Vinte Poemas do Rio / Twenty River Poems
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de Cyro de Mattos

ColeçãoColeção Palavra Poema
GéneroPoesia
Ano2006
ISBN978-9-72-857597-7
IdiomaPortuguês
Formatobrochura | 68 páginas | 15 x 21 cm

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Edição bilingue / Bilingual edition

Mas o seu poema não irrompe de qualquer abalo sísmico, ou de qualquer intempérie facilmente previsível. Ele eclode da história revigorada, nasce do fundo do homem e das coisas,da sua raiz em curso, da sua origem protegida do menor sedentarismo. Cyro de Mattos se compraz em revalorizar a raiz e reverenciar a origem, em reconhecer o fundamento radicalmente imune ao fundamentalismo. O poeta enraizado, e, no caso, porque enraizado, generoso, recorda para a frente. Livremente. Como quem retira dos filtros do passado e dos detectores de metais do presente, lições, mesmo que enviesadas, para a construção do amanhã.

Eduardo Portela, ex-ministro daCultura do
Brasil, da Academia Brasileira de Letras



A prize-winning poet and short story writer, focuses his work on his home city ofItabuna,Bahia, in the heart of cocoa-growing region made famous in novels by Jorge Amado. The simple but well wrought poems ofCancioneiro do Cacau, from which the translations in this issue were drawn, portray the local rivers, flora, fauna, towns, crops, workers, churches, and folklore, while rising through imagination beyond the limits of regionalism.

Beacons, Magazineof American TranslatorsAssociation and
Department of English, SUNY
Plattsburgh, Plattsburgh, NY, USA,
Editor Alexis Levitin

Cyro de Mattos

CYRO DE MATTOS – Nasceu em Itabuna, cidade da região cacaueira da Bahia, Brasil. Poeta, contista e cronista. Autor de 28 livros, entre eles, “Os Brabos”, contos, que lhe deu o Prêmio Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, e “O Menino Camelô”, poesia infantil, Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Artes. Com o “Cancioneiro do Cacau” conquistou o Prêmio Nacional de Poesia Ribeiro Couto da União Brasileira de Escritores, Seção do Rio de Janeiro. Como poeta publicou “Cantiga Grapiúna” (1981), “No Lado Azul da Canção” (1985), “Lavrador Inventivo” (1985), “Vinte Poemas do Rio” (1985), “Viagrária” (1988), “A Casa Verde” (1988), “Oratório de Natal” (1997), “Os Enganos Cativantes” (2002), “Cancioneiro do Cacau” (2002), “De Cacau e Água” (2003) e “Canto a Nossa Senhora das Matas” (2004). Jornalista com passagem na imprensa do Rio de Janeiro, advogado militante, colabora em suplementos literários da Bahia, Sergipe, Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. Tem poesias traduzidas para o inglês, francês e alemão. Tem poemas incluídos em antologias brasileiras e estrangeiras. Em Portugal, participa de “Cancioneiro 80”, jornal “Letras & Letras”, Porto, “Antologia de Poesia Contemporânea Brasileira”, Editora Alma Azul, Coimbra, organizada por Álvaro Alves de Faria, 2000, “Poesia do Mundo/3”, organizada por Maria Irene Ramalho de Sousa Santos, Edições Afrontamento, Porto, 2001, revista “Saudade”, dirigida por António José Queirós, Edições do Tâmega, 2002, e “Poetas Revisitam Pessoa”, organizada por João Alves das Neves, Universitária Editora, Lisboa, 2003. Participou como convidado do III Encontro Internacional de Poetas da Universidade de Coimbra, em 1998. Sua obra tem sido estudada em universidades brasileiras. Pertence à Academia de Letras da Bahia, Brasil.

Com os livros "Cancioneiro do Cacau", na categoria de obras publicadas, e "Poemas Escolhidos", de obras inéditas, conquistou o Segundo Prêmio Internacional de poesia Maestrale Marengo d'Oro, do Centro Cultural de Sestri Levante, em Genova, Itália, ambos traduzidos por Mirella Abriani, em 2006. Com o poema "O Menino e o Mar", foi um dos vencedores V Concurso Poético Cancioneiro Infanto-Juvenil, para a Língua Portuguesa, do Instituto Piaget de Almada. Sua antologia "Poesie della Bahia/Poemas da Bahia" foi publicada pela Runde Taarn Edizioni, de Vareze, Gerenzano, Itália, tradução de Mirella Abriani, em 2008. Participou da Feira Internacional do Livro de Frankfurt 2010 quando autografou exemplares da obra "Zwanzig Gedichte von Rio und andere Gedicthe", que pode ser traduzido como "Vinte Poemas do Rio e Outros Poemas", publicado pela Projekte-Verlage, de Halle (Leipzig), tradução de curt Meyer Clason.

CYRO DE MATTOS – Was born in Itabuna, a city in the cocoa region of Bahia, Brazil. Poet, author of short stories and brazilian “familiar essays”. He has had twenty-eigt books published, among which “Os Brabos”, a collection of short stories for which he received the Afonso Arinos Prize of Brazilian Academy of Letters, “ O Menino Camelô”, book of poetry for children, Associação Paulista de Críticos de Artes Award. With his book “Cancioneiro do Cacau” he won the National Poetry Award from the União Brasileira de Escritores, Rio de Janeiro. His books of poetry include “Cantiga Grapiúna” (1981), “No Lado Azul da Canção” (1985), “Lavrador Inventivo” (1985), “Vinte Poemas do Rio” (1985), “Viagrária” (1988), “A Casa Verde” (1988), “Oratório de Natal” (1997), “Os Enganos Cativantes” (2002), “Cancioneiro do Cacau” (2002), “De Cacau e Água” (2003) and “Canto a Nossa Senhora das Matas” (2004). He was a journalist in Rio de Janeiro for sometime and works as a lawyer. He has written for literary supplements in Bahia, Sergipe, Rio de Janeiro, São Paulo and Minas Gerais. His poems appear in several brazilian anthologies and in USA, Germany and France. His poems published in Portugal participate of “Cancioneiro 80”, “Letras & Letras”, Porto, “Antologia de Poesia Contemporânea Brasileira”, Alma Azul, Coimbra, organised by Álvaro Alves de Faria, 2000, “Poesia do Mundo/3”, organised by Maria Irene Ramalho de Sousa Santos, Afrontamento, Porto, 2001, magazine “Saudade”, directed by António José Queirós, Tâmega, 2002, and “Poetas Revisitam Pessoa”, organised by João Alves das Neves, Universitária Editora, Lisboa, 2003. He was one of the Brazilian poets at the 3rd International Meeting of Poets, organised by the Group of Anglo-American Studies at the University of Coimbra, Portugal, in 1998. His books has had in brazilian universities studied. He has nominated as member of the Academy of Letters of Bahia, Brazil.

