Trigal com Corvos
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de W. J. Solha

ColeçãoColeção Palavra Poema
GéneroPoesia
Ano2004
ISBN978-9-72-857568-7
IdiomaPortuguês
Formatobrochura | 110 páginas | 14 x 21 cm

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Uma co-edição entre a Palimage (Portugal) e a Imprell (Brasil)

"Trigal com Corvos", ainda com o título "E/u S/o/u E/s/t/a/s P/a/l/a/v/r/a/s", ficou entre os onze finalistas na 5ª Bienal Nestlé de Literatura Brasileira, 1991. Não foi pouca coisa, pois o seu registo foi o de número 21.219. A vizinhança com o grande prémio, no entanto, não aquietou o autor. De lá para cá, o livro sofreu uma infinidade de revisões, inclusive algumas depois que Solha o submeteu a poetas e críticos amigos: Sérgio de Castro Pinto, Hildeberto Barbosa, João Batista de Brito. Retrabalhou-o até depois de receber os grandes elogios de Affonso Romano de Sant'Anna, que estão na contra-capa:
"Texto riquíssimo, intrigante.
O 'Trigal com Corvos' me parece algo excepcional. Solha, além de tremendo romancista, é um tremento poeta. Um Zaratustra pós-moderno, com aquela linguagem des/sacralizadora.
Terrível o que diz do 'nosso miguêlangelo, 'nosso verdi', 'nosso proust', 'nosso joyce'. Antológico".

W. J. Solha

Waldemar José Solha é um poeta e romancista brasileiro, residindo na cidade de João Pessoa, estado de Paraíba.
Prémio Fernando Chinaglia 1974, lançado pela Récord, do Rio, em 75, "assinados" pelo personagem-título. Trabalhando com o cordel, o autor reapareceu na "Cantata Pra Alagamar", escrita para música do maestro José Alberto Kaplan, gravado pela Marcus Pereira, São Paulo, 1979.
Para o maestro Eli-Eri Moura, Solha escreveu "Os Indispensáveis" e "Réquiem Contestado", este registado numa gravação independente, de 1993.
Na Semana Santa de 2005, a Paraíba terá o concerto "Via Sacra", versos dele, música da Professora Ilza Nogueira.

(contacto directo com o autor: wjsolha@superig.com.br )
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Trigal com Corvos

de W. J. Solha

  • Israel Rêmora (Prémio Fernando Chinaglia, 74)
  • A Canga
  • A Batalha de Oliveiros (Prémio Instituto Nacional do Livro, 1988)
  • A Verdadeira Estória de Jesus
  • Shake-Up
  • Zé Américo Foi Princeso no trono da Monarquia

Sete hipóteses para uma leitura ou desleitura de Trigal com corvos ou a estranha travessia entre W. J. Solha e Vicent Van Gogh

de: Hildeberto Barbosa Filho

Sete hipóteses para uma leitura ou desleitura de Trigal com corvos ou a estranha travessia entre W. J. Solha e Vicent Van Gogh
Hildeberto Barbosa Filho

Prólogo
Tive de interromper o ritmo descontínuo, mas persistente da redação de Às horas mortas (anotações avulsas I), assim como a reflexão teórica e estética de que está brotando A luz e o rigor: por uma antipedagogia do poético, para mergulhar, abismado, na leitura de Trigal com corvos, de W. J. Solha, publicado em co-edição pela Palimage (Portugal) e Imprell (João Pessoa), em 2004. Pensei em escrever, nos bastidores, uma carta/ensaio ao autor, dando-lhe notícia das minhas primeiras impressões. No entanto, por motivos imperceptíveis e sobre os quais não me cabe aqui falar, decidi levantar algumas hipótese, na verdade sete, que é número cabalístico, de leitura ou desleitura deste “riquíssimo” e “intrigante” texto, segunda palavras de Affonso Romano de Sant´Anna, apostas na contracapa.

