O Perfume do Adeus

15,00€

de Maria Elisa Pinheiro

ColeçãoColeção Imagens de Hoje
GéneroCrónica
Ano2018
ISBN978-989-703-197-7
IdiomaPortuguês
Formatobrochura | 228 páginas | 148 x 210 cm

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Este é um livro sem tempo. É de todos os tempos.
Um livro sem lugar. De todos os lugares por onde fui passando.
Um livro de memórias e de factos recentes, que se entrelaçaram.
É um Livro de Vida. Como ela agitado e diversificado.
O meu último livro, a quem fico devendo horas maravilhosas de
entrega, paz, saudade, alegria e equilíbrio, tão necessário aos dias
que ainda estou vivendo...
Possa ele ser mensagem, útil e positiva, para aqueles a quem chegar.

Maria Elisa Pinheiro

Maria Elisa Pinheiro nasceu no Porto.
Fez o Ensino Secundário no Porto e em Lisboa.
Cursou o Magistério Primário em Viseu. Como professora do Ensino Básico leccionou no distrito de Leiria e em Moçambique – Gaza e Maputo.
A partir de 1974 exerceu na Escola de São Miguel – Viseu, tendo colaborado como Orientadora de Estágio com a extinta Escola do Magistério, onde se formou, e com a Escola Superior de Educação, Unidade Orgânica do Instituto Superior Politécnico de Viseu.
Nos anos mais recentes tem-se dedicado com prazer exclusivo à escrita.
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Rigorosamente Proibidosindisponível

Rigorosamente Proibidos

de Maria Elisa Pinheiro

  • Escritos de Meninos de Viseu (Escola de S. Miguel, 1979/1992).
    Edição do Instituto Superior Politécnico de Viseu, 1999.

"O Perfume do Adeus" de Maria Elisa Pinheiro, Coimbra, Palimage, 2018— apresentação crítica por Pompeu Martins

de: Pompeu Martins

 

O Perfume do Adeus de Maria Elisa Pinheiro, Coimbra, Palimage, 2018

apresentação crítica por Pompeu Martins

Este perfume do adeus é uma viagem ao que nos é essencial e urgente. Uma viagem pela mão sábia e pela escrita comprometida, mas suave, humorada e sentida de Maria Elisa Pinheiro.  Cada um dos seus livros tem valido por serem uma conversa interminável, onde somos convidados a chegar onde nunca estivemos, ainda que esses lugares e esse tempo sejam muitas vezes também os nossos e o nosso tempo.

Repete-se, então, a vida na leitura que fazemos desta autora? Claramente que não. Os lugares que são os nossos são vivenciados pela autora de uma forma e num tempo que questiona a nossa forma e o nosso tempo. Há juízos de valor nisto? Talvez não. Há desafios, há confrontos, há perguntas. Ou seja: há tudo o que nos falta com frequência.

Este perfume é um aroma do quotidiano, o aroma das coisas normais, mas também o aroma das coisas eternas. Iniciemos a viagem pelas coisas quotidianas, onde aprendemos as regras da condição humana numa simples descrição de uma viagem de autocarro onde se destrata quem dele necessita e não tem outra alternativa. É uma história verídica? Claro que é! É simples? Só na aparência. Porquê? Porque levanta outras perguntas sobre a ambiência e a condição humana. Os oprimidos e os que oprimem, o interior adiado de soluções, a apatia e a resignação e a tão ilusória sensação de poder.

São estes reis-chiritos que comandam as coisas, nestes mundos pequenos. Os súbditos acatam, porque não têm defesa nem forma de implantar o que devia ser. Não estamos organizados para ter quem aprecie as condições que damos aos nossos viajantes de lugares mais remotos. Nunca encontrei ninguém que olhasse para além das multas por excesso. Excesso de velocidade. Por certo o haverá. Mas eu não encontrei.