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Vinte Poemas do Rio / Twenty River Poems

de Cyro de Mattos

Beingness rockness waterness:Twenty River Poems// Tão ser tão pedra tão água: Vinte Poemas do Rio

de: Graça Capinha

Beingness rockness waterness:
Twenty River Poems


Graça Capinha(1)

I remember my first time in Bahia. I had a cosmic cold, as Pessoa would put it, and felt the plane had forgotten me up there, my head hovering, flying over the airport humming voices, at a distance. The heat invaded me like a soaked eiderdown that I never figured out whether it came from the feverish body down there or simply from the so-called Tropics’ fever. Suddenly, my arm was pulled and a European gringa terror hit me violently. No reason for alarm: just a huge white cloud, adorned with lace, binding me with her black hands, meticulously, with a little white and light blue ribbon around my wrist whilst she was explaining who Our Lord of Bonfim was, the three wishes I was entitled to with these three knots, and that I was Iemanjá’s daughter. She refused my money with a white smile filling her beautiful black face and she said “It’s for luck!”. The real and the unreal definitely made one, I felt like curling up in that big Baiana lap and go to sleep innocently diving into this magic dream.

Walking on pillows, I followed my colleague from São Paulo who was having a lively conversation with some people from the University of Bahia, our hosts during the big conference of the next few days in Salvador. I was going to talk about the poetry written by Portuguese immigrants in the USA, about language, and about identity. The research on the Portuguese in Brasil had already been done in São Paulo and in Rio and I could not imagine then that the close acquaintance with this place and this people was going – finally and already on the verge of causing my colleagues’ dispair in Coimbra – to provide me with the much announced “feeling of recognition” of Portugal in Brasil.

That is the way I remember Cyro de Mattos’ first time in Coimbra (so far the only time, but I am sure it willl not be the last). He was one of the many poets from the whole world invited to come to Coimbra for the 3rd. International Meeting of Poets of the University of Coimbra, in 1998. After the reception dinner, where we had finally met, I drove him to his hotel and, whilst I was driving, I remember his recognition of Brasil in the city of Coimbra. He was looking around completely surprised, seeing the facades, the people, the gardens, and I can still hear his voice almost like the echo of the humming voices that day of my arrival in Salvador: “But what kind of city is this, My God?!”, “What kind of people?!” “What kind of windows are these?!” “What kind of cobblestoned streets?!”, “People, this is Salvador!!! This is Bahia!!!!”

The person who had advised me to invite Cyro de Mattos to become a part of the Brasilian group, had told me that in his poems you could hear the sound of “the deep voice of Bahia”.That was enough, for I tend to get suspicious of poets claiming to be the voice of essentialist universalities. I believe there is only a real and possible universitality, the one and only that originates in the intimate experience of the place where the act of creation is born. Coming from Anglo-American Studies, I cannot help myself from agreeing with the great North-American bard Walt Whitman, who claimed: ”My tongue, every atom of my blood, form’d from this soil, this air/ Born here of parents born here from their parents the same”. Ultimately, everything does depend upon those insignificant and trivial things such as “a red wheel/ barrow// glazed with rain/ water// beside the white// chickens.”, as Williams would later say.

But let us not globalize any further the localism that the North-American culture is too, for the world needs to globalize other localisms instead, as the Portuguese sociologist Boaventura de Sousa Santos argues. One must denaturalize the real if new alternatives are going to be possible. That is why I believe that the voices like Cyro de Mattos’voice are so important nowadays. They do teach us the diversity of places on earth, they make us think about the innocences that were once lost in them, they help us understand and live with the experience that makes those places a presence in other places where we will recognise ourselves and where we will surely be lost again – carrying with us the immense richness of the places from where we “were formed”, in that river, which is simultaneously definite and a riddle, a metaphor for the whole of the existence.

This new book by Cyro de Mattos brings back that metaphor to re-write it once again, to re-actualize it once again, in his own passage as a poet also plunging into the same stream of a language where all the poets, derivatively and unavoidably, must plunge.

I find in this work aspects that are almost classicist, the first one being the circular and concentric symmetry of construction. We start with a “Definitive River” and a voice demanding stasis, ceasing the movement of an image because one knows it and that means one has control over it – that is why the Amazon and the Nile are not allowed in here. This is the river of the beginning of the book and of the beginning of existence, the river of childhood that the author here brings to us: a river of human measures in a voice with a profound faith in human possibility. It is still the river of the child’s imagination, with “his treasure island kept by ghosts”, with backwaters, stainless, inaugurating life. But this is also the river where you learn the human toil, where the moments of origin, present in the mornings and in nature, will religiousy merge with the human, with the washerwomen and the sand sellers, with mortar and with language (a river which is also a “coloured song”). “Only that can make me happy”, says at the end of the poem a voice that is both the voice of memory and the voice of the child folded in the poet. There is a play with internal rhyme that almost makes us visualize the little boy jumping game amongst the sounds (in Portuguese, “á”, “i”, “an”, “in”, sometimes phonetically chiasmatic).

