seguiam antes da Revolução. Mais amadurecidos, enriquecidos por uma experiência única e exaltante, mas também acomodados às suas vidas que eram, em parte as antigas, mas agora encaradas com diferente compreensão e uma maior exigência. Porventura, como aconteceu à grande maioria dos Portugueses.
Se a Rosário, o Alex e todas as outras personagens, psicologica e socialmente inteiras e verdadeiras, vivem, a meu ver, a torrente e influências revolucionárias, partilhando dos seus sucessos, já com o capitão Parente penso não ser bem assim. O capitão Parente faz a Revolução, ele é a Revolução, mesmo quando, mais distanciado, a comenta e a analisa. Há uma ligação tão visceral entre os dois - capitão Parente e Revolução - que se me afigura difícil separá-los. O que passo a expor, é a minha visão, interpretação do essencial do livro, traduz, em meu entender, esta identificação profunda.
“Quatro Estações em Abril” é muito, embora não tudo do que o narrador, quase no fim, nos diz: “São bocadinhos da história de um dos capitães de Abril, assim, como tirado ao calhas, mas que, no caso, circunstâncias particulares levaram a que dele me tornasse muito amigo”.
Esse capitão de Abril, que percorre todo o livro, e sem ele nem livro haveria, atravessa toda a Revolução do 25 de Abril e por ela é atravessado até ao mais íntimo de si, é o Capitão Parente, Júlio dos Santos Parente de seu nome completo. Homem íntegro, serrano que não nega sua nascença pela camaradagem, lealdade e teimosia, militar intransigente, vive, testemunha e avalia todas as vicissitudes da Revolução, todas as datas marcantes do processo revolucionário, do PREC: o 16 de Março, o 25 de Abril, o 28 de Setembro, o 11 de Março e, finalmente, o 25 de Novembro.
Sobre todas estas datas se manifesta, pode-se dizer que o livro é a crónica daqueles dias emblemáticos, que são o fim e o início dos actos que constituíram a epopeia e o drama desses tempos que abalaram as gentes e a terra portuguesa. Marcam andamentos – vivaces, allegros, tristes – em que o capitão Parente vai tocando e comentando. A sua intervenção muda de intensidade e envolvência à medida que o tempo vai passando. Mantém sempre uma linha de coerência consigo próprio, um rigor exigente na ponderação das situações, uma recusa constante em aceitar calculismos e manobrismos. O empenho, a adesão emocional, a devoção, a sensibilidade nunca abandonam o capitão Parente ao longo daqueles meses de redenção, por vezes de perdição, de escolhas, de hesitações e dúvidas. Perpassa por todo o seu comportamento um descomprometimento total com grupos de raiz ideológico - partidária. O seu posicionamento ideológico, traduzido em adesão a grupos estabelecidos ou gerados pela própria evolução revolucionária, nunca é definitivo. Os seus ideais são o que, em consciência, julga ser o bem do Povo, o seu progresso, a sua emancipação. Não assume uma posição rígida, apriorística, sectária, que mantenha ao longo do período da história. A sua atitude é sempre crítica, resultante da apreciação das situações e dos protagonistas envolvidos. A sua lucidez, independência e pureza de carácter perpassa cristalinamente pelas páginas da novela, meio crónica, meio diário. A lealdade, a decência, a coragem responsável, a coerência são constantes através das vicissitudes, da vertigem dos acontecimentos. Nada faz de forma calculista, o que não quer dizer que não calcule e sopese bem e responsavelmente as consequências dos seus actos e intervenções. A ética, a moral da conduta vão de par com a coragem dos justos. Não é, para mim, possível não se gostar, mesmo de admirar o capitão Parente, muito embora admita que não se possa estar sempre de acordo com as suas opções. Leiam o livro, para isso aqui vieram, e digam-me depois se é assim ou não.
A crónica de uma Revolução com quatro estações é vivida, avaliada e amorosamente sofrida por um capitão da Província - do Regimento de Infantaria 14, de Viseu, e das suas serranias de berço e criação. Aqui reside uma perspectiva diferente para muitos de nós que a vivenciámos ou dela tivemos notícia nas suas manifestações citadinas. É a Revolução participada e presenciada longe de Lisboa e dos grandes centros urbanos.
O Grupo de Dinamização Cultural, que chega à aldeia serrana, vai explicar àquelas minhas, nossas, gentes do que é que se trata. Na primeira verdadeira sessão de dinamização, genuíno primor de descrição realista, nas reacções que se sucedem numa cinética mais que cinematográfica, coube ao capitão Parente as honras de abrir a sessão. Arranca a explicar o que é o fascismo. A partir daí, as intervenções que se sucedem, a que não faltam as de um provocador, o arremesso de slogans e de frases feitas então em voga, constituem um repositório histórico, fiel e autêntico. Aí, já para o fim, se diz numa imagem altamente expressiva, interpretando não só a ambiência física, atmosférica da sala de aula, mas a atenção e adesão dos presentes: “ O ar que se encolhia entre a chusma de gente...”.