 

No perfume das coisas quotidianas, as lições que nos ficam sobre as prioridades, sobre a sobriedade que cada instante e cada imprevisto obrigam. Guardar as frases que nos deixaram aqueles que nunca deixámos de amar, as frases que acabam por nos ser, por nos definir enquanto pessoas connosco e pessoas com os demais.

No meio das pequenas tragédias domésticas, é preciso saber vencer. Vencer significa que nenhuma delas possa quebrar o que mais importa: os que estão e nos circundam não só no espaço mas também no coração.

– Primeiro… dar de comer aos cavalos!

Premi a lanterninha do novo telemóvel e liguei os fusíveis. E aí fez-se luz. Seguiu-se o aquecimento. Pôde ligar-se o gás. E houve retempero: deliciosas chávenas de autêntico Earl Grey (com bergamota e tudo) chegadinho de Londres, com as restantes fatias do célebre bolo-rei da menina Elisinha.

Refizeram-se os ânimos e regressou a calma. Conforto do estômago – meio caminho andado. Água para tomar banho, só no dia seguinte. Mas a noite foi boa, que os velhos cobertores e os novos edredons cumprem bem as tarefas. Também as escalfetas e os sacos de água quente ainda funcionam.

Os cavalos, refeitos, voltaram a ser gente. E as férias compuseram-se, não obstante os percalços com que se iniciaram.

Guardemos a velha regra, que continua de oiro. Sempre útil, muito útil, em casos semelhantes.

 

No meio da vida, no meio do mundo, volta-se aos círculos, volta-se ao toque, à voz que vem de longe e se reconhece. Maria Elisa, professora, na expressão mais alta da palavra. Professora por dar, dar tudo, por desconhecer limites, por ter no horizonte de quem vê o infinito que lhe coube por condição, mas também por militância. Maria Elisa professora de todos os tempos e para todos os tempos. Não é uma opinião, é um facto. Poderia trazer para esta tarde as milhares de linhas que me escreveu e os milhares de ensinamentos com que, há mais de 15 anos, me brinda.  Maria Elisa professora até ao seu limite e ao ilimitado que já é seu pelo tanto que nos dá, desde sempre.

Voltando a Irene Maria e às suas diligências, conto que um belo dia, à entrada para o almoço, me abordou suavemente, como que um pouco a medo:

– O nome Semilisa, diz-lhe alguma coisa?

E foi um sobressalto. Surpresa. Comoção, ainda que subtil.

Mais de cinquenta anos me separavam dele. E não o esperava.

Não. Não mais esperava ouvi-lo. Tentei imaginar o que acontecera

e me iam revelando. E fui ouvindo aos poucos o que parecia incrível: sabiam quem eu era. E ainda me lembravam. Ser Semilisa foi… tudo isto e ainda… este 2014. Quando Irene Maria, toda ela gentileza, despoleta sem querer o episódio actual que fez voltar à Vida tudo o que aqui se narra e se tornou de novo agradável presença.

Uma das particularidades das obras de Maria Elisa Pinheiro é a forma como abraça o tempo. O tempo é um corpo e uma ideia, é uma realidade e uma irrealidade e, por isso, sabe tão bem ver que dele se apropria, dando-lhe dimensões únicas, apropriações específicas que nos convidam a recuperar esse mesmo tempo e ser dele a parte imaginada por o não termos vivido, mas também trazer esse tempo de memória passada para a nossa memória presente e futura. Para quem não acredita que os milagres acontecem, aqui têm este.

Apropriar a vida e fazer dela um justo tributo a tudo que nos circunda e que não fizemos muito para que acontecesse é um acto de justiça. Maria Elisa sabe fazê-lo como muitíssimo poucos. Conto-vos que foi ela que me ensinou a acentuar as letras no ipad, que sabe sempre que há novidades no Skype ou no Whats up. Agradece os avanços da tecnologia e chama-os para o seu projeto de vida, para a sua missão de ser feliz e fazer felizes os que a rodeiam. Também disto nos fala o seu livro:

Foi um árduo trabalho. Porque ninguém me disse como funcionava esta excelente máquina que escreve lindamente nos mil tipos de letra. E varia tamanhos. Funções. Feitios. Cores.