The contrast with thevoice of experience in the last poem of the book is obvious: “Riddle River” is the river yet and always unknowable and uncontrolable, the river of human impossibility facing of the movement of the waters permanently running away from us. This last poem is a poem about the inevitability of the cyclical movement, about the permanence of ends and beginnings, about the past seeing itself made present and future in a single moment, seeing itself a child and an adult and an adult able to see himself an adult. Now, this river “cannot make [one] happy” and so the text is invaded by questions, as if one was back to innocence again or, rather, as if innocence had never been abandoned (except when the poet believed that that first river was “the only to make [him] happy”, that that was his definitive river).

But let us again go back to the beginning of Twenty River Poems, and the second poem will immediately give us a metamorphosis, the repetition at the beginning of the stanzas emphasizing movement and bringing us the refrain and the folklore of common and popular knowledge who is watching manhood and creation being born with inexorable error and sin being born too (“There goes my little boy river,/ Wise ox in a snake crawl”). However, there is still faith in the human possibility of creating a complete, finished, form: it is riverside, but it is still a Song.

Notice again the symmetrical and concentric form (antitethical though): contrary to the second poem, the second from the end is nothing but a group of “Annotations upon the River”, a group of fragments recalling haikus, a sequence of minimalist texts as if after Pound’s imagism: as if there was nothing but the extreme poverty of words, using juxtaposition only, trying to say maximum in minimum; as if that extreme poverty of language were the greatest richness achieved along the path the river/ book/ existence of the poet described – a river that became the last place for innocence and experience, the gift and the flow of our mortal creation, “beingnessrockness waterness” (the importance of the meaning of silence in the space between the words in this last line).

In the circle immediately before this one, there was a “Fisherman” (third poem from the end) again in opposition to the movement at the beginning with its three poems and their variations (folk music again emphasized). Whilst in the three poems at the beginning the organic relation between the river and humankind is celebrated, in a somewhat ritualistic way, as a religious act of union that gives life permission (thirst satisfied, in “The Water Seller I & II”; desire satisfied in “Washerwomen I & II”; the need for a home satisfied in “The Sand Seller I & II” ) – the act of love as the possibility for creation – “The Fisherman” (with its biblical echoes), approaching the end of the book, speaks about survival, that is also the survival of the poem. Recognising the dignity of human toil and effort, we must however accept that we depend upon water and chance, uponcontingence and the good-will of nature: nothing is ever sufficiently safe, controlled or known in the fisherman’s job. Catching fish becomes a metaphor for “catching words” for the poem, always open like life and the sea yet to sail.

Afterthe variation poems’ celebration, we find “Canoe”. It seems that the apprenticeship of the little boy (which had been started at the beginning of the book) is over and adulthood is here: accepting to move along with the movement of nature and the movement of social life (where human work on the forms of nature becomes necessary), beginning to learn in a world that is already out of the safe and “definitive” world of childhood. And this is the climactic moment when the man reaches the river, “To the River” (almost a prayer), and there he learns “all the metaphor in the world”, “all the waters in the world” (the Amazon and the Nile waters now included). There he learns the most difficult thing to learn in life: he learns death, “Dead River”.

“To the River” and “Dead River” are the two poems that are exactly located at the center of the book, the book’s climax, as in a classical tragedy. In that kind of catarsis the young man understands that eternity is change, the inevitability of permanent cycle, permanent beginnings and ends. That is why the river is eternal in its impermanence and the river of the little boy, childhood, must die. The discursive mood of “Dead River” is almost pragmatic and it also gives us the image of another death brought by humankind to the river: polution in its ”Shady and sticky air”.

The following poems are still an attempt at re-visitation of a lost world, of conventional and closed forms like the sonnet, but the poet comes to understand that it is necessary to learn the river again — before the river, the little boy from Itabuna, no longer a little boy, meets his place again: the place of his childhood and the place of his memory, and that is also the place of his past poetry.

Thus “Waters” and“White Poem” are a kind of creative new beginning, the recapture of a primaeval blankness where everything is yet to be written, accepting that in that blankness life and death, and good and evil merge: in that place there is all the diversity and multiplicity that exclude nothing. There the poet/ fisherman Cyro de Mattos catches his fish/ fragments for the poems that will never exhaust the flow, “ beingness rockness waterness”. The poems that take us back, wisely, to his sweet place of rivers and cachoeiras(2), pure, simple and magic as only Bahia can be. In that place is located the poetic identity of this author and in that place the universality of human experience is manifested.

I look at my left wrist where the little ribbon of Bonfim still is, only white now and a thin thread refusing to fall. It happened so many years ago I cannot even remember what my three whishes were!… I wonder whether this is the acrylic’s fault (these ribbons used to be made of cotton), whether my wheel is turning too slowly, or whether this is the Baiana’s spell that will make me go back to Bahia where the spell and the little ribbon will finally break (?!)…

But one thing leaves me holding to the magic, the same way Cyro de Mattos seems to be holding to it too – and that is the water.

Iemanjá, the one who receives all the rivers, must have been hanging around here in the past few hours…


(Translation by Graça Capinha)



___________________
(1)Graça Capinha received a Ph. D. from Coimbra University, Portugal. She teaches English contemporary poetry and poetics, as well as creative writing, in the Department for Anglo-American Studies (Faculty of Letters). She directs a Poetry Workshop since 1997. Shedirects thepoetry magazine Oficina de Poesia (Poetry Workshop: published by the Directive Board of the Faculty of Letters, University of Coimbra).
(2) small waterfall.