Vão gostar da sessão de esclarecimento - isso lhes afianço - , por outras razões que não fossem a participação de algumas personagens, bem caracterizadas psicologicamente,que nelaintervêm. A Rosário, a certa altura, não se conteve e levantou de lá uma imitação de vozeirão sobre aquele indefinido barulho para dizer que, de facto, o 25 de Abril ainda ali não chegara e remata com “ Do fascismo e dos fascistas já estamos fartos. Viva o MFA”.
O Senhor Toninho Morgado, que vivia em pecado com a Carminda, entre várias recomendações abonatórias tinha levado “um bom enxerto de porrada quando foi do Congresso Democrático de Aveiro” e, logo ali, disse que podiam contar com ele em tudo o que estivesse dentro das suas possibilidades.
O Francisco, pastor, a sair da adolescência, despertando para a plenitude de se conhecer ajudado pelo incontido desejo da Rosário.
A História, com H grande, intromete-se sem descanso com a narrativa. A título de exemplo: Nos seus contornos psicológicos, nos subtis compromissos que se vão firmando, é de anotar a cumplicidade, porventura prima da impotência ou do pressentimento da insustentabilidade do statuo-quo, do Comandante do Regimento de Infantaria 14, que sabendo do levantamento militar do 16 de Março nada faz para o suster.
As angústias do capitão Parente naquela noite de 15 para 16 de Março, desde o “alea jacta est”, por já não haver mais possível retorno e “a noite lá continuava em seu exasperante e lento caminhar...”. A História, com H grande, vivida pelo narrador não lhe foi contada, não foi ouvida, mas sentida por dentro, num envolvimento visceral e profundo com o sentido do dever, do risco, do compromisso cidadão e da palavra dada, tudo isto faz do livro um testemunho literário, inigualável na sua génese autoral. Não há mediador, não há intermediário a contar o entrecho, a história. É o próprio.
A narrativa ganha força, dimensão humana, pelo contínuo envolvimento do narrador na aventura em que os temores, os sentimentos, o júbilo, a alegria da acção estão nos momentos sucessivos - qual real e verdadeiro guião de filme - da noite, madrugada e dia do 25 de Abril. A agonia da espera, a angústia da despedida da mulher e dos dois filhos, as canções - senha “E depois do adeus” e “Grândola, Vila Morena”- quem se não recorda ? -, a saída de Viseu com o carro do capitão Parente à frente “daquela hipótese de coluna militar”, a agregação na Figueira da Foz do Agrupamento “November”, o cerco ao Forte de Peniche, a chegada tardia às portas da Capital e o RAL 1 estava fechado e um capitão ligado ao Movimento lhes confidenciou “com visível atrapalhação que as coisas estavam quase no quase” e na Manutenção Militar “as portas estavam também rigorosamente fechadas”. A marcha aprazada e cumprida pelo Agrupamento “November” termina com a nota certeira e magoada do capitão Parente “No dia seguinte, fiquem sossegados, já era tudo do MFA, e alguns até mais revolucionários que os maiores revolucionários”.
A mim me remetem esta e muitas outras passagens, de cunho - atrevo-me a dizê-lo sem grande temor de engano - claramente de coisa vivida e experimentada, para a famosa “Crónica del Rei Dom João I”, em que o narrador, Fernão Lopes, é também participante e protagonista nos acontecimentos.
Apetecia-me referir, com maior pormenor e detença, muitas e variadas passagens do livro. Pela riqueza literária e densidade humana dos personagens, pelos comentários avisados e pertinentes feitos pelo capitão Parente e o narrador - que, como bem sabemos se são distintos, pelo menos primos são. Demorava-me com a paragem e o meu e vosso tempo sem préstimo ficaria. Tiraria brilho, impacto e novidade ao texto, que como ficou já dito e tenho por combinado, todos vamos ler e depois agradecer, recolhidamente, a Gertrudes da Silva o tê-lo escrito. Não resisto, todavia, a transcrever um passo - e reparem no seu recorte literário - donde se entrevê o carácter do capitão Parente, o seu propósito e motivo de estar no movimento revolucionário: “ Há uns bons tempos que andava nesta roda viva, os dias embrulhados com as noites, quase sem ver filhos e mulher, esta a tocar o barco praticamente sozinha, muitas vezes rogando em desespero pragas à revolução em que ele andava embrenhado, mais parecendo movido por uma estranha e obsessiva vontade de fazer alguma coisa do que por uma verdadeira fé num destino feliz, que agora se dizia ser o socialismo. E tudo para nada ou muito pouco, era assim como ela por vezes desabafava”.
Não devo nem quero entrar demasiado e com minúcia no que conta o livro, ou o modo como conta. Pretendo, apenas, em lampejos breves, pinceladas leves, deixar notícia, aqui e além, do que mais me tocou e impressionou na leitura de “Quatro Estações em Abril”.