Também faz os avanços e os recuos precisos. Emendas. Correcções. Transposições. E outras. Como os sublinhados. Negritos e itálicos. E as translinhações – o maior dos problemas!

Da relação com os computadores, surge também a narrativa de como começou a aventura da publicação. Dos «escritos dos meninos de Viseu» e de «Rigorosamente proíbidos», duas obras muito centradas no plano pedagógico, a autora conta neste novo livro as venturas e desventuras desse início de rota. Porém, nesta matéria da publicação, permitam-me o momento para um especial agradecimento ao Jorge Fragoso, a quem devo, em primeira instância, uma das maiores venturas da minha vida: o ter conhecido Maria Elisa Pinheiro.  Quando um dia eu estiver a findar esta passagem e se tiver a grata possibilidade de olhar por breves instantes para trás, Jorge Fragoso e Maria Elisa Pinheiro estarão certamente aí a ajudar-me a dizer ou a pensar que a vida valeu a pena. O Jorge tem com a autora uma dedicação de muitos anos. É o editor que já quase não há. É um homem que tem nos livros mais, muito mais, do que a história que os livros revelam. Ele vive com o ser total que é o escritor, antes, durante e depois da escrita. Eu devo-lhe esta revelação até ao fim dos meus dias.

Quando Maria Elisa me escreve e dele me fala, trata-o por São Jorge e quando se reúnem ela sempre me diz: hoje foi dia de aparição de São Jorge.

Esta relação escritor/editor é perfeita porque ambos cuidam um do outro. E não há nada mais belo na vida do que esse gesto de dar cuidando.

Voltando ao livro e voltando ao tempo, a autora usa o encerramento do Hospital Militar da Estrela, como elemento narrativo para tratar as referências perdidas e a forma como se vai lidando com os desaparecimentos daquilo e daqueles que nos foram justificando e ajudando a ser.

Li há pouco, com mágoa, que iam encerrá-lo. Já terá acontecido? E quantas, quantas vezes me perdi eu por lá, pelas salas de espera, acompanhando jovens que precisavam dele e eram do IO? Que também já não existe. O que me deixa…frustrada! Estão mesmo extinguindo as minhas referências.

Porque nunca mais morro? Deixem alguma coisa ainda mais um tempinho. Para que eu possa ver algo que me demonstre que não sonhei os factos. Que foram mesmo verdade. Que não perdi o tino.

Quantas e quantas vezes não pensámos assim? Quantas vezes não nos perguntámos sobre este lado duro do tempo que nos muda sem pedido os sentimentos de lugar, as pessoas de lugar, os lugares de lugar? Quantas vezes é esta a nossa grande incompreensão com a vida? Quantas vezes não é esta a nossa mais genuína solidão?

 

No plano pessoal, apesar da belíssima idade contada em dias que tem a nossa autora, a saúde e o vencer os momentos de doença que foi experimentando ao longo da vida fê-la escrever sobre o assunto, sobre hospitais, sobre médicos, sobre os dramas e as aprendizagens que esses lugares e essas circunstâncias suscitam. Porém, o seu heroísmo e a sua grande lição reside na forma como encara esses momentos:

Tudo mui bem disposto, porque as minhas consultas são sempre uma alegria. Vou procurar saúde e normalmente encontro-a. Porque hei-de eu estar triste?

Perguntas e respostas, gentilezas do médico, que é a própria simpatia para com a velhinha, e rematou dizendo como ela escreve bem. Tão bem que até costuma ler a uma sua filha, que tem dezasseis anos, excertos dos seus textos.

Que magnífica é a função das nossas palavras fazerem sentido na vida de quem as lê. Que felicidade maior pode esperar quem escreve? Este, sei também, que é o sentido de existência desta nossa autora.