Tão ser tão pedra tão água:
Vinte Poemas do Rio


Graça Capinha(1)

Lembro-me da primeira vez que cheguei à Bahia. Com uma constipação cósmica, diria o Pessoa, sentindo que o avião se tinha esquecido de mim lá em cima, a cabeça a pairar, sobrevoando a vozearia do aeroporto, à distância. O calor invadia-me amido como um edredão ensopado que nunca descobri se era daquele corpo constipado e febril lá em baixo, se da tão falada febre dos trópicos. De repente, um puxão arrebanhou-me um braço e um terror de gringa européia atingiu-me violento. Nada de alarmes: uma enorme nuvem branca apenas, toda enfeitada de rendas, atava-me com as suas mãos negras, meticulosas, uma fitinha branca de letras azul claro ao redor do pulso e explicava-me quem era o Senhor do Bonfim, os três desejos dos três nós e que eu era filha de Iemanjá. Recusou o meu dinheiro com um sorriso alvo a encher a face negra belíssima e disse-me que era para “dar sorte”. O real e o irreal fundidos de vez, apeteceu-me aconchegar naquele colo grande da baiana e adormecer como os justos para dentro deste sonho mágico.

Segui, caminhando sobre almofadas, atrás da colega de São Paulo que conversava animadamente com as outras colegas da Universidade da Bahia, as nossas anfitriãs durante o grande congresso a acontecer em Salvador nos próximos dias. Lembro-me que ia falar da escrita dos emigrantes portugueses nos EUA, de poesia, de língua, de identidade. A pesquisa sobre os portugueses no Brasil já tinha passado por São Paulo e Rio e estava longe de imaginar que o conhecimento íntimo deste espaço e desta gente fosse, enfim e já perante o quase desespero dos meus interlocutores em Coimbra, o tão vaticinado reconhecimento.

Lembro-me assim também da primeira vez (até ver, única, mas decerto não última) que Cyro de Mattos chegou a Coimbra, um dos muitos poetas de todo o mundo convidados a participar no 3.º Encontro Internacional de Poetas da Universidade de Coimbra, em 1998. Depois do jantar de recepção aos poetas, em que acabáramos de nos conhecer pessoalmente, levei-o ao hotel e, durante todo o percurso, lembro-me do seu reconhecimento da cidade de Coimbra, olhando admirado para as fachadas, gentes e jardins que iam passando pelo carro. Ainda ouço quase em eco, lembrando-me o som das vozes do aeroporto ao chegar a Salvador: “Mas que cidade é esta, Meu Deus?! Que gente é esta?! Que janelas, que telhados são estes?! Que calçada é esta?! Gente, isto é Salvador!!! Isto é Bahia!!!!”

A pessoa que me recomendara que o incluísse na representação brasileira, dissera-me que era “a voz profunda da Bahia”, que se fazia ouvir na sua escrita. A mim, que suspeito sempre de poetas a reclamar universalismos essencialistas, chegou-me esta recomendação, pois acredito que o verdadeiro e único universalismo possível é aquele que parte da experiência íntima do lugar que gera a criação. Vinda dos estudos anglo-americanos, a minha área de especialização, não posso impedir-me de estar de acordo com o grande bardo Walt Whitman, quando este afirma acerca do seu lugar: “A minha língua, todos os átomos do meu sangue, tomando forma a partir deste solo, deste ar/ Nascidos aqui de pais nascidos aqui tal como os seus pais”(My tongue, every atom of my blood, form’d from this soil, this air/ Born here of parents born here from their parents the same”). Ao fim e ao cabo, tudo depende mesmo dessas coisas insignificantes e triviais que nos ensinam sentidos, tudo depende de coisas como “o barrote da roda vermelha a brilhar da chuva, água ao lado do branco das galinhas” (so much depends/ upon// a red wheel/ barrow// glazed with rain/ water// beside the white// chickens.”), como diria mais tarde Williams(2).

Mas não globalizemos mais o lacalismo que é também a cultura norte-americana, pois o mundo precisa é de globalizar outros localismos, como diria o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos. Há que desnaturalizar o real se queremos alternativas. Daí que a localização de vozes como as de Cyro de Mattos sejam hoje em dia cada vez mais importantes, pois nos ensinam a diversidade dos lugares da terra em que vivemos, nos obrigam a reflectir sobre inocências que por lá se perderam, nos ajudam a conviver com a experiência que deles se fez presença em outros lugares em que nos reconhecemos e em que decerto nos voltaremos a perder – levando sempre connosco essa riqueza imensa dos lugares em que se foi “tomando forma”, nesse rio simultaneamente definitivo e enigma, metáfora de toda a existência.

Este novo livro de Cyro de Mattos recupera a metáfora para mais uma vez a reescrever, a re-actualizar, na sua passagem de poeta que mergulha também na correnteza da linguagem onde todos os poetas derivativamente têm que mergulhar.

Encontro nesta obra aspectos quase classicistas, a começar pela simetria, circular e concêntrica, da sua própria construção. Começamos num “Rio Definitivo”, a exigir a paragem, quase a estase, que o domínio do seu conhecimento implica; a recusar rios grandes e poderosos, como o Nilo ou o Amazonas. Este é o rio do começo do livro e do começo da existência, da infância, que o autor aqui recupera: um rio à medida humana, ainda profundamente crente na humana possibilidade. É ainda o rio da imaginação infantil, de “ilha com tesouro guardado por fantasmas”, cheio de remansos, sem mancha, inaugurando a vida. Mas é também o rio do trabalho humano, onde os momentos de origem das manhãs da natureza se fundem religiosamente com o humano das lavadeiras, dos areeiros, da argamassa e da linguagem (um rio que é também “cantiga colorida”). “Somente esse rio me basta”, afirma no final do poema essa voz, simultaneamente, da memória e da criança em que o poeta se desdobrou. O jogo com a rima interna faz quase lembrar a brincadeira do menino que saltita por entre os sons “á”, “i”, “an”, “in”, de forma por vezes foneticamente quiasmática.

O contraste com a voz da experiência presente no último poema do livro é flagrante: “Rio Enigma” é o rio ainda e sempre por conhecer e dominar, o rio da impossibilidade humana sem domínio sobre o movimento das águas que correm permanentes para longe de nós. Este último poema é um poema sobre a inevitabilidade do ciclo, sobre a permanência dos fins e dos princípios, o passado que se vê presente e futuro num só momento, que se vê criança e adulto e adulto que se pode olhar adulto. Agora, este rio não basta e por isso o texto se enche de perguntas, como se se voltasse à inocência ou apenas se reconhecesse que nunca se a abandonou verdadeiramente (a não ser quando se acreditava que aquele rio primeiro bastava, que era o rio definitivo).

