Violência e Justiça em Terras do Montemuro. 1708-1820.
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8,04€

de Anabela Ramos

ColeçãoColeção Raiz do Tempo
GéneroHistória
Ano1998
ISBN978-9-72-972922-5
IdiomaPortuguês
Formatobrochura | 202 páginas | 15 x 21 cm

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Esta obra traz-nos dados concretos para a percepção do funcionamento da justiça no mundo rural do Antigo Regime, assumindo-se como importante contributo para pensar um problema estrutural das sociedades de todos os tempos: a violência.

Anabela Ramos

Anabela Ramos começou a despontar para a vida na Primavera de 1965. Nasceu no mês de Fevereiro seguinte, numa noite chuvosa, mas anunciadora já de uma outra Primavera. Menina irrequieta e curiosa, cresceu entre campos floridos e manhãs nevadas, numa aldeia da freguesia de Mangualde. Por aqui andou até aos dezoito anos presenciando e participando em toda uma vivência rural que, paulatinamente, viu definhar. Em Coimbra estudou História aspirando, também, saber um pouco mais sobre Património Cultural. Aventurou-se, mais tarde, no Mestrado em História Moderna onde, num regresso às origens, reencontrou o mundo perdido da sua aldeia.

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Violência e Justiça em Terras do Montemuro. 1708-1820.

de Anabela Ramos

A ocasião faz o ladrão - Apreciação Crítica em Jornal de Letras, Artes e Ideias

de: Rodrigues da Silva

A ocasião faz o ladrão


A ocasião faz o ladrão – reza o ditado antigo, de anónima origem, quem sabe se beirã. É que...É que, ao ler-se a tese de mestrado de Anabela Ramos à Universidade de Coimbra, Violência e justiça em terras do Montemuro 1708-1820, agora editada em livro, fica-se com a sensação que sim, que o provérbio é de lá, dessa Beira serrana e interior. Ou que se não é, bem poderia ser. Porquê? Porque a violência que o livro reporta não resulta de uma natureza, é fruto de uma circunstância. Ou estrutural, como em linguagem mais erudita, confirma a autora. Estamos, ainda no Antigo Regime, e Montemuro, no actual concelho de Castro Daire, é um espaço isolado e remoto, longínquo em relação a qualquer cidade que se preze e povoado por rurais iletrados que, a mor das vezes, nunca viram outras terras, outras gentes. Então...
Então que crimes revela a História, através de uma documentação judicial até agora inédita, trazida à luz por Anabela Ramos? Revela que as ofensas corporais, é certo, predominam, resultantes quase todas, porém, de querelas que têm a ver com a posse da terra, da água, do gado, do estrume, ou... Ou com o desrespeito pela honra da família ou por uma secular mentalidade ( micro e macrocosmos deste cosmos).
Ensimesmada ( também em termos económicos), a população, na defensiva, ao menor toque a rebate, reage. Não apresenta queixa, faz justiça por suas mãos. Ali, no momento, movida pela emoção. Daí, para começar, a injúria; daí, se for caso disso, a agressão.
As mulheres tratam-se de puta, bêbeda, os homens de cornudo, de ladrão ( mais raro de porco judeu – sinal de um anti-semitismo algo atávico); se o caldo se entorna joga-se o pau, se o pau não está a jeito, há-de estar a enxada, a sachola, o mangual – assim se racham cabeças, se desmancham braços, se mata ás vezes por dá cá aquela palha.
No fundo é como se a bulha fizesse parte do cenário e a violência resultasse dessa outra violência, a do próprio labor quotidiano. A população sobrevive do que consegue tirar da terra, mourejando de sol a sol, ao ritmo da natureza. A água significa vida, gado e estrume são sinónimos de pão, mede-se a fortuna desta pobreza pela mais valia da casa, das alfaias, do tamanho da eira. Tudo escasso sempre – estamos em pleno minifúndio. A menor infelicidade pode significar, assim, a fome. E se a fome espreita, rapina-se o que calha. A vítima do ratoneiro dá por isso ( e o isso pode ser – aos nossos olhos citadinos de hoje – uma insignificância: huas poucas de tábuas, milho, castanhas, mantas, emxadas , miadas e outras mais couzas) e a violência acontece.
Como acontece, amiúde, a reconciliação, quer por iniciativa própria quer por instância judicial. Porque – outra revelação desta óptima pesquisa – a justiça ( de fora ou local) actua, sim, mas múltiplas vezes para forçar a concórdia. Concórdia a que, nos casos mais raros de estupro ou violação que levem a vítima a engravidar, se pode chegar pelo casamento, o dar o nome á criança, uma soma em dinheiro.
Há que viver com o vizinho a verdade é esta, porque de Montemuro ( e de outros Montemuros mais por este país setecentista fora) não se pode fugir. Nem deve, porque fora da terra a pessoa sente-se no degredo. E o degredo ( até como pena ditada pela justiça) não é só nas Áfricas e nas Índias, pode ser também no concelho ao lado. De outros hábitos, outros costumes outras raízes. Então, se a violência impera, impera também o bom senso. A ocasião faz o ladrão, mas Montemuro de antanho não ignora que do comer ao ralhar tudo vai do começar, pelo que águas passadas não movem moinhos... E no Montemuro de hoje como será? Bela tese em perspectiva. Não de História , de sociologia. Quem se atreve?

Rodrigues da Silva.

In " Jornal de Letras, Artes e Ideias" (6 Maio 1998), p. 38