De enorme significado é a passagem que fez por áfrica. A vida que por ali viveu com o seu companheiro de sempre, a quem ainda trata por Jardineiro por dela ter cuidado e ainda cuidar. África de memórias humoradas, mas carregadas sobretudo de afetos, de entregas, de coisas perdidas que nunca mais se perderam por terem sido e continuarem essenciais.

Exemplo disso é a história que se segue da altura em que chegavam as moderníssimas máquinas de lavar roupa e que ameaçavam a profissão dos então chamados de mainatos.

Todos tinham em casa o chamado mainato – um bom especialista em lavagem e trato de toda a espécie de roupa. Sabedor e eficiente.

Choviam as perguntas. Cresciam as respostas. O clima era, em geral, favorável à máquina, estando toda a gente a pensar, interessada, no dia em que teria na sua própria casa uma tal maravilha.

O balde de água fria surgiu inesperado, de onde menos se esperava. Mestre Barbeiro ouvira em silêncio absoluto, enquanto ia aparando e fazendo umas contas. E quando o arruído acalmou um pouquinho lançou para a arena uma frase entrecortada e um tanto embrulhada. Mas elucidativa:

– Pode ser… pode ser … mas para já, já, já… a máquina da farinha fica muito mais barata.

Não sei se ainda existem e encontram trabalho. Mas sei que os tive bons. Sabedores. Competentes. Perfeitos. Esforçados.

E que lhes sou gratíssima. Recordo com saudade e com enorme encanto, os vestidos compridos do meu filho mais velho, todos folhos e rendas, passados a preceito. E aquele grande mainato, que era muito pequeno e já nada criança, magro e diligentíssimo, gastando horas e forças para alindar o menino.

Como tudo passou e se tornou distante! Distante e tão diferente que se assemelha um sonho…

Em torno das pessoas e da sua capacidade de entrega voltamos a reinterpretar o tempo. O tempo que se dura neste chão e nesta vida, numa história de uma velha mulher, de uma velha mãe, de uma velha avó. Uma história de desistência e de solidão.

 

 

esperavam esquecidos, às vezes mais que o prazo, para não falhar ninguém. Para todos provarem. E se deliciarem. E até se cultivarem com o que experimentavam. Nunca por nunca se abriu para si sozinha qualquer coisa de novo. E achava assim bem. Não pensava mudar. Já quase não havia refeições em conjunto. Só muito raramente estavam todos a horas. Como se o tempo, eterno, já não chegasse bem para irem vivendo a vida.

Começou a notar que ia ficando só. Um a um… um a um… estavam rareando. E porque rareavam a iam esquecendo. E porque a esqueciam já não havia mimos. E chegou-se ao apuro de não haver palavras e nem mesmo o cuidado de uma escolha acertada no que lhe era oferecido. Como se…

Como se… Como se qualquer coisa servisse para quem era…

Uma velha tão velha… Tão fora deste mundo… Já quase não ouvia e via tão pouquinho… Para que quereria ela mais isto ou mais aquilo?

O problema situou-se em que a senhora via. E ouvia.

E sentia. Sentia o esquecimento.

E mesmo no dealbar da sua quinta idade, um tanto desolada mas muito decidida, aquela velha avó rompeu com o passado e começou guardando

e comendo sozinha todos os seus bombons.

Esta abordagem realista, de um certo desencanto com a condição humana, deixa também uma mensagem de esperança refletida na decisão de haver sempre um tempo onde é possível reconquistar a dignidade e voltarmos a comer os bombons porque esses bombons não são apenas uns doces que guardámos, mas o direito que cada um vai conquistando de não desbaratar o tempo de vida e nele a felicidade que a cada um é devido.

 

Corria adiantado o Verão de 39. Dia 1 de Setembro.

Tínhamos ido a Leça levados pelo pai, que entrava de férias. Fora um dia de praia. Um belo dia de praia em Leça da Palmeira.

Por volta dos 15 horas irrompeu um ardina que atroou os ares: GUERRA! REBENTOU A GUERRA!