Mas voltemos ao início de Vinte Poemas do Rio, e logo o segundo poema nos começa a dar conta de uma metamorfose, a repetição do início das estrofes a dar ênfase ao movimento, remetendo-nos para o refrão e a sabedoria populares, que como que assistem à chegada da virilidade da criação onde a mancha inexorável do erro e do pecado tem por força que estar presente (“Lá vai meu rio menino,/ Boi sábio em passo de cobra”). Mas ainda há aqui fé na possibilidade humana de criar forma acabada: ainda que só ribeirinha, trata-se de uma Canção.

Mais uma vez repare-se na forma simétrica e concêntrica(ainda que de forma antitética), escolhida por Mattos para este livro. Ao contrário do segundo poema, o penúltimo (segundo, a contar do fim) é apenas um conjunto de “Anotações sobre o Rio”, um conjunto de fragmentos a lembrar haikus, uma sequência de textos minimalistas a lembrar o imagismo de Pound: como se só restasse a depauperação extrema das palavras, apenas justapostas, para dizer o máximo no mínimo; como se essa pura pobreza da linguagem fosse a maior riqueza conseguida no percurso que o rio//livro/existência do poeta descreve – um rio que é agora residência última da inocência e da experiência, dádiva e deságua da nossa criação mortal, “tãosertãopedratãoágua” (a importância dada à significação do silêncio bem visível neste espaçamento entre as palavras do último verso).

No círculo imediatamente anterior, surgia-nos “Pescador” (terceiro a contar do fim), um poema que, de novo, contrasta com o início, com os três poemas e suas variações (a musicalidade popular em evidência). Enquanto nesses poemas se celebra, quase ritualisticamente, a relação orgânica entre o rio e o humano como acto religioso do estabelecimento da união que permite a vida (o satisfazer da sede, em “O Aguadeiro I e II”; o satisfazer do desejo, em “Lavadeiras I e II”; o satisfazer da necessidade da fundação da maturidade na terra e na casa, de “O Areeiro I e II”) – o acto amoroso dirigido à possibilidade criativa – o poema “Pescador” (título de ecos claramente bíblicos), já a aproximar-se do final, vem-nos falar da sobrevivência possível, que o mesmo será dizer, vem-nos falar do poema possível. Ainda que o esforço humano permaneça íntegro na sua dignidade, depende-se ainda da água e da sorte, da contingência e da boa-vontade da natureza: nada é seguro, definitivamente dominado ou conhecido nesta profissão. Como se apanhar peixe se fizesse metaforicamente num ”apanhar de palavras” para o poema, sempre em aberto como a vida e o mar por percorrer.

Depois da celebração dos poemas com variações, chega-nos “Canoa”. Parece que o processo de aprendizagem, encetado pelo menino desde o início desta obra, chega à sua maturidade: aceitando acompanharo movimento da natureza e do social, presente no trabalho sobre ela realizado, começando a aprender fora já do mundo seguro e “definitivo” da infância. E aí, verdadeira e climacticamente, se chega “Ao Rio” (um poema que é quase uma oração) e nele se aprende “toda a metáfora do mundo”, “todas as águas do mundo” (as do Amazonas e do Nilo que antes se recusavam). Aí se aprende o mais difícil da vida: a própria morte, o “Rio Morto”.

Estes, “Ao Rio” e “Rio Morto”, são os dois poemas colocados exactamente a meio do livro, o seu centro, o seu ponto culminante, quase a lembrar a estrutura da tragédia. Nessa espécie de catarsisse entende que a eternidade reside na mudança, na inevitabilidade da permanência do ciclo, do fim e do princípio. Por isso o rio é eterno na sua impermanência e o rio do menino, a infância, morre. Isso mesmo nos é apresentado na enorme discursividade de “Rio Morto”, uma discursividade quase pragmática que também nos fala de uma outra morte trazida ao rio pelo ser humano, a poluição, em “Ares sombrios e pegajosos”.

Os poemas que se seguem são ainda uma tentativa de revisitação de um mundo perdido, de formas convencionais e fechadas como o soneto, mas acaba-se por reconhecer que é preciso aprender o rio outra vez – diante do rio, o menino de Itabuna, que já não é menino, volta então a encontrar esse lugar que é a sua infância e a sua memória, e também a sua poesia do passado.

“Águas” e “Poema Branco” são pois como que uma espécie de recomeço criativo, um recuperar de uma brancura primeva onde tudo pode ainda ser escrito, aceitando que nesse branco se fundem a vida e a morte, o bem e o mal, toda a diversidade e multiplicidade que nada pode excluir. Aí o pescador/poeta que é Cyro de Mattos vai apanhar os seus peixes/fragmentos para os poemas que não esgotam a deságua, “tãosertãopedratãoágua”, e que nos devolvem, de forma sábia, ao seu lugar doce de rios e cachoeiras, puro, simples e mágico como só a Bahia pode ser. Aí se localiza a identidade poética deste autor e aí o universalismo da vivência humana se manifesta.

Olho para o meu pulso esquerdo onde permanece a fitinha do Bonfim, já branca e já só um fio que se recusa a cair. Foi há tantos anos que já nem me recordo dos desejos que pedi!… Pergunto-me se o material acrílico que veio substituir o algodão das fitinhas é o responsável, se é a minha roda que demora a virar, ou se foi feitiço da baiana para me obrigar a voltar à Bahia onde feitiço e fitinha enfim se quebrarão(?!)…

Uma coisa me deixa, contudo, suspensa da magia, como dela parece estar suspenso o poeta Cyro de Mattos: a água.

