Tempos sem Remição
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de Gertrudes da Silva

ColeçãoColeção Imagens de Hoje
GéneroRomance
Ano2011
ISBN978-989-703-016-1
IdiomaPortuguês
Formatobrochura | 304 páginas | 15 x 21 cm
Também disponível em E-Book

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Foi já numa fase um pouco serôdia da sua vida que o autor começou a escrevinhar, como ele prefere dizer, um texto em forma de contos que mais não eram do que registos das suas memórias de infância sem qualquer veleidades ou vocação para um dia vir a ser publicado.
Animado por alguém, pessoa amiga, começou então um labor de escrita levado mais a sério, guiado pelo farol do 25 de Abril, numa tentativa, para si, de conferir uma explicação para a questão de onde vieram e como se forjaram os capitães que, de armas na mão, abriram o caminho para a "Revolução dos Cravos". Por sorte sua, e mais uma vez por mão amiga, viu a luz do dia o seu 1.º livro, com o título um tanto ambíguo, mas essa foi a teimosa ideia do autor, de Deus, Pátria e... A Vida (2003), e assim via realizado um dos sonhos que alentavam a sua, por vezes árida e árdua vida.
Depois deu-lhe para continuar e, com Quatro Estações em Abril (2007) completou-se aquilo que alguém acabou por considerar, e parece que bem, uma trilogia, que além dos referidos, incluía, de permeio, A Pátria ou A Vida (2004).
Àquele texto original foi o autor buscando inspiração para os livros atrás enunciados e agora, voltar a ele para dar forma a este Tempos sem Remição, é como um regresso à sua terra natal, porque tudo, ou quase tudo neste livro se passa em Alvite, em tempos que jamais poderão ser resgatados e revividos, e também não é isso que aqui se deseja, como da sua leitura se poderá depreender.
Porque não é a saudade desses tempos e viveres que, mesmo assim, por vezes, ainda lhe atrapalham os passos, que neste livro motivam verdadeiramente o autor, mas esta indomável vontade de voltar, comum a todos os alvitanos que por qualquer razão daqui tiveram de se ausentar, de regressar a esta terra, a esta nossa casa, a este lar primordial, a este modo ainda hoje tão singular de encarar e de viver a vida.

 

Gertrudes da Silva

Gertrudes da Silva, de seu nome completo Diamantino Gertrudes da Silva, nasceu em Alvite, concelho de Moimenta da Beira, a 20 de Fevereiro de 1943. Em 1963 ingressou na Academia Militar, seguindo depois a carreira de Oficial do Exército, na Arma de Infantaria, até ao posto de coronel, encontrando-se agora na situação de reforma.
No tempo próprio cumpriu duas comissões por imposição na Guerra Colonial – a 1.ª em Angola e a 2.ª na Guiné. À margem das suas ocupações profissionais militares, em 1980 concluiu a Licenciatura em História na Universidade de Coimbra.
Para além de outras condecorações, foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade pela sua participação no Movimento do 25 de Abril de 1974.

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Deus, Pátria e... a Vida

de Gertrudes da Silva

Apresentação de Tempos sem Remição

de: Alcides Sarmento

Apresentação de Tempos sem Remição
Exmo. Sr. Presidente da Câmara Municipal de Moimenta da Beira;
Antigos alunos do Externato Infante D. Henrique, suas famílias e amigos;
Caro amigo Coronel Gertrudes da Silva;
Meu bom amigo Dr. Jorge Fragoso, o editor da obra que hoje aqui apresentamos e de tantas outras que, pela sua mão, na Palimage, têm visto a luz dos escaparates, entre as quais um trabalhito meu que só o seu empenho e bondade transformaram em livro.
Eis a razão porque não poderia nunca recusar o seu convite para estar aqui; Essa, e a admiração e estima pelo homem ímpar, moimentense ilustre e escritor virtuoso que é Gertrudes da Silva.