Na sequência do 11 de Março, com fina ironia “ E o Capitão lá seguiu, não em direcção ao socialismo que parecia ali mesmo à mão, mas a Penela de Penedono, a tal terra onde, por hipótese e doutrina do estado-maior, poderia estar escondido um major piloto-aviador”. É no regresso desta missão, no meio da serra e de uma noite invernosa, sozinho, com o carro parado, entre duas baforadas de cigarro, que o capitão Parente tem visões fantasmagóricas, medonhas, à Brueghel, de monstros e diabos, que seria, penso eu, uma premonição, um sinal profético do desvio, da deriva da Revolução relativamente aos seus desejados e últimos propósitos.
O processo revolucionário prosseguia, imparável. Demos a palavra ao narrador. “ De vez em quando lá vinha um estremeção, uma exaltação ou um arrepio, que logo se deixavam levar no mar onde moravam as nostalgias e as inquietações sem direito a raivas nem crispações em que flutuava a sua vida, assim como se fosse em cima duma jangada feita de pedaços de convicções que não chegaram a certezas, precariamente amarrados por fios de ilusões e muitas alienações em que a revolução por aí anda nos vai enleando”.
As reflexões, as inquietudes, a procura de si - mesmo são o reflexo do que vai observando `a sua volta. “ E depois lá dentro [de nós próprios], como na catedral, sentirmo-nos bem, se calhar, porque, se formos ver, passamos a maior parte do tempo das nossas vidas fora de nós”.
E, sempre a revisita à infância, que, se carenciada de bens materiais não o foi de afecto, de exemplo e de moral, o fortalece e anima para não desmerecer nem renegar as suas origens. “Porque casos havia, matutava o capitão Parente, como o dele e de outros mais, em que apareciam razões mais fundas e antigas, feitas de raivas e até de invejas ancestrais, amargos frutos, talvez, das humilhações de um rapaz de calças remendadas no rabo....”.
A honestidade severa e exigente, que começa por exercer sobre si próprio, não deixa margem para transigências na avaliação dos comportamentos e pessoas que vão ocupando o palco movente, renovado e dramático do que foi a Revolução. Os desencantos e desenganos vão surgindo, com os oportunismos que, inevitavelmente, se manifestam.
A análise simultaneamente comprometida e isenta do capitão Parente é um testemunho vivido e sincero, certamente tingido de subjectividade como não podia deixar de ser, mas procurando permanentemente a objectividade, o distanciamento, porventura nunca possível. Seja para o capitão Parente, qualquer outro capitão, general ou soldado raso.
Análises e reflexões sobre a natureza e o carácter da gente portuguesa surgem amiúde. “Dá a impressão até que a sociedade portuguesa, incapaz de tomar conta de si, mais uma vez o que procura são bodes expiatórios, que agora são os comunistas, quando ainda há bem pouco eram o Salazar e o Caetano, e antes deles os republicanos que esbanjaram a primeira experiência democrática, e por aí atrás até aos últimos monarcas, passando por judeus, pombais e cabrais e, se calhar, porque tudo começou com um filho a bater na mãe”.
Entre os episódios marcantes que influenciam a evolução ideológica do capitão Parente, o seu modo de olhar o Mundo, a política, o social, foi a visita a Cuba. Logo a começar, estranhou a razão de tal convite, ele que pelas suas humildes origens, tal como diz: “Aliás, nunca lhe teria passado pela cabeça, vindo donde vinha, filho de quem era, criado como fora, ser assim convidado para uma coisa de tão alta categoria, coisa a que por norma só tinham acesso pessoas de mais fina linha e esmerada educação. Mas decidiu-se por não perder esta soberana oportunidade de visitar um país socialista e assim poder ver como seria a utopia, numa altura em que alguma coisa já lhe dizia que por cá o socialismo, que tantos juraram e outros tantos por força das circunstâncias confessaram, era chão que se calhar nunca chegaria a dar uvas”.