Hipóteses

1. A capa, cuja diagramação pertence a José Hertz da Cruz, no gritante movimento das cores amarelo, vermelho, azul, verde e preto, já sinaliza para a sintaxe entrelaçada do texto verbal. Representação pictórica e representação gráfico-visual já se intercalam pela inserção viva, vívida e vibrátil do personagem/autor na clareira singular do quadro Trigal com corvos, título que se impõe pela técnica literária da apropriação. Solha reescrevendo Van Gogh. Solha dentro do trigal. Solha, outro corvo. O desespero da tela encarnado no verbo cinético do poema em suas variações temáticas: Como o solo do sol sobre o solo, Trigal com corvos, Mais corvos e Sobre “trigal”. A princípio, pertinente possibilidade das inter-relações entre pintura e poesia. Decerto a colagem da capa já prefigura as colagens do texto. Solha escreve, Solha pinta... Solha ama Van Gogh. Entre as múltiplas, esta é uma das suas mais intensas afinidades eletivas. Parece lógico, portanto, ver bem o quadro, ler bem suas entranhas e reentrâncias, sua sinergia agônica e desesperada, ou doidesperada, para me valer, em forma feminina, de um neologismo de Carlos Newton Júnior, forjado em A vida de Quaderna e Simão, para daí me abismar no texto. No intertexto e no transtexto. Solha, o velho Solha, o incrível Solha, o irascível Solha, chicote à mão, vai castigar as palavras e esmurrar os conceitos.

2. Penso que este Trigal,nos seus quatro andamentos, se constrói como uma autobiografia intelectual e estética de Solha criador e de Solha personagem. Como a pintura de Van Gogh, uma autobiografia dilacerada... Auto-retrato de quem pensa por paradoxos e de quem detesta os sistemas,como Nietszche. Afinal, como disse o autor de Assim falava Zaratrusta: “a contradição só nasce nos grandes espíritos”. No fosso, portanto, destas contradições, no mais fundo do centro destas regiões abissais, ainda da imaginária e vetusta caverna platônica, germina o jogo especular das alusões teóricas e das caleidoscópicas citações. É como se a página em branco, deflorada pela incidência de uma retórica alucinada, sofresse o bombardeio semântico de um exército pluricognitivo. Esta autobiografia intelectual e estética se quer, não obstante, unidade na diversidade,como a poesia deFernando Pessoa, lida e interpretada por Jacinto Prado Coelho. Um Pessoa, aqui, bem mais Álvaro de Campos do Ricardo Reis ou Alberto Caeiro. A bem dizer, toda poesia é hetronímica! A tensão dialógica com a herança moderna, a inquietação perante os emblemas artísticos cristalizados, a sensação de derrota, a percepção da impotência criativa, enfim, o niilismo, não mais o meio do caminho dessa vida, mas o fim, o beco sem saída, o abismo mesmo, com sua garganta encantada, parecem enfeixar uma estranha e imponderável concepção da vida. Todo este texto não seria mais uma releitura paródica, –paródica no sentido de canto pararelo –do Eclesiastes? Afinal não há mesmo nada de novodebaixo do sol e tudo que se diz já foi dito, inclusive isto, como bem me lembra o hiperativo poeta Lúcio Lins.

3. Este Trigal não é só tapeçaria de imagens e de palavras, por mais que Solha se despersonalize (A poesia é a fuga da emoção e da personalidade, escreve mais ou menos assim T. S. Eliot, no mais fundante texto de crítica literária: Tradição e talento individual), pela persona de tantos eus e de tantas vozes das culturas milenares. Para mim, este texto, poema em prosa, em certo sentido mais prosaico que poético, em que pese a poesia dissonante de tantos momentos, é mais cênico que verbal. Não consigo descolá-lo da idéia de monólogo, do ambiente de palco, da potência da voz, da encarnação do ator, enfim, da luz e da sombra, do intervalo e da continuidade, da coreografia e da inércia. Solha não só escreve, não só pinta... Sua poesia também se transmuda para a ribalta. Solha dirige, Solha representa... Não seria o caso, talvez, de se pensar um cenário idêntico ao Trigal com corvos, de Van Gogh? Van Gogh e Solha montariam a cartografia de todo o espetáculo. Os personagens seriam todos, todos estes corvos do nunca mais: Picasso, Dante, Baudelaire, Sócrates, Euclides, Giordano, Rimbaud, Augusto, Kayan, Carlitos, Kafka, Artaud, Beethoven. Pollock, Poe, Welles, Drummond ou qualquer nome de cada página, qualquer nome de cada frase, seja no significado seja no significante. Enfim, os que se digladiam na arena dantesca de sua memória ou no balneário infernal de sua enciclopédica imaginação.