A Alemanha de então invadira a Polónia! Um sobressalto enorme abalou toda a gente. Acabou de repente toda a nossa alegria e toda a nossa praia. O pai, agitadíssimo, quis partir de imediato e regressar ao Porto, para poder estar bem sobre o acontecimento. O Porto era melhor. Havia mais notícias. E gente. E comentários.

Os rádios eram raros, mas nós tínhamos um. E era através dele que se ia sabendo tudo o que acontecia.

Este é o livro onde também se aborda o perfume da guerra. Perfume sim. Porque também em tempos de guerra se descobrem perfumes, o da família que reforça a união, o da humanidade que eleva nas coisas mais simples e quotidianas o sentido da existência. É, hoje, urgente que se fale da estranha forma de bater que tem o coração do mundo. A guerra é uma dessas formas. A minha geração não conheceu no seu território guerra alguma, embora os nossos pais conhecessem a guerra de áfrica, a 2 guerra mundial e os nossos avós a 1ª guerra. Quando olhámos o holocausto nazi, vemos uma violência tão cruel que parece que foi cometida há muitos séculos. E foi ontem. E foi com os pais de muitos de nós. É preciso falar desta realidade, mostrando-a não apenas como mais uma data do calendário da história, mas como algo que nos pode acontecer a qualquer momento. Se o não sentirmos não poderemos prevenir e se não prevenirmos mais cedo poderá chegar.

Lembro-me do meu avô ouvir as noticias da BBC de Londres no nosso rádio, em onda curta, durante a ditadura. Eu ficava ao seu lado em silêncio. Dizia que era para ter uma leitura descomprometida do mundo. Ouvia a rádio livre da BBC porque muito pouco lhe interessavam as rádios do regime no seu país.

Um livro que relembra a história abre-a e partilha-a e torna a história verdadeiramente de toda a gente que lê, interpreta e sente.

Os livros dão-nos esta forma de mostrar muito mais do que factos, dão a oportunidade de os sentirmos, de nos deixarmos invadir pelo outro que nos transforma e faz diferente. Entramos, por isso, na consciência: essa estranha criatura que nos inquieta. Vivemos tempos sem tempo para consciencializar. Daí que façam tanto sucesso as influências orientais que ensinam métodos para que possamos equilibrar este nosso lado interior. Nunca se falou tanto em mind fulness, em reiky, em yoga, em meditação como nestes últimos anos onde desaguámos todos numa sociedade ultrarrápida e ultra leve. São muitíssimas as emoções e é pouquíssimo o tempo que temos para as ver com significado e consequência. Maria Elisa escreve sobre isto:

A consciência é… a nossa inteligência julgando os nossos actos.

Pareceu-me muito bem. Casava com a forma como então se orientava a nossa educação. Em casa, nas escolas, nos colégios, na Igreja, ou mesmo cada um olhando-se a si próprio, quando o dia findava. Fazia-se realmente um exame de consciência, por vezes orientado por exemplos já dados e até apoiado em perguntas ouvidas, que o facilitavam.

E incidia sempre sobre a nossa conduta. As nossas atitudes.  Sobre as resoluções. E os procedimentos. Tentava-se entender se tinham sido as melhores. Ou se havia alguma coisa para ser melhorada. O que deveria ocorrer com toda a brevidade.

Depois vinha o propósito. O propósito firme de proceder melhor. E com maior cuidado. Mais atenção aos factos.  Mais estudo dos casos. Para que o dia seguinte fosse melhor que aquele. E mesmo assim pior do que aquele outro, novo, que viria a seguir. E assim por diante, até à perfeição.

Ainda no âmbito da consciência, regressamos ao corrupio das emoções que a circundam. Muitas vezes são preconceitos que matam, são nomes que teimamos em defender só porque sim, crenças que por serem nossas são certas, ideologia que por ser a nossa deve ser única, religião que por nela crermos se advoga genuína. Frei Fernando , analogamente, alerta que é urgente entender que o cristianismo não é uma religião mas uma fé, que é necessário passar da religião à fé e da missa à eucaristia. Não fora as nossas coisas parecerem universos e a partilha e o encontro com o outro seria mais frequente. Encontrar na diferença do outro a nossa grande possibilidade de crescimento, de seguir existindo num espaço magnificamente amplo, é algo que está ao nosso alcance e que muitas vezes não vemos.