Iemanjá, que recebe todos os rios, deve ter andado por aqui nestas últimas horas…

Graça Capinha



_____________
(1)GRAÇA CAPINHA é doutora pela Universidade de Coimbra. Ensina escritapoética e poesia de expressão inglesa no Grupo de Estudos Anglo-Americanos da Faculdade de Letras. Dirige a“Oficina de Poesia” e a revista do mesmo nomeda sua universidade.
(2) Minha tradução.


Rio de Poemas

de: Elieser César

RIO DE POEMAS

Elieser César*


O poeta português Fernando Pessoa universalizou a posse sentimental do rio da aldeia dele, preferindo-o ao grande Tejo. Não importava se o Tejo fosse mais belo do que o rio da aldeia, aquele que não faz pensar em nada, porque quem está ao pé dele, está só ao pé dele. O pequeno e desconhecido rio do poeta era mais belo e soberano. E pronto! Bastavam aquelas pequenas águas para a navegação poética de longo curso de Pessoa. A presença do rio — imemorial ou não, pequeno ou longo, famoso ou desconhecido — como elemento de criação poética singra também, desta vez na Bahia, na composição poética de outro escritor: Cyro de Mattos, também ensaísta, contista, advogado e jornalista.
Autor premiado de livros de poesia e contos, Cyro de Mattos perenizou o rio da infância dele no estuário de vinte poemas dedicados ao Rio Cachoeira, que corta Itabuna, o condado literário de Jorge Amado, Hélio Pólvora, Telmo Padilha, Florisvaldo Mattos, Valdelice Pinheiro e outros escritores do Sul da Bahia. O poeta e contista acaba de publicar pela Palimage editores, de Viseu,o livro Vinte Poemas do Rio, em edição bilingüe — português e inglês, com tradução do poeta português Manuel Portela, Doutor em Cultura Inglesa pela Universidade de Coimbra.
Nos vinte poemas, Cyro de Mattos salta de uma epifania fluvial, a celebração telúrica e emocionada do rio (Não me tragam o Amazonas/ com o seu mundo de água/ ou o Nilo e suas dádivas..., em Rio Definitivo) ao desencanto com o abandono daquele que já foi o mais importante manancial das terras do cacau, hoje deteriorado pelo abandono, pelo assoreamento em seu leito e pela poluição (Tua morte lentamente com sede/ inventada nas bocas de vômito.../ Cachoeira o teu nome/ do rio que chora água..., versos de Rio Morto).
Embora possam ser lidos isoladamente, todos os poemas formam uma unidade, como um rio com vinte afluentes, mas desaguando no mesmo lugar, para compor um rico painel, que nada mais é do que o itinerário, histórico e sentimental, do Rio Cachoeira. A professora de crítica poética e poesia de expressão inglesa da Universidade de Coimbra, Graça Capinha, encontra, em Vinte poemas do rio, “aspectos quase classicistas, a começar pela simetria, circular e concêntrica, da própria construção”. Graça chega a enxergar muitos rios no Cachoeira de Cyro de Mattos.
A começar “pelo rio da infância que o autor ali recupera: um rio à medida humana, ainda profundamente crente na humana possibilidade”. Depois, “o rio do trabalho humano, onde os momentos de origem das manhãs da natureza se fundem religiosamente com o humano das lavadeiras, dos areeiros, da argamassa e da linguagem”. Por último, “o rio sempre por conhecer e dominar, o rio da impossibilidade humana sem domínio sobre o movimento das águas que correm permanentes para longe de nós”.Como aquele do antológico samba, o Rio Cachoeira pode ter passado em muitas vidas, mas ficou, como caudaloso mistério, na memória do poeta, aquele menino/ que engoliu tua piaba/ para ter o fôlego forte.(...)/Aquele menino/ magro, esperto, traquino/ em tua paisagem luminosa (em Rio Morto). De posse do cabedal, de água e poesia do rio de sua infância, hoje, o homem maduro, pode bradar: “Lá vou eu emotivo/ no meu rio oculto”. Naveguemos, pois, no rio dos vinte poemas de Cyro de Mattos.


* Elieser César é Mestre em Literatura pela Universidade Federal da Bahia. Jornalista, poeta, contista e ensaísta. Autor, dentre outros, de “O Azar do Goleiro”, juvenil, com várias edições, e “O romance dos excluídos: terra e política em Euclides Neto”.

Vinte Poemas do Rio

de: Carlos Machadosaber mais

Leia esta crítica em Poesia.net, Carlos Machado. O boletim dedicado a Cyro de Mattos é o número 155, de quarta-feira,dia 15 de Março de 2006.