4.Posso ler este texto também como pura semiose. Em certas passagens e paragens de sua grotesca fabulação (uso o termo grotesco na acepção que lhe dá Victor Hugo no célebre prefácio de seu Cromwell), projeta-se o pós-moderno das operações concretas. O idioma, sobretudo em seu organismo vocabular, é pressionado nas suas virtualidades inventivas. E aqui, Solha se faz um poeta qualquer das já defuntas vanguardas. Página 20: “Pior/porém/é que alguma coisa furou tudo que fiz/como o f faz com f/útil.”. Página 26: “Céus/capto que não passamos de um bando de frankensteins!/Nós não passamos de um bando de frankensteis!/Yeah!/De César franks e bernsteins/de Frank capras e rubinsteins/de Frans kafkas e bronsteins!”. Página 31: “Que há em tudo um mesmo e versátil xis/como em frouxo/fixo/próximo e/exato.” Observe-se, ainda, agora numa digressão acerca do cratilismo da linguagem, à página 52: “Mas/ah/santo deus/– as palavras!/Veja como zebra e tigre são nomes... listrados!/Veja a palavra transatlântico toda trastejada de mastros sobre os trans e tlans de seus porões!/Veja o peso fundo na palavra chumbo/e o vuf de foi-se em foice!/Veja o espaço entre bola e bolha: o inflaço!”. Ou este solitário achado que os epígonos do arcaico concretismo adorariam, na página 57: “O deserto/todo de dunas ondinas/é o mar Kayan?”. Pedras de toque de um corte no significante! Este Trigal com corvos, na sua versão textual, consiste também numa antitravessia pela linguagem poética. Esta linguagem que é toda feita de desvios, aclives, escarpas, abismos, desertos, terremotos, maremotos, chuvas e estios em que metáforas e metonímias podem resumir o florilégio sêmico das figuras de retórica, conforme a lição magistral de Roman Jakobson. Enquanto semiose, ou seja, enquanto articulação de signos, pesar do ritmo prosaico e não raro narrativo (afinal Solha também é romancista...), não se pode deixar de perceber o potencial verbovocovisual de sua gramática fragmentária. Para falar como crítico literário que ainda não se libertou dos chavões universitários, diria: a forma vive um processo de isomorfia em relação ao conteúdo. Em outros termos: as sístoles e diástoles da frase reforçam as ambivalências da substância. É evidente que o mesmo ocorre com a tela de Van Gogh.

5. Ninguém pode negar que este longo poema em prosa possui uma mathesis, isto é, um conjunto de saberes o mais amplo e diversificado possível. Há nele qualquer coisa de síntese, mas também de totalidade. Almanaque, enciclopédia, glossário, manual de idéias exóticas e de verdades ambivalentes. Quanta abundância de informações! Quantas alusões culturais e históricas! Quantos conhecimentos obsessivamente interligados! Tudo talvez convergindo para uma inteiriça, a despeito de parecer fraturada, reflexão sobre os percalços da criação artística. A angústia da originalidade, a esterilidade do fazer, o sentido do novo, a genialidade, as influências e confluências, tudo se repassa no liquidificador de uma soberba erudição, para que a tradição e o cânone, se constatados em suas dimensões estelares, resultem desmistificados e dessacralizados sob os tacapes ferozes de uma escrita ensandecida. Solha é nietszchiano e escreve com sangue, com o mesmo sangue com que pintava Van Gogh. Sangue de orelha cortada, sangue de bicho na canga e de homem na canga.O vermelho dos trigais que se captura em transfiguração permeia os subterrâneos deste antitexto. Um texto que revela, em suas malhas trançadas, o sentimento de impotência do criador se materializando demiurgicamente na criação.