E assim, me colocaram, os dois, nesta posição difícil: um anão a apresentar a obra de um gigante; nas letras como na vida.
Nas letras, este é o seu quarto livro, depois de Deus, Pátria e... a Vida, em 2003; A Pátria ou a Vida,, de 2004 e Quatro Estações em Abril,, 2007 e agora este Tempos sem Remição,, que se afasta – não tanto como possa parecer à primeira vista – da trilogia anterior.
Na vida, Gertrudes da Silva, o Coronel Gertrudes da Silva, ostenta o maior título de nobreza que um homem pode ostentar – o de lutador da Liberdade; título outorgado pela revolução de Abril de que foi um dos Capitães.
Mas como estou aqui para falar do livro a verdade é que eu gostaria de vos dizer que o que me apetecia era não falar do livro. E sabem porquê? porque a única coisa que se deveria dizer na apresentação de um livro é: leiam-no!
é mesmo isso: leiam-no! isso é o mais importante.
No caso de Tempos sem Remição, é tanto mais importante quanto estamos perante uma obra sui generis que, não sendo eu especialista em literatura ou crítico literário, me atrevo a afirmar que não é facilmente enquadrável no cânone literário;
Lê-se como um romance, mas também pode ser lido como uma obra da mais pura etnografia, pelo repositório de factos, descrições, ou mesmo de análise etnográfica.
Também se lê como um livro de memórias – não tanto no sentido memorialístico ou autobiográfico – mas no sentido existencial, do vivido; mas pode ler-se também como estudo de análise sociológica de uma comunidade, um espaço e um tempo determinados, neste caso Alvite, na 2.ª metade do Século passado.
Curiosamente uma comunidade de uma grande originalidade e num período de tempo fantástico em termos de transformação, de evolução, de desenvolvimento. Julgo que é esta última que justifica o amável convite que me foi dirigido, é aquela que mais me toca no livro, e é sobre isso que eu vos vou dirigir duas ou três palavras na convicção de que a uns possa ajudar na leitura, a outros – espero que muitos, como gostaria o Dr. Jorge Fragoso na qualidade de editor e o Coronel Gertrudes da Silva enquanto autor, porque quem escreve e publica o que mais deseja é que o leiam – mas dizia eu, que a outros espero despertar suficiente curiosidade pela leitura.
Antes de passar à parte a que estou habilitado a falar quero dizer-vos que também gostei imenso da leitura como livro de memórias: numa escrita escorreita, com uma preocupação quase cinematográfica – a cada passo tropeçamos em “é bom de ver”, “Já se vê”, “bem se via” – desfiam-se à nossa frente os acontecimentos retidos por uma memória despojada de nostalgia ou qualquer manifestação de saudosismo.
Ao contrário, o que se nos oferece é uma memória nua e crua, a dureza e a rudeza de um tempo que, porque é tempo, é-o sem remição. Aqui por mim interpretado – no que não pedi autorização ao autor e tão pouco ele tem de concordar com ela, porque depois que saiu das suas mãos já não lhe pertence – num duplo sentido: o tempo não tem remição simplesmente porque não se repete porque, ao contrário do que acreditavam as mitologias assentes numa lógica de eterno retorno, é linear; primeiro sentido, segundo sentido, porque mesmo como tempo vivido, existencial – que tende sempre a despertar nostalgia e saudade; a ser revivido – é um tempo que se deseja que não volte – aqui não como tempo – mas como vida, forma de viver, como condições desse viver que não se desejam que algum dia retornem.
A própria linguagem – com uma clara tonalidade beirã e influencia de Mestre Aquilino Ribeiro – procura exprimir essa dureza e essa rudeza, sem sentimentalismos revivalistas.
Depois de discutidas as prováveis origens de Alvite à boa maneira das narrativas mitológicas – que deixo à vossa curiosidade – o narrador apresenta-nos a justificação da narrativa: Um microcosmos singular!
“Vindos da Nave ou dos Montes Hermínios, filhos do matrimónio de pastores tementes a Deus ou de espúrias ligações com rituais pagãos de andarilhos do mundo, quem sabe, até, de uma grande caldeirada disto tudo, o certo é que no fim a obra que ficou foi este microcosmos singular: de um lado, os mais ligados às coisas de gados, terras, carros de bois e arados; do outro os mais fadados para artes menos nobres, coisas de pobres, de andar por esses mundos a biscatear e a mendigar, se preciso fosse, e até a moinar, se a necessidade a tanto os obrigasse, que vergonha, mesmo, era roubar, e não pedir, a não ser nos casos, por todos reprovados, dos que se faziam de ceguinhos ou aleijadinhos dum braço ou de uma perna, que sempre havia um ou outro que por vezes assim procedia, jogo sujo, sem dúvidas, que depois vinha a dar em prejuízo dos demais.” (p. 33)
