PRÊMIO POESIA E LIBERDADE ALCEU AMOROSO LIMA DE 2018

Publicado em 2019-01-15

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DISCURSO DO POETA ÁLVARO ALVES DE FARIA

NA ENTREGA DO “PRÊMIO POESIA E LIBERDADE ALCEU AMOROSO LIMA”, DE 2018, PELO CONJUNTO DE SUA OBRA.

 

 

 

PRÊMIO POESIA E LIBERDADE ALCEU AMOROSO LIMA DE 2018

               O “Prêmio Poesia e Liberdade Alceu Amoroso Lima” de 2018, foi conferido ao poeta Álvaro Alves de Faria pelo conjunto de sua obra poética e por sua verdadeira militância em favor da poesia a vida inteira.

A láurea, das mais importantes do Brasil, é oferecida pelo Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade – CAALL, unidade da Universidade Cândido Mendes.

                A entrega do Prêmio foi no dia 5 de dezembro de 2018, na Sala Marques do Paraná, na Universidade Cândido Mendes.

     Adoentado, Álvaro Alves de Faria não pôde comparecer à cerimônia. Foi representado pela poeta Denise Emmer, das mais significativas do país, que recebeu o prêmio e leu o discurso do poeta.

               Antes de Álvaro Alves de Faria receberam o “Prêmio Poesia e Liberdade Alceu Amoroso Lima”, os seguintes poetas, pela ordem: João Cabral de Melo Neto, Ferreira Gullar, Adélia Prado, Marco Lucchesi, Antonio Cícero, Armando Freitas Filho e Leonardo Fróes.

 

 

DISCURSO DO POETA ÁLVARO ALVES DE FARIA

NA ENTREGA DO “PRÊMIO POESIA E LIBERDADE ALCEU AMOROSO LIMA”, DE 2018, PELO CONJUNTO DE SUA OBRA.

Denise 02

O DISCURSO DE ÁLVARO

LIDO PELA POETA DENISE EMMER

O primeiro poema aos 11 anos. O primeiro livro escrito na adolescência. Nesse tempo eu não sabia o que me esperava no futuro.

 

Com pouco mais de 20 anos, O Sermão do Viaduto, recitais públicos que realizei em pleno Viaduto do Chá, então o cartão-postal da cidade de São Paulo. Foram 9 recitais e 5 detenções, acusado de subversivo.

O Sermão do Viaduto, o livro e os recitais, foram proibidos.

 

De repente eu entrei na vida clandestina contra o regime militar. Custou-me caro demais e pago por isso até hoje, no que diz respeito à minha saúde.

 

Um dia, em 1969, pegaram-me, no meu emprego, no Diário de S. Paulo, dos Diários e Emissoras Associados de Assis Chateaubriand, onde eu fazia um suplemento cultural aos domingos, com um censor decidindo o que poderia ser publicado ou não.

 

Encontraram-me por meio de uma exposição de desenhos e pinturas que eu realizei no Instituto Graal, dos freis Dominicanos em São Paulo. Descobriram, então, que minha militância incluía também desenhar os cartazes do então clandestino Partido Socialista Brasileiro.

 

Onze meses de prisão com muita tortura e imensa humilhação. Saí de lá, abandonado na Praça de Sé, com 49 quilos.

 

A seguir, já depois de meses de recuperação, mas vigiado, a proibição de meu livro “4 Cantos de Pavor e Alguns Poemas Desesperados”.

 

Nos anos 70, cortes profundos na minha peça “Vida, Paixão e Morte do Senhor Augusto dos Anjos, poeta e Cidadão Brasileiro”.

Utilizei na peça trechos de alguns discursos de Ruy Barbosa, todos censurados.

 

Também nos anos 70, um tiro na cabeça. Doze dias em coma. Mas sobrevivi. A bala 38 está guardada na minha cabeça até hoje, como uma herança documental de um período que nunca se apagou em mim.

 

Depois, já no final dos anos 70, a proibição de minha peça “Salve-se quem puder que o jardim está pegando fogo”, que recebera o Prêmio Anchieta para Teatro, da Secretaria de Cultura de São Paulo, então um dos mais significativos do país. A peça ficou censurada vários anos e só foi encenada na chamada “abertura política”. A peça acontecia dentro de uma cela e ordenaram-me que colocasse os personagens num consultório médico.

 

Uma vida clandestina, de profundo sofrimento, em que perdi a juventude e quase perdi a vida para nada, para viver a amargura que reina no Brasil de hoje.

 

Por que digo tudo isto?

Porque tudo isto tem a ver com a vida de Alceu Amoroso Lima.

 

Hoje eu vejo que, com poeta, também tenho uma vida clandestina. Mostro-me escondido de mim mesmo, o que resume a poesia.

 

O Prêmio Alceu Amoroso Lima Poesia e Liberdade terá na minha vida uma marca para sempre, pelo que ele representou, pelo que escreveu, a sua crença e sua fé. Sempre li Alceu Amoroso Lima, especialmente no que escrevia para os jornais. Nunca pensei encontrá-lo aqui com seu nome num prêmio que recebo pela generosidade de pessoas que ainda existem no mundo.

 

Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Ataíde, pensador, crítico literário. Homem de visão política tendo ao fundo o Brasil. Membro da Academia Brasileira de Letras, estudioso do Movimento Modernista de 22.

 

Sua palavra fez dele um símbolo na luta contra os que transgrediam as leis e os que utilizavam a censura para calar as bocas que queriam falar, esse silêncio imposto ao povo após o golpe de 64. Sempre denunciou a repressão com uma palavra certeira.

 

Recebo este prêmio com seu nome – Poesia e liberdade – o que me enobrece, o que me faz olhar e muitas vezes chorar por um povo

que sempre diz sim, que não sabe dizer não.

 

Observando a triste paisagem brasileira de hoje, as palavras de Alceu Amoroso Lima estão mais vivas que nunca, vivas como um incêndio, como algo que nunca desaparecerá da cabeça dos que ainda conseguem pensar.

 

Estou profundamente agradecido e comovido também. E quero repartir este sentimento com todos os que me cercam, em nome da solidariedade, da generosidade, do encantamento. Em nome de amigos que perdi para sempre numa luta desesperada. Em nome de uma luta que foi traída. Em nome da poesia ainda possível de sentir na alma do homem, da mulher, da criança, dos bichos e das plantas. Em nome da vida.

 

                                                                  Obrigado a todos.

 


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