6. Por isto este texto é sobretudo um metatexto, uma linguagem metalinguagem, um poema sobre a poesia, um poema em prosa sobre a poiesis. Os quatro andamentos de sua musicalidade dodecafônica se entrelaçam na unidade de sua proposta estética de cariz apocalíptico. A morte também é uma grande personagem de toda sua arquitetura. Não custa lembrar que Trigal com corvos foi o último quadro de Van Gogh. Os corvos sobrevoam o trigal como a enunciar o coro fatídico do “nunca mais”. Não há neste poema de Solha, em sua prosa espiralada e contínua, como diria Octavio Paz, a sensação esférica de que estamos emparedados num círculo fechado? Afinal, que discurso revela o mundo, que linguagem dá conta da vida? Enfim, posso mesmo estar errado, e quantas vezes não estive, mas este metatexto nada mais é, e o é muito mais para além das quase infinitas interpretações possíveis, obra toda aberta que é, uma agoniada dramatização das especulações estéticas. Neste âmbito, também uma tentativa – insisto – mais prosaica que poética, mais cênica que fabulativa, de desenhar uma inconcebível identidade para o artista moderno e pós-moderno. Debate-se nele o eterno sujeito em crise que a tradição ocidental, sobremaneira a partir da Renascença, ainda não logrou superar. Quem sou? Para onde vou? Qual a minha origem?, indaga Solha, como escritor e como personagem, lembrando as perplexidades de Augusto dos Anjos no Poema negro. Diferente, no entanto, do poeta paraibano, em Solha, com este Trigal com corvos, nem mesmo a arte redime. O irônico é que isto é dito numa obra de arte. Quem ler verá!

7. De resto, este texto se insere perfeitamente no contexto literário, na singularidade do contexto literário de Waldemar Solha. Insere-se assim como a imagem do autor/personagem se insere no belíssimo quadro de Van Gogh. Fiel à sua intrínseca tradição da ruptura, para me socorrer ainda das palavras de Octavio Paz; fiel ao seu modus operandi, ao seu estilo inconfundível, Solha retoma, neste Trigal com corvos, os cortes e recortes em versos do protagonista Israel Rêmora, figura central de seu primeiro romance, de título homônimo ao do angustiado personagem, na verdade Israel Rêmora ou o sacrifício das fêmas (Record, 1975). Vale dizer, pelo zelo das simetrias teóricas, que o germe deste processo de bricolagem, como diria Claude Lévi-Strauss, em seu Pensamento selvagem, e do gosto pelas enumerações caóticas de que fala Leo Spitzer, entre outros recursos da poética moderna, já estavam lá. Aqui, neste Trigal com corvos, a técnica apenas se apura e se amplia, tornando-se mais complexa e duramente mais radical. Assim como Solha, sucumbindo aos sabores e dissabores da polifonia e da intertextualidade, para me referir a Bakhtin e a Kristeva, dialoga com os ícones malditos da cultura ocidental, também dialoga consigo mesmo, fazendo ecoar, neste contundente mosaico de citações, os réquiens e adágios que se disseminam, em profusão estonteante, pelas páginas de A verdadeira estória de Jesus (Ática, 1979), de Zé Américo foi princeso no trono da monarquia (Codecri, 1984), de A batalha de Oliveiros (Itatiaia/INLL, 1988) e de Shake-up (UFPB, 1997.). Aliás, se tenho no Zé Américo e no Shake-up, a fusão transtextual das tragédias shakesperianas com as páginas de A bagaceira e com os nefastos acontecimentos da Revolução de 30, é em A batalha de Oliveiros, todo montado estilisticamente na técnica do cordel, que li e vivenciei uma das mais belas, mais intensas, mais eróticas e mais epopéicas trepadas da literatura ociedntal.