Esta ideia de Alvite como microcosmos singular não somente justifica a narração como a percorre de princípio a fim. É como que uma espécie de auto-justificação. “e voltemos nós ao microcosmos especial desta terra singular, nisso temos de concordar” diz o narrado duas páginas à frente.
E a verdade é que é mesmo uma terra singular!
Poucos o saberão mas em 1967, Carlos Alberto Medeiros, Professor de Geografia na Universidade de Lisboa , passou por Alvite para, numa curta estadia, recolher alguns elementos sobre esta terra. Voltaria em 79 e ainda algumas outras vezes de passagem. Em 1985 publicou um texto, redigido em 83, a que chamou “Alvite (Planalto da Nave) – Originalidade duma Aldeia de Montanha”. Trata-se de um pequeno estudo de cerca de 20 páginas publicado na Biblos.
Chamo este estudo à colação para evidenciar essa originalidade que não é fruto da imaginação do autor ou do orgulho de ser alvitano.
Carlos Alberto Medeiros começa por afirmar que “no conjunto, estamos em presença duma economia agrária de montanha, com todas as suas limitações e que se manteve praticamente inalterável até meados do nosso século (escreve no séc. XX como já vimos): como pilares o gado e o centeio, por um lado, o milho e as vacas por outro, sem esquecer o papel do porco criado junto às casas, na alimentação; alem disto pouco mais.
É neste contexto que se enquadra o conjunto das restantes actividade a que a população se dedicou. O fenómeno em si é comum a outras terras de montanha, mas assumiu em Alvite feição de certo modo específica, que requer alguma reflexão.” (p. 7)
Essa actividade mais característica e diferenciadora de outras comunidades de montanha é obviamente o comércio e descreve-nos com pormenor e rigor essa actividade, sua possível origem e evolução, para lançar a questão: “o que se terá passado então em Alvite?” (p.10)
Ora cá está a razão porque trouxe aqui o Prof. Carlos Alberto Medeiros, como poderia ter trazido Aquilino ou Agustina , quando na verdade estamos aqui para falar de Tempos sem Remição, e de Gertrudes da Silva.
Então o que se terá passado em Alvite?
A única forma que tenho de vos ajudar é dizendo: leiam Tempos sem Remição, de Gertrudes da Silva.
Sociologicamente, a distinção lavradores / cabaneiros, justifica só por si um compêndio. Não sendo um compêndio, o livro fá-lo ao mesmo tempo em termos sociológicos, psicológicos, éticos, ideológicos, da própria religiosidade... numa omnipresença avassaladora que encontra justificação – agora numa leitura romanesca – no enlace do pai lavrador com a mãe cabaneira.
As descrições/distinções de uns e outros vão surgindo ao longo da trama narrativa, ora sobre um ângulo mais sociológico ora sobre outro mais psico-afectivo. Mas mais que uma vez ela extravasa esse âmbito específico para captar a dimensão ôntica, existencial do Homem, de toda e qualquer existência, nos seus conflitos e dilemas interiores, a angústia de só poder viver uma vida, nomeadamente quando o narrador, de forma sublime, humana, demasiado humana, coloca o dilema nestes termos: de um lado a terra e a sua posse; do outro a liberdade.
Diz assim:
“E tirando daqui os mais pobres, de algum modo consigo irmanados, em boa verdade os cabaneiros só invejavam aos lavradores o dom da propriedade, minúscula que fosse, e estes aos primeiros, mesmo que o encobrissem, o gozo da liberdade de quem não se sente agarrado a nada.” (p.41).
Uma outra dimensão sociológica muito bem trabalhada na obra é a mudança. A emigração, a “mina do Furenho” – expressão lapidar para a instalação da cooperativa que pôs a serra a produzir batata de forma intensiva – que estaria na origem da disseminação da produção e comercialização da batata de semente de Alvite – um casamento muito feliz entre a actividade da terra e o comércio – o negócio dos cobertores como evolução natural das formas tradicionais de comércio, os tractores e as carrinhas, como sucedâneos das juntas de bois que o narrador não se cansa de dizer que eram de vacas, e dos burros,mulas e cavalos; depois o leite, enfim as muitas “minas” que os alvitanos, sempre capazes de descobrir novas minas, foram descobrindo e continuarão a descobrir com uma fé inquebrantável, que é coisa que nunca lhes faltou.
Porque, como diz o narrador “umas coisas abrem as portas para as outras, e é assim que desde os mais remotos tempos o mundo se transforma, mesmo em lugares como este para aqui escondido nas suaves dobras da Serra da Nave”. (p. 277)