Acesso à

O Rio na Memória

de: Ruy Povoas

O Rio na Memória

Ruy Povoas


Em franca produção literária, o escritor Cyro de Mattos tece em “Vinte Poemas doRio”uma louvação ao rio Cachoeira. Faz-se necessário, no entanto, entender que o rio delineado pelo poeta aparece-nos sob metáfora de imagens translúcidas num brado de alerta.
A escolha da temática é consciente.“Não me tragam o Amazonas/ com o seu mundo de água/ ou o Nilo e suas dádivas” ( p. 27). E, a partir dessa opção, todo um mundo vocabular é cuidadosamenteengendrado na configuração do rio: água, areal, areia, barranco, cachoeira, enchente, espuma, ilha, leito, margem, pedra, perau, remanso, rocha. Ao lado desse vocabulário específico, há tambémde se levantar o léxico da fauna (ave, borboleta, jumento, peixe piaba), da flora (água-pé, bonina, margarida) e do universoantropomórfico (aguadeiro, areeiro, lavadeira, pescador). É justamente desse pequeno mundo vocabular, demonstração de profunda intimidade do poeta com o rio, que se tece toda a linguagem metafórica, numa morfo-sintaxe econômica. “Naquele rio pequeno/ toda a metáfora do mundo” (p. 49).
Há uma preferêncianítida pelas formas verbais no pretérito demonstrando uma atitude memorialista. O rio é sempre tomado a partir do que ele foi, em contraste com aquilo que ele hoje é. Antes, fonte do progresso, fomentador de uma civilização, mantenedor das criaturas, gerador de sonhos, forjador de gerações, alegria e vida. Presentemente, poluição, sofrimento, morte. “Cachoeira o teu nome/ do rio que chora água” (p. 41). Nessa dicotomia, uma denúncia se faz de modo assustador: o rio morto retrata o homem morto, a fragilidadede um falso progresso, a desumanização, a afronta à natureza.
O tom memorialista foge completamente ao saudosismo. O passado é revisto para que o homem aprenda uma lição.Mesmo morto, o rio ainda é base de sustentação de uma esperança de aprendizagem: “ainda que me ocultes em tua fábula/ há em tua flor de água-pé/ a proposta livre da vida” (p. 47). O poeta não sofre pelo passado que se foi. Antes, denuncia a herança desse mesmo passado, anulada com a morte do rio. Ainda assim, resta uma esperança: “no mar de meu sono triste/ sonho que me acordem essas águas” (p. 51). Aqui, então, a constatação da proposta maior: que o próprio homem, vilipendiador daNatureza, alienadoda intenção de tecer seu próprio destino feliz, seja despertado pelas conseqüências de seus impensados atos. Na morte do rio, a esperança de o homem acordar para a vida e traçar planos para a sua redenção.
A fauna humana se tece a partir de tipos rústicos, na azáfama cotidiana, que ajudaram a forjar uma civilização: a lavadeira, o aguadeiro, o areeiro, o pescador. E “tomando ao rio/ a velha bênção” (p. 35), no suceder das gerações, o rio é assassinado pelo homem em sua ilusão de um progresso duvidoso. O poema “Diante do Rio” é o que melhor sintetiza o jogo antitético no confronto passado X presente: “Mancha ao invés de espuma/ perau ao invés de remanso/ queda ao invés de mergulho/ dúvidaao invés de certeza/ lua muda ao invés de ave branca” (p. 47). Mancha, perau, queda, dúvida, lua muda (síntese do presente) opõem-se a espuma, remanso, mergulho, certeza (a herança do passado destruído).
Sábio construtor de sintagmas simples e comuns, Cyro de Mattos elabora o texto numa linguagem harmônica cuja semântica esbanja concisão, coerênciae clareza. Na tessitura de seus ritmos, os sons imaginários a partir do borbulhar das águas. a sintaxe é suave e harmônica e o texto, rápidoe compacto como se fosse um rio.
Por fim, o rio é ainda a síntese do próprio homem em qualquer tempo, em qualquer espaço: inquieto e cheio de dúvidas: “Lá vou eu emotivo/ no meu rio oculto./ de onde venho e para onde vou?” (p. 59). No conflito gerado pelas indagações, o poeta nos obriga a seguir um rio interior: “Por que não me falam/ se na deságua imposta/ me concluo ou sigo?” (p. 59).

* “Vinte Poemas do Rio”, Cyro de Mattos, edição bilíngüe, tradução de Manuel Portela para o inglês, Palimage Editores, Coleção A Imagem e a Palavra, Viseu, Portugal, 2006.** Ruy Póvoas é contista, poeta e Mestre em Línguas Vernáculas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Crítica a "Vinte poemas do rio"

de: Luís Serrano, in "O 1º de Janeiro" de 09-10-2006, suplemento "Artes e Letras"

Vinte Poemas do Rio


Esta obra de Cyro de Mattos, poeta brasileiro da Baía, foi publicada pela primeira vez em 1985.Surge em 2005, aquando da passagem do escritor por Coimbra, uma nova edição, esta da Palimage.
A primeira lembrança que me ocorre ao ler a obra diz respeito aos poemas O Cão Sem Plumas (1950) e O Rio (1954) de João Cabral de Melo Neto mas como diz e muito bem Fernando Py, para se afastar do enfoque do grande vate. De facto, pelo recurso à infância e através de um rio bem mais humilde, o rio Cachoeira, Cyro de Mattos desvia-se do grande Capibaribe, rio de lodo e ferrugem (Cão sem Plumas I) ou ainda [rio que] Entre a paisagem / (fluia) / de homens plantados na lama; / de casas de lama / plantadas em ilhas / coaguladas na lama; / paisagem de anfíbios / de lama em lama. (Cão sem Plumas II). Ora, o rio de que nos fala Cyro de Mattos nada tem a ver com este Capibaribe de Melo Neto.
Há antes nesta obra uma espécie de recuperação do tempo perdido para citar ainda Fernando Py.
O rio e a infância do poeta correm lado a lado. O rio é simultaneamente definitivo (primeiro poema, p. 27) e enigma (último poema, p. 59).
Toda a obra constitui uma clara assunção da simplicidade e uma recusa da grandeza que de algum modo esmaga a infância. Logo no primeiro poema (p. 27) se diz: Não me tragam o Amazonas / com o seu mundo de água / ou o Nilo e suas dádivas / mas um rio com seus remansos […]. Esse primeiro poema funciona como um programa para a obra pois já aí se fazem referências a lavadeiras, areeiros, meninos, temas que serão desenvolvidos noutros poemas.
Este é um rio de águas claras, frescas, saltitantes ou como diz o poeta Água pura / Melhor só no céu (p.31).
Tudo é essencial nesta obra: a canoa, o peixe, o porco, o cão, a galinha, a semente, o cacau. É uma poesia ascética que, mau grado as diferenças relativas à poética de Melo Neto, vai no mesmo sentido, isto é,
Sem perfumar sua flor,
sem poetizar seu poema.
A defesa da sobriedade (o efémero à margem / ante o eterno que passa, p. 39) é assumida do primeiro ao último poema.
Anotem-se de passagem alguns neologismos: diversicoloridas (p. 41), rioflor (p.45), neologismos que vão ainda no sentido da contenção com um aumento evidente da carga significativa. E também o recurso à anáfora para sublinhar a importância de um verso: Lá vem o meu rio menino (p. 29) e Naquele rio pequeno (p. 49), repetidos quatro e seis vezes, respectivamente.
Este microcosmos (Naquele rio pequeno / toda a metáfora do mundo, p. 49) é dado poeticamente por um número relativamente reduzido de vocábulos (20) mas que se repetem com uma frequência significativa (três ou mais vezes):
Pela simples observação do quadro se verifica que os vocábulos mais frequentes são água(s), rio, menino(s), lua, mundo e pedras.
A água é um elemento fundamental, tem uma conotação matricial, uterina, é um meio onde a vida nasce e se desenvolve. O rio remete para a passagem do tempo (Heraclito: ninguém se banha duas vezes no mesmo rio e daí a impossibilidade de o poeta voltar à meninice, ao rio que foi o da sua infância; esse morreu, só a poesia o pode ressuscitar pela mão do poeta). Os meninos são a expressão inequívoca da infância. A lua projecta-nos para o sonho, para aquela “realidade” onírica que constitui os fundamentos da utopia, sem a qual a arte perde sentido.
Mundo que aparece, sobretudo no poema da p. 49, tem o significado abrangente de continente onde todo o conteúdo se inscreve. As pedras aparecem sempre ligadas ao rio e às lavadeiras: é sobre elas que se lava a roupa e são tão importantes que o poema acaba com o verso tão ser tão pedra tão água, síntese perfeita do rio.
A obra vem enriquecida com a tradução para inglês levada a cabo por Manuel Portela. Não tenho competência para me pronunciar sobre a qualidade da tradução mas Manuel Portela é um poeta, não apenas com formação académica mas também com uma experiência de tradutor com créditos firmados. A terminar, não posso deixar de fazer uma referência elogiosa ao interessante e lúcido prefácio de Graça Capinha.