Epílogo

Sorocabano de nascença, mas paraibano por adoção, Waldemar José Solha é ex-bancário, escritor, romancista, pintor, ator, dramaturgo, diretor, ensaísta, poeta e leitor, leitor voraz e onívoro. Pode-se dizer dele o que diziam os monges medievais acerca de São Tomás de Aquino: “Leu quase tudo”. Não, digo dele o que disseram de Alceu Amoroso Lima: “Leu tudo”. Leu tudo, sim, e é, no espaço de nossa contemporaneidade, o principal romancista das terras tabajaras.


SOLHA LANÇA LIVRO E É COMPARADO A NIETZSCHE

de: André de Sena

TEXTO PUBLICADO EM – 14 DE SETEMBRO DE 2004 – SOBRE “TRIGAL COM CORVOS” , NO JORNAL DA PARAÍBA:

Poesia

SOLHA LANÇA LIVRO E É COMPARADO A NIETZSCHE

André de Sena

O escritor e ator W. J. Solha estará no próximo dia 22, no Novo Sebo Cultural( Av. Tabajara, 848, centro de João Pessoa ) lançando sua mais recente produção literária, “Trigal com Corvos”, um excelente livro de poesias que reúne, estruturado em versos brancos, na melhor linha de Walt Whitman e Ezra Pound, sua inquietação com a passagem do tempo e a proximidade da morte, através da intertextualidade (constantes citações de outros autores e obras) que nos remete à grande tradição literária do Ocidente.
“Trigal com corvos” foi publicado numa parceria entre a editora paraibana Imprelle a portuguesa Palimage. Ainda com o título “E/us/o/ue/s/t/a/sp/a/l/a/v/r/a/s”( o verso suicida do atual livro), ficou entre os 11 finalistas da 5a. Bienal Nestlé de Literatura Brasileira, em 1991, que recebeu mais de 21 mil inscrições. O original foi retrabalhado e agora está com cara e roupa novas, já recebendo elogios em primeira mão do poetaAffonso Romano de Sant’Anna, que disse ter sido a obra escrita por um “Zaratustra pós-moderno”.Ou seja, pôs Solha no mesmo patamar do poeta e filósofo alemão F. W. Nietzsche.
E com razão
. Como em Zaratustra, o eu-lírico de Solha põe em evidência um aspecto importante, de “pregação”, pois aparece de forma tética e serve-se de todas as figuras e truques retóricos, que os pregadores protestantes de Lutero ao próprio Nietzsche desenvolveram; uma poesia que observa o andamento, o ritmo, o timbre, numa suave transição para a prosa. Mas, ao mesmo tempo, Trigal com Corvos é também uma antipregação, pois – novamentecomo no Zaratustra – exige de nós que deixemosfalar nosso si-mesmo e nada aceitemos por mera autoridade ( nem mesmo da própria literatura dessacralizada). Assim, o livro é com efeito de poesia, mas todos os poetas, inclusive o próprio eu-lírico, são desmascarados como mentirosos, idealistas. Partindo de fatos e inquietações do dia-a-dia e raramente transformados em poesia, Solhacompôs um mosaicoque visa, em última instância, a superação do próprio efêmero. Para ele, “um poema não arrasta 150 vagões de minérios”, nem “ergue 400 passageiros e os leva pelo ar”, mas, por outro lado, serve para afirmar com efeito “que passado e futuro são provisórios como icebergs e dunas” e que “há sempre algo a dizer... vago e belo... como as paisagens na névoa da China”. Para o eu-lírico, a vontade de potência da obra, diferentemente da arquitetura das grandes catedrais e cantos épicos, estaria nas entrelinhas: “eis minha obra-prima/ de facto: / um arco-de-triunfo em ruína/ com o vão/ apenas/ intacto”. É pela ousadia das imagens, seu poderevocativo e metalingüístico, que Solha, autor, entre outros livros, de “Israel Rêmora”, “A Canga”, “A Batalha de Oliveiros” , “Shake-up”, aparece como uma das maiores vozes da atual poesia brasileira, ao lado de um Alexei Bueno e um MarcoLucchesi.<