Alcides Sarmento

 


Apresentação em Viseu. Livro:

de:

TEMPOS SEM REMIÇÃO
De Gertrudes da Silva
 
Um livro estranho e um convite imerecido.
 
Caro amigo,
Agradeço-te, sentidamente, o convite para apresentação do teu livro. Vem de amizade antiga, de convivência em bancos de Colégio onde fizemos comum aprendizagem, de fugaz encontro nos meus mais breves dias de vivência militar, na partilha de um humanismo ideal que fez de ti herói e de mim apenas empenhado cidadão.
Outra boa razão me fez aceitar o teu convite. Porque o livro me falaria de Alvite, aldeia de fim de mundo onde só fui uma vez na vida, há trinta anos, talvez. Lembro-me do Tio Prata. Era com ele que eu ia falar, o artesão que tu heroicisas no teu livro, mestre cesteiro das cestas de palha e silva, última razão que, aprendiz de etnógrafo, me levara então a Alvite, onde compreendi como teria de ser de palha e silva aquele equipamento do viver rural, porque outras matérias-primas não havia no seu termo, como tu explicas tão bem dentro do livro. Ali compreendi uma outra coisa que tu agora esclareces e eu então adivinhara: Dizia-me ele, o Tio Prata, que os rolinhos de palha que, cozidos com fitas de silva, subiam em espiral na construção de uma cesta deveriam caminhar no sentido dextrorsum, da esquerda para a direita, ao contrário do que acontecia na mais distante serra de Montemuro onde o movimento se desenvolvia ao contrário, longe do que devia ser esse correr original. Porque ali, em Alvite, era a matriz. O princípio. O resto não passaria de vã imitação.
Mas vem já da minha infância um outro saber acerca dos alvitanos. Não de todos, aprendi isso agora, agora que tu me dizes que havia duas classes de homens em Alvite. Os lavradores e os cabaneiros. Era então dos cabaneiros que eu sabia alguma coisa. Desses que não possuíam eira nem beira e que constituíam metade da população da tua terra e que ao trote de um burrico, tantas vezes, batiam terra a terra toda a Beira e vinham à minha terra, à Sarzeda, quatro léguas de caminho. Lembro-me deles. Teria eu os meus cinco ou seis anos. Talvez oito, como esses anos de ouro das memórias que escreves.
Havia os que assentavam uma tenda de latoeiro no adro da igreja. Lembro-me deles, do som do martelinho batendo, cadenciado, na sertém, como tu dizes, lembro-me do pregão das peneiras e crivos que vendiam ou consertavam às mulheres.  E os sombreiros. Havia também os que vendiam cobertores que elegantemente traziam suspensos dos seus ombros. E aqueles que compravam peles de raposa e de coelho, algumas lhe estendi, a mando de minha mãe que as secava, como a tua, penduradas num frontal. E os compradores de cornelho, e os copinhos que eu nunca fui capaz de encher até ao cimo e os cinco tostões que eles me davam e as cadernetas de cromos dos jogadores que eu nunca completei. E os pobres de pedir e o medo que nos levassem num saco, assim nos assustavam nossas mães. Lembro-me de um, não sei se seria o Tio Cardoso da Serra que tu descreves, armado de saco e varapau que me fez, com medo, recolher para dentro da porteira.
E ainda me lembro dos burricos carregados com as peles de dois lobos mortos na serra, o medonho corpanzil de cada um cheio de palha, caminhadas de andarilhos aceitando como recompensa umas batatas para o caldo, sobras de toucinho ou esmola de feijão que se guardava num saco de riscado para o Inverno.
Alvite da minha infância, então quase de lenda, descoberto agora, real, no teu livro!...
       Um livro estranho. O teu livro.
- Lê-se como um romance e não é romance.
- Guarda dentro dele a poética da infância e não é livro de versos.
- Conta, dia a dia, quase, a vida da aldeia e não é livro de crónicas.
- Parecem contos, as tuas narrativas singulares, mas tudo aquilo aconteceu.
E afirmo desde já aquilo que devia só dizer no fim da minha arenga:
 Tempo sem Remição é um fecundíssimo livro que, de futuro, será imprescindível termo de consulta:
- Para a Antropologia Cultural que intente descobrir nos plainos da Nave os padrões de uma cultura;
- Para a Antropologia do Imaginário que inventarie e tente interpretar o sentido de um mito fundador.
- Para a Sociologia que careça de explicar comportamentos e a partilha dos homens em classes.
- Para a Arqueologia que queira perceber o desenho dos muros na paisagem, a distribuição dos espaços no interior de uma perdida habitação e a orientação dos apagados trilhos pela serra.
- Para a História das Religiões que procure e deva fazer compreender o entrelaço entre Deus e Natureza.
 
           * * * * *
 
É uma visita breve sobre o teu livro, o que eu vou fazer.
Restará depois, a todos, o prazer de ler. A descoberta. Página a página, como cortina que se solte da janela, para olhar.
        A porta escancarada da tua alma de menino, tu no-la ofereces, no teu livro, melhor do que em confissão ao senhor padre em tempo de Desobriga.
Homem feito, cumpridos muitos dos sonhos, mantidos porventura muitos mais, eis-te de regresso, alvitano sempre de coração como tu dizes, eis-te de regresso a essa célula original da tua aldeia antiga, agora esboroada, de que reinventas a geografia das praças, das ruas e das quelhas, dos caminhos de pé posto que levavam para hortas e courelas, dos trilhos que guiavam os gados para a serra. E ao jeito de quem conduz uma máquina do tempo repões, cada um em seu lugar, o avantajado corpo de vizinhos, os lavradores, os cabaneiros, padre, regedor e mestre-escola em seu lugar devido, fazes descer a noite e o dia, e pões em movimento os passos de um calendário onde não há primavera nem estio, apenas lavras de campos, sementeiras de centeio, regas de milho, arranque de batatas, saídas do gado de manhã ou à tardinha, escanadas, serões, caça aberta ou furtiva, os trabalhos e os dias no seu incerto ciclo. Amores e desamores que por lá rodam, tu os descreves, de adivinha ou  como os viste, lágrimas de mulher que veste de negro quase sempre e que tu viste chorar, brincadeiras de criança nos curtos intervalos do sono ou do trabalho, casamento, baptizado, andor passando em procissão, romarias de eternos votos, vinganças antigas, dolorosas, um caixão levado ao cemitério e uma campa despojada.
Os sete capítulos que escreveste são como sete cantos de uma epopeia, soma de estrofes, se quisermos, de longa canção de gesta, aedo que te fazes ouvir, gostosamente.
 
ERA UMA VEZ NO PRINCÍPIO…
Começas assim a história da tua aldeia que cresceu até ser vila sem que alguém saiba como foi que ela nasceu.
Não, não foi caravana de ciganos que passou e ali se deteve. Por mais que reste um sopro de vagamundo no coração de um alvitano.
Não foi nave que pousou no desabrigo da montanha como tenta explicar um velho mito fundador.
Talvez nunca saibamos. Pouco importa. Pastores foram decerto, logo os primeiros. Bem depressa misturados com gente de lavoura. Que este registo está nas orcas, mesmo já desfiguradas.
Misto de historiador e etnógrafo vamos contigo e ficamos a ouvir a história que tu contas dos lavradores e dos cabaneiros, dois singulares corpos de gente que habitaram a aldeia que fizeram nascer, cada um em seu lugar, cada um com sua cultura, um tratado de branda e mútua convivência assinado de cruz num tempo de que não existe já memória.
Donos de terras e de gados, de casa de loja e sobrado, os lavradores, o sol e a lua marcando-lhes o ritmo dos trabalhos, Deus e a Virgem a cada instante convocados.
Donos de um burrico ou de um macho tropiqueiro, os cabaneiros, de um rancho de filhos, livres como o vento que lhes entra na cabana e às vezes os leva por esses mundos de Cristo e de novo os conduz ao pobre casario da margem da aldeia onde têm, por destino, pouso marcado, ao contrário dos camponeses que reservaram para eles o núcleo basto do povoado, as terras de pão, as vacas de trabalho e o rebanho que vão guardar nas alcarias, a deslado. Juntos, às vezes na taberna, no chão da igreja onde chamam Pai ao mesmo Deus e, no fim, no cemitério. De onde em onde a sorte os une em casamento. Como diz teu saber de experiência feito.
 
O PÃO DA TERRA
 
É uma sedutora descrição que fazes na primeira pessoa, honesta, às vezes cruel, tanta é a verdade que encerra, história de vida de uma casa de família vista por dentro, a tua, como directo exemplo, olhos de menino observador e participante que reconta, efabulando alguma vez, o enamoramento dos pais, ele filho de lavrador, brando, por natureza, como a terra das suas lavras, ela filha de cabaneiro, buliçosa e diligente, como o vento, nem sempre bem ajustados os feitios ao longo da travessia da vida onde cada um carregou a sua cruz como no caminho da Via Sacra percorrido por todos na Quaresma.
E depois a ninhada de filhos, as lavras, o pastoreio, a ceifa do pão, o saco de milho carregado para o moinho, a cava dos lameiros, o negócio da feira, neves de inverno, o corte e a seca de torrões para arder em tempo frio na fogueira, águas de rega despejadas no verão, pragas rogadas tanta vez, a refeição familiar no dia a dia, as fornadas de pão cozidas pela mulher e a penosa distribuição pelos povos ao redor, a venda de uma vitela, um pé-de-meia tão curto, as terras compradas uma a uma, a bênção dos pais ao findar do dia, toques de Ave Marias no sino da igreja, a reza de acção de graças ao findar da ceia, um dia quase sempre igual ao outro dia.
 
RÚSTICAS SEDUÇÕES
 
Parece o título de um alegre quadro de Malhoa. Mas não é.
Jaime e Inês, a rondar pelos vinte anos. O encontro aprazado num serão de inverno na quentura de uma loja cheirando a palha fresca trazida em fachas do palheiro, mulheres de todas as idade ali enroscadas, à maneira, rocas na cinta e fusos a bailar, agulhas de meia de cinco agulhas com que Inês estava a trabalhar, cantares do povo, notícias correndo neste correio de aldeia e o rapaz que chegava e o enleio crescendo nos dois namorados.
E a minúcia do jogo de enamoramento que descreves passo a passo, o resguardo do palheiro da Eira e essa imperiosa e irreprimível força da Mãe-Natureza. E depois o intranquilo despertar pela manhã, os corpos lassos do cansaço e esse impossível jeito de iludir os olhos de uma mãe, a chorar, compreensiva, e o casamento marcado com banhos apressados lidos na igreja e uma criança milagrosamente nascida antes do tempo dos nove meses costumados.
Maravilhoso texto de um romance de amor.
 
CAÇADORES DE IMITAÇÃO  
 
Aprendizagem da vida, feita em menino. Brincando às vezes.
Descrição de nevões prolongados, neves de palmo tolhendo os caminhos, tolhendo a vida dos homens e dos bichos.
E a caçada aos coelhos com o teu primo Tonho e o Mondego e o fracasso dela. E o teu irmão fustigado pela borrasca, no caminho. E as ovelhas olhando o chão e guardando os cordeirinhos. E a Tirana que pariu tantos cachorrinhos. E a caça aos passaritos com a fisga armada. E o apanhar das rãs. E a colheita dos míscaros e gasalhos.
Aventura quase sempre. Este aprender que a vida nem sempre corre de maré, como tu dizes.
 
VALE DE LÁGRIMAS
 
Não, não era um topónimo nas margens da aldeia. Era a vida toda, às vezes, feita castigo, sem se atinar porque razão.
Há uma densidade tamanha no teu livro, neste capítulo. O céu que tombou sobre a tua casa, as lágrimas que cavaram o rosto da tua mãe, o coração de teu pai tão apertado, a morte de toda a esperança, um real concreto que se tornava metáfora de tantas, tantas mais desgraças que desabavam sobre a aldeia.
E os milagres pedidos à Senhora da Lapa, à Senhora das Queimas, à Senhora dos Aflitos. Tantas promessas de já nem poder pagar.
 
POR FRANÇAS E ARAGANÇAS E DE REGRESSO A CASA
 
A terra gasta de repetidos cultivos. Cabaneiros partindo em vão. Latoeiros que ficavam sem trabalho com a expansão dos artigos de plástico. Os Ratinhos que já não partiam para Sul, para as ceifas do Alentejo. E os ranchos que deixaram de partir para o Douro às vindimas.
E a França acenando como novo Eldorado.
O salto de tantos. O regresso de alguns.
E o ensejo de uma nova França nascida no lugar quando a Serra se plantou de batatais. Quando a ganância se instalou. Quando os homens com tortos negócios  deitaram outra vez tudo a perder.
 
E o 25 de Abril que então chegou.
E a vida que também aqui se transfigurou.
 
Sem remição, sem remição, sem resgate possível, a aldeia antiga perdera-se de vez. Essa aldeia, tal e qual as aldeias simultaneamente reais e metafóricas que Aquilino Ribeiro descreveu dizendo assim: - “A aldeia serrana, como aquela em que fui nado e baptizado e me criei são e escorreito, é assim mesmo: barulhenta, valerosa, suja, sensual, avara, honrada, com todos os sentimentos e instintos que constituíam o empedrado da comuna antiga. (…) É pagã e crê em sua religiosidade toda adorar o Deus de S. Tomás”. (In Terras do Demo, prefácio, Livraria Bertrand, Lisboa, 1963).
Esta aldeia, a tua, ei-la perdida, e os tempos dela, sem remição, como o casario velho que se esboroa dentro da cintura dessa povoação nova que nasceu e agora é Vila.
Mas o teu livro, o teu estranho livro tem ainda, para além das virtualidades que de início lhe enunciei, tem essa capacidade maior de trazer de novo a tua aldeia e de assim a salvar nesse fecundo terreno da memória e do amor. Como esse que tu lhe devotas. Enquanto esperas, e nós também, que a Primavera se solte, de novo, em Abril.
 
Obrigado pelo teu convite. Obrigado pela vossa atenção.
Viseu, 17 de Dezembro de 2011.
 Alberto Correia