Do que se passou em Cuba, integrado que ia na comitiva do general Tigre, deixo a cada um e todos o prazer de, em primeira - mão, ler e seguir. Sejam os acontecimentos e cerimónias sejam os pensamentos que, na mente atenta e receptiva do capitão Parente, as situações, as atitudes, os discursos iam forjando. Perdoem-me não resistir a transcrever este passo pela sua riqueza evocativa e certeiramente retratadora: “Disse isso e muitas outras coisas, no seu jeito de palavra fácil, fácil até demais, bem o sabemos. Mas ele [o general Tigre] era mesmo assim e não havia nada a fazer. Como alguém até teria dito, largava as palavras e depois ia a correr atrás delas; só que elas corriam mais depressa do que ele e depois nunca mais as apanhava”.
O Outono ia, então, já avançado e não tardou a chegar o Inverno. É, então, para o capitão Parente tempo mais de reflexão, de meditação filosofante do que de acção. Vê com desgosto, mas sem muito estranhar, as coisas “feias, de facto, com os militares do MFA tão profundamente divididos e a ocupar trincheiras tão distintas como eram as dos moderados, as dos gonçalvistas e as dos esquerdistas”.
Mostra, por vezes, um certo ressentimento, logo corrigido pela lucidez e compreensão pela rapidez e complexidade das transformações, de que muitas fora obreiro. Até que ponto haverá ambiguidade, se a há, quando ajuíza “Por conseguinte, a nossa guerra, que agora já não temos dúvidas de que era colonial,...”.
Elabora, interroga-se, sobre a condição de ser português: “É verdade que a saudade é a nossa condição; mas não é a pátria, tal como pelos poderes é definida e enaltecida, que nos faz sofrer, mas a ausência da nossa gente e do nosso chão”.
E o capitão Parente, como serrano que era, regressava ao lar para se retemperar e deixar-se invadir pela beleza da sua serra, buscando a tranquilidade e a serenidade de que, naquele Inverno, tanto carecia. “E logo atrás da tentação, desviado o olhar para o outro lado, alguém se aproveitou da distracção e pôs-lhe mesmo ali à sua frente o arremedo de um vale; arremedo, pois, mas mesmo assim, com tudo o que um vale metido no meio da serra precisaria de ter: os lameiros verdes, os amieiros, no seu tortuoso alinhamento, a desenharem o ribeiro lá ao fundo; e os salgueiros, conforme os puseram ou foram deixados vingar, a darem uma ajuda aos marcos nas estremas dos terrenos; nas terras mais cimeiras eram as leiras do centeio, naquela altura do ano a berrar no seu tom de verde mimoso, porque ainda não era chegado o tempo de por ali passarem as geadas que se encarregariam de o arrepanhar nem os rebanhos estavam ainda autorizados a touçá-lo, uma coisa e outra necessárias para que depois o pão engrosse, cresça e se faça gente, bote espiga que se veja e crie grão bem graúdo para em seu tempo segar, malhar, moer, cozer e comer com a graça de Deus”.
Penso ser atinado, sensato terminar por aqui o que eu entendi do capitão Parente - figura central e dominante de “Quatro Estações em Abril” - no que representa, pensa e discorre. Melhor é que cada um dos meus Amigos, retire e construa da leitura do texto o seu capitão Parente, o compreenda, o entenda na plenitude da sua múltipla condição de homem, serrano, patriota e militar. Não me vou sem contudo fazer uma última transcrição, que muito me diz: “Nestas condições é bom de ver que apesar das longas conversas, algumas partes de comum acordo gravadas, e dos maços de papéis que não foram fotocopiados, muitas vezes, sem fugir à verdade, tive de recorrer à imaginação. De quando em quando foi mesmo preciso levar a mão à algibeira e rapar do canivete para aparar os factos, afeiçoando-os à formas que ia tomando a narrativa. E o que aí fica é um contributo para uma História (com H grande) que não seja só a dos vencedores”.