Crítica a "Trigal com Corvos"

de: Sérgio de Castro Pinto

TRIGAL COM CORVOS

Sérgio de Castro Pinto

“Trigal com corvos” (Palimage Editores /Imprell Gráfica e Editora) é a estréia de W.J.Solha na poesia, um longo poema em que o autor esgrime as suas habilidades de ficcionista, não obstante os versos discursivos abrigarem, aqui e acolá, poemas minimalistas. Exemplos? Vejamos este: “_Mãe:/ Jesus/pra dormir/apaga o halo?”. Ou ainda este outro: “Meu deus/eu bem queria deixar um rastro de ferro como um trem/ mas acho que também tomei o bonde errado”. Ou, entre muitos, os versos nos quais W.J.Solha compartilha, com o poeta que é, a sua condição de artista plástico sempre atento à representação gráfica das coisas que giram ao seu derredor: “ah/meu deus/a emoção quando percebi na cabeça bovina (com o par de chifres/ voltado para baixo) o embrião da primeira letra:/A/ certamente no esforço do/arado!”.
Alguns desses belíssimos versos ressumam o mais puro lirismo a par de uma atmosfera onde o humor contraponteia com o que o épico às vezes possui de sisudo e decircunspecto, embora em Solha esse gênero seja movido pela mais intensa emoção.
“Trigal com corvos” é um épico da alma. E conquanto possa soar paradoxal, contraditório, essa definição diz bem do espírito que rege esse grande poema (nos dois sentidos do termo!): o acúmulo de informações enciclopédicas, fruto de muitas leituras, submetido ao crivo de um “eu” agônico. Tão agônico que, a exemplo do Van Gogh diante dos trigais, tudo em que toca abandona o seu estado de repouso para atingir um grau de ebulição elevado à milésima potência.


"Autores Maduros"

de: Affonso Romano de Sant'Anna

“W. J. Solha – lá de João Pessoa – é homem de teatro e cinema, além de romancista e poeta. Resenhei um livro dele nos anos 70, quando ao lado de Roberto Drummond surgiu com a narrativa pop “A Verdadeira Estória de Jesus” (Editora Ática). Agora publica, em coedição com a editora portuguesa Palimage, esse “Trigal com Corvos”. É um poema-ensaio que, caso fosse encenado - como fez com êxito o novo e contagiante Michel Melamed com seu “Regurgitofafia” – certamente também funcionaria. Como numa stream of conciousness, Solha repassa a sua perplexidade de homem de nosso tempo, manifestando raro conhecimento da cultura de ontem e hoje. É uma catarse, um regurgitar de indagações e dúvidas intertextuais. Não podendo preservar neste espaço o jogo espacial de suas palavras, leia-se, no entanto, este trecho que dá que pensar sobre o que é ser intelectual de Terceiro Mundo: “Caramba, como tudo seria diferente se o Aleijadinho tivesse sido Miguelângelo, e não “o nosso Miguelângelo”! Se Carlos Gomes tivesse sido Verdi, e não “o nosso Verdi”! Se Portinari tivesse sido Picasso, e não “o nosso Picasso”! Imagine se Villa-Lobos tivesse sido Stravinsky, se Machado de Assis tivesse sido Proust e o Mário de Andrade o Joyce! Imagine se o Manuel Bandeira tivesse sido Pound e o Carlos Drummond o Eliot! Se o Nelson Rodrigues tivesse sido Brecht e o Mário Peixoto Eisenstein! Ombros em que subir!!!”
E seguindo nesse tom patético e dialético, Solha se auto-ironizacontinuamente: “Por essas e outras Sócrates disse:”Só sei que nada sei”. E Arcesilau, com muito humor e sutileza: “E eu nem disso tenho certeza”. E sabendo do doloroso trabalho de realizar uma obra em tempos de pós-modernidade, não estranha que noutra parte, diga: “Eis minha obra-prima de facto: um arco-de-triunfo em ruína, com o vão, apenas, intacto!”

Affonso Romano de Sant'Anna
In "Autores Maduros", caderno "Prosa & Verso", do jornal "O Globo", Rio de Janeiro, em 9 de Outubbro de 2004.