É neste ambiente que Maria Elisa chega ao tema:

A predisposição é para crítica negativa, mesmo que só, às vezes, em pensamento íntimo. Mas devíamos estar prontos, mas sempre sempre prontos, para louvar e enaltecer todas as coisas boas que há ou vão ocorrendo.

O elogio justo é um reconhecimento e um estímulo forte de que todos precisam. Um encorajamento, para que prossigamos. Suaviza, dispõe bem e dá alegria à vida. Usemos o elogio. O elogio justo é uma arma poderosa.

Ajuda e eleva o mundo.

Sublinho a preocupação com a expressão «justo». Hoje, vivemos demasiado entre a moda do negativo e o elogio fácil.

Terminemos esta volta pelo «perfume do adeus» abordando a centralidade do coração.

Li algures e há anos que outrora se dizia terem os japoneses, não um, mas três corações:

Um superficial, que mostravam ao mundo.

Outro mais recatado, para mostrar aos amigos.

Finalmente um terceiro que mostravam a Deus.

Devo ter qualquer coisa a ver com os japoneses. Porque também me sinto com os três corações. E é mesmo no terceiro, cofre forte do eu, que guardo tudo aquilo que não mostro a ninguém, salvo a quem já partiu e do Alto me segue. E a esse… porque sim. Mereceu ser excepção. Ouviu e entendeu.

E, tal e qual como eu, gostou, admirou-se, divertiu-se… e  orgulhou-se.

E este é todo o perfume de um livro, que como os anteriores nos aumenta, nos alimenta e ensina. Nesta última citação se resume o que se pode desejar de uma vida: o amor, o espanto, a diversão e o ter valido a pena.

Quando um dia parou num lugar que lhe aprouve, pareceu reverdecer nas folhas lisas e hirtas. Rebentos afilados surgiram de repente. E uma bela manhã cobria-se de cores. Uma espécie de orquídeas, de veludo mimoso. Brancas, muito graciosas, de centro amarelinho no fundo da corola e rebordo lilás no extremo das pétalas. Assim transfigurada embelezava a quadra e tudo em seu redor.

Na última semana sofreu alterações: caíra uma campânula. E um aroma subtil, belíssimo e suave se espalhou pela sala. Não se abriu a varanda, para que se mantivesse. Um caso especial nunca antes sucedido. Que significaria? Entendeu-se mais tarde.

Caíram mais campânulas. O perfume manteve-se. E intensificou-se. A Princesa ensaiava a hora da partida e acabava oferecendo uma lembrança única: o Perfume do Adeus.

 

Esta é a cadência da vida, esta é a sua mais encontrada sabedoria, perceber que cada um que aqui está encerra em si e nos seus gestos desde o momento em que nasceu esse perfume único que acontece em tempos diferenciados e em sentidos díspares. Não o saber é desperdiçar a vida e a não ter merecido tanto. Começamos a morrer desde o momento em que nascemos e começámos a viver. Nesse percurso há uma despedida inerente a cada minuto que passa, mas há também um novo encontro, uma nova conquista, um novo ir mais longe para ser parte com outro do grande perfume do mundo.

De tudo isto nos fala este «Perfume do adeus», um livro para sermos mais gente, para descobrir em cada um o que ainda lhe falta ser, para sabermos com o coração que cada adeus tem por missão libertar um perfume, tão essencial como essencial nos é a grande oportunidade de estarmos vivos e estarmos aqui, juntos.

Agradeço tudo, querida professora, a enorme honra e infinito prazer que é estar consigo apresentando a leitura que faço dos seus livros, consigo como a paisagem que me é infinita e que seguirá sempre comigo.

Pompeu Martins

 

Viseu, Biblioteca Municipal Dom Miguel da Silva, 23 de Junho de 2018