Luís Serrano


Poeta Cyro de Mattos Participouda Feira do Livro em Frankfurt

de:

Poeta Cyro de Mattos Participou da Feira do Livro em Frankfurt

O poeta baiano (de Itabuna) Cyro de Mattos participou da Feira Internacional do Livro em Frankfurt, Alemanha, no dia 9 de outubro, quando então,a partir das 3 horas, autografou exemplares desuaantologia poéticaZwanzig Gedichte von Rio und andere Gedichte (Vinte Poemas do Rio e Outros Poemas), no stand 151 Bde sua editora – Projekte-Verlag (www.projekte-verlag.de). Durante a Feira do Livro, a editora montou uma exposição com exemplares e um banner da capa do livro.

Compareceram ao lançamento do livro de Cyro de Mattos, entre outros, o ConsulCezar Amaral, a agente Literária Nicole Witt, a empresária Antonia Dimitruk, odoutorClaudius Arnbruster, professor da Universidade de Colônia, o doutor Darc Antonio da Luz Costa, presidente da Federação das Câmaras de Comércio e Indústria da América do Sul,Carlos Frederico Graf, presidente do Centro Cultural Brasileiro, o editor da Projekte-Verlag, Wilko Mueller,escritoresLevi Bucalem Ferrari, Flávio Moreira Costa, comunicadores, estudantes e curiosos.

Atradução dessa antologia poética de Cyro de Mattosé de Curt Meyer-Clason, que é considerado o tradutor mais conceituado de autores hispano-americanos e de língua portuguesa para o alemão.Ele já traduziu, entre outros, Cervantes, Ortega y Gasset, Eça de Queiroz, Fernando Namora, Julio Cortázar, Gabriel Garcia Marques, Nabokov, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Jorge Amado e Adonias Filho.

Destinada a profissionais,a maior Feira do Livro do Mundo reuniumais de 7300 expositores de cerca de 100 países, em ambiente agitado e festivo, com muita informação sobre as tendências do mercado, novos conteúdos, autores de impacto,debates, negócios, leituras. Em 2010, no mesmo ano em que comemora o bicentenário da declaração de independência, a Argentina foi o país-tema da Feira de Frankfurt. Este ano aconteceu de 4 a 10 de outubro.

A Bahia situada no sul do Estado, onde o autor nasceu e reside, serviude motivação aos poemas reunidos nesta antologiade Cyro de Mattos publicada na Alemanha. Na primeira parte intitulada “Zwanzing Gedichte von Rio” (Vinte Poemas do Rio), o poeta revisita e transfigura o rio Cachoeira, que divide a sua cidade natal em duas partes, quando à época havia nele areeiros, pescadores, lavadeiras e aguadeiros. Faz falar sua infância com essa gente ribeirinha, empregandopara isso uma dicção líquida em uma espécie de recuperação do tempo perdido, não à maneira de Proust, mas, como ressaltou o crítico e poeta Fernando Py, “conciso na expressão e claro nas imagens que respondem pela eficácia poética do conjunto.” Os outros poemas dessa antologia foram retirados dos livros Cancioneiro do Cacau, Canto a Nossa Senhora das Matas,Ecológico, O Menino Camelô e O Circo do cacareco.

Contista, poeta, cronista, ensaísta e autor de livros infanto-juvenis, Cyro de Mattos já publicou 40 livros, conquistou muitos prêmios literários e, entre eles, o Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras, Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Artes, Prêmio Ribeiro Couto da União Brasileira de Escritores (Rio) e o Internacional Maestrale Marengo d’Oro, em Gênova, Itália, segundo lugar, duas vezes.Finalista três vezes do Jabuti.


Vinte Poemas do Rio em bibliografia aconselhada na Universidade Brasileira

de: saber mais

Vinte Poemas do Rio, de Cyro de Mattos, foi indicado para o vestibular da Universidade Estadual de Santa Cruz, no sul da Bahia,durante o périodo de três anos.
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A poesia de Cyro de Mattos é uma presença, cada vez mais viva, junto de leitores e estudiosos. Um reconhecimento merecido pela beleza da sua escrita...