O livro começa com “O povo... unido... jamais será vencido” e termina com “Grândola, Vila Morena”. É, assim, de esperança e fé no futuro o meu entendimento deste seu livro, meu Prezado Amigo Gertrudes da Silva. Pela minha parte, espero estar à altura da mensagem.

Carlos Sá Furtado


- O SORRISO DO CAPITÃO

de: Gertrudes da Silva

OSORRISODOCAPITÃO *

Há muito tempo que o 25 de Abril andava por aí quando me apanhou também a mim.
Apanhou-me logo ali, quando ainda garotinho, me comecei a dar conta da miséria extrema em que nascera e em que teimava em crescer; da fome, das tosses e das diarreias de nunca mais acabar; das topadelas e das espinhas que emprenhavam em medonhos tumores amadurecidos com emplastros de folhas aquecidas na brasa e untadas com um fiozinnho de azeite até ao ponto em que sob a pressão das mãos viravam vulcões a vomitarem tanta porcaria que nem se entendia como lápoderia caber.
Apanhou-me, ainda nessa tenra idade, a sonhar como seria lindo um dia ser missionário das missões em lugares distantes e com exóticas gentes nas terras de Além-mar de que se ocupavam as revistas do mesmo nome que folheava e voltava a folhear na residência do senhor abade.
Apanhou-me depois no seminário, mas do clero regular, com as primeiras revelações de um corpo que se fazia homem a borbotarem e a abrirem as portas às primeiras tentações da carne, que mesmo que prontamente reprimidas deixavam na branca alma estragos que logo havia que reparar junto do confessor e do director espiritual.
Apanhou-me mais tarde, já cá fora, quando querendo com toda a força continuar a estudar, e não tendo arranjado emprego que desse uma ajuda, em desespero de causa, e entre a necessidade e a impossibilidade, me vi empurrado para a vida militar.
Apanhou-me em Angola a dar-me conta de muitas mentiras e falsidades da guerra colonial e do logro de um império pluricontinental e plurirracial.
Apanhou-me na Guiné em penosas e sempre perigosas operações no mato e nas intermináveis noites sem sono que valesse, tudo envolto em medos e pensamentos sem futuro.
Passou por mim num dia da Primavera de 1973, estava eu a frequentar um estágio no IAEM, e apanhou-me a assinar um protesto contra o Congresso dos Combatentes que se propunha glorificar uma guerra e um império que há muito tinham perdido as últimas réstias de glória.
Apanhou-me na reunião clandestina, que também era a primeira e a fundadora do Movimento dos Capitães, no Monte Sobral, em 9 de Setembro de 1973.
Seguiu-me de noite nas longas viagens feitas de trocas, truques e baldrocas de reuniões secretas que se seguiram àquela primeira, num percurso que bem cedo deixou de admitir regressos.
Apanhou-me completamente desprevenido na dramática trapalhada do 16 de Março que quase ia sendo fatal.
Comigo se manteve acordado e comigo arrancou de casa e do quartel naquela temerosa e radiosa Madrugada.
E tomou conta de mim. E comigo se mantém até ao dia de hoje, se bem que, por culpa do tempo que corre sem esperar, e por vontade dos homens, ou por falta dela, vamos acenando um ao outro de cada vez mais longe, trocando, ainda assim, um sorriso em que se mistura alguma pena com muita ternura.
E assim se foi desenhando, em grossos traços, a história de uma vida. Uma vida singular, é certo, mas, no essencial, igual a tantas mais.
Os tropeções e os solavancos do caminho, os ventos, as tempestades e os vendavais foram rasgando e deteriorando o tosco desenho feito no papel. Quando se tratou de restaurar, já faltavam bocados e muitos outros não havia maneira de se ajustarem aos que tinham sobrado. E foi preciso lançar mão desta promíscua combinação de real e de ficção, numa subversão de estilos e de géneros que, bem vistas as coisas, não será muito diferente do espelho das nossas próprias vidas.
Participar no 25 de Abril foi um privilégio. Escrever sobre ele é já um atrevimento. O que aí fica é um testemunho, talvez com uma visão ainda muito dorida. Mas só dói o que se mantém vivo.

Gertrudes da Silva



* Texto lido pelo autor no acto de apresentação do livro “Quatro Estações